terça-feira, 28 de setembro de 2021

Os riscos de regular antecipadamente

Qualquer especulação sobre que futuro nos aguarda, e quais as áreas esratégicas específicas em que investimentos tenderão a gerar efeitos econômicos e sociaispara os próximos anos, leva indefectivelmente à discussão da digitalização e dastecnologias de conhecimento. A mistura dos reais avanços no poder computacional e algorítmico que observamos (com suas correspondentes ameaças), e da atraçãoque chavões publicitários exercem sobre todos, explica a proliferação de iniciativase textos sobre temas como o da Inteligência Artificial. Diversos países empenham-se em desenvolver e implementar estratégias para tornarem-se atores importantesnessa área. A Inglaterra, por exemplo, acaba de lançar um plano decenal parafixar-se como superpotência em IA. E no Brasil também estamos começando umadiscussão ampla da formulação de uma EBIA – Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial.

Os impactos que a implantação maciça de IA traz serão sempre percebidos em todos os aspectos da vida humana, não apenas os tecnológicos e econômicos, mas os sociais e culturais. A limitada capacidade humana de absorção do que se passa pelo mundo está cada vez mais exigida, e isso é acentuado ao sermos expostos, via internet à quantidade imensa de informação e ruído que, certamente, não conseguiremos digerir, nem avaliar. Milan Kundera, em “Um Encontro”, coletânea de ensaios, ressalta que a aceleração da história transformou profundamente a existência individual. Se nos séculos passados “a existẽncia se desenrolava, do nascimento até a morte, em uma única época histórica”, maislentamente que a vida humana, hoje ocorre o inverso. A história escapa ao homemde tal forma que “a identidade e a continuidade da vida correm o risco de se romper”. É mais um argumento para que se acompanhem as formas e os processos com que essa tecnologia - que nem é tão nova - vai interagir conosco, especialmente com o imenso poder que trazem os progressos da área computacional e de algoritmos.

Parece esperado que em outras frentes se busquem atenuar riscos que venha a reboque, e isso é tanto verdade que já há projetos de lei para tratar do tema e, eventualmente, regular o seu uso. Usando o que se aprendeu com a internet nestes anos todos, parece prudente ir com mais vagar e mais cautela: foram quase 10 anos de debates amplos e abertos até a homologação do Marco Civil da Internet em 2014, e seis anos depois veio a lume a LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados. Com essa legislação, sempre muito bem avaliada internacionalmente, o Brasil seguiu sem atrasos e com firmeza na expansão e disseminação da rede. As inequívocas vantagens que o acesso à rede trouxe a todos não impediram que se apontassem riscos e abusos, parte dos quais encontram remédio na LGPD. Outras ameaças de segurança somente serão atenuadas com campanhas e esforços perenes na criação de mão de obra técnica, na disseminação das boas práticas, e numa cooperação multissetorial ampla.

Num ambiente em que já temos alguma proteção, seja por leis criadas para omundo digital, seja pelos princípios constitucionais garantidos, parece prematuro discutir-se já uma eventual regulação da IA. A regra que se mostra sensata é aguardar a melhor definição e desenvolvimento do tema, estimulando-se que o país não “perca o pé” nessa tecnologia, e simultaneamente iniciar debates multissetoriais, a exemplo do que acontece pelo mundo, cuidando da proteção aos potenciais perigos. Tentar antecipar riscos ainda não claramente definidos poderá resultar em perigoso atraso do país nessa arena hoje tão crítica.

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O documento da Inglaterra: U.K Government Publishes 10-Year Plan to Become 'A.I. Superpower'
 https://www.gov.uk/government/publications/national-ai-strategy

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O projeto de lei "PL21 / 2020 e seus apensados":
https://www.camara.leg.br/propostas-legislativas/2236340

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EBIA - Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial
https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/transformacaodigital/inteligencia-artificial


terça-feira, 14 de setembro de 2021

Os riscos da sincronização

A expansão das ubíquas redes sociais já foi tema de diversos artigos, que vão desde uma crescente impossibilidade, por parte de seus integrantes, de distinguirem o verdadeiro do falso no mar de informações que recebem, até comportamentos disruptivos originados por ambiente nunca antes explorado. Fazem-se analogias com bandos de pássaros, cardumes de peixes, enxames de insetos que, em situações específicas, conseguem comunicar-se de forma coletiva, assumindo magicamente configurações altamente sincronizadas, defensivas ou ofensivas.

Não distinguir entre o falso e o verdadeiro, além de ser um problema eterno e insolúvel, parece ser menos propenso a provocar o apocalipse apreogoado. Já do crescente comportamento de “manada” possibilidtado pela rede, podem surgir consequências imprevisíveis.

Segue alguma provocação, de simples observador, tendo lido alguns textos a respeito. Parece sólido afirmar que as pessoas, em sua grande maioria, sempre seguiram posições e ideias dos que consideram dignos de ouvir ou seguir. Afinal, no meio das ocupações diárias nem sempre resta tempo para aprofundamentos em temas diversos. Havia, assim, nosso crítico de cinema preferido que indicará um filme, o analista econômico que escolhemos e que desenhará o cenário vislumbrado, o veículo de informação no qual nos fiamos com mais frequência, etc. Pode-se dizer que, fora da nossa área de experiência, tendemos sempre a acompanhar alguém. Esses “guias” que de alguma forma escolhíamos para acompanhar com mais frequência eram, em geral, poucos indivíduos ou meios de comunicação. E boa parte da população, sempre atarefada, preferiria gastar o pouco tempo disponível com entretenimento, indicado por alguém ou não.

A Internet alterou isso profundamente. Não só há milhões que podemos agora ouvir ou seguir, como nós mesmo podemos tomar posição ou, simplesmente, repetir o que ouvimos e, com isso, também afetar os demais. Se antes, na medida de nossa disponibilidade e conveniência, escolhiamos a quem seguir ou imitar num tema, hoje somos cooptados, não só a acompanhar e emular um número imenso de “influenciadores” e veículos, como a fazê-lo de forma muito rápida e, portanto, superficial. Não precisamos gastar o bestunto para analisar se o que estamos aplaudindo ou repetindo é certo ou errado, verdadeiro ou falso. Bastará que estaja provindo de alguém que faz parte daqueles que seguimos. Assim, a imitação do comportamento alheio – que sempre houve – ganha proporções muito maiores com a Internet.

Outro ponto que pode ser causador de disrupção é a horizontalidade que a rede trouxe. Claro que é fundamentalmente positivo que todos se comuniquem e sejam acessíveis, mas a disponibilidade indiferenciada, potencializada pelo mimetismo citado acima, gera uma vulgarização de intervenções não apenas sem base mas também sem decoro. Afinal se posso me manifestar sobre qualquer tópico – e especialmente se meu líder do momento vai numa direção – posso criticar qualquer posição divergente, independentemente da qualidade ou especialidade de quem a emite. Hoje todos podem desmentir todos e, ainda por cima, em liguagem altamente agressiva, sem que haja nenhuma base factual além dos argumentos “ad hominem”.

Voltando a comportamentos coletivos, redes sociais podem ter consequências para nós ainda não avaliadas. Há na Internet vídeos que mostram surpreendente comunicação entre indivíduos dum bando. Enxames de vaga-lumes, por exemplo, sincronizam-se, e terminam por piscar todos, simultaneamente… Isso pode até ser bom para pirilampos, mas parece-me muito perigoso se humanos, estimulados pela rede, passarem a adotar esse tipo de sincronização.

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artigos sobre os riscos das redes sociais:

https://www.vox.com/recode/2021/6/26/22550981/carl-bergstrom-joe-bak-coleman-biologists-ecologists-social-media-risk-humanity-research-academics

https://www.pnas.org/content/118/27/e2025764118

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auto-sincronização de pirilampos:
https://www.youtube.com/watch?v=d77GdblhvEo&t=70s




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