Reencontrei um livro escrito há mais de 100 anos: "Nós", do russo Eugênio Zamyatin, 1921. Lembrava-me dele como um precursor do "Admirável Mundo Novo" (Huxley) e do "1984" (Orwel, que, aliás, explicitamente citou o "Nós" como obra que o inspirou). "Nós" é, assim, uma das primeiras ficções sobre distopias. Torçamos para que permaneça ficção...
No livro, todos os humanos são identificáveis com um número, tem vida com horários muito regulados, e moram em casas de vidro, de forma que todos podem ver o que se passa com seus vizinhos. O mundo é um "estado único" gerido pelo Benfeitor. Zamyatin, engenheiro de formação, localiza na tecnologia e na ciência os riscos que ameaçam o humano. Em "Nós" a tecnologia e a completa racionalidade pretendem inibir qualquer risco antes que ele ocorra. Ou seja, não será necessário punir os crimes, bastará torná-los impossíveis.A Internet começou como uma grande praça global, um "commons", onde todos ganharam voz, eventualmente gerando-se também caos e cacofonia. Nasceu libertária, mas é clara uma crescente tendência de torná-la uma "rede de controle", cenário preocupante, muitas vezes animada com a melhor das intenções: é incontestável, por exemplo, a necessidade de protegermos os mais vulneráveis. Numa praça de proporções mundiais essa proteção buscada poderia assumir formas mais simples, como restringir o acesso, ou liberá-lo apenas a pequenos segmentos, num estilo de "lista branca". Uma vez dentro da praça, porém, parece impossível garantir que todos os que por lá circulam ajam segundo padrões uniformes de cuidado. Ou se atua na porta, controlando quem pode entrar, ou se busca regular o comportamento dos participantes dentro do espaço, mas aí sempre esbarrando nos limites da aplicação de normas locais num ambiente global e descentralizado.
Vejamos outro ponto: ninguém diverge da necessidade de haver um "dever de cuidado". O risco é que, mal calibrado ou vagamente definido, esse "dever" possa migrar para "dever de monitoramento" ou, até, para um "dever de prevenção". Ao mesmo tempo em que impedimos abusos, podemos, por exemplo, acabar com o anonimato legítimo, ou a possibilidade de dissenso. Tornar impossíveis os abusos é um alvo inatingível e, de alguma forma, nos desumaniza. Dá mais amplitude e espaço aos poderosos, que já se valem fartamente de tecnologia e algoritmos para domíniar o espaço de interação humano. Dá-se menos prioridade à punição dos reais criminosos, e passa-se a tratar todos como potenciais infratores, antecipando um dano antes que ele de fato exista.
Em "Nós" Zamyatin propõe "...no paraíso foi dada uma escolha: felicidade sem liberdade, ou liberdade sem felicidade. Não há terceira alternativa". O busilis desse dilema talvez esteja em buscar temperança, morigeração. É o velho aforisma de Horácio, "est modus in rebus", há uma medida nas coisas!
https://en.wikipedia.org/wiki/Yevgeny_Zamyatin
https://en.wikiquote.org/wiki/Yevgeny_Zamyatin
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ECA digital, lei e decreto:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/L15211.htm
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/Decreto/D12880.htm
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De Benjamin Franklin:
‘They who can give up essential liberty to obtain a little temporary safety, deserve neither liberty nor safety.’







