segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Mais um ano de cachorro

Lá se foi mais um “ano de cachorro “ para a Internet… Calma! Há mais de uma interpretação para essa expressão, que é antiga e deve ter mais de 100 anos de existência (pelo calendário “canino”). É que para a rede 1 ano equivale cabalisticamente a 7 anos normais. Ou seja, em 1 ano humano a rede progride 7! A analogia refere-se ao que se passa como nossos amigos latedores e peludos: vivem intensamente num ritmo sete vezes maior que o nosso. O tempo para eles corre muito mais rapidamente que para nós.

Já em 1965, Gordon Moore, um então jovem químico e que foi um dos fundadores da Intel, enunciara uma “lei” que previa que a cada 18 meses o avanço da tecnologia faria com que as características de um dispositivo eletrônico dobrassem de capacidade a um mesmo custo. Ou seja, se pagamos x por algo que tem y de capacidade (processamento, memória, resolução, banda, etc), um ano e meio depois, pelo mesmo x, teremos algo próximo do dobro de tudo isso.

Foi anunciada há 50 anos como uma forma impactante de medir o progresso tecnológico e o mais impressionante é que ela se mantem válida até hoje! Bits, quilobits, megabits, gigabits, terabits, petabits, exabits etc etc provam isso de forma cabal. Claro que a “lei” de Moore aplica-se também ao poder de estrago.

Hoje, batalham-se na rede guerras virtuais, mente-se e frauda-se através dela, espiona-se com sua ajuda. Mas nada disso embaça o que se conseguiu. Lógico que já há alguma mostra de exaustão. Os rins da “lei” de Moore já doem um pouco, sua glicemia está além do recomendável, usa óculos para ler de perto e, como qualquer cinquentona, perdeu algo do viço dos cabelos, mas ainda aguentará o repuxo por mais alguns anos… Ao menos é o que esperamos dela.

A Internet segue o mesmo ritmo frenético. Se um 1994 o Brasil inteiro estava conectado com 2 megabits/s à rede, essa banda hoje seria considerada inaceitável para a conexão de um único domicílio. Antes da Web existir, a Internet era texto puro e, portanto, muito econômica. Nada de imagem, som, vídeo e… receber filmes em casa com alta definição, nem pensar! Algo totalmente inimaginável, mesmo nas previsões mais futuristas e agressivas. Banda em cabo submarino coaxial, metálico, competindo com telégrafo, telex e alguma telefonia era para ser disputada “a tapas”.

E, entrentanto, eis-nos aqui, ao final de 2014, insaciáveis em nosso consumo de recursos. Talvez tenhamos perdido a arte de usar com parcimônia o que é (ou era) caro e raro, e isso pode ser uma mudança cultural ainda não muito bem avaliada. Mas, se perdemos alguns anéis, temos que batalhar para preservar os dedos.

E chegamos à parte boa da notícia. No ano de cão de 2014, fomos bem! Devíamos, de prazer, uivar para a lua cheia. Aprovamos o Marco Civil e esse é um feito internacionalmente reconhecido. Realizamos uma reunião multissetorial, a Netmundial, que gerou dois documentos que podem balizar o futuro da governança da rede (e ajudar a preservar os dedos!).

O Brasil é apontado como tendo a melhor legislação para proteção da rede e dos internautas e, nesse aspecto, está sendo seguido por outros países. E seu modelo de governança participativo e leve é considerado paradigma. Perseveremos!

Estamos tendo problemas e desafios novos, mas nada disso embaça o que se conseguiu. Vamos em frente que mais anos de cachorro nos aguardam!. Bom 2015!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A internet não esquece

O que nos cerca muda rapidamente e nem sempre nos damos conta disso. Nos velhos tempos, por exemplo, se alguém recebia uma carta de que não gostava ou que o ofendia, podia rasgá-la ou queimá-la e ela desapareceria para sempre, sem vestígios. Hoje, com os meios baratos e quase infinitos de armazenamento eletrônico de informações, pode ser impossível nos livrarmos de um simples e-mail.

Claro que podemos apagar a mensagem que nos incomodou, mas é pouco provável que ela, de fato, suma definitivamente. Para manter a confiabilidade e garantia contra erros involuntários dos clientes, os provedores sérios de correio eletrônico guardam cópias - os "backups" - que, queiramos ou não, podem preservar coisas à nossa revelia. E sem falar do que nós mesmos colocamos impensadamente na rede e, mais tarde, concluímos que foi uma bobagem ter feito aquilo. Ah, se arrependimento matasse... Como Turiddu diz a Santuzza na ópera Cavalleria Rusticana, depois de uma acalorada discussão, "pentirsi è vano dopo l'offesa", ou seja, é inútil penitenciar-se depois de cometer uma ofensa.

Assim, o que é colocado na Internet pode tornar-se irremovível na prática: ou os próprios sistemas de armazenamento irão guardá-lo ou, se causou algum impacto bom ou mau entre os usuários, alguém terá tirado uma cópia. A conclusão é fácil de dar e difícil de cumprir, como todos os bons conselhos: não devemos colocar nada em rede aberta de que possamos nos arrepender mais tarde. Mas quem resiste à tentação de replicar algo interessante que leu, mesmo sem ter nenhuma certeza de que seja um fato real e não uma simples invenção de alguém? Minha avó usava uma expressão grega para coisas que fazemos impulsivamente e depois não mais podemos desfazer. Dizia: "pronto! caiu o açúcar na água". Se jogarmos uma colher de açúcar num tanque de água, por mais que filtremos não conseguiremos removê-lo: sempre algo sobrará diluído lá no meio.

Essa característica da rede compromete também a eficácia de um eventual direito que se postula hoje: o direito ao esquecimento. Um parêntese aqui: como engenheiro, tenho sérias dúvidas lógicas de como poderíamos ter direito sobre algo que não está em nosso controle. Eu, certamente, tenho direito de esquecer - e certamente esquecerei - coisas que estão em minha memória, mas não imagino como ter direito a que você esqueça coisas que estão na sua memória. Mesmo que esse "sua" se refira à Internet.

Bem, supondo que esse direito exista, líquido e certo, não há como magicamente apagar todas as referências a algo na rede. Mesmo que os buscadores recebam ordens para ignorar o tal conteúdo e não indexá-lo, em algum lugar estará armazenado, pronto para sair à luz num momento futuro.

Hoje, quando floresce o narcisismo e o individualismo, popula-se a rede com autofotografias nas mais variadas situações, às vezes para documentar, muitas vezes só para satisfazer o ego. O demônio, pela boca de Al Pacino no filme Advogado do Diabo, afirma categoricamente: "vaidade é meu pecado preferido". A Internet não esquece, e aí é que mora o perigo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A verdade sai de um poço

No mar de informação infinita que há na Internet parece tarefa impossível separar o que é verdade do que é farsa. Não era assim no começo, quando a rede era basicamente acadêmica: sem apelo comercial e tendo no correio eletrônico sua principal forma de interação. Mas a Web, o acesso livre e abrangente a todos, gerou esse fluxo enorme de informação das mais diversas origens e qualidades.
Um pessimista diria que não há como retomar o rumo e estaremos cada vez mais perdidos, sem saber como separar o joio do trigo. Eu, otimista incorrigível, penso que, ao contrário, as impurezas tenderão a sedimentar, deixando o que é verdadeiro à tona. Se a Internet é espelho da sociedade e do comportamento humano, recuso-me a assumir que uma grande parte de seus integrantes seja perversa ou mal-intencionada.

Tenho um exemplo edificante: a Wikipédia, uma enciclopédia colaborativa que começou em 2001 de forma muito modesta, especialmente se compararmos com seus equivalentes em papel. Na biblioteca do colégio, por exemplo, repousavam os 82 alentados volumes de uma enciclopédia em papel, a Espasa-Calpe.

Hoje, a Wikipédia é um gigantesco (e confiável) repositório de dados. Foi construída de forma aberta, colaborativa e sem remuneração. Apesar dos riscos, ninguém pode acusá-la de ter-se deteriorado pela ação dos mal-intencionados...

Assim, é possível que a verdade prevaleça. Claro que não tenho a menor competência para discutir o que seja verdade, ou adicionar um miligrama ao que pensadores edificaram durante séculos. Bento XVI tem uma frase ótima: "a verdade, realmente, encontra força em si mesma e não na quantidade de consenso que obtém". Ou seja, não chegaremos a ela por estatística ou votação.

Mas não resisto a terminar sem uma historinha. Tivemos na Escola Politécnica, entre muitos brilhantes mestres, Wagner Waneck Martins, um professor, já falecido, que era tudo, menos convencional. Ele defendia, por exemplo, que, para simular adequadamente um ser humano, um computador não deveria ter processador numérico, já que nós, humanos, não temos.

Waneck e a verdade: um dos privilégios dos que tiveram aula com ele é que estão entre os poucos que podem alegar conhecer a definição de "verdade". Sim! Esse conceito que assombra a todos desde sua origem, foi desvendado para nós por ele, de forma cabal. "Verdade é uma mulher que sorri para você, nua e bela no fundo de um poço. Você olha ansioso para ela, mas... ela sacode o dedo e diz nãããão."

Nós, simples politécnicos, ríamos de mais essa tirada de humor. Trinta anos mais tarde, vi que mais do que uma brincadeira, havia sempre profundidade e brilho no que o mestre Waneck dizia.

Ao perambular pela Internet descobri que, atribuída a Demócrito, ou a Heráclito, ou ambos, há referência à "verdade" como "jazendo no fundo de um poço". E um provérbio francês, reproduzido em quadros que mostram uma mulher nua saindo de um poço, diz que "la vérité sort d'un puits" - a verdade sai de um poço... Sairá também do oceano que é a Internet!


--

Jean Léon Gerome,1896.  La Vérité sortant du puits


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O que há de errado com o mundo

O título é de um livro de G. K. Chesterton, de 1910. As provocações dele continuam, em boa parte, atuais, e é tentador aplicá-las à Internet. Vejamos o tema central: o livro defende que, mesmo sendo fácil achar consenso na identificação e crítica dos erros que encontramos na sociedade, a essência está em concordar que solução adequada propor. Muitas vezes não há acordo na meta, ou em como medir se foi atingida. Por falta de compreensão e de esforço, ideias excelentes - que poderiam "salvar o mundo" - são abandonadas, não por haver dúvidas quanto ao seu mérito, mas por não haver acordo em sua implantação. Chesterton diz que, mais do que um mundo onde se empilham ruínas de ideias vencidas ou superadas, temos um mundo de construções inacabadas, abandonadas.

Tento um exemplo atual: certamente há consenso de que devemos combater rapidamente a poluição. É fácil declarar apoio a esse combate. Mas qual o caminho? Uma ideia aparentemente bem recebida é desestimular o transporte privado, eventualmente trabalhando na implantação de ciclovias.

Parece algo meritório e socialmente importante, mas está longe de ser fácil e, certamente, não teremos para a "solução" o mesmo consenso que temos quanto ao "problema". Assim, por variados motivos e oposições, essa ideia pode ficar inacabada.

Internet: há consenso, sem dúvida, dos riscos que ela traz, das fraudes que lá ocorrem, das falsas informações que circulam. Ou seja, todos concordamos que há problemas na rede. O que não encontra consenso é, então, qual a rede que queremos e, consequentemente, como chegar lá. Parece mais razoável aceitar a realidade de que, ao lado de problemas, a rede nos trouxe infinitamente mais vantagens e tentar, paulatinamente e sem ferir seus conceitos fundamentais, caminhar da direção do objetivo maior e mais nobre. Nessa linha, ao final do livro, há outra analogia como parábola: ao se verificar uma praga de piolhos numa comunidade de periferia, os higienistas estipulam que se cortem os cabelos das meninas.

O certo - matar os piolhos e melhorar o ambiente - é abandonado pelo mais fácil, mesmo que isso humilhe as crianças e destrua sua autoestima. Ainda na Internet, semana passada lançou-se tentativamente uma proposta de plataforma onde projetos de qualquer origem e variados objetivos seriam divulgados, debatidos e buscariam suporte da comunidade para se tornarem realidade: a iniciativa NETmundial. Para muitos, isso contribuiria para a melhoria da rede. É claro que, também, choveram críticas, tanto dos que leram e por algum motivo não gostaram, quanto dos que sequer a leram, mas igualmente a criticam, por não se alinharem com os propositores.

É comum que uma boa ideia, em vez de ser analisada em si, na sua essência, seja prejulgada porque recebe apoio de setores que não se alinham à nossa visão.

Não sei se a Iniciativa NETmundial irá melhorar ou não a rede, mas sei que, se for abandonada sem ter sido testada, podemos estar perdendo, de novo, uma boa oportunidade. Será mais uma obra inconclusa. Diz Chesterton: "... o que está errado no Mundo é não nos perguntarmos o que está certo".

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Um hino para a Internet?

Nesta semana termina a reunião Plenipotenciária da União Internacional das Telecomunicações, em Busan, Coreia do Sul. A reunião, que traz no nome a ideia de onipotência, dá direito a voto aos órgãos reguladores das telecomunicações de cada país. O Brasil é representado pela Anatel.

Enquanto aguardamos o que emanará de Busan, vejamos quais os conceitos em cena e como isso se relaciona à governança da Internet. Uma referência recente em discussões nas redes sociais é o Tratado de Vestfália. Foi na Paz de Vestfália, em 1648, ao final de diversas conflagrações na Europa e, especialmente, da guerra entre Espanha e Holanda, que sedimentou-se o conceito de "Estados Soberanos" e que a Holanda se tornou independente.

É talvez o dilema mais crítico no debate da governança da rede: sua extraterritorialidade. De certa forma, a Internet "não assina" o tratado de Vestfália, porque não vê as fronteiras entre Estados. Por isso sua governança deve ser multissetorial, participativa e a partir das bases. É antípoda a Busan, onde o mundo tradicional se reúne.

A governança da Internet evolui muito bem entre povos latinos, que, de alguma forma, têm sido usados como paradigma no processo. Para começar - e com algum ufanismo - cite-se que a Lei Geral das Telecomunicações brasileira já em 1997 definia Internet como um "serviço de valor adicionado", que se vale da infraestrutura das telecomunicações mas que com ela não se confunde. O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), criado em 1995, é exemplo de governança multissetorial que antecede a criação da Icann, em 98. E o CGI.br, em 2009, concluiu o "decálogo" de princípios da Internet no País, para proteger a rede e melhorar o entendimento de seus conceitos.

O "decálogo" foi internacionalmente bem recebido. No Fórum de Governança da Internet (IGF) de 2010, em Vilna, Lituânia, foi saudado como uma conquista importante para a rede. Foi dele que derivou o Marco Civil para a Internet no Brasil, sancionado em 23 de abril de 2014, na abertura do encontro NETmundial, em São Paulo.

Em agosto de 2010 o Chile promulgava a lei 20.453 que trata especificamente de "neutralidade" na rede e que, em seu artigo único, determina: "não se poderá arbitrariamente bloquear, interferir, discriminar, dificultar ou restringir o direito de qualquer usuário da Internet em utilizar, enviar, receber ou oferecer qualquer conteúdo, aplicação ou serviço legal através da Internet..."

E, alvíssaras, o Congresso Italiano acaba de propor para consulta pública uma carta de direitos na rede com 14 princípios. Segue, assim, na trilha do Marco Civil brasileiro, inclusive em relação ao processo, que inclui uma ampla consulta pública. Finalmente, em Portugal uma iniciativa multissetorial para gerir uma organismo privado e sem fins de lucro que administra o ."pt" também acaba de surgir.

A Internet sempre representa uma ruptura de conceitos tradicionais. Mas é sábio e razoável levar muito em conta a soberania nacional. A Internet pode seguir livre e tranquila ao mesmo tempo em que respeita as leis dos países em que se insere. Torçamos para que a Internet sobrenade!

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Salsichas e software aberto

Tive um ótimo professor de química no colegial, chamado Tertuliano. Certa feita, conversando sobre produtos orgânicos, ele fez a seguinte provocação: "digamos que vocês queiram comprar salsichas. Há salsichas a granel, amarradas por barbante e penduradas em ganchos nas feiras. E há salsichas em lata fechada. Qual dos dois tipos lhes parece mais seguro e saudável para o consumo?"

Claro que a resposta simples e imediata foi "as salsichas em lata, professor". Afinal elas não estão expostas ao tempo, às moscas, ao manuseio, e estão bem protegidas pela lata. O professor, entretanto, fez uma observação importante e curiosa: as salsichas a granel estão expostas a tudo e todos. Precisam ser "construídas" levando em conta que devem resistir à sujeira e aos ataques usuais dos insetos. Têm casca grossa e podem ser lavadas várias vezes antes do uso. Já as que estão nas latas dependem da embalagem para sua proteção. Fora da lata são, por si, frágeis e deterioráveis. E, pior, se a lata tiver um defeito que tenha afetado seu revestimento ou permitido a multiplicação interna de bactérias, o risco é grande e invisível!

Voltei a pensar nisso quando, há muitos anos, alguém declarou peremptoriamente que para ter aplicações seguras devemos optar por programas fechados, cujo código não se divulga, porque assim estão a salvo dos hackers. Ora, isso não leva em conta as sábias ponderações do Prof. Tertuliano... Se um software é aberto e suas entranhas visíveis, tanto os bem intencionados como ou mal intencionados (as "moscas") tem o mesmo acesso à sua estrutura. O consumidor pode ter certeza de que tanto as virtudes como os defeitos estão ambos expostos.

Porém, se falamos de software fechado, passa a ser um "ponto de fé" acreditar ou não em sua resistência inata a ataques. Mais que isso, nada nos garante de que ele não se propõe a ir além do que está descrito em seu manual e, eventualmente, comportar-se de forma eticamente falha ou criminosa.

Vejamos um exemplo prático: é pacífico hoje que para termos alguma segurança em nosso computador pessoal e evitarmos contaminações e ataques precisamos de um "antivírus". Mas (e o diabo sempre mora nos detalhes) já paramos para pensar que poderes esse tipo de programa tem em relação ao nosso ambiente?

Ele se comunica com o exterior. Recebe de fora atualizações, novas versões, novas ordens. Não é, portanto, estanque. Por outro lado, é um aplicativo que tem acesso a todos os dados que estão em nosso computador. Que garantias temos de que esse programa tão íntimo nosso, mais que membro da família, não repassará indevidamente dados para fora? Bem, não devemos levar isso a um extremo paranoico, mas cautela (e caldo de galinha) nunca fizeram mal a ninguém.

A moral da história é que se temos dúvida sobre a segurança de um aplicativo, o fato de ele ser de código aberto permitirá (ao menos em tese) seu exame completo e profundo e até o conserto de eventuais falhas.

Quanto mais transparente e aberto um código, mais olhos o examinam e, parafraseando Eric Raymond (A Catedral e o Bazar), "com um número suficiente de olhos, todas as falhas serão óbvias".

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

As heresias

G K. Chesterton, jornalista e escritor inglês, em 1905 definia - certamente de forma provocativa - "herético" como "um homem cuja visão das coisas tem a ousadia de diferir da minha". No ótimo documentário sobre o Paulo Vanzolini, Um Homem de Moral, ouve-se dele: "do povo, de cada um, pessoalmente, eu não gosto, mas do povo em geral eu gosto muito!".

A internet, reflexo como qualquer estrato da sociedade humana, é povoada de indivíduos nobres e também de vilões, dos que são desprendidos e altruístas e, também, dos que caluniam, cometem fraudes e crimes. Há indivíduos de todos os tipos na internet, e deles, certamente, podemos gostar ou não, mas não há como não gostar da rede em si.

E, para definir o que é esse "objeto" de que gostamos e entender do por quê, é necessário estabelecer as características da rede, até para preservá-las e defendê-las. É importante, ao mesmo tempo, lutar pela ortodoxia da internet e pela diversidade de seus heréticos participantes.

Em 24 de abril de 2014, após meses de trabalho coletivo que culminou em dois dias de reunião em São Paulo, cerca de mil participantes concordaram em gerar um conjunto de dois documentos fundamentais para a proteção e evolução da internet: uma declaração de princípios e o que discute a evolução do ecossistema de sua governança.

A NETmundial foi, mal comparando, um primeiro "concílio" da internet, onde se buscou identificar as características e os conceitos da rede. Da mesma forma com que foi fundamental para o cristianismo o trabalho basilar, estruturante e divulgador dos primeiros apóstolos e dos concílios que definiram o seu cânone, a NETmundial pretendeu, humildemente, ter contribuído para que a internet não perca o que a fez grande, onipresente e valiosa. Que tenhamos claro o que se pretende defender e preservar.

Esse conjunto de participantes, que veio de mais de 100 países e representou de forma equilibrada as comunidades interessadas na rede, gerou uma estruturação dos princípios a ser defendidos para que a internet sobreviva da forma com que foi concebida. Neles podemos ler, por exemplo, que "a internet deve continuar a ser uma rede de redes globalmente coerente, interconectada, estável, não fragmentada, escalável e acessível, baseada em um conjunto comum de identificadores únicos...", que "...como um recurso global universal a internet deve ser estável, resistente, segura e confiável..." e que "a internet deve ser preservada como um ambiente fértil e inovador baseado em uma arquitetura de sistema aberto, com colaboração voluntária, gestão coletiva e participação, apoiando a natureza ponta a ponta da internet aberta, e buscando resolver problemas técnicos de uma maneira consistente, aberta e colaborativa". Finalmente, que "... a capacidade de inovar e criar está no âmago do notável crescimento da internet e trouxe grande valor para a sociedade global. A governança da internet deve continuar a permitir a inovação livre de barreiras."

Considerando esse o primeiro esfoço bem-sucedido para acordarem-se princípios que devem ser protegidos por todos, pode-se lê-lo como uma "boa nova" para os adeptos da rede. Um "evangelho" gerado no "concílio" que foi a reunião da NETmundial. E de São Paulo surgiu uma carta aos habitantes do novo mundo da rede, estabelecendo aspirações e desejos.

Nessa analogia de quase dois mil anos, é claro que "heresias" surgem e surgirão. Há os que gostariam de ver a internet com gestão centralizada e concentrada em Genebra, há os que veem nela apenas um ambiente de negócios fabulosos, há os que a veem como ferramenta de aglutinação de partidários, há os que a veem como uma experimentação fundamentalmente técnica. Um cânone torna mais claro para os defensores da rede o que pode ser feito para expurgá-la de heresias que buscam sua destruição.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

As novas coisas

Há um princípio inescapável, uma espécie de "maktub" tecnológico, que nos mostra, historicamente, que "tudo o que pode ser feito, num determinado momento acaba sendo feito". Eletrônica embarcada tornou-se hoje a solução mais simples, flexível e barata para o controle de qualquer dispositivo doméstico. E ubíqua: temos processador eletrônico embutido em praticamente tudo: na geladeira, no televisor, no ar condicionado, no painel do automóvel, no relógio. Esses equipamentos, pelo fato de serem controlados por algum programa rodando no processador, tem agora a possibilidade de serem "ativos". Ao adicionarmos acesso remoto sem fio para "conversarmos" com eles de forma simples e barata (e, por que não, usando a própria internet), não estaremos longe de concluir que, afinal, eles podem também começar a "falar" entre si. Se esses dispositivos podem falar, acabarão certamente por falar entre si. Maktub.

Outra evolução interessante: objetos de menor valor e mesmo descartáveis podem usar RFID, etiquetas digitais legíveis via rádio a certa distância. Isso permite que dispositivos tenham uma forma muito simples de perceber o mundo ao seu redor.

Juntando-se os fatos, pode-se imaginar uma predisposição a que emirja desse cenário uma "consciência das coisas" e que estejamos entregando a elas, de alguma forma, cada vez mais controle e dados de nossa própria vida.

Muito conforto pode advir quando nossos servidores eletromecânicos compartilham do que sabem e procuram agir para nosso bem. Porém, há sempre o outro lado da moeda.

Iniciemos pelo lado positivo. Se nossa geladeira, por exemplo, possuir formas de conhecer o que nela está guardado (com RFID) e souber de nossas preferências, ou do que necessitamos, pode nos avisar se um produto importante está em falta, ou prestes a perder a validade. Mais que isso, pode, usando a internet, pedir automaticamente a algum fornecedor que reponha o estoque. Dispositivos vestíveis como relógios e óculos podem monitorar nosso estado de saúde e repassar qualquer novidade ao nosso médico. Automóveis inteligentes já conversam para negociar ultrapassagens, escolher rotas e saber quando um semáforo irá fechar.

Imaginemos agora esse "admirável mundo novo": enquanto estou fora de casa, meu relógio notou que hoje é meu aniversário e, para me fazer uma surpresa, avisou à geladeira e aos meus amigos próximos. A geladeira apressou-se em reabastecer o estoque de cervejas e encomendou meu bolo preferido, de nozes. O carro estaciona, após avisar o garagem que cheguei e, lógico, o elevador já está esperando no andar certo. Entro e surpreendo-me com os amigos todos me cumprimentando, enquanto o aparelho de som dispara um "parabéns a você..."

Mas a informação "vazou"! "Amigos do alheio" souberam e, de posse do código do prédio, entraram e estão agora "convocando" a todos que se amontoem no banheiro, enquanto fazem uma "limpeza" do apartamento. Ainda consigo ouvir o equipamento de som pedindo por socorro ao notar que está sendo indevidamente desligado!

Sonho? Pesadelo? Aguardemos...

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A encruzilhada da Internet

Em Istambul houve, na semana que passou, o nono Internet Governance Forum (IGF). Um evento grandioso com mais de 3 mil inscritos de todo mundo e com uma agenda com cerca de 200 sessões de vários tópicos.

A primeira reunião do IGF foi em 2006, em Atenas, com 300 participantes e, no ano seguinte, o IGF foi realizado no Rio de Janeiro, quando já havia mais de 500 participantes. Entre os temas tratados nessa edição, estão neutralidade da rede, interesse público, proteção à criança, legislação e o risco de fragmentação da rede. Tratar de algo que desconhece fronteiras sempre traz desafios e tensão aos mecanismos de aplicação das leis nacionais e de soberania.

Outro tema quente diz respeito à transição da Internet Assigned Numbers Authority (Iana). Nos anos 80/90, esse grupo era composto por pesquisadores liderados por Jon Postel na University of Southern Califórnia (USC), que cuidavam de três tópicos críticos para Internet nascente: a atribuição de números IP às redes ingressantes, a manutenção da base de informações sobre protocolos-padrão e parâmetros técnicos referentes ao funcionamento da rede, e a manutenção e atualização do conteúdo da raiz de nomes da Internet.

É nesta raiz que toda a estrutura de nomes está "ancorada" e nela constam os domínios de nível mais alto (TLD), sejam eles de país, como o ".br", sejam genéricos, como ".net" e, agora, ".rio", além de outros. Com o crescimento da rede, o Departamento do Comércio (DoC) dos EUA entrou em cena em 1998 e chamou organizações sem fins de lucro para que se candidatassem a assumir o papel e as funções da Iana.

A Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann), uma ONG instalada em Los Angeles, ganhou o contrato no final de setembro de 1998, um ano bastante tenso e tumultuado para a Internet. Cerca de um mês depois de a Icann assumir a Iana, Jon Postel faleceu. Sem ele, um clima de incerteza pode ter motivado um novo contrato, firmado entre a National Telecommunications and Information Administration (Ntia, vinculada ao DoC) e a Icann; que passaria a "supervisionar" a manutenção da raiz.

Qualquer alteração proposta e aceita pela Icann e pela Iana só poderia entrar em vigor após passar pelo crivo da Ntia. O contrato dava a um único instituto de governo o privilégio de autorizar ou não a alteração na raiz. E, pior, o que parecia ser provisório foi se eternizando. Em março de 2014, pouco antes da NETmundial, importante reunião realizada em São Paulo, a Ntia surpreendeu ao anunciar que pretendia não mais renovar o contrato trianual com a Iana, quando de seu término em 2015. Uma boa notícia! Resta ver quais propostas surgirão para assumir (ou, até mesmo, eliminar) o papel de "avalizador" das alterações na raiz de nomes da Internet.

Discute-se assim, em Istambul, a encruzilhada atual da Internet. Que esses temas sejam tratados em Istambul, um caldeirão de culturas e tradições, não deixa de ser intrigante. É, certamente, muito adequado cuidar aqui de Política, na mais profunda acepção etimológica do termo. Tratemos de política "na Pólis", em grego "éis tin Póli", expressão cujo som gerou "Istambul".

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Vai no 'quilo' ou no 'bufê', chefe?

Uma das rupturas da Internet em relação à gestão tradicional das telecomunicações está na maneira de tratar a cobrança dos serviços. Na Internet a forma de cobrar nunca foi preocupação. Já nas telecomunicações geridas pela União Internacional de Telecomunicações (ITU), gerar a "conta" para o usuário é tema central.

A telefonia tradicional usa uma tecnologia conhecida como "comutação de circuitos". Um caminho é reservado entre origem e destino durante toda a conexão telefônica, mesmo que o usuário fique em silêncio. E a cobrança leva em conta a duração e a distância da chamada. É bem mais caro ligar para alguém na Ásia que para um vizinho de bairro. Na Internet a tecnologia é outra: a "comutação de pacotes", usada no TCP/IP. Os "pacotes de dados" originários de uma "conversa" disputam com outros "pacotes" os caminhos possíveis na rede, gerando uso mais eficiente dos recursos. Nem o tempo de conexão, nem a distância fazem parte do ambiente internet.

É verdade que no início, quando a infraestrutura era precária e o acesso à Internet era ainda sobre telefonia, a forma usual de cobrança podia envolver o tempo de conexão. Mas à medida que os cabos ópticos e a banda larga se disseminaram, aumentou tremendamente a capacidade de transmissão e a Internet pôde voltar ao modelo de cobrança baseado em aluguel de "banda", de capacidade, tornando-se esse o padrão para a conexão doméstica.

Cobrar por capacidade pode parecer estranho se comparado à telefonia, mas há muitos casos rotineiros em que se paga algo fixo, definido estatisticamente. Aluguel de automóvel sem limite de quilometragem, passaporte para parque de diversões e restaurantes fornecem exemplos. Pode-se ir a um restaurante e pagar fixo ("bufê") com consumo livre, ou escolher pagar pelo "peso" da refeição. Ambos os modelos se sustentam perfeitamente.

Voltando ao acesso doméstico à rede, o usuário pode escolher quanta "banda" quer contratar (qual a "bitola do cano" que o conectará à rede) e o provedor usará uma tabela calculada estatisticamente para definir o valor a cobrar. É sobre essa banda IP que rodarão serviços de texto, som, vídeo ou, até, telefonia. É o modelo Internet em ação. Por outro lado, se o assinante de um serviço móvel faz uso de 3G ou 4G, ele estará usando como base de acesso a telefonia tradicional. Sobre ela poderá receber Internet e seus serviços, mas neste caso a estrutura subjacente tem sua raiz no modelo telefônico.

Ou seja, a forma de cobrança pode se basear, agora, na utilização da infraestrutura, no consumo, e não na capacidade de banda. Diga-se, por sinal, que a estatística aqui é bem mais complexa porque pode haver concentrações típicas em eventos, congestionando a célula local que atende os assinantes em cada instante.

Usar a rede sem preocupações com tempo de conexão e com tráfego de dados gera uma postura mais reflexiva, mais contributiva e traz mais riqueza à Internet. À época do acesso discado, depois da meia-noite o gasto era um único pulso telefônico e muitos esperavam a madrugada para ir à rede. Esta restrição ficou no passado. Que outras, evitáveis, não surjam hoje.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Não se mata o mensageiro!

Dois dos três pilares básicos do Marco Civil foram analisados, superficialmente, nesta coluna: neutralidade e privacidade. Resta tratar do terceiro, a correta responsabilização das más ações na rede. A internet sempre se pautou por usar do bom senso quando da definição de suas funcionalidades. Sempre que possível, os modelos tradicionais, simples e fáceis de justificar, são os preferidos nas implementações. O protocolo que define "e-mail", por exemplo, chama-se SMTP (Simple Mail Transfer Protocol) e, não por acaso, imita o correio tradicional em muitos pontos. Um deles é não pedir autenticação ao remetente. Da mesma forma que o correio trabalha, basta usar um envelope devidamente formatado e endereçado para que seu conteúdo seja entregue ao destinatário.

Por outro lado, a internet é uma rede baseada em protocolos e que pode, em tese, controlar tudo o que nela se passa. Se a isso adicionarmos a crescente aspiração por segurança, está montado um caldo que pode gerar uma rede não apenas monitorada, mas com censura embutida, empobrecimento nos conteúdos e sem garantia de um florescimento livre.

Quando alguém considera-se atingido por conteúdo ofensivo, mentiroso ou calunioso, certamente pode e deve procurar alívio. Mas não é o portador do mau conteúdo o responsável, ou mesmo corresponsável. Permitir que o intermediário possa ser automaticamente considerado como corresponsável, quando ele se recusa a cumprir um pedido de usuário para remoção de conteúdo, pode ser uma forma de chantagem que abrirá as portas para uma autocensura. Ninguém, especialmente um pequeno empreendedor, quer ser responsabilizado por coisas que seus frequentadores dizem ou fazem. Se essa regra não ficar bem definida, empreender implicará em correr riscos jurídicos grandes e, pior, desconhecidos.

O Marco Civil estipula que o responsável pelo conteúdo é quem o gerou e publicou, não a "parede" em que ele foi escrito, o envelope em que ele foi remetido ou a rede social em que surgiu. Além disso, não compete ao intermediário avaliar e diferenciar o que seria calúnia do que é mera polemica ou denúncia. Para isso há o Judiciário, que examinará o material e decidirá se o solicitante tem razão em pedir sua exclusão, ou é algo lícito, que pode permanecer. É claro que, havendo ordem judicial de remoção, o intermediário passa a ser responsável pelo seu cumprimento nos prazos estipulados.

Em decisão do STJ, anterior ao Marco Civil, lê-se: "O dano moral decorrente de mensagens com conteúdo ofensivo inseridas no site pelo usuário não constitui risco inerente à atividade dos provedores de conteúdo, de modo que não se lhes aplica a responsabilidade objetiva prevista no art. 927, parágrafo único, do CC/02". É exatamente esse princípio que o Marco Civil defendeu.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Privacidade, isso ainda existe?

...  e o que vocês sussurraram aos ouvidos, dentro de casa, será proclamado dos telhados”
Lucas 12:3

Houve um tempo em que a Internet era considerada o livre mundo da anonimia, da invisibilidade na ação, do não monitoramento, Lá se podia interagir sob o manto de um pseudônimo e a nossa navegação nunca seria rastreada. Mas essa concepção da rede é fundamental e tecnicamente errada. Sem falar nas recentes revelações de Edward Snowden, os desenvolvimentos e serviços que surgem comprometem ainda mais a possibilidade da ação anônima na Internet.

O primeiro aspecto a considerar é que a tudo na Internet depende de protocolos. Se visitamos um sítio, nossa intenção de lá entrar é conhecida pelo servidor, que nos dará (ou não...) permissão de acesso. E, claro, todos somos identificados pelo nosso número IP, tanto visitantes como visitados. Assim, ao contrário de serviços no mundo tradicional, onde podemos ouvir rádio ou assistir à TV sem que as emissoras apercebam-se disso, um acesso a um emissor de rádio na Internet depende de autorização para que nosso IP possa receber o fluxo de dados correspondente e, certamente, esse fato pode ser arquivada para o futuro. Ou seja, uma emissora na Internet sabe exatamente que IPs recebem seus dados a cada instante.

Mais que isso, e até para algum conforto adicional, muitas vezes somos “carimbados” pelos sítios que visitamos para sermos reconhecidos em uma eventual volta. Como o que se passa quando alguém sai de uma festa mas a ela pretende voltar em seguida. Esses “carimbos”, os “cookies”, nos facilitam a vida porque não precisamos nos reidentificar a cada passo mas, por outro lado, deixam em nosso sistema marcas que podem durar por bastante tempo. O navegador que usamos exibe os “carimbos” quando voltamos ao sítio, para sermos reconhecidos como usuários e para que uma interação, eventualmente interrompida, possa continuar de onde parou. Podemos instruir o navegador para que não aceite “cookies”, mas isso pode ser um estorvo grande para a nossa interação.

Outras ameças existem: o uso da rede para armazenamento de dados pessoais pode expô-los aos que gerem os serviços. Pode acontecer com o nosso correio eletrônico, com listas de endereços, com redes sociais. A capacidade assombrosa de processamento que há hoje permite que se possa ir além: pedaços de informação como palavras que buscamos, números IP usados, horários e sítios que visitamos, podem ser agrupados e acumulados, identificando-nos virtualmente. Mesmo que nossa identidade não esteja claramente lá, a individualização da informação levará fatalmente a que sejamos localizáveis pela tecnologia conhecida como “big data”. E com a adição, em breve, de nossos equipamentos caseiros à “internet das coisas”, ainda mais dados, preferências e características pessoais serão automaticamente coletáveis.


O Marco Civil trata da preservação da privacidade possível, ao restringir a coleta de informações àquelas que são diretamente ligadas à transação em curso. É claro que quando usamos um banco pela rede, tanto o banco como nós mesmos devemos ter certeza de quem é o interlocuotor. Idem se compramos algo pela rede, a ser entregue em um endereço físico. Nossa privacidade depende do contexto: ela é diferente numa roda de amigos, numa livraria ou num banco. Mas, certamente, não é assunto da livraria ou do banco saber quais são nossos amigos, da mesma forma que não compete a quem nos transporta ao banco ou à livraria saber o que fomos fazer por lá. O Marco Civil estabelece que as infomações coletadas devem ser as que dizem respeito ao dado contexto, que devemos ter sempre o direito de saber quais informações serão coletadas e que podemos, em caso de não concordar em usar o serviço, de pedir que nossos dados sejam descartados.

domingo, 13 de julho de 2014

A Internet nasceu neutra e deve permanecer assim

O “Diccionario da Língua Portugueza”, de Antonio de Moraes Silva, de 1789, define neutralidade como a “indifferença do que não toma bando, nem favorece nenhum dos partidos”.

Há três semanas entrou em vigor o Marco Civil da Internet. A lei colocou o Brasil na vanguarda dos países que protegem a rede e seus usuários.

A discussão que precede a aprovação do Marco Civil estendeu-se por anos e teve um de seus focos principais no tema da neutralidade. A lei aprovada defende a neutralidade da rede, mesmo entendendo que pode haver casos de exceção a ela, a serem individualmente tratados em eventual regulamentação adicional posterior.

Alio-me aos que defendem intransigentemente a neutralidade da rede, até porque é algo que deve ser buscado em todos os ramos de atividade e em todas as transações. A rede nasceu neutra, permitindo comunicação direta entre origem e destino da informação, sem admitir que alguém no meio do ambiente filtre ou bloqueie os dados que trafegam.

Não era conceito novo: tanto nos correios como na telefonia pressupunha-se que ninguém interferisse ilegalmente no conteúdo que lá trafega. Mas a neutralidade da Internet alcança outros níveis, especialmente devido à constante possibilidade de inovação.

Ninguém imaginava em 1990, por exemplo, que a web surgiria e menos ainda avaliaria seu impacto. Ou que as redes sociais teriam o alcance e o poder que lograram em poucos anos. É fundamental, assim, que a Internet seja preservada como um “jardim sem muros”, onde novas aplicações surjam de um dia a outro e estejam ao alcance de todos.

Ao contrário do que se passa, por exemplo, na distribuição de TV por assinatura, onde canais novos têm que ser subscritos pelo assinante, na Internet todos, independentemente da quantidade de banda que assinam, podem ter acesso às “novidades”. Assim qualquer novo serviço sobre a rede será passível da experimentação e sujeito ao crivo dos usuários. Sobreviverá ou não devido a seus méritos e características, como tem sido a regra na rede.

Tratar por igual os serviços não impede que os haja gratuitos ou pagos, bons ou ruins, leves ou demandantes de recursos, mas atribui ao usuário o poder de escolha ao acessar o que quiser, e pagar pela quantidade de banda que pretende ter. Isso é bom para o mercado, bom para o usuário e bom para o empreendedor.

E exceções? Apenas para citar uma, há práticas mal intencionadas na rede, que visam minar a própria neutralidade dela e que, portanto, devem ser tratadas como exceção, para a própria preservação da neutralidade ampla. Parece uma contradição, mas isso ocorre quando se detecta um ataque do tipo “negação de serviço”, quando alguém quer impedir que um site ou um serviço seja acessível aos demais usuários, usando para isso de meios automáticos que geram uma sobrecarga artificial.

A forma de amenizar esse tipo de ataque passa por filtrar endereços da origem do ataque. Ou seja, pode haver necessidade específica de interferir no processo “fim-a-fim” da Internet, exatamente para preservá-lo neutro.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Vinho com gosto de vinagre

Com mais de 3 mil participantes, a 50ª reunião da Corporação da Internet para Designação de Nomes e Números (Icann) em Londres, semana passada, foi a maior até hoje. E entre os temas mais discutidos, o vinho!

Não a bebida em si, mas ela na forma de dois domínios genéricos, o “.wine” e o “.vin”, cuja eventual concessão aos solicitantes foi considerada inaceitável por diversos países europeus, liderados pela França. Uma declaração candente da jovem Axelle Lemaire, ministra da França para a “área digital”, ameaça a harmonia dentro do Comitê Governamental Consultivo (GAC) e sua relação com a Icann.

Após a batalha pela reserva do domínio “.amazon”, em que a Icann acatou o aconselhamento do GAC e não seguiu repassando o domínio para a conhecida empresa norte-americana, novos embates se prenunciam.

O motivo desta tensão vem da criação da Icann, em 1998, como uma organização sem fins lucrativos, estabelecida na Califórnia (EUA), e que assumiu a coordenação da raiz da estrutura de nomes da Internet (DNS) e a distribuição de números IP, funções que eram exercidas pela Autoridade para Atribuição de Números na Internet (Iana), sediada na Universidade da Califórnia do Sul (USC) e liderada pelo pioneiro Jon Postel, que faleceu em 1998.

O período de 1995 a 2000 gerou um legado complexo para a Internet. A nascente atividade de registro de nomes de domínio de forma comercial, inaugurada em 1996 quando “.com”, “.net” e “.org” deixaram de ser grátis e passaram a ser geridos por uma empresa, a Network Solutions, atiçou o apetite dos que viam nesse segmento um promissor negócio.

A raiz de nomes de domínio ficou praticamente sem alteração por décadas, constituindo-se dos três citados acima (os genéricos) mais um por código de país, como “.ar”, “.br”, “.de” e outros, totalizando menos de 300. Há dois anos, a Icann aprovou a entrada de novos domínios genéricos na raiz de nomes e esses 300 passarão em breve a ser mais de 2 mil! E há pedidos para tudo: nomes genéricos como “.wine”, marcas como “.amazon”, nomes de cidades como “.berlin”, todos com seu potencial de conflito com estruturas existentes, sem falar da confusão que podem trazer ao internauta. E os governos, representados dentro do GAC, têm opiniões fortes a respeito.

Dentre o leque de atividades que lhe coube ao assumir a Iana, a Icann escolheu dedicar-se quase que exclusivamente a definir a forma de aumentar a raiz de nomes. As reações começam e podem ser bastante duras. Em tempos mais amenos, em março de 1994, Jon Postel, que além de engenheiro era sábio, escreveu no RFC (documento que descreve padrões de protocolos de Internet) 1591 a descrição do que se esperaria encontrar na raiz de nomes: “No Sistema de Nomes de Domínio (DNS) há uma hierarquia de nomes (…) Existem nomes genéricos como “.edu”, “.com”, “.net”, “.org”, “.gov”. “.min” e “.int” e nomes de duas letras que provêm da tabela de código de países, a ISO-3166. É extremamente improvável que outros nomes de domínio sejam criados na raiz.”

As coisas mudaram e não temos mais a avaliação segura de Postel para ajudar.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Internet e seu desaparecimento adiado

Em 2001 me perguntaram qual seria o futuro da Internet. Respondi que para a Internet ser realmente bem-sucedida, ela deveria “sumir” – no sentido de que se tornaria invisível aos seus usuários. Algo do dia a dia, com o qual contaríamos automaticamente e ao qual não prestaríamos nenhuma atenção específica.

A Internet estaria oculta sob as numerosas aplicações bem-sucedidas, da mesma forma que a eletricidade está sob os eletrodomésticos, de forma automática, sorrateira e confiável. Sem saber, estava plagiando o cientista Mark Weiser (autor do conceito de computação ubíqua), que em 1991 havia escrito que “as mais profundas tecnologias são aquelas que desaparecem, que se mesclam ao tecido do dia a dia até dele se tornarem indistinguíveis”.Há hoje, entretanto, uma “pedra no meio do caminho” do apregoado e saudável desaparecimento da Internet. É uma urgência técnica à qual devemos atentar: a migração do IPv4 para o IPv6. Explico: o IPv4 é a versão atual do protocolo básico da rede IP (Internet Protocol), sua língua-mãe. O IPv4 vem com uma numeração que permite “apenas” quatro bilhões de “habitantes” na rede. Pode parecer muito (e talvez parecesse à época, quando os engenheiros Vinton Cerf e Bob Kahn definiram o tamanho e formato do endereço IP), mas é insuficiente para o número de usuários e máquinas da rede de hoje.

A saída é o IPv6. A nova versão do IP terá um número impronunciavelmente maior de elementos conectáveis. O IPv6 permitirá que cada um de nós ligue milhões de equipamentos à rede: será a nova alvorada da Internet, agora como a “rede das coisas”. Assim (e esperamos que pela última vez), teremos que prestar atenção técnica à Internet e a ela dar o tratamento necessário. Mal comparando, seria como trocar o “padrão de tomadas”.

O estoque de IPv4 destinado às regiões do mundo se esgota. Acabou na Ásia há três anos, e na Europa há um ano e meio. Agora foi a vez da América Latina e Caribe. Como sempre, quem está na “região de conforto” usando IPv4 e sem necessidades expressivas de crescimento não dá atenção a providências que não parecem afetá-lo imediatamente.

Mas aqueles que não prestarem atenção ao fim do IPv4 cometerão um erro que pode custar muito caro, tanto em termos de solidez e crescimento da rede, como em termos de novas aplicações e conexões. Ninguém, ao construir casa nova, usaria tomadas do padrão antigo – seria algo totalmente sem sentido. A Internet recria-se a cada instante. Precisa de padrões sólidos e que suportem sua expansão, não de meros adaptadores que prolonguem seu uso sem segurança.

Em suas compras de equipamentos, certifique-se de que eles aceitam IPv6. Fale com seu provedor de acesso sobre a disponibilidade e estimule os serviços que você mais usa na rede para que também sejam acessíveis com o protocolo IPv6. Vida longa à Internet!


DEMI GETSCHKO ESTREIA HOJE COMO COLUNISTA QUINZENAL DO 'LINK'. PERSONAGEM CENTRAL NA HISTÓRIA DA INTERNET NO BRASIL, JÁ FOI DIRETOR DE TECNOLOGIA DA AGÊNCIA ESTADO, EMPRESA DO GRUPO ESTADO, E POR DOIS PERÍODOS DIRETOR DA ICANN, ENTIDADE AMERICANA RESPONSÁVEL PELA GESTÃO DE ENDEREÇOS DA WEB E NÚMEROS IP. DESDE 1995, É CONSELHEIRO DO COMITÊ GESTOR DA INTERNET (CGI.BR).