terça-feira, 18 de junho de 2024

ICANN e o martelo

A ICANN80 foi em Kigali, Ruanda, por sinal uma bela cidade. ICANN, uma corporação sem fins lucrativos, assumiu o papel da antiga IANA (“autoridade” de distribuição de números da Internet) adicionando “nomes” à definição. Cabe a ICANN coordenar a “raíz de nomes” da rede, bem como distribuir os blocos de endereços Ipv6 para os órgãos regionais. Nessa raíz estão do domínios de nível mais alto (TLD) e a ICANN tem se empenhado na criação de novos domínios genéricos (gTLD), dos quais já há cerca de 1500. Os gTLDs são obtidos nos processos de proposta de nomes, e em geral por empresas que querem operar o negócio de registro de nomes de domínio. Além dos tradicionais .com, .net e . org, há os mais recentes, como .jobs, .travel, .fashion, .xyz, .food e muitos outros. Em contraste, os “domínios de código de país” (ccTLD), de duas letras, constam da tabela ISO-3166 anterior à criação da ICANN. Históricamente os ccTLD tinham origem em alguma entidade acadêmica do país e, de alguma forma, representam a idéia inicial da internet, de colaboração e diversidade geográfica. Enquanto os gTLDs são criados por decisão da ICANN e assinam um contrato com ela, os ccTLDs seguem o que se adequa à sua operação local.

A ICANN um organismo multissetorial, com “organizações de suporte” originárias dos gTLDs, ccTLDs e dos orgãos regionais de usuários, além do poderoso “comitê de aconselhamento” constituido por representantes de governos. É natural que ICANN, ao propor mais domínios genéricos, queira assegurar aos governos que isso nâo piorará a já combalida segurança da rede. Os contratos com os gTLDs podem agregar cláusulas neste sentido, e uma das ações bastante discutida em Kigali foi o combate a “abuso de DNS”.

DNS não é mais que uma tradução de um nome para um número IP. Abuso pode ficar caracterizado quando, por exemplo, alguém busca simular um nome existente trocando uma letra: o chamado “phishing”, uma “pescaria em águas turvas”. Por exemplo, há um famoso sítio de banco chamado banco.com, e alguém registra banc0.com (com um zero no lugar do “o”) para iludir o usuário, que pensaria estar acessando um local, mas acaba caindo em armadilha. Nomes de sítios cujo conteúdo é ilegal ou inapropriado, a meu ver, não se enquadrariam em “DNS abuse” mas, sim, em outras formas controle que escapam à ação de um “tradutor de nomes em endereços” como os registros são.

Na ânsia de angariar apoio para a criação de mais domínios, acena-se para uma semântica ampliada de “DNS abuse”. Ora, um registro de nomes deve cuidar para que a estrutura de DNS não seja afetada e para que o nome não esteja imitando propositadamente outro, de forma a levar o usuário ao local errado (“phishing”). Em analogia simplória com a lista de ruas, inserir nela uma Paul1sta com um “1” no lugar do “i” que levasse a um destino ignorado, certamente seria um abuso.

Como DNS é o que ICANN tem à mão, brandí-lo como solução geral lembra o dito: “a quem só tem um martelo, todos os problemas parecem pregos”..

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https://meetings.icann.org/en/meetings/icann80/

https://www.icann.org/resources/pages/advisory-compliance-dns-abuse-obligations-raa-ra-2024-02-05-en




terça-feira, 4 de junho de 2024

Tempo, o Devorador

Há algo muito estranho com o tempo, e não é coisa nova. Explico (ou tento explicar…): à medida que envelhecemos o tempo encurta e passa mais rápido. Esse efeito tem se acentuado com o correr dos anos. Eu primeiro notei isso quando estava no primário, anos 60. Tinhamos vindo ao Brasil em 1954 e morávamos numa mesma casa no Tatuapé. Depois do jantar meu pai e meu tio se reuniam pra debater metas e estratégias familiares. E a discussão muitas vêzes ia prá política, de que eu, claro, entendia bulhufas. Numa das tertúlias pós-janta – e sobre um tema qualquer – meu tio perguntou: “mas isso que você está contando foi quando?”, e a resposta de meu pai: “foi agora! Na segunda guerra”! Numa época em que uma simples aula parecia-me interminável na escola, esse “agora” me deixou perplexo. “Agora”, após uma quase “eternidade” de 20 anos? Que doidice! E em 2024, quando o .br (sobrenome de muitos sítios brasileiros) comemora 35 anos, as discussões sobre como implementá-lo e que regras adotar, parece-me foram “ontem”…

Essa sensação de celeridade e volatilidade, só faz crescer. Discutimos hoje como “domar” a IA, ou, ao menos, “domesticá-la”. Uma consulta hoje a documentos a que a Internet nos facilitou o acesso, revelariam o quão chocante foi, há uns 150 anos, o surgimento do automóvel. Um “auto-móvel”, que dispensava o cavalo! Diz-se que as primeiras regulações sobre a nova “alimária” exigiam que fosse precedida por alguém portando uma bandeira vermelha, alertandohttps://medium.com/@tim_23050/remember-that-guy-with-a-red-flag-walking-in-front-of-the-first-automobile-4e4f8692b601
 da chegada do “beemote”. Isso passou e, claro, regras foram criadas. Semáforos, mãos de direção, faixas de pedestres, preferenciais, permitiram o convívio civilizado com a “criatura”. Não muito diferente foi com a generalização do telefone. Lembro da tentação de ligar para um número desconhecido, apenas para ver se alguém atendia – e nem se tratava de passar trote. O mesmo, com velocidade maior, aconteceu com a internet: os da geração digital nem conseguem idear um mundo sem ela, e ainda estamos absorvendo as mudanças que ela provocou. O acesso que permitiu a todos é uma expansão das antigas bibliotecas, onde todo o conteúdo estava dosponível mas de forma passiva. Com a rede, não apenas lemos, mas podemos comentar, retrucar, divergir, tergiversar. A digitalização, a rede e os buscadores nos trazem tudo o que existe, imediatamente. E IA adiciona um recurso: o “resumo executivo”. Como em todos os “resumos”, esconde-se o risco de manipulação, mesmo que não intencional. Se for intencional ultrapassará o limite do que é legal.

Assim, precisamos ter cuidado com os conceitos que aplicamos, porque podem estar datados. Da época em que tirar xerox de um livro era infringir direito autoral, à nossa época em que o conteúdo dispensa o meio físico, muita coisa mudou. E, afinal, somos o que absorvemos dos outros, por leitura, conversa ou internet. Se IA resume o que a nova “biblioteca de Alexandria” contém, está apenas automatizando o que sempre buscamos fazer com nossa humana lentidão. E, agora, tempus volat!

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Sobre automóveis e o sinalizador humano

https://mmitii.mattballantine.com/2014/01/07/the-red-flag-man/




https://en.wikipedia.org/wiki/Locomotive_Acts

https://www.oceansplasticleanup.com/Politics_Plastics_Oceans_Cleanup/Red_Flag_Act_Locomotive_1865_Cars_Speed_Limits_Man_Running_Carrying_A.htm

THE LOCOMOTIVE ACT 1865, also known as the RED FLAG ACT, required:

1. Self-propelled vehicles to have a speed limit of 4 mph(6 Km/h) in country roads and 2 mph (3 Km/h) in city roads.

2. It should have a crew of 3 – a driver, a stoker and flag man.

3. The flag man need to carry a Red flag and walk 60 yards (55 m) ahead of the vehicle.

This effectively restricted the speed of the vehicle to the walking speed of the man carrying the Red flag. He has to warn the horse carriages about the self-propelled vehicle ahead and ensure that the driver stops the vehicle till the horse or the horse carriage passes by.
The amended Highway & Locomotive act of 1878 reduced the distance of the Red flag man to 20 yards but all the other conditions remained same.
These restrictive rules and regulations choked the development of the British Motor Industry , helped by the Railway and Horse carriage lobbies.

Finally, on 14 November 1896 , the new Locomotives on Highways Act 1896 was passed with the following changes and was applicable to vehicles less than 3 tons in weight.

1. Speed limit was increased to 14 mph (22 Km/h)
2. Was exempted from the 3 member crew as well as the Red flag

To celebrate this event, Harry Lawson of Daimler (England) and his friends organised for the London to BrAssim, precisamos ter cuidado com os conceitos que aplicamos, porque podem estar datados. Da época em que tirar xerox de um livro era infringir direito autoral, à nossa época em que o conteúdo dispensa o meio físico, muita coisa mudou. E, afinal, somos o que absorvemos dos outros, por leitura, conversa ou internet. Se IA resume o que a nova “biblioteca de Alexandria” contém, está apenas automatizando o que sempre buscamos fazer com nossa humana lentidão. E, agora, tempus volat!ighton “Emancipation” run. The London – Brighton run starts off with the symbolic tearing of the RED flag. The London – Brighton run has bee a regular event from 1927 to modern times.

By 1903, the speed limits were increased to 20 mph and later on the laws were repealed.
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https://medium.com/@tim_23050/remember-that-guy-with-a-red-flag-walking-in-front-of-the-first-automobile-4e4f8692b601

"Remember that guy with a red flag walking in front of the first automobile? Here’s why he is back for AI."