terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Fantasmas...

É Natal, tempo em que pensamos no que passou, enquanto tentamos manter esperanças no que ainda virá. A importância da data independe da religiosidade de cada um - afinal, em nossa cultura, o Natal e o Ano Novo estão ligados fortemente: vem aí 2019. Essa numeração baseia-se, com maior ou menor precisão, num evento em Belém, que marcou o reinício da contagem do tempo para boa parte do mundo.

A Internet é quase cinquentenária e tentarei uma conexão com uma lembrança igualmente antiga: a leitura de “Um Conto de Natal”, do Dickens. A novela, publicada há 175 anos e que teve inúmeras traduções e adaptações, talvez seja mais conhecida pela sua personagem central, Ebenezer Scrooge, que a Disney transmudou em Tio Patinhas. Qual o paralelo?

Na história, o avarento Scrooge é dono de um pequeno escritório (seria uma “start-up” daqueles tempos?) e tem um único funcionário, que é muito dedicado, mas mal pago. Com quatro filhos - um dos quais bem doente e mesmo sem conseguir fazer frente às despesas, ele mantem a bonomia. Numa noite o insensível Scrooge é visitado pelo fantasma de seu finado sócio, que o adverte a ser atento às agruras do próximo, e anuncia a visita de tres fantasmas, que trarão mais luz para Scrooge se emendar. O primeiro é o fantasma dos Natais Passados, que o inunda de melancolia ao fazê-lo relembrar os tempos de criança, quando para ele o Natal era época feliz. O segundo é o do Natal Presente, que mostra a agitação das compras e comemorações, mas também indiferença e injustiças. Luzes e futilidade. Esse segundo fantasma carrega consigo duas ameaças que poderão frustrar o futuro: a ignorância e a miséria. O terceiro é fantasma dos Natais Futuros. Calado, aponta a Scrooge um porvir soturno, de crescente isolamento e solidão.

A Internet pode representar, ao mesmo tempo, os três espectros que visitaram Scrooge e servir de alerta. A rede nos dá acesso a preciosos documentos do passado, que almas abnegadas colocaram para nosso proveito. Há textos e entrevistas históricas preservados, interpretações emocionantes de obras musicais, um mar de dados e informações para nosso uso, a que não teriamos acesso de outra forma. Por outro lado, o presente da rede tem facilitado o prosperar de tensões e divisões, que antes não eram tão presentes. A vaidade de ser partícipe de qualquer discussão nos exorta a tomarmos posições impensadas, muitas vezes agressivas. A nossa exposição a tudo pode ser um fardo que supere nossa capacidade de assimilação. Quanto ao futuro, acumulam-se incertezas, especialmente se optarmos por trilhar um caminho que dispensa nosso legado histórico. O que o futuro nos reserva dependerá de como interpretaremos os sinais do presente, cada vez mais claros.

Os Fantasmas de Natal converteram o Sr. Scrooge. Quem sabe os Fantasmas da Internet podem agir na mesma direção, perpetuando entre nós o espírito natalino. Em outro texto, bem humorado, Drummond parece entrever que, em época melhor, até a Internet das coisas participará (!). No “Organiza o Natal” achamos: ...”os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, <...> o correio só transportará correspondência gentil”

Tenhamos todos um Ótimo Natal!

http://www.editorarideel.com.br/wp-content/uploads/2015/07/MIOLO_Conto-de-Natal.pdf
https://www.ibiblio.org/ebooks/Dickens/Carol/Dickens_Carol.pdf


Charles Dickens' A Christmas Carol 1971 Oscar Winner HD Richard Williams Animation:

https://www.youtube.com/watch?v=ZTzyC9CZuOA

https://en.wikipedia.org/wiki/A_Christmas_Carol



First edition frontispiece and title page (1843)

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Outros tempos, outros ventos

Jon Postel, pioneiro da Internet e gestor dos recursos coordenados da rede (nomes de domínio e números IP), usou certa vez, em reunião do IETF (força-tarefa de engenharia da rede), uma camiseta onde se lia “vivemos em tempos interessantes”. Se ele estava sendo óbvio, ou era na acepção de Nelson Rodrigues: “apenas sábios, profetas e gênios enxergam o óbvio”. A coisa é, entretanto, mais capciosa do que parece. Na cultura chinesa (… repito como ouvi dizer) “tempos interessantes” são característicos de mudanças, de crises. São tempos de pouca paz, muita turbulência e inquietudes. Desejar a alguém que “viva tempos interessantes” estaria longe de ser um bom augúrio e, sim, quase um esconjuro. Afinal tempos amenos e de enraizamento são “desinteressantes”. Para o bem ou para o mal, vivemos tempos interessantíssimos. 

Há duas semana houve em Paris o 10.0 fórum de governança da Internet (IGF). Na abertura, discurso do português António Guterres, secretário geral das Nações Unidas, seguido pelo do presidente da França, país hospedeiro, Emmanuel Macron, ambos disponíveis na íntegra na rede a quem quiser aprofundar-se. Limito-me a registrar que Macron discorreu por mais de hora, e abordou temas improváveis a um presidente, até pela abundância nos detalhes técnicos. Não tentarei analisar o cerne do discurso mas, de forma superficial, pareceu-me claro que ele se propõe a encabeçar uma “terceira linha” na rede, sua alternativa ao embate “lado norte-americano” versus “lado chinês”. Há, é claro, motivação pessoal e busca de espaço, mas penso importante não cairmos em generalizações fáceis, que parecem atender às angústias desses “tempos interessantes”. Pelas tantas, ele propõe a busca do que seria uma “Internet higienizada”, e uma nova abordagem de regulação, partindo da base, diversa da tradicional que parte do topo. Em tema de Internet, devemos ter cuidado com ambas as abordagens, seja para não cair em censura central, seja para não dar um poder desmesurado a quem apenas é uma aplicação privada sobre a rede.

O desse raciocínio é perder-se de vista a floresta ao nos concentrarmos nas árvores. Há que se ter clara ideia de como conceituar a Internet, separando-a das aplicações que nela nascem (e morrem) o tempo todo. A rede básica é o conjunto de protocolos e equipamentos que nos permite ir a qualquer destino, sem restrições. Centra-se aí o conceito de neutralidade e a luta para manter a rede aberta, universal e única. Quase equivale ao direito de ir e vir. As “ruas” da Internet transitáveis igualmente por todos, mesmo que a “casa” em cuja porta batemos não nos dê acesso. Ou nos cobre pelo acesso. Aplicações criadas na rede não se confundem com o caminho até elas, e a rede permanece, mesmo que o conjunto de suas aplicações mude ao sabor das preferências dos usuários. Como no coliseu romano, nosso “clique” é nosso voto e ele decide quem terá sobrevida. Exemplos não faltam: o que é feito do “MySpace”, do “Orkut”, do “Second Life”, do “Pokémon”...? Mudam os ventos, mas a rede deve seguir adiante.

Respeitando as regras básicas da Internet, seus protocolos aceitos por consenso, estamos livres para criar novos artefatos e submetê-los ao crivo dos potenciais usuários. A rede, este ecossistema espantoso e livre, deve permanecer íntegra.



http://igf2018.fr/wp-content/uploads/2018/11/WIP-Paris-Messages-.pdf

https://www.intgovforum.org/multilingual/content/igf-2018-speech-by-french-president-emmanuel-macron

https://www.intgovforum.org/multilingual/content/igf-2018-address-to-the-internet-governance-forum-by-un-sg-ant%C3%B3nio-guterres

https://www.cfr.org/blog/unpacking-frances-mission-civilisatrice-tame-disinformation-facebook