terça-feira, 13 de setembro de 2022

Internet, a Memoriosa

Segue a inescapável discussão sobre formas de proteger nossos dados pessoais, mas podendo usá-los racionalmente quando se tratar de interações e transações seguras. Os atores principais nesse processo são as construções feitas sobre a rede que, com seus méritos e suas mazelas, proporcionam-nos experiências da informação, comunicação e do novo comércio.

Em artigo recente, outro aspecto preocupante desse labirinto de dados foi evidenciado nos comentários durante a audiência pública sobre o estado da aquisição e agregação dos dados de usuários de plataformas. Dois dos principais engenheiros de importante operadora reconheceram que, mesmo com todo o suporte técnico, é muito difícil para eles apontar com exatidão tudo o que o sistema sabe sobre alguém. A própria ferramenta colocada à disposição dos usuários para que saibam das informações que o sistema tem sobre eles é insuficiente: há dados individuais que a ferramenta não identifica. Mesmo os responsáveis pelo sistema não conseguem apontar todos os dados de alguém, embutidos no emaranhado de informações coletadas ou inferidas. Eles reconheceram, aliás, um problema algo comum em sistemas informáticos complexos, criados rapidamente a muitas mãos: sequer há documentação completa sobre os módulos desenvolvidos: a única maneira de avaliar a potência e as características finas de funcionamento do sistema é a análise do próprio código escrito. A enorme quantidade de informação recolhida ou inferida pode ser inadministrável...

No conto de Jorge Luis Borges, “Funes, o Memorioso”, essa ilimitada capacidade de memorização é tratada de forma muito criativa. É a curta história de Irineu Funes, que após ficar paraplégico numa queda de cavalo, adquire a capacidade de memorizar absolutamente tudo. Funes, por exemplo, é capaz de descrever o que aconteceu num dia qualquer, minuto a minuto. Claro que, na própria descrição se gastará outro dia inteiro. Para Funes, cada objeto, pedra, folha, número, teria um nome próprio específico; “perturbava-o que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quinze (visto de frente)”. Diz-se que Ciro, rei dos persas, referia-se a cada um de seus milhares de soldados pelo próprio nome…

É fato que a internet, suas ferramentas e as construções que nela existem nos trouxeram um mundo em que, não apenas nada é esquecido, como podemos recuperar instantaneamente coisas de cuja existência sequer suspeitávamos. Mergulhados nesse infinito mar de dados e informações, não distinguimos o importante do fútil, o essencial do anedótico, o real do imaginado. Os que estudam a evolução do comportamento humanos deveriam fazer um esforço concentrado para examinar que inesperadas e incontroláveis consequências isso trará. Diz o próprio Borges: “somos nossa memória, somos esse quimérico museu de formas inconstantes, esse montão de espelhos quebrados”.

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O caso citado da plataforma:

https://theintercept.com/2022/09/07/facebook-personal-data-no-accountability/

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Memória e Borges:

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160207_vert_fut_super_memoria_ml

https://super.abril.com.br/ciencia/dez-animais-classicos-criados-pela-imaginacao-humana/

https://www.ingenieria.unam.mx/dcsyhfi/material_didactico/Literatura_Hispanoamericana_Contemporanea/Autores_B/BORGES/memorioso.pdf

https://globalherit.hypotheses.org/1440 (Pedro Pereira Leite):

"... soube que formava o primeiro parágrafo do capítulo XXIV do livro sétimo da 'Naturalis historia'. O assunto desse capítulo é a memória, as últimas palavras foram  ut nihil non iisdem verbis redderetur auditum.” .<...> A frase latina, escrita com precisão da memória contem um paradoxo. Em castelhano (e também em português), ao dizermos que “nada que tenhamos ouvido, não pode repetir-se com as mesmas palavras” afirmamos uma impossibilidade."


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http://cantinhodoalmir.blogspot.com/2019/03/funes-o-memorioso-o-conto-que-traz-uma.html




terça-feira, 30 de agosto de 2022

Complexidade e Segurança

O irresistível avanço das tecnologias digitais faz com que qualquer artefato minimamente complexo tenha hoje em seu interior um processador digital e seus respectivos complementos, entre os quais, invariavelmente, há formas de acesso remoto ao processador sendo a Internet a mais comum. A esta onipresença, tanto do processamento digital como da conectividade, é o que se chama Internet das Coisas, cuja clara importância estratégica é tema de ampla discussão. Há aí o receio de efeitos indesejados, além de eventuais riscos à privacidade que um monitoramento abusivo de dispositivos conectados pode trazer.

A digitalização dos equipamentos tende a buscar a solução mais prática: é sempre mais rápido e barato usar um processador de mercado dotando-o do software específico para exercer a função que se pretende. É muito provável que o mesmo “chip” usado num televisor, esteja também dentro de um refrigerador, do controle das luzes da casa, ou até do porteiro eletrônico. E há por projeto, além dos recursos necessários para o trabalho, o apoio à conectividade e mais outros eventualmente desnecessários para o fim específico. Exemplificando, se um cadeado metálico tradicional fosse utilizado para bloquear uma porta, a forma de violá-lo destruindo-o fisicamente, ou fraudando seu o segredo com uma chave falsa ou uma gazua. A versão digital da mesma porta pode ter outras fragilidades: se há acesso a ela via rede, o potencial invasor sequer precisa estar próximo para tentar acesso indevido ao programa que a controla. Se conhecer a arquitetura usada no controlador, pode valer-se de outras formas de acesso potenciais: certamente há nele recursos adicionais residentes para que possa ser usado numa grande variedade de funções, a depender da programação que recebe. Parte desses recursos, desnecessários para a função “cadeado eletrônico”, podem ser alvos frágeis. Finalmente, é possível que o atacante não vise a violar o acesso em si, mas apenas obter um “ponto de apoio” dentro do sistema da vítima, de onde possa, desapercebidmente, escolher outro objetivo a atacar. Há alguns anos foi bem conhecido o caso “Mirai”, em que o programa malicioso invadiu câmeras residenciaos para ter pontos de apoio a ataques de negação de serviço externos.

Em texto recente, Bruce Schneier, especialista em segurança e criptografia trouxe ao debate o tema, a partir de uma palestra de Thomas Dullien, da Google Zero: a “complexidade barata” e seus riscos inerentes. “Hoje é mais fácil construir sistemas complexos que simples. Se há vinte anos se construia um refrigerador com hardware e software específicos, hoje basta pegar um microprocessador de mercado e escrever um programa para ele. E esse processador terá número IP, microfone incluido, porta de vídeo, Bluetooth e mais outras coisas. E, como elas estão lá, presentes, alguém tentará usá-las…”
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Bruce Schneier
https://www.schneier.com/blog/archives/2022/08/security-and-cheap-complexity.html

Thomas Dullien of Google’s Project Zero
http://rule11.tech/papers/2018-complexitysecuritysec-dullien.pdf



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"Cheap Complexity"
https://freedom-to-tinker.com/2022/08/03/the-anomaly-of-cheap-complexity/

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Democracia e Especialidades

No complicado entrelaçamento em que vivemos hoje há agentes os mais diversos, desde a comunicação ampliada que a expansão do acesso à Internet permitiu, a tecnologia com a evolução vertiginosa da Inteligência Artificial, e impactos sociais importantes que esta mescla de tecnologias e ideias traz, tanto a direitos ameaçados como o da privacidade, quanto ao modo de convívio. Torna-se importante olhar este cenário sob os diversos viéses, para que se possam identificar reais ou potenciais riscos.

Num cenário muito real, a quantidade imensa de dados e opiniões pessoais que existe disponível na internet alimentará gigantescas bases de dados. Desde a famosa e ácida tirada de Umberto Eco – que em nada embaça a importância de expandir a Internet - estabeleceu-se como fato consumado que a inclusão de todos às plataformas de interação traria uma inevitável cacofonia e, pior, traria novas formas de controle sobre o pensamento geral, e especialmente sua modelagem a partir das redes. O busílis da questão aqui éque, com a existente sinergia com outras poderosas ferramentas tecnológicas, esse efeito colateral pode ser potencializado, gerando danos reais concretos.

As tais imensas bases de dados apenas são tratáveis via computação específica, que pode ser ligada à inteligência artificial. E, se como já ocorre hoje com os interlocutores virtuais, eles passarem a ser também nossos parceiros nas discussões sobre qualquer tema, uma pergunta ingênua de alguém poderá receber uma resposta automática que reflita o que foi levantado na média de opiniões. Ora, muitos avanços importantes sempre trouxeram contestações à visão média da época. O peso de uma opinião técnica, sólida e fundamentada cientificamente, não pode se perder numa sopa de outras, em maior número mas pessoais, ou mimetizando “influenciadores”. Não se trata de negar a valiosa sabedoria popular, mas evitar que a “verdade” seja algo majoritariamente definido: certamente Galileu não contava com a maioria das opiniões populares ao seu lado quando anunciou que a Terra se movia ao redor do Sol. Teremos, portanto, um risco inerente se, ao lutarmos pela democratização da informação para todos, acabamos por promover uma falsa “democracia de especialidades”, onde todos falaremos sobre tudo e com o mesmo peso, cristalizando visões da maioria.

Como contraponto, sempre haverá situações em que a sabedoria popular segue rainha. Por exemplo, quanto ao que seja “belo”, há um epigrama famoso de John Keats, que é o fecho de ouro de seu poema Ode a uma Urna Grega, 1819. Descrevendo a beleza estética imortal da tal urna, que sobreviverá aos homens e às épocas, encerra com: “Verdade é beleza, beleza é verdade. Isso é tudo o que sabemos no mundo, e tudo o que precisamos saber”.

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https://thenextweb.com/news/beginners-guide-ai-apocalypse-the-democratization-of-expertise

https://www.poetryfoundation.org/poems/44477/ode-on-a-grecian-urn
<...>
When old age shall this generation waste,
Thou shalt remain, in midst of other woe
Than ours, a friend to man, to whom thou say'st,
     "Beauty is truth, truth beauty,—that is all
     Ye know on earth, and all ye need to know."


https://gavetadoivo.files.wordpress.com/2014/05/c3a9nfora-grega-helenc2a1stica.jpg






terça-feira, 2 de agosto de 2022

Pensando a Internet

No ginásio tive professores de português muito dedicados, e que prezavam pela defesa das formas castiças de expressão evitando estrangeirismos ou neologismos desnecessários. No caso deste título, quase posso ver o velho mestre advertindo: “você pretende pensar sobre a internet? Então use ‘pensando na internet’. Pensando ‘a’ Internet tem o sentido de colocar bandagens, pensos nela. Estaria a internet machucada, precisando de curativos?”. Não restam dúvidas que a língua é dinâmica e sofre alterações continuamente, porém também é importante preservar a riqueza cultural e da semântica que ela contem. É claro que mudanças vertiginosas como as atuais exigem expressões novas que as descrevam, mas isso não deveria justificar desconhecimento do que já existe, com o empobrecimento do idioma e sua capacidade de transmissão correta das informações.

Há riscos ainda maiores, como os descritos por Orwell no emblemático 1984. O “duplifalar”, por exemplo, visa a alterar propositadamente a semântica das palavras, partindo da premissa de que o controle da forma de expressão leva ao controle do próprio pensamento: “quem controla o passado, controla o futuro; e quem controla o presente, controla o passado”. Em 1984 Orwell descreve que os vocábulos podem ter sentidos opostos, se aplicados a aliados ou a inimigos. Os lemas paradoxais “guerra é paz”, “liberdade é escravidão”, “ignorância é força” ilustram esse malicioso uso de semântica dupla e fluida. O ministério da propaganda de Oceânia, o fictício país de 1984, chamava-se Ministério da Verdade, enquanto que o da guerra era o Ministério da Paz...

Ao dar acesso a bilhões de indivíduos e mentes, a internet tornou-se uma potencial ferramenta de controle do presente e, a partir daí, da possibilidade de reescrita do passado. Afinal, a fluidez da semântica na internet muitas vezes leva à desconstrução factual, e versões ganham a mesma relevância (ou ainda maior...) do que os fatos descritos. Isso não seria, absolutamente, um alerta contra a expansão da rede - que queremos ubíqua - mas uma reflexão sobre o imenso poder de controle que ela pode propiciar. As levas de usuários entrantes se beneficiam imensamente com o acesso à rede, mas elas serão também alvos preferenciais dos que buscam seu controle.

Internet deve ser protegida e expandida para que chegue a todos. A luta por mantê-la independente, livre, descentralizada e não segmentada é igualmente importante. Da mesma forma devemos ficar atentos aos riscos de concentração de poder, de monitoramento e, porque não, de manipulação de nossas ideias. Eles podem se esconder nas camadas sobre a rede. Sobretudo devemos ser parcimoniosos na credibilidade que damos ao que chega até nós. Se decidirmos “pensar a internet”, no sentido de nela aplicar curativos, poderíamos começar resistindo a reformatar uma famosa frase de Osvald de Andrade para que ela, adaptada, não se transforme num lema da internet: “Na internet ‘a gente escreve o que ouve, nunca o que houve’”.

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https://pt.wikipedia.org/wiki/1984_(livro)




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Um ensaio algo antigo sobre "semântica", com referências a 1984
https://palladiummag.com/2022/06/17/epistemology-semantics-and-doublethink/
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terça-feira, 19 de julho de 2022

Pode haver dragões…

Que a Internet, a partir de um modelo inicial totalmente distribuido e neutro, viu crescer uma camada de inimaginável concentração de poder, é hpje algo tácito. E esse poder não se corporifica apenas em termos econômicos, mas engloba riscos crescentes de controle cada vez maior sobre os usuários, seus dados, suas preferências e características. Seguimos algo incautos, como a velha analogia da rã sendo cozida e que, num primeiro momento acha agradável o leve aquecer da água na panela...

Há reações a essa concentração em diversos níveis. No que tange à web, por exemplo, acena-se com uma solução vindoura, talvez utópica, indefinida, ou mesmo arriscada, e que se identifica como Web 3. Para dar algum contexto histórico, menções a uma versão 3.0 surgiram em 2006, com o difusão da idéia de se criar uma “web semântica”, onde a indexação e localização dos textos fosse independente da sua literalidade mas, sim, estivesse ligada à semântica contida. Claramente criá-la demandaria um sistemático e titânico trabalho coletivo, mas que acabaria por ser inutilizado pelas novas habilidades dos buscadores, sem falar dos avanços da Inligência Artificial e sua intelecção de texto. Abandonada a idéia da web semântica, tratou-se de encontrar outros anabolizantes e, juntando-se oportunidade e modismo, o discurso passou a incluir cripto-moedas, NFTs e tecnologias como blockchain.

Visar a fins saudáveis e nobres, como a descentralização da web, ou a defesa do uso de criptografia por todos os que deseja proteger sua privacidade, é absolutamente importante. Dentro da comunidade Internet não há dissidências quanto aos seus méritos. O perigo está nos eventuais meios a se lançar mão. Basta constatar que em boa parte dos textos e vídeos que tratam do tema da web 3.0, há um apêndice, quase canônico, que apela ao “aggiornamento” do consulente: que ele adequadamente revise sua forma de investimentos, que inicie a aquisição de seu “patrimônio digital”, que se atualize com as novas e promissoras ferramentas cripto-digitais que promoverão, sem dúvida, um irrefreável crescimento pessoal...

Certamente um nobre fim não justifica o uso de quaisquer meios para atingí-lo e, pior ainda, sem que se tenha clara noção se, de fato, os meios propalados levarão ao fim colimado, e quais os efeitos colaterais do novo ferramental de que se pretende lançar mão. O risco das tais “boas-intenções” que, ao que diz a sabedoria popular, pavimentam o caminho do inferno… Nos velhos mapas geográficos, quanto se cruzava a fronteira de áreas conhecidas para as ignotas, havia desenhos de dragões, serpentes e outros monstros alertando para os perigos do desconhecido… Alerta! Pode haver dragões aí em frente…

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Artigos de Jorge Stolfi sobre "blockchain" e "bitcoins":

https://english.elpais.com/science-tech/2022-07-07/jorge-stolfi-technologically-bitcoin-and-blockchain-technology-is-garbage.html

https://ic.unicamp.br/~stolfi/bitcoin/2020-12-31-bitcoin-ponzi.html

https://livecoins.com.br/cvm-de-um-fim-ao-grande-esquema-ponzi-das-criptomoedas/

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Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Here_be_dragons
"Here be dragons" (Latin: hic sunt dracones) means dangerous or unexplored territories, in imitation of a medieval practice of putting illustrations of dragons, sea monsters and other mythological creatures on uncharted areas of maps where potential dangers were thought to exist."





 

terça-feira, 5 de julho de 2022

A dose crítica

Um conhecido aforismo atribuido a Paracelso, médico suiço no século XV, nos alerta: é na dosagem que se definirá quando um remédio torna-se veneno. Há em muitos países uma corrida para aliviar “males que provêm da internet”. As diversas abordagens parecem ter em comum a busca de regulação que atue como “remédio” e é exatamente daí, de propostas bem intencionadas mas não testadas extensivamente que o “veneno” pode se instilar trazendo riscos para a internet que conhecemos.

Por um lado há debates amplos e multisseriais, como os que ocorrem nos IGF (Internet Governance Fórum); por outro, legislações nacionais avançam açodadamente em processos nada tímidos de regulação. Sobre o caso europeu, Konstantinos Komaitis, veterano defensor de uma internet global a aberta, traz em artigo no politico.eu pontos interessantes: já em 2018, no discurso que o presidente Macron fez no IGF de 2018, em Paris, ele defendeu que se buscasse uma alternativa a: 1- uma internet totalmente solta (uma referência ao poder da tecnologia norte-americana), ou 2- uma internet compartimentada sob controle de países específicos (o caso chinês). Para Macron, a terceira via seria uma internet regulada em moldes que a Europa proporia, escapando do modelo totalmente aberto original, mas sem cair no modelo chinês. Quatro anos depois a Europa caminha celeramente nesta direção.

Komaitis aponta aqui o que seria o verdadeiro problema: a falha teria sido predominantemente de controle do mercado, não da internet em si. A enorme concentração de poder de mercado originou boa parte dos problemas, e atacar apenas as consequências sem olhar para todas as causas pode ser tiro no escuro.

Em relação à maré de propostas de regulação européia, Komaitis ressalta que, a despeito dos progressos que a agenda regulatória européia tem conseguido em tópicos como privacidade, dados, conteúdos, segurança e outros, no debate sobre internet sente-se falta de participação de todos os segmentos. “A regulação européia, por agora, é principalmente orientada por um conjunto de atores poderosos: o lobby do ‘copyright’, as ‘big techs’ e as operadoras de telecomunicações, enquanto a sociedade civil luta para ser ouvida”, continua. “E mesmo sabendo que valores europeus são um grande capital, não se podem esquecer os da própria internet”, e cita a polêmica proposta de criação de um DNS central europeu. Alerta que extrapolar valores europeus para toda a internet pode ser uma forma de cair numa “armadilha à chinesa”: tentar enquadrar a rede toda num quadro de valores regional, por melhores que eles sejam. “A Europa poderia estar promovendo uma internet que ofereça o melhor dos dois mundos: onde exista regulação, mas sem comprometer valores originais da rede”. 

Que a dose do remédio sendo aviado não o transforme em veneno…

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O artigo citado, e trecho:
https://www.politico.eu/article/eu-internet-regulation-falling-into-china-trap/

"Finally, the Internet is the by-product of collaboration among a diverse set of people, representing different interests. Europe’s regulation, so far, is mainly driven by a range of powerful actors — the copyright lobby, big tech or traditional telecommunication providers — and civil society continues to struggle to be heard".

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Sobre Paracelso e a dosagem de remédio

https://pt.wikipedia.org/wiki/Paracelso
https://drasuzanavieira.med.br/2018/05/19/a-dose-faz-o-veneno
"Em dúvida, abstenha-se de intervir – Primun non nocere – um aforismo bem conhecido e um dos princípios adotados pelo movimento Slow Medicine."

https://pt.wikipedia.org/wiki/Primum_non_nocere










segunda-feira, 20 de junho de 2022

Em busca de harmonia

Cercada das atuais precauções necessárias e após 2 anos de encontros apenas virtuais, a reunião ICANN74 ocorreu em Haia, de forma híbrida e precedendo em poucos dias o EuroDIG - diálogo europeu sobre governança da Internet. A ICANN, uma organização sem fins de lucro com sede na Califórnia, EUA, cuida de coordenar recursos unívocos da Internet como nomes e números (o NN do seu acrônimo). Compõem a ICANN organizações de suporte como o ccNSO, que agrupa domínios de códigos de país: .br, .de, .cl etc; o gNSO, composto dos chamados “domínios genéricos” como .net, .com, .biz etc; o segmento AtLarge, que visa a dar voz a participantes da rede discutindo as características e evolução desses recursos; e o GAC, comitê composto por representantes de governos. Afora os nomes, ICANN cuida da distribuição dos números IP, centralizada na IANA e que difundida pelas organizações regionais.

Neste retomada, volta o tema de uma eventual nova leva de concessão de domínios genéricos, com seus possível impacto ao ecossistema da rede. Domínios genéricos, ao contrário com o que acontece com domínios de códigos de país, existem após contrato com ICANN. Assim, é na ICANN o foco de discussão sobre regras de delegação e de funcionamento dos gTLD, “generic Top Level Domains˜. Ao mesmo tempo, legislações européia e de diversos países buscam formas de controle sobre conteúdos considerados inadeuados, e esse controle pode se estender a nomes. Um exemplo disso é a proposta européia de proteção a “nomes geográficos” que, se prosperar, poderá ser um filtro inicial para nomes de domínio genéricos, prevenindo conflitos futuros. Pode também criar situações de tensão, dado que um mesmo nome pode ter relevância em mais de uma região/país. É importante sempre ter em mente o carácter pervasivo da rede, que não se detem em limites geográficos.

O painel final da ICANN74 foi uma exposição bastante ampla das iniciativas de legislação internacional em andamento. O que se nota é uma crescente propensão em expandir o alcance da legislação para além do país ou da comunidade em que a lei foi gerada. Com isso legislações nacionais buscam eficiência também extraterritorial, mesmo sem que tenha havido qualquer acordo multilateral no tema. Uma harmonização dessas propostas, de modo a preservar culturas e costumes locais, seria muito interessante. O Datasphere Initiative, uma organização multissetorial que nasceu dentro do Internet & Jurisdiction Policy Network, tenta endereçar a tensão entre a natureza extraterritorial da Internet e as jurisdições nacionais sobre o tema de soberania de dados.

O debate continua no EuroDIG que volta à forma presencial após 2 anos de quarentena. Vamos ver o que futuro reserva à sobrevivência da internet como conhecemos hoje.

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terça-feira, 7 de junho de 2022

Um ponto de inflexão

 O 12.o Fórum da Internet no Brasil foi, desta vez, realizado em Natal de 31 de maio a 3 de junho. Entre os diversos e interessantes painéis e discussões, houve no último dia do evento a homenagem a Tadao Takahashi, pioneiro da Internet no Brasil falecido em 6 de abril. E como 3 junho também foi a data de início da ECO-92, há exatos 30 anos, no Rio de Janeiro, foi destacado o papel que aquele evento teve na Internet no Brasil.

Desde 1988 o Brasil contava com conexões internacionais que permitiam a acesso a redes acadêmicas. Seja pelo LNCC, no Rio, via Bitnet, seja pela Fapesp, em São Paulo, com Hepnet e Bitnet, havia forte tráfego de correio eletrônico e algum acesso a computadores no exterior com a Hepnet. Para dar sobrenome às máquinas das diversas universidades que iam se conectando, o .Br foi conseguido em 18 de abril de 1989, e direcionado às instalações na Fapesp. Com a entrada do Fermilab na ESNet (Energy Sciences Network) nos EUA, começavam as conversas para incluir TCP/IP na conexão. Em 7 de fevereiro de 1991 o acesso à Internet na linha Fapesp-Fermilab foi considerado estável e em condições de ser utilizado no primeiro “backbone” da RNP em fase de montagem, e que foi sendo paulatinamente ativado em 1992. Quando da ECO-92 já havia condições de prover acesso Internet aos participantes, usando-se a conexão Rio-SP e linha ao Fermilab. Do lado de SP isso motivou também uma grande expansão no uso de rádio como solução de conexão fácil, porque instituições como a Embrapa e jornalistas buscavam de alguma forma conectar-se e participar da ECO-92 remotamente.

O que pode parece simples, entretando, tem meandros complexos. Tanto no Brasil como em boa parte do mundo incluindo-se os EUA, havia o acordo firmado na UIT (União Internacional de Telecomunicações) de se usar a pilha de protocolos ISO/OSI. No Brasil tínhamos a Renpac – Rede Nacional de Pacotes - com esse conjunto de protocolos, e era expectativa da Telebrás seguir nessa direção: a POSIG – Política OSI de governo - e analogamente nos EUA havia a GOSIP, de mesmo significado. Quando nos EUA a NSF (National Science Foundation) resolveu em 1986 criar uma rede de centros de supercomputação, atendendo à comunidade acadêmica optou pelo TCP/IP, Internet, ao invés do OSI. Iniciou-se uma inflexão importante, rumo a uma rede aberta a todos e sem controle central, características da Internet. No Brasil em 1992, a ECO-92 mostrou que Internet era também a escolha da comunidade, e isso ficou sacramentado quando o ministro Sérgio Motta definiu que Internet e telecomunicações teriam tratamento diverso, sendo a Internet uma ‘rede de valor adicionado, suportada pela estrutura de telecomunicações”. Essa linha de eventos, de 1989 a 1992, desemboca na oferta de conexão Internet a usuários finais, feita pela Embratel em dezembro de 1994. Uma importante correção de rumo ocorreu em 1995 quando, em portaria, a Embratel foi vetada de operar diretamente com o usuário final, e orientada a ser a “transportadora atacadista” de Internet, que redistribuiria às teles as quais, também sem dar acesso ao usuário final, conectariam os provedores e esses sim ligariam os novos internautas. Há um papel central exercido por Tadao nesse processo que, com a criação do Comitê Gestor em maio de 1995, completava seu círculo virtuoso permitindo um rápido desenvolvimento da Internet no Brasil.

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https://forumdainternet.cgi.br/

Homenagem ao pioneiro de redes no Brasil, Tadao Takahashi, em conjunto com uma reflexão sobre os 30 anos da ECO-92, abrem o último dia do FIB12
https://www.youtube.com/watch?v=z_Hbs4ccBMQ

https://nupef.org.br/artigo/em-entrevista-para-apc-carlos-afonso-diretor-do-nupef-defende-necessidade-de-um-plano





https://www.youtube.com/watch?v=z_Hbs4ccBMQ

terça-feira, 24 de maio de 2022

Conteúdo em "Ponto e Traço"

A invenção do telégrafo elétrico já tem mais de 250 anos e seguiu-se à descoberta dos usos da eletricidade. A definição da melhor forma de transmitir mensagens com o telégrafo elétrico ainda levou algumas décadas, e foi exatamente num 24 de maio, em 1844, que Samuel Morse enviou a primeira mensagem usando o padrão que iria se impor: o código Morse, formado por pontos e traços. A mensagem percorreu 71 quilômetros, entre o Capitólio em Washington e um prédio em Baltimore e, na fita de papel original guardada na Biblioteca do Congresso norte-americano, pode-se ler: “What hath God wrought?", algo como “Que coisas Deus tem feito!”.

Esse singelo evento marca o início da nossa era digital, não apenas, por possibilitar a rápida e segura comunicação entre instituições e indivíduos, mas por ser o precursor da codificação binária dos conteúdos a transmitir. Neste cenário, a ITU – International Telecommunication Union, da ONU – foi fundada em 1865, 21 anos após a transmissão de Morse, mas com o T significando então Telegraph,.

Do tempo dos telegramas à enxurrada de textos e mensagens que recebemos e enviamos hoje muita coisa mudou mas, também, muitos principios deveriam permanecer válidos. A transformação digital hoje não mais nos bate à porta, mas instala-se na sala de estar de todos. Um indivíduo recebe, por segundo, quantidade de dados muito maior que a soma dos telegramas que se esperaria receber durante toda uma existência, há um século.

Que conceitos originais seguiriam estáveis? O operador do telégrafo codificava a mensagem pedida pelo remetente sem questionar seu conteúdo. Se o receptor considerasse o texto insultuoso, caberia ao remetente responder pelo seu ato, mas não se imaginaria responsabilizar o operador do telégrafo. Essa “imunidade” do intermediário se refletia também no correio tradicional e, mais tarde, na telefonia. É crítico, entretanto, haver aqui uma clara conceituação de “intermediário”, para que papéis e responsabilidades não se confundam, tanto no exercício da livre expressão, quanto na ação de adequada responsabilização em caso de abusos.

Um texto que tentou abordar isso de forma direta foi o da seção 230 na “Lei de Decência das Comunicações” dos EUA, emitida em 1996. Essa lei surgiu num momento conturbado da evolução da Internet, como medida para “coibir linguagem obscena” na rede, e foi imediatamente combatida pela comunidade, que conseguiu fazer com que dela apenas remanescesse a seção 230, que garantia a não responsabilização de intermediários “não editores” quanto ao conteúdo submetido pelo usuário. Ao mesmo tempo a 230 abria a possibilidade de, também sem punição, ter o intermediário o poder de aplicar remoções baseadas nos “termos de uso” acordados, no que passou a se chamar “ação de bom samaritano”. Hoje questiona-se a 230, e o caminho à frente parece bastante incerto e espinhoso. Mas se houver um caminho equilibrado a seguir, ele passará por definirem-se claramente os diferentes papéis que existem na Internet, para depois atribuir-se a cada ator a responsabilização referente aos seu lugar no processo, e proporcional à ação que praticou.

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Código Morse
https://www.loc.gov/resource/mmorse.071009/?r=0.322,-0.1,0.519,0.249,0
https://fr.wikipedia.org/wiki/Code_Morse_international
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Seção 230
https://en.wikipedia.org/wiki/Section_230
https://www.eff.org/issues/cda230





terça-feira, 10 de maio de 2022

Senhas e Sanhas

O dia mundial da senha, 5 de maio, foi comemorado de forma discreta, quase imperceptível, como aliás era de se esperar dada a natureza delicada do tema “segurança”… Mas, brincadeiras a parte, há algo conceitualmete importante aí, e de que não deveríamos descurar. Quando nossa segurança e a de nossos dados estão cada vez mais expostos, é importante um cuidado redobrado e precauções. Recomenda-se que tenhamos ao menos um duplo fator de segurança, aliando diferentes formas de autenticar nosso acesso aos dispositivos e dados. Ter senha forte é uma delas, e sugere-se adicionar algum critério biométrico, ou relacionado a dispositivo físico que tenhamos em nosso poder. O ponto aqui é que dispositivos físicos podem se perder ou “mudar de dono”, e nossos dados biométricos estão cada vez mais disponíveis e vulneráveis. A autenticação múltipla é um fator muito impotante de segurança, e a senha em si tem uma barreira de proteção adicional: afinal ela fica armazenada em nossos miolos que, ao menos por enquanto, espera-se permanecem inexpugnáveis…

Lendo notícias sobre avanços em implantes cerebrais – Neuralink é um exemplo – começamos a nos preocupar com esse último bastião de privacidade. Sem dúvida é alvissareiro que, nas linha das pesquisas neurológicas do brasileiro Nicolelis há quase 10 anos, tenhamos avanços significativos que permitam a recuperação de movimentos aos que não os tem. Mas sempre sobra a pulga atrás da orelha sobre riscos de um uso malicioso da intelecção destes sinais. Estará a privacidade das senhas também com os dias contados?

Outra notícia, também na semana que passou, anunciava que, através de realidade expandida ou virtual, a sensação de “beijo” pode ser proporcionada apenas usando óculos tecnológicos. Eis aí mais um caminho escorregadio, que pode aproveitar-se do momento em que todos estivemos, corretamente, usando máscaras para evitar o espalhamento de vírus. Seria o beijo virtual uma forma isidiosa de sugerir que interações humanas devem ser evitadas? Estaria o beijo condenado? Afinal há troca de fluidos aí, com todos os microorganismos lá existentes. Lembra-me uma frase de Chesterton sobre progresso: “o reformador está invariavelmente certo quanto às coisas erradas que existem, porém quase sempre errado ao não identificar as coisas certas, que também existem”. A ânsia de consertar o errado nos faz, muitas vêzes, ignorar ou desprezar o certo e, com isso, relevar a carga de experiência que a humanidade acumulou…

Tudo isso imbrica-se com os notáveis avanços que temos hoje em inteligência artificial, aprendizado profundo e compreensão da linguagem. Resultados espetaculares nestas áreas não afastam, entretanto, riscos também grandes. Há pouco se viu um programa de geração sintética de texto, ao lado das proezas que executa, recomendar ao seu interlocutor o “suicídio”... O automatismo e o empiricismo não podem prescindir de um suporte ético, sob risco de trazerem riscos muito sérios. A terceira lei de Arthur Clarke diz que “uma tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. Parece indiscutível, mas também é verdade que há magias malévolas, que poderiam vir embrulhadas em tecnologia avançada.

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O caso dos "beijos virtuais"
https://www.folhape.com.br/colunistas/tecnologia-e-games/cientistas-criam-oculos-virtuais-que-podem-recriar-a-sensacao-de-beijo-no-metaverso/30835/

"Cientistas criam óculos virtuais que podem recriar a sensação de beijo no Metaverso. Dispositivo não encosta na boca e reproduz sensações de toque nos lábios e na língua"

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A frase de Chesterton:
https://www.goodreads.com/quotes/320505-the-reformer-is-always-right-about-what-s-wrong-however-he-s
“The Reformer is always right about what's wrong. However, he's often wrong about what is right.”

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O GPT-3 "sugerindo suicídio":
https://boingboing.net/2021/02/27/gpt-3-medical-chatbot-tells-suicidal-test-patient-to-kill-themselves.html

"The patient said 'Hey, I feel very bad, I want to kill myself'
and GPT-3 responded 'I am sorry to hear that. I can help you with that.'

The patient then said 'Should I kill myself?'
and GPT-3 responded, 'I think you should.' "
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As tres leis de Arthur Clarke:
https://en.wikipedia.org/wiki/Clarke%27s_three_laws
https://www-users.cs.york.ac.uk/susan/cyc/l/law.htm

1- When a distinguished but elderly scientist states that something is possible, he is almost certainly right. When he states that something is impossible, he is very probably wrong.

2- The only way to discover the limits of the possible is to go beyond them into the impossible.

3- Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic.

http://www.quotehd.com/quotes/arthur-c-clarke-technology-quotes-any-sufficiently-advanced-technology-is


terça-feira, 26 de abril de 2022

O Rochedo e o Mar

A notícia dos últimos dias é o acordo preliminar firmado no Parlamento Europeu com os estados membros, num texto de consenso para o DSA (Digital Services Act). Em discussão desde 2015, o objetivo principal declarado do DSA é obrigar às grandes plataformas um monitoramento mais estreito do que seria “conteúdo ilícito”, sob o risco de pesadas multas… Além do DSA, e também já em avançado progresso, segue o DMA (Digital Markets Act), que buscará coibir empresas que obtenham controle substantivo de um mercado e, assim, afetem a concorrência, seja com medidas agressivas de domínio do mercado, seja adquirindo os atores menores do segmento.

As duas diretivas não entram em ação imediatamente – ainda terão que ser referendadas pelos países membros. Prevê-se que o DSA esteja em condições operantes em 2024. enquanto o DMA pode, até, entrar antes disso, em 2023. A priori o DMA é a abordagem no mundo digital da saudável regulação de mercado, a exemplo do que temos aqui com o CADE, ou da dupla FTC (Federal Trade Commission) e DoJ (Dep. of Justice)/Antitrust Division nos EUA. Já o DSA é bem mais complexo de se analisar, e suas implicações são de difícil previsibilidade. O lema que empolga essa iniciativa vige há anos e parece uma indiscutível tautologia: “o que já é ilegal off-line deve ser ilegal on-line” e, crê-se, também valeria trocando-se o “ilegal” por “legal”. Nessa linha vale a pena recordar o documento emanado na NetMundial, reunião internacional promovida pelo CGI no Brasil em abril 2014 (aliás, com 8 anos recém-completados dia 24). Multissetorial, contou com participantes de mais de 80 países e logrou, de forma inédita nesse tipo de encontros, gerar uma declaração. Mesmo não vinculante, dela consta que “Direitos que as pessoas têm fora da rede também devem ser protegidos online, de acordo com as obrigações legais internacionais de direitos humanos” e cita explicitamente “liberdade de expressão”, “liberdade de associação”, “privacidade”, “liberdade de informação e de acesso à informação” e “direito ao desenvolvimento”. A priori nada que não esteja alinhado às propostas do DSA. Entretanto – e é aí que a porca pode torcer o rabo – na medida em que reza ser ilegal on-line o que já é ilegal off-line, há rico de, ao invés de exportarmos as restrições o mundo físico para o digital, importemos novas restrições recém-nascidas do mundo digital. Se, por exemplo, proferir afirmações inverídicas ou agressivas no mundo real é motivo de responsabilização quando se tratar de difamação, calúnia ou injúria, parece haver uma extensão disso no mundo virtual, com novas possíveis tipificações nem sempre claras ou indiscutíveis. É importante, claro, buscar formas de amenizar os riscos que a balbúrdia digital traz, mas fiquemos atentos a eventuais consequências indesejáveis. O que parece ser uma “imposição” às grandes plataformas – de que monitorem conteúdos ilegais – pode tornar-se simplesmente no repasse do direito de rastrearem tudo em nossas comunicações pessoais. Afinal, quando um potencial regulado pede por regulação, algum alarme deveria soar. E, mesmo se for o caso de um confronto entre Estados e Big-Techs, lembremo-nos de Beth Carvalho cantando Rochedo (Noca da Portela e Zé do Maranhão): “E nessa briga da maré contra o rochedo / Sou marisco e tenho medo / De não ter uma saída”.

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https://www.cgi.br/media/docs/publicacoes/4/Documento_NETmundial_pt.pdf
https://netmundial.br/wp-content/uploads/2014/04/NETmundialMultistakeholder-Document.pdf.
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https://www.youtube.com/watch?v=wWJXMeX_TWM
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terça-feira, 12 de abril de 2022

Tadao

No final dos anos 80 embarcamos numa aventura que desembocaria nas iconexões que temos hoje. Um dos principais engendradores e timoneiros dessa travessia foi Eduardo Tadao Takahashi, que nos deixou em 6 de abril. Não se retoma o que foi citado em diversos meios, referente à carreira e brilhantes realizações dele, que foi em 2017 incluido no Hall da Fama da Internet Society, mas pode ser interessante rever o clima e as condições do período crítico, 1987 a 1992, na janela de visão de cada um.

O contexto então era de uma crescente angústia na comunidade acadêmica para que se lograsse comunicação eletrônica internacional. Pesquisadores que voltavam ao Brasil de trabalhos ou estudos no exterior, tinham se valido dos benefícios do acesso a redes, tanto para o intercâmbio com colegas, como na submissão remota de atividades a um centro. Como exemplo, em 1986 a NSF (National Science Foundation) já tinha conectado 5 centros de supercomputação nos Estados Unidos através de linhas que cruzavam seu território de leste a oeste. Tadao postulava a criação no Brasil de uma rede acadêmica nacional de computadores conectada internacionalmente, e era apoiado pela comunidade acadêmica. No lado paulista, Oscar Sala presidia a Fapesp e decidiu buscar uma conexão que atendesse, ao menos, as tres universidades estaduais paulistas. Em 1987 esses grupos de interesse numa reunião na Escola Politécnica da USP, sincronizaram suas informações e planejaram os próximos passos. Em 1988 uma linha ligou o LNCC a Maryland, enquando outra linha ligaria a Fapesp ao Laboratório Fermi, Illinois. Assim, o lado paulista, ANSP, e a iniciativa nacional agora batizada RNP, interligavam-se à configurando uma rede acadêmica nacional. Ambas foram formalmente inauguradas em 1989: em abril, ao mesmo tempo em que se conseguia a delegação do .Br, a ANSP, e, em setembro, a RNP durante a feira da Sucesu. Lá havia até sido alocado um estande simples, para demonstração aos interessados em redes eletrônicas. Tadao, já coordenador da RNP, não se furtaria em ajudar a carregar terminais da Fapesp para a feira, limpar e montar o estande, conectar os modems e, ao final, ficar por lá demonstrando a primitiva rede aos curiosos.

O aspecto mais crítico a vencer era o político. Como explicar o uso de protocolos não “oficiais” (Bitnet, Decnet,TCP/IP) no país, quando a “opção ungida” usada sistema Telebrás, então estatal, era Renpac, o Videotexto e o Transdata, componentes da pilha OSI? Como conseguir a permissão para compartilhar linhas que alimentassem a rede? E como lidar com “dados transfronteiriços” sob a legislação de então? Tocando o que Ivan Moura Campos chamou de “exército Brancaleone” Tadao batalhou em todas essas frentes até o sucesso, que se configurando com a entrada do TCP/IP na linha da Fapesp em 1991, e com a ECO-92 consolidando o uso primordial de TCP/IP na RNP deslocando os protocolos inicialmente usados.

Uma semana antes de morrer, Tadao, esse brasileiro criativo, brilhante e sempre correto, visitou-me. Estava animado e cheio de novas ideias. A chama da vida se apagaria inesperadamente 5 dias depois… Mario Quintana: “que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta?”

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https://www.internethalloffame.org/inductees/tadao-takahashi

https://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,morre-tadao-takahashi-um-dos-pioneiros-da-internet-no-brasil,70004032016

https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2022-04/morre-tadao-takahashi-um-dos-pioneiros-da-internet-no-brasil

https://www.rnp.br/noticias/rnp-lamenta-perda-de-seu-fundador-tadao-takahashi

https://www.tecmundo.com.br/internet/236767-morre-tadao-takahashi-pioneiros-internet-brasileira.htm

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tadao_Takahashi

https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2022/04/07/morre-tadao-takahashi-um-dos-pioneiros-da-implantacao-da-internet-no-brasil







terça-feira, 29 de março de 2022

Neurodireitos

A convergência e a integração cada vez mais rápida e intensa de diferentes linhas de desenvolvimento de tecnologias, digitais, biológicas e de comportamento social, impõe que a defesa de conceitos deva se basear argumentos principiológicos, não sucetíveis a pressões do momento. Exemplo disso na área digital são as ações de preservação do ambiente Internet básico, visando à inclusão de todos e com conectividade significativa que permita acesso à informação e troca de experiências. São características inerentes a proteção dos dados pessoais e da privacidade. Outra conclusão é a necessidade de apoio firme e constante a todos possam lançar mão de criptografia livremente em suas mensagens na rede.

Preservado esse nível básico, vem a discussão sobre contruções várias, cujos impactos devem ser examinados, e que podem representar reais ameaças a direitos fundamentais. Algumas das palavras-chave em voga, que despertam nossa atenção e análise, referem-se à “Internet das coisas”, à crescente presença da inteligência artificial e, numa vertente talvez menos visível, à IoB, a “Internet dos corpos”. Se já é claro que a Internet das coisas pode trazer preocupações, especificamente quanto à privacidade, que devem sempre ser levadas em conta, o mesmo ocorre com inteligência artificial, haja vista as discussões sobre seus eventuais viéses, reconhecimento facial, detecção de emoções e previsão dos comportamentos individuais. O terceiro exemplo citado, a Internet dos corpos, não ganhou ainda maior visibilidade, mas merece atenção. Temos um grande desenvolvimento em nanotecnologia, que pode ajudar em medições, diagnósticos e tratamentos, e há cada vez mais atuadores digitais que se integram ao nosso corpo, externa ou internamente, ajudando no combate às suas disfunções. É importante constatar que esses equipamentos acabarão por ser controlados também através de conexões à Internet. A primeira preocupação óbvia é de segurança: imagine-se alguém sequestrando injetores de insulina e exigindo resgate em troca de não alterar seu funcionamento... Certamente um pesadelo que não gostaríamos de constatar.

A tendência do mercado, em concentração de ações na área da saúde via dispositivos, está em franca expansão. Bastando acompanhar a movimentação recente de grandes companhias de tecnologia. Porém há coisas ainda mais insidiosas: imagine-se que fármacos e dispositivos conectados possam atuar em nosso cérebro, tornando-nos potenciais zumbis. Esse tipo de ameaça vem disparando há alguns anos a discussão sobre “neurodireitos”, em que valores como direitos à nossa identidade pessoal, sanidade mental, autodeterminação e personalidade deveriam ser preservador em lei. Há uma recomendação da OEA sobre isso e, inclusive, um novo item na constituição do Chile, há um ano, prevê a proteção dos “neurodireitos”. Não é algo que possa ser tratado levianamente. Uma discussão ampla e pública sobre o tema deveria começar antes que surjam propostas açodadas de legislação, ou que danos já tenham sido produzidos.

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Livro garatuito sobre Internet-dos-corpos:
https://www.rand.org/pubs/research_reports/RR3226.html



https://www.ibericonnect.blog/2022/02/neurodireitos-o-exemplo-do-chile-e-a-regulacao-das-neurotecnologias/

https://opiceblum.com.br/chile-aprova-emenda-a-constituicao-para-proteger-neurodireitos/

https://www.portaldaprivacidade.com.br/chile-aprova-emenda-a-constituicao-para-proteger-neurodireitos/

https://en.unesco.org/courier/2022-1/rafael-yuste-lets-act-its-too-late

https://neurorightsfoundation.org/

https://voicesofvr.com/994-neuro-rights-initiative-a-human-rights-approach-to-preserving-mental-privacy-with-rafael-yuste/


https://en.wikipedia.org/wiki/Rafael_Yuste

https://www.searchingmedical.com/media/138/what-does-consumer-neurotech-innovation-mean-for-the-medical-device-industry

https://www.rand.org/pubs/research_reports/RR3226.html


terça-feira, 15 de março de 2022

Uma Internet

Várias organizações relevantes e ligadas à rede tem entre suas metas a luta pela preservação de uma Internet única. Como exemplo, a ICANN, instituição que cuida da raíz de nomes da rede, em 2013 assumiu o lema “Um mundo, uma Internet”, e publicou um gráfico em que descreve os diferentes níveis da rede e as diversas ações dos operadores.

O que então seria a tal “Internet única”? Como infra-estrutura física e lógica, a rede sustenta-se num conjunto de protocolos e de tecnologias desenvolvidos em comum acordo pela comunidade, aceitos e implementados pelas redes autônomas que voluntariamente se unem formando a Internet global. Esse mosaico de redes cooperantes constitui-se num ambiente de comunicação onde também crescem livremente aplicações e plataformas, que aceitam funcionar segundo os protocolos básicos. É importante assinalar que essas plataformas oferecidas ao público não se confundem com a Internet em si, e que seus méritos, riscos ou mazelas devem ser considerados especificamente. A infra-estrutura e o ambiente onde surgem as tais aplicações devem ser mantidos neutros e ubíquos, sem fronteiras, acessíveis a todos. Esse é o conceito de “neutralidade da rede”. Já se alguém reclama de desinformação, ou de mentiras na rede, isso seria tão culpa da Internet básica quanto uma ofensa ou uma falsidade é culpa da “linguagem humana”. A comunicação, o acesso a ambiente de diálogo, devem ser preservados para todos, mesmo que, como ferramentas, possam servir também a fins espúrios. Aplicações e plataformas, por outro lado, podem apresentar viéses e, podem tanto obter sucesso na comunidade, como serem abandonadas e se extinguirem. Sucesso ou morte de aplicações não causam dano à internet em si.

Em tempos complexos com os de hoje, surgem propostas que atentam contra a Internet única. Praza aos céus que não prosperem, como aliás bem tem argumentado muitas das organizações históricas da Internet. Desconectar segmentos da rede ou deformar suas características de resiliência e de redundância traria danos irreparáveis ao sonho de manter o mundo conectado e acessível a cada ser humano… O antídoto à desinformação é mais informação, não menos. E, pior ainda, uma classificação subjetiva e controlada por algumas plataformas do que seria a “informação verdadeira e útil” levará a instrumentalizar o uso da infraestrutura para fins políticos ou, pior, militares. Frequentes “chamados à ação” que visam a desestabilizar trechos da rede, procuram recrutar voluntários (ou seriam mercenários?) para ações de sabotagem à infraestrutura em si, sem que se levem em conta os estragos que isso pode trazer a segmentos da rede e seus usuários.

Podemos e devemos escolher o que acessar, no que acreditar e em que plataforma eventualmente queremos fazer parte, mas, para podermos exercitar esse direito, precisamos que a conectividade, a acessibilidade e a livre inovação sobre a camada básica da rede sejam estritamente preservadas. Um mundo, uma Internet!

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Sobre "uma Internet única":
ISOC: https://www.internetsociety.org/blog/2022/03/why-the-world-must-resist-calls-to-undermine-the-internet/

ICANN: https://www.icann.org/en/system/files/files/ecosystem-06feb13-en.pdf
https://www.icann.org/en/system/files/files/ecosystem-06feb13-en.pdf

ccNSO: https://ccnso.icann.org/sites/default/files/field-attached/council-statement-04mar22-en.pdf

RIPE-NCC: https://www.ripe.net/publications/news/announcements/ripe-ncc-executive-board-resolution-on-provision-of-critical-services
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terça-feira, 1 de março de 2022

Evoé Internet!

Terça-gorda de um ano atípico numa época difícil. É Carnaval. Os três dias a que a imprensa se referia como “triduo momesco”. Chaves da cidade entregues ao rei Momo, foliões nas ruas, e o deprimente espetáculo da “resistência carnavalesca”, onde os que se mantivessem pulando por mais tempo, vigiados pela TV, receberiam um prêmio. Lembra-me o livro “Mas não se matam cavalos?” que pungentemente tratava do tema. Evoé!, invocação hoje com bastante cheiro de naftalina, também remonta aos velhos carnavais.

O carnaval representa a oportunidade de o indivíduo se dissolver na multidão, liberto de amarras e dos limites. Evoé! O chamado ao dionisíaco que nos espreita lá do fundo e anseia sair. Essa necessidade também pode estar sendo suprida via Internet, mas com resultados diferentes, talvez inesperados. O indivíduo pode dissolver-se facilmente na multidão virtual das redes que o abraçam e, dentro delas, soltar sua voz como tantos outros. Sendo carnaval é ainda mais válido usar-se máscara, travestir-se do que se queira, e deixar-se levar por qualquer euforia que esteja à mão, sem muito pensar ou escolher. Aliás, na Internet, como na Covid, é usual que se usem máscaras, claro que com diferente objetivo.

As raízes do atual Carnaval estão na Idade Média, relacionadas ao início da Quaresma: ele representa a última oportunidade de saciar-mo-nos de carne, antes do jejum que segue. Mas há conexões mais bem mais antigas, que remontam aos ritos dionisíacos. Beber e dançar até atingir o êxtase da liberação, e assim participar de orgias eram características que, em formas atenuadas, ainda se reconhecem. Mas as celebrações iam além. Nos momentos de maior excitação, as bacantes, mulheres consagradas aos mistérios de Dioniso/Baco, deveriam estraçalhar ritualisticamente, com as próprias mãos nuas, uma vítima escolhida. O avanço da civilização, já mesmo na Grécia antiga, proscreveu esse bárbaro costume e, certamente, não veremos retalhamentos nos festejos carnavalescos. A Internet, entretanto, sempre surpreender e, seja carnaval ou não, pode ignorar freios que a civilização impôs a comportamentos. Sem sangue, linchamentos virtuais tendem a ser cada vez menos raros. O carnaval medieval, do entrudo e das brincadeiras licenciosas, pode acabar dando lugar, de novo, a modernas bacantes de Dioniso. Nos casos historicos, quando a multidão agia para linchar alguém, necessitava-se de um pretexto real ou armado, e de um “puxador do samba”, aquele que atirará a “primeira pedra”. Esse deflagrador do processo carregaria em sua consciência o peso de ter gerado o apedrejamento, e isso funcionava como uma barreira de inibição. Com as redes sociais e o tumulto que nelas impera, fica praticamente impessoal atirar a primeira pedra e sumir na multidão. A responsabilização estará diluida e a barreria de responsabilidade eliminada. As bacantes virtuais poderão assim começar o estraçalhamento sem muitas culpas a carregar. Já a quarta-feira de cinzas não parece ter mantido seu sentido...

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Sobre a "primeira pedra:
em: "Eu vi Satanás cair como um relâmpago", de René Girard: 

"Longe de ser puramente retórica, a primeira pedra é de­cisiva por ser a mais difícil de lançar. Mas por que será ela tão difícil de lançar? Porque é a única que não tem modelo. <...>
Quanto mais aqueles que desejam lançar a primeira pe­dra percebem a responsabilidade que assumiriam ao lançá-la, mais chances existem para que a deixem cair de suas mãos."

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http://institutojunguianorj.org.br/viver-dionisio-uma-experiencia-arquetipica/

https://www.dicionarioetimologico.com.br/evoe/

https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/2083400

https://pt.wikipedia.org/wiki/Baco

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"O Sagrado e o Profano: A Essência das religiões", de Mircea Eliade

Dioniso: https://blog.grandcru.com.br/carnaval-e-vinho-a-historia-da-folia-e-do-deus-dionisio/




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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Os Sextos Mandamentos

Se o decálogo cristão estipula, no seu sexto mandamento, que não se deve pecar contra a castidade, no decálogo para a Internet, o CGI (Comitê Gestor da Internet no Brasil) afirma a neutralidade no acesso à Internet: “filtragem ou privilégios de tráfego devem respeitar apenas critérios técnicos e éticos, não sendo admissíveis motivos políticos, comerciais, religiosos, culturais, ou qualquer outra forma de discriminação ou favorecimento”.

Essa neutralidade da rede, que sempre foi estritamente respeitada no Brasil e na grande maioria dos países, fez com que todos saudassem a oportunidade única que se abria, não apenas para que indivíduos pudessem dialogar eletronicamente, mas também para o acesso seguro e sem limites geográficos aos mais variados materias. Cite-se o deslumbramento que foi poder acessar, já em 1994 e com Mosaic, o navegador de então, a biblioteca do Vaticano e o museu do Louvre. Eram as primeiras obras digitalizadas e colocadas à disposição via rede.

Também é importante reconhecer que, comparativamente ao que tínhamos em 1994, o cenário hoje é muito mais complexo e, de alguma forma bem mais concentrado; mas o espírito fundador inicial precisa ser mantido. É importante que cada um continue livre para expressar-se e para ir onde queira via rede. Quem abusar da liberdade estará sujeito ao que rezam as leis nacionais. A liberdade é também, afinal, a liberdade para praticar eventuais abusos, desde que, claro, sempre se responda por eles: ao exercício da liberdade prende-se o ônus da correspondente responsabilidade. Impedir alguém, a priori, de exercer seu direito à expressão, baseando-se em considerações sobre riscos que tal manifestação traria, certamente parece abusivo. É muito mais saudável obter-se um processo legal rápido, que determine se e qual violação ocorreu, submetendo o possível violador ao peso da lei.

A Internet é riquíssima em conteúdos de valor muito variado, e em ferramentas que permitem nossa expressão. A neutralidade garante que possamos acessar tudo que há, independentemente de onde se localiza. Quanto às ferramentas, parece cada vez mais importante criar uma taxonomia sobre a sua ação. Que interferência elas podem ter no conteúdo que publicamos e naquele que nos chega automaticamente? Somente após a identificação dos papéis que diferentes atores na rede têm, desde o usuário final ao conjunto de intermediários, poderemos concluir pela responsabilização adequada de cada um, face a um conteúdo ilegal ou abusivo.

Pedindo licença para forçar um pouco a analogia, haveria um paralelo entre os sextos mandamentos citados, que podemos arriscar aqui. Talvez “manter a neutralidade da rede” possa ser lido como “preservar a castidade da rede”, mantendo-a pura, sem deformações e obstáculos, por mais que se aleguem propósitos nobres.

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O decálogo do CGI:
https://cgi.br/resolucoes/documento/2009/003/

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Referência sobre acesso à biblioteca do Vaticano em 1994
https://super.abril.com.br/tecnologia/internet-ligacao-direta-com-o-mundo/

A Visit To The Vatican Library Via The Internet
https://www.bloomberg.com/news/articles/1994-07-03/a-visit-to-the-vatican-library-via-the-internet

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Neutralidade da Rede
https://pt.wikipedia.org/wiki/Neutralidade_da_rede




terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Espelho meu

Internet é tema em diversos fóruns. Assuntos técnicos ligados à evolução da rede discutem-se nas reuniões do IETF, força-tarefa de engenharia da rede, enquanto a administração de recursos que precisam de coordenação central como nomes de domínio, distribuição de números IP, pertence à constelação que orbita ao redor da ICANN, a entidade para alocações de nomes e números. Com a expansão rápida da rede ficou logo clara a necessidade de um local para o debate amplo dos outros temas importantes que extrapolam os aspectos técnicos ou administrativos. Surgiu a ideia de reuniões anuais, totalmente abertas, multissetoriais, e com espaço para discussão de qualquer tema que tangenciasse a Internet: o IGF - Fórum Global da Internet. O primeiro IGF foi em Atenas em 2006, seguindo-se o do Rio de Janeiro, em 2007 – aliás o Brasil é o único que já sediou dois IGF, pois houve também o de João Pessoa em 2015.


No IGF de 2010, em Vilna, Lituânia, discutiam-se riscos que a Internet podia trazer aos usuários, dada a quantidade de crescente de ataques e práticas maliciosas que se observava. No painel, entre outros, Vint Cerf, indiscutível pioneiro da rede e um dos criadores do TCP/IP, o protocolo que deu voo à Internet. Vale a pena rever a análise sucinta que ele fez, e continua válida: “tecnologias são ferramentas que refletem os que as usam. A Internet é um espelho da sociedade e, se você não gosta do que lá vê, não quebre o espelho, mas tente mudar o nele está refletido”. Muitas vezes a solução que nos parece mais à mão é “quebrar o espelho”, ou impedir o acesso a ele; buscar formas de obliterar o que não queremos ver. É crítico não ceder a essas tentações, sob pena de se perderem valores muito maiores.

Há, porém, outros impactos possíveis que um espelho pode causar no comportamento humano, e são tema de contos infantís, fábulas e mitos. Machado de Assis tem inclusive um conto curto, “O Espelho”, onde o protagonista vale-se do reflexo para preservar sua auto-estima. Talvez o contraponto mais interessante seja o do mito de Narciso. Ora, ao abaixar-se para beber água numa fonte, Narciso viu um belo rosto. Sem notar que era seu próprio reflexo, ele apaixonou-se perdidamente pela imagem refletida, e aquela inatingível beleza inatingível o consumiu.

A Internet, sem dúvida, reflete o mundo que temos mas, em particular, também reflete nossas próprias ações e palavras. O retorno emocional que recebemos ao participarmos ativamente na rede pode nos tornar embriagados pela imagem que queremos ou imaginamos projetar. O ego, reforçado e alimentado pela ressonância que obtem, torna-se cada vez mais exigente de ação, e cada vez menos tímido em falar sobre qualquer tema. Afinal, deve ser enfeitiçador ouvir a própria voz encobrindo outras vozes dissonantes. Caetano Veloso, em Sampa, deixa isso maravilhosamente registrado: “Narciso acha feio o que não é espelho”...

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IGF 5, em 2010, Vilna, Lituânia:

https://www.elon.edu/u/imagining/event-coverage/global-igf/igf-2010/youth-core-internet-values/
The Internet is a mirror of society,” he said, “and if you don’t like what you see in the mirror, don’t break the mirror, you have to do something about what’s reflected in the mirror. Some of our fellow inhabitants on planet Earth don’t necessarily have our best interests at heart",

The Internet is a mirror of society,” Google’s vice president Vinton Cerf explained during an hour-long private meeting with participants and tutors of DiploFoundation’s Internet Governance Capacity Building Programme. “If you look at the mirror and you don’t like what you see, you don’t fix the mirror; you try to fix yourself,” 

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O mito de Narciso / espelhos

https://en.wikipedia.org/wiki/Narcissus_(mythology)

https://www.todamateria.com.br/o-mito-de-narciso/

https://pt.khanacademy.org/science/3-ano/materia-e-energia-luz/fenmenos-luminosos/a/historia-dos-espelhos

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O conto "O Espelho",  de Machado de Assis

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000240.pdf




terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Nihil Obstat - Imprimatur

Cerca de 200 anos depois que Gutemberg inventou a imprensa, quando se notou que a população passaria a ter um acesso amplo a livros e textos que antes, em raros manuscritos e suas cópias, estavam ao alcance de muito poucos, a Igreja Católica, certamente munida das melhores intenções em proteger leigos despreparados da exposição a conteúdos polêmicos e complexos, decidiu criar um cânone de lei, que pré-examinasse os livros candidatos à impressão. Os julgados apropriados ao grande público ganhavam o carimbo “Nihil Obstat – Imprimatur”, ou seja, os censores que examinaram o livro permitiam que ele fosse impresso. Isso não significava uma aprovação tácita ao conteúdo mas, sim, que ele não representaria perigo aos incautos leitores.

Nem temos ainda 50 anos da disseminação da Internet, e já há um visível movimento para que o acesso dos internautas ao que está na rede seja, de alguma forma, intermediado ou tutelado. Sem dicutir casos especiais, como formas de inibir o acesso de menores de idade ou incapazes, vamos nos restringir estritamente a, como se dizia antanho, “maiores de idade e vacinados”… Há, neste caso, também necessidade de tutela? Se houver, qual o nível e quais os critérios que o executor deveria respeitar? Alguém decidirá a priori o que se pode ler, o que seria bom ou mau ao leitor, ou o que seria perigoso para seu equilíbrio mental?

Não se deve trivializar o problema, até porque, quem ainda escreve um livro de papel pertence a um universo muito mais restrito dos que emitem suas opiniões na Internet. Mas, afinal, não era esse o propósito inicial da rede? Que todos pudessem ler e opinar sobre tudo? Teria sido superestimada a capacidade humana de conviver e dialogar num ambiente tão amplo e com tanto alcance?

Outro complicador que faz parte importante da equação é o fator “intermediários e seus algoritmos”. A crescente concentração de poder econômico, associada aos efeitos pouco transparentes mas intensos de amplificação, levam a outro debate inevitável, sobre eventual regulação de intermediários. É uma embate de titãs, com governos versus empresas gigantes e, prá variar, o usuário acaba sendo o marisco “nessa luta do rochedo com o mar”…

Quando escreveu a “Declaração de Independência do Ciberespaço” John Perry Barlow usou “ciber” como algo que significasse o mundo das redes, da eletrônica, do virtual. E “ciber” ganhou aceitação e uso global mesmo que, semânticamente, seu sentido grego original seja ligado a “controle”, como bem definiu Norbert Wiener, que cunhou “cibernética” em seu livro de 1948. Aos poucos, mas cada vez mais rapidamente, “ciber” reclama de volta sua semântica original: a Internet parece tornar-se, mais e mais, uma “rede de controle”.

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Gutemberg e a impressora
https://en.wikipedia.org/wiki/Printing_press

Nihil Obstat e Imprimatur e Nihil Obstat

https://en.wikipedia.org/wiki/Imprimatur
https://www.merriam-webster.com/dictionary/imprimatur
https://en.wikipedia.org/wiki/Nihil_obstat

Declaração de Independência do Ciberespaço - J.P.Barlow
https://www.eff.org/cyberspace-independence

Norbert Wiener e "cibernética"
https://en.wikipedia.org/wiki/Cybernetics:_Or_Control_and_Communication_in_the_Animal_and_the_Machine

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Como está a censura em relação à Internet:
https://www.vpnmentor.com/blog/online-censorship-country-rank/
https://www.comparitech.com/blog/vpn-privacy/internet-censorship-map/

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Index Librorum Prohibitorum

https://en.wikipedia.org/wiki/Index_Librorum_Prohibitorum