terça-feira, 28 de maio de 2019

Quase-Direito

“Revolução Digital” é palavra de ordem. No lugar de “digital” (que remete a dígito ou dedo) poderia ter-se usado “discreto”, antônimo de “analógico” ou “contínuo”. Mas, convenhamos: a revolução que está aí é tudo menos “discreta”... 

Se correio, telégrafo e telefonia já permitiam conexões entre os cidadãos do mundo, a forma com que essa interligação passou a ser operada hoje é algo incomparável: por primeira vez temos uma “comunicação franca” ao alcance de todos. E há rupturas sociais muito maiores do que simplesmente a introdução da informática, da automação, da eletrônica em nosso dia a dia. 

A Internet realizou a interpenetração de fronteiras físicas. Se nos referirmos ao Tratado de Vestfália, a consolidação do moderno conceito de nação tem menos de 400 anos, com definição de “soberania” e introdução da diplomacia nas negociações. Fronteiras físicas são elementos cruciais das nações. A imposição de leis e normas sociais fica adstrita aos limites físicos dos estados nacionais. Há tratados internacionais que buscam homogeneizar comportamentos e ações, mas são raros e de difícil consecução. 

Quando estamos discutindo algo em um grupo, é claro que não é necessário que os participantes ou o gestor do grupo estejam localizados no país cuja língua está sendo utilizada. Muito menos a plataforma na qual o grupo se articula. Então, em situações dessas, em face de potencial abuso, como definir qual lei foi burlada, se não é claro o contexto sociocultural nacional que se aplica? 

Outro ponto a ponderar é que, longe de nações ou de associações convencionais, a proximidade física concorre pouco para o alinhamento de grupos de discussão. Buscamos afinidades de temas, ideias e posicionamento, mais do que vizinhança física. As tensões que surgem hoje pouco se relacionam a países e fronteiras, mas sim a linhas de pensamento, de negócio e de poder. Uma corrente que queira atacar a posição oposta, encontrará aliados em diversos lugares do globo, prontos a cerrarem fileiras. 

Buscar legislação de consenso é uma forma de atenuar o problema. Mas tratados internacionais, além de difíceis de obter, demoram muito mais do que os novos tempos exigem. Buscar homogeneização entre leis nacionais pode ser parte da solução, como parece estar sendo o caso da proteção de dados individuais. Outra forma, conhecida como “soft law” ou “quase-direito”, é buscar um consenso não formal nesses temas. Nessa linha, em junho haverá em Berlim a terceira reunião de “Internet e Jurisdição”, conferência que debate temas transfronteiriços em três vertentes: dados, conteúdos inadequados, e nomes de domínio.

O “quase-direito” é uma forma de articulação que pode nos livrar de alternativas bem ruins. É recorrente a ameaça, lançada de tempos em tempos por países descontentes com a rede mundial, de estabelecerem-se também “fronteiras” para a Internet.

Essa opção, de “fragmentar” a rede, representaria abjurar a revolução que ela trouxe, tornando-a uma realidade nacional contida nas fronteiras físicas, com características locais. Mas mesmo para as nações que não se sentem confortáveis com o cenário global, fragmentar a rede implicará, para elas também, na perda de acesso ao enorme mercado além das fronteiras físicas. Terão elas coragem de “trucar” aí? A emenda pode sair pior que o soneto.


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Internet & Jurisdiction Policy Network
https://www.internetjurisdiction.net/


https://www.reddit.com/r/MapPorn/comments/4qemua/map_of_europe_after_the_treaty_of_westphalia_24th/





terça-feira, 14 de maio de 2019

Os Contos do Internauta

Ernst Hoffmann escreveu três contos curtos em que a personagem principal era ele mesmo. Foram base para uma interessante ópera de Offenbach, “Os Contos de Hoffman”. Conhecido por operetas espirituosas e alegres, Offenbach não queria morrer sem deixar uma obra de cunho mais sério e dedicou seus últimos anos escrevendo essa obra. Não viu a estreia: faleceu pouco antes. 

Hoffmann está perdidamente apaixonado por Stella, misteriosa artista. Um vilão demoníaco, o conselheiro Lindorf, com nomes diferentes permeia toda a ação, sempre destruindo os planos de Hoffmann. 

No primeiro ato as desventuras de nosso herói o ligam a uma boneca mecânica, Olympia, que se move por conta dum mecanismo a corda. Os idealizadores da boneca atraem Hoffmann e, com óculos especiais, o fazem supor que o que vê é, sim, uma belíssima moça real, por quem imediatamente se apaixona. Uma ilusão não muito distante da “realidade aumentada” de hoje. Ao tentar dançar com Olympia, quebra os óculos e a ilusão se desconjunta. A segunda aventura se dá com Antonia, cantora de voz maviosa sobre quem pesa um fado cruel: se Antonia insistir em cantar, morrerá da mesma forma que morrera sua mãe, também cantora famosa. De novo Hoffmann se apaixona, e de novo o maléfico se interpõe e faz com que Antonia, resolvendo-se a cantar, acabe por morrer. O terceiro ato passa-se em Veneza. Ouve-se a famosa barcarola e os amores de Hoffmann vão para Giulietta, uma cortesã sem escrúpulos. Outra vez o inimigo destrói os planos de Hoffmann, que acaba por perder a própria sombra. Giulietta morre envenenada por engano. Stella, a mulher ideal, seria a soma das três: teria a beleza e a técnica de Olympia, a arte de Antonia, a paixão erótica e o gosto pelo poder de Giulietta...

Para um Hoffmann internauta, Stella poderia ser a personificação da Internet. Ele busca na rede técnicas que lhe permitam ver belezas agradáveis, extasiantes, mas irreais. Inteligência artificial, realidade expandida, internet das coisas remetem a Olympia: elas nos apaixonam e, ao mesmo tempo, nos fazem correr riscos ou cair em armadilhas. Não basta Olympia, adicionemos Antônia, e teremos acesso à arte e à cultura como nunca antes. Visitaremos museus em que não pisaremos, vocalizaremos muitas ideias, às vezes mal definidas e superficiais, com todos, o tempo todo. O risco é que a verdadeira arte e cultura com o tempo sufoquem, como aconteceu com Antonia, que não poupou sua voz. Finalmente, Giulietta: o brilho da paixão por ganhos rápidos na rede, por iniciativas e empreendedorismo pouco pensados, pode esconder venenos. E está visível o acúmulo de poder em poucas mãos, com a correspondente ânsia para obterem nossa sombra (ou será nossos dados??).

Amamos nossa estrela Stella e queremos preservá-la como a imaginamos, sem deformações. Olympia, Antonia e Giulietta nos trazem riscos variados, de toda a espécie, mas o principal risco é perder o que mais almejamos: a integralidade da experiência que a Internet nos proporciona.

Hoffmann começa a ópera numa taberna, totalmente bêbado, e é lá também que a encerra, embriagado, decidindo renunciar a Stella e voltar a ser poeta. Mas nos “Contos do Internauta” propomos um final diferente: Stella não será perdida!


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Uma ótima interpretação da canção de Olympia, "Les oiseaux dans la charmille"
com Natalie Dessay:

https://www.youtube.com/watch?v=InAxtPyZVKI

E o "poster" do filme  de Michael Powell e Emeric Pressburger (1951):