Afinal, quem não gostaria de ter um auxiliar para organizar a agenda, responder e-mails recebidos, escolher voos e roteiros, resolver os problemas corriqueiros? A lógica é sedutora: afinal, máquinas são projetadas para nos poupar esforço, e aumentar nosso poder de ação. A tentação, agora, seria delegar a elas também as decisões comezinhas da vida.
Essa definição, entretanto, não é simples: nossas decisões não são balizadas apenas pelo bom senso e eficiência. Há fatores internos pessoais, de emoção e subjetividade, que poderiam fazer-nos escolher não ir a uma reunião pré-marcada, ou mudar um roteiro de viagem para evitar repetir alguma experiência anterior ruim... A IA que, por sua natureza estatística e preditiva, tenderá a buscar o caminho mais eficiente, pode ter dificuldade em capturar as nuances da alma humana.
No texto anterior, sobre Sevilha e a Internet, lembrei-me do Grande Inquisitor, no Irmãos Karamázov. Na parábola de Dostoiévski, o Inquisidor prende Cristo sob a alegação de que ele teria jogado o excessivo "peso da liberdade" sobre os humanos. Segundo ele, as pessoas prefeririam pão, milagres e uma orientação clara das autoridades, a uma liberdade que se traduz no peso esmagador da responsabilidade pelas próprias decisões.
Talvez os agentes de IA nos ofereçam o mesmo que o Inquisidor receitava. No lugar do pão, a eficiência, no lugar do milagre, a tecnologia onipresente e, no lugar da decisão própria, a sua delegação a um "outrem" digital. Os agentes não são necessariamente "inquisidores", no sentido de serem opressores mal-intencionados, mas atendem à mesma inclinação humana identificada por Dostoiévski: a disposição de trocar o árduo peso de decidir, pelo conforto suave de ser servido.
A pergunta que resta não tem resposta simples. Não é muito importante se a tutela que está surgindo funciona bem, e se virá a funcionar ainda melhor num futuro muito próximo. O que deve ser perguntado é que tipo de ser humano resultará dessa interação. Toda tecnologia bem-sucedida produz um fenômeno curioso: quanto melhor ela desempenha uma tarefa, menos necessidade teremos de preservar aquele talento. Poucos ainda fazemos contas de cabeça, ou memorizamos telefones ou mapas. Talvez a mesma automatização nos espere quanto às decisões.
A tentação do "deixe comigo" é poderosa porque alivia a ansiedade. Num mundo de excesso de informação e de opções, a paralisia da análise torna-se atraente. O agente de IA oferece uma recomendação clara, baseada em dados. Mas ao aliviar a ansiedade, ele também pode eximir-nos da reflexão e da profundidade da experiência.
De G. K. Chesterton vem uma provocação curiosa: "evolução" seria o oposto de "progresso". Enquanto a "evolução" busca alterar o homem para que ele se encaixe melhor no mundo que habita, "progresso" significaria alterar esse mesmo mundo para o melhor proveito do homem. Estaremos em momento de "evolução" ou de "progresso"?
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"We need not debate about the mere words evolution or progress: personally I prefer to call it reform. For reform implies form. It implies that we are trying to shape the world in a particular image... Evolution is a metaphor from mere automatic unrolling. Progress is a metaphor from merely walking along a road—very likely the wrong road."







