terça-feira, 10 de julho de 2018

Conservadores e a Internet

Especialmente em relação à Internet, declaro-me um reformador-conservador. O verdadeiro reformador, em diversos aspectos, age como conservador. Se por “reformar” entender-se “desconstruir”, se o moto é terra-arrasada em relação ao que existe, melhor seria chamá-lo “demolidor”. Um reformador não visa a demolir uma casa mas, sim, melhorá-la, trocando o que está errado e preservando o que está certo. Em relação ao que nos rodeia, defendamos o que tem valor, independentemente do que diz “a moda” do momento, e tentemos mudar o que parece errado. É importante não ver apenas o errado, mas ver também o certo. É o que diz o velho adágio: ao final do banho do bebê, joga-se fora a água suja, mas não a criança.

A aparição da Internet nos anos 80, sua imediata adoção e espetacular disseminação são motivos de otimismo e esperança: uma aposta na humanidade. Na Internet dá-se crédito inicial ao interlocutor, mesmo contrastando múltiplas opiniões. Debatem-se ideias, apesar do non sequitur de tantos argumentos. Todos ficam expostos a tudo, e isso parece bom e adequado. Ou, ao menos, era bom e adequado quando esses “todos” eram os integrantes da comunidade acadêmica reunida na rede. A expansão trouxe bilhões de internautas, a diversidade cresceu muito – pontos positivos. Mas, em consequência, cresceram também as hordas de ofensores e ofendidos, aumentou a facilidade com que se constroem e disseminam mentiras e factoides e se arregimentam partidários em defesa dessa ou daquela ideia. Focos de tensão importantes e hoje muito discutidos.

Seria esse um defeito da Internet? Dizer que isso é culpa da Internet equivale a dizer que o balançar das árvores causa o vento, ou que somos violentos por termos mãos, ou... bem, chega de analogias ruins. Evitemos diagnosticar errado e medicar pior. Ninguém proporia que as pessoas andassem de mãos algemadas, ou que usássemos mordaças para não nos ofendermos mutuamente. O que é uma clara virtude da Internet – dar voz e ouvido a todos – não pode ser, também, um defeito. Eis onde sou radicalmente conservador: quero preservar a abertura e a liberdade que a Internet nos trouxe, sem abdicar da luta para melhorar o que temos. Discussões acaloradas sempre as houve e todos aprendem a se comportar e a se defender. Quando a rede era desconhecida dos legisladores e dos políticos, ninguém propunha “medidas de proteção” aos que nela se aventurassem. Todos devem responder pelos seus atos mas, a priori, a rede deve ser preservada. O “decálogo” do CGI, base do Marco Civil, dispõe: “o combate a ilícitos na rede deve atingir os responsáveis finais e não os meios de acesso e transporte, sempre preservando os princípios maiores de defesa da liberdade, da privacidade e do respeito aos direitos humanos”.

O que parece ser um problema da Internet é, de fato, um problema dos humanos. Pela chegada constante de novos ingressantes, que experimentam o inebriamento do espaço aberto e da visibilidade que a rede proporciona, deve-se levar algum (grande...) tempo até que a civilidade se reestabeleça (sou um otimista!). Para isso temos de ser “conservadores”, defendendo o que a Internet nos trouxe, do mesmo modo que valorizamos o longo caminho percorrido para chegar até aqui. É um bonito bebê a preservar.

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https://www.eff.org/cyberspace-independence
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We are creating a world that all may enter without privilege or prejudice accorded by race, economic power, military force, or station of birth.
We are creating a world where anyone, anywhere may express his or her beliefs, no matter how singular, without fear of being coerced into silence or conformity.
...


terça-feira, 26 de junho de 2018

Um Mundo, uma Internet

É a senha do Wi-Fi da 62.a reunião da Icann a instituição que cuida de coordenar nomes e números da Internet: “oneworldoneinternet” (“Um Mundo, uma Internet”, em tradução literal). Começou ontem aqui, no Panamá. Dois temas disputam as atenções: os impactos e alcance do Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR) europeu, e a continuidade da discussão sobre como tratar das solicitações de registro de domínios de primeiro nível que conflitem com nomes geográficos, países, regiões, cidades. 

O segundo tema pode ser ilustrado por um caso concreto que continua sobre a mesa agora: o que fazer do pedido de registro de “.Amazon” por uma grande empresa comercial, se o nome também remete a uma região que se estende por diversos países da América do Sul? Há posições de governos e de comunidades que se opõem à delegação pura e simples do nome de domínio a uma empresa, e há, do outro lado, argumentos que sustentam não haver confusão para os usuários. Veremos como isso caminhará.

Quanto ao GDPR, que entrou em operação há menos de um mês, a priori saúda-se enfaticamente uma legislação que visa à proteção de nossos dados e privacidade, cada vez mais ameaçados em tempos de internet e de redes sociais. 

Entretanto, sempre há detalhes. A coisa enrosca no conflito inevitável que há entre a fluidez e, mesmo, a inexistência de fronteiras na rede, vis-à-vis as legislações nacionais, soberanas em seu território. A proteção dos cidadãos de um país poderia se estender e alcançar serviços e indivíduos que estão fora de suas fronteiras físicas? 

Todos queremos uma rede abrangente, única e irrestrita, mas ela colocará em contacto direto, fatalmente, consumidores e fornecedores que estão sob diferentes legislações nacionais, sem falar de culturas distintas. Pode um produtor de cachaça brasileiro vender seu produto a um cidadão do Oriente Médio onde o álcool é proibido? Como e quem sancionar se um cidadão comprar, pela rede, produtos que são ilegais em seu país? E esses são os casos “fáceis”, porque envolvem matéria e há sempre a possibilidade de sustar a entrada de produtos físicos em uma determinada fronteira. O que fazer, entretanto, com dados pessoais ou informações? 


E é aí que o GDPR procura colocar um limite: que tipo de informação pode ser coletada de um indivíduo? Quando se deve pedir consentimento para tomar uma ação que envolva identificação ou coleta de dados do mesmo? 

De novo, é importante e tempestiva a busca por preservarem-se dados pessoais e a privacidade dos indivíduos, mas resta a dúvida se isso é factível sem a consequente extensão da longa mão jurídica para além das fronteiras. É grande a tentação grande, especialmente para regiões poderosas como da Comunidade Europeia, impor sua forma de ver as coisas ao resto do mundo.

Que fique claro: é fundamental proteger a privacidade do indivíduo, enquanto ainda resta alguma, mas também é necessário haver assimilação e entendimento da nova realidade, além do grande esforço em harmonizar interesses e, principalmente, manter o bom senso sobressalente. 

Há riscos do esperado remédio para alguns dos grandes males trazer embutidos efeitos colaterais não avaliados. Lembra antiga frase de Chesterton, que se pode se transpor: “Tecnologia é uma faca de dois gumes. Todos concordamos, por exemplo, que o zepelim é uma coisa maravilhosa, mas isso não impede que um dia possa se tornar algo horrível...”



terça-feira, 12 de junho de 2018

IPv6 e Tubarões


Uma improvável leitora avisa-me que a coluna faz quatro anos dia 16. O primeiro tema abordado foi o perigo do “desaparecimento da internet”, associado ao então próximo exaurimento dos números IP (Internet Protocol) na versão 4 (IPv4). Alertava sobre a necessidade da rápida adoção do IPv6, forma de garantir a expansão exuberante da internet. Semana passada comemorou-se o 60 aniversário da iniciativa global para disseminação do IPv6 (o IPv6 Day). Curiosamente, pode parecer ominoso ao místicos: afinal três 6 justapostos remeteriam ao temido “número da besta”...

Quanto ao IPv6, o Brasil está bastante bem: está entre os 10 países que mais expandiram o uso do novo protocolo, e entre 24 que ultrapassaram 15% de IPv6. Da lista dos “10 mais” constam, na ordem, Bélgica, Grécia, Alemanha, EUA, Uruguai, India, Suíça, Japão, Malásia e... Brasil! É um grupo estranho, com alguns membros menos óbvios, e de quatro continentes, reforçando que a necessidade da adoção impacta a todos. Por sinal a Bélgica, que lidera a lista, foi o primeiro país a superar 50% de conexões em IPv6.
IPv6 e tubarões
É confortador que um protocolo, criado em 1998 para suportar um crescimento vigoroso da internet, finalmente consiga 20 anos depois obter mais reconhecimento e atenção. Assim, pelo lado técnico há boas perspectivas de sobrevivência. Vamos bem.

Mas a internet, ao menos da forma como a conhecemos e como foi concebida, continua em risco. Sou dos que acham que, a despeito das mazelas, aporrinhações e riscos, os benefícios que uma rede única e ubíqua nos traz são incomparavelmente maiores. E quem a coloca em risco, muitas vezes, é quem, na ânsia de remendar e contornar problemas, acaba por criar outros ainda mais graves. Palavras-chave muito ouvidas hoje, como “riscos aos usuários”, “notícias falsas”, “manipulação de fatos”, “arregimentação de incautos”, mesmo representando a realidades da rede, não deveriam ser conduíte para medidas que podem levá-la à fragmentação e deformação, pela perda de suas características principais de abertura e liberdade.

Quando se pensa em adaptar a rede a um agrupamento social ou país, é grande a tentação de extrapolar as fronteiras nacionais e impor seu pensamento à rede toda. Na internet só funciona o que é globalmente aceito: regulamentos locais tenderão a falhar, ou arruinarão a unicidade da rede. É o momento de se discutir a extraterritorialidade de jurisprudências, tema que é cada vez mais crítico.

Mesmo dentro de fronteiras, há que se ter muita cautela em propor leis. Valeria mais, talvez, fomentar a conscientização dos cidadãos quanto ao uso adequado.

Uma comparação, que não se pretende jocosa, é com os riscos do mar. Há, por exemplo, ataques de tubarões no Recife, em praia considerada de risco. Como diminuir esse risco? Certamente o tubarão não reconhece nem respeita leis nacionais. Também não há como “multá-lo” ou “prendê-lo”. Ainda menos sentido faria uma caça indiscriminada visando sua eliminação, ou então, que se proíba o acesso ao mar. Ao lado de eventuais providências técnicas que diminuam os riscos, o básico é incutir-se consciência deles, e agir de acordo. Eduquem-se os usuários, sem esquecer que há – e continuará a haver – tubarões.



Países com mais de 15%  de penetração de IPv6, segundo:
https://www.internetsociety.org/blog/2018/06/six-years-after-state-of-ipv6-deployment-2018/


terça-feira, 29 de maio de 2018

Eça e três pecados sociais


Há uma carta a “Bento de S.” na “Correspondência de Fradique Mendes”, delicioso texto do Eça de Queiroz. É de 1900, mas parece de ontem. Nela a personagem Fradique apostrofa Bento pela ideia de fundar um jornal.

“Meu caro Bento, a tua ideia de fundar um jornal é daninha e execrável. Tu vais concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juízos ligeiros, se exacerbe mais a Vaidade, e se endureça mais a Intolerância. Juízos ligeiros, Vaidade, Intolerância - eis três negros pecados sociais que, moralmente, matam uma Sociedade!”

Três “negros pecados sociais” ainda mais claramente visíveis hoje. Troque-se “jornal” por “rede social” (abaixo troquei por “X”), e teste a atualidade da carta. 

Sobre o primeiro pecado, juízos ligeiros: “é com impressões fluidas que formamos as nossas maciças conclusões. Largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos ‘Este é uma besta! Aquele é um maroto!’. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há ação individual ou coletiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda. Por um gesto julgamos um caracter: por um caracter avaliamos um povo”.

No segundo pecado, a vaidade, em tempos de narcisismo em alta e da compulsiva necessidade de sermos vistos, a carta vai certeira: “a forma nova da vaidade para o civilizado consiste em ter o seu rico nome impresso no X, a sua rica pessoa comentada: eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! O mundo quer agachar sob as duas asas que o levem à gloríola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E é por isso que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os políticos desmancham a ordem do Estado, e os artistas rebolam na extravagância estética, e os sábios alardeiam teorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os gêneros, surge a horda ululante dos charlatães. Vê quantos preferem ser injuriados a serem ignorados!”

Finalmente, a intolerância, o pecado mais atro, cria-se um novo espaço para o seu exercício, baseado em espaços murados: “dentro desse murozinho, onde plantas a tua bandeirola com o costumado lema de imparcialidade, desinteresse, etc., só haverá, inteligência, dignidade, saber, energia, civismo.

Para além desse muro, só haverá necessariamente sandice, vileza, inércia, egoísmo, traficância!”. São esses muros que impedem uma pacificação. Seria possível um eventual “aperto de mãos”, “naquele gesto hereditário que funda os pactos”, “se cada manhã X não avivasse os ódios de Princípios, de Classes de Raças, e, com os seus gritos, os acirrasse como se acirram mastins até que se enfureçam e mordam.”. Mundo dividido entre “réprobos” e “eleitos”. “X exerce hoje todas as funções malignas do defunto Satanás, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o Pai da Mentira, mas o Pai da Discórdia”, lhes sopra na alma a intransigência, e os empurra à batalha, e enche o ar de tumulto e de pó. Não só atiça as questões já dormentes como borralhos de lareira até que delas salte novamente uma chama furiosa - mas inventa dissensões novas”.

E o típico fecho irônico: “Onze horas! Ora esta carta já vai muito tremenda e verbosa. Eu tenho pressa de a findar, para ir, ainda antes do almoço, ler meu jornal, com delícia. - Teu Fradique”. 

Sob o sol, nada de novo...



sexta-feira, 25 de maio de 2018

Em busca de sanidade

Os chineses desenvolveram um sensor que, acoplado a um capacete ou a um boné, capta ondas cerebrais de seu portador e, ao que diz a notícia, será de uso obrigatório em uma gama de atividades. Como sempre, há uma explicação “racional e de boa fé”: imagine-se que um condutor de ônibus esteja prestes a adormecer ao volante. O fiel boné transmitirá essa informação à central, que poderá tomar as devidas providências preservando a integridade física dos ocupantes e do próprio motorista. Em cenário um pouco diferente, chão de fábrica, o sensor detecta que um funcionário está distraído e pode sofrer um acidente ou danificar um equipamento e, de novo, providências serão tomadas.

Mas, se imaginarmos poder medir o grau de insatisfação do operário, uma eventual latente tensão, uma tendência a se desgarrar do rebanho ou iniciar um movimento reinvidicatório, aí a porca torce o rabo. O capacete poderia acionar os setores adequados “de controle”, e a “explicação” ficaria mais difícil. Prefiro correr o risco de algum imprevisto, do que ter meu estado de espírito constantemente monitorado.

Fazendo paralelo com a discussão sobre dados pessoais, creio que não há dado mais pessoal do que o que se passa em meu bestunto.Entretanto nem sempre é tão clara a linha de corte, entre o que se pode e o que não se pode fazer, e há opções que podem nos levar ao oposto do que buscávamos, ingenuidades reais, e as falsas, travestidas de “boa fé”. Adultos devem ser tratados como tais, em seu direito de decidir as barganhas da vida, respeitados os limites éticos. As maravilhas que a tecnologia nos traz não são dádivas gratuitas e, obviamente, há modelo que as sustenta.

Se, por um lado, há que se buscar limite e transparência dos acordos faustianos que estamos dispostos a assinar, por outro não se pode esquecer que o que move o mundo sempre foi a ambição, seja material, seja pelo poder. Ferramentas como buscadores, aplicativos de entretenimento, provedores de informação e redes sociais não são “dádivas” e custam/valem proporcionalmente ao seu alcance e popularidade. E o modelo que as sustente, por ora, é o mesmo do século passado: nós, a plateia, somos o objeto de troca.

Ouvimos rádio, assistimos à televisão, usamos os poderosos buscadores e ferramentas na rede, sem aparente pagamento, mas a um custo. Confesso que carrego no porta-luvas do carro um “guia de São Paulo”, mas sou um recalcitrante. Hoje basta seguir a orientação da mágica vozinha suave, que nos informa “vire à esquerda em duzentos metros”, mas, para isso, devemos liberar nossa localização na cidade, parte da barganha faustiana.

Claro que o usuário concordou em dar a sua localização, como aliás já ocorre no uso do celular, mas será que ele sabe que essa informação poderia ser repassada a outros interessados? Ele concordaria com isso?

http://www.scmp.com/news/china/society/article/2143899/forget-facebook-leak-china-mining-data-directly-workers-brains

https://www.technologyreview.com/the-download/611052/with-brain-scanning-hats-china-signals-it-has-no-interest-in-workers-privacy/


terça-feira, 1 de maio de 2018

Queimando bits.


Em 1953,  ano em que nasci, Ray Bradbury, um cultuado escritor de ficção científica, publicou Fahrenheit 451, seu livro mais conhecido. É a 451 graus Fahrenheit de temperatura que o papel pega fogo. Bradbury trata de uma sociedade em que a “felicidade” é conseguida pela proibição de leitura de livros. Sem a influência “nefasta” dos livros - que fazem pensar, sentir, chorar - os habitantes se divertem participando de “famílias virtuais”, compostas por inúmeros “primos” que, a partir de monitores de TV, trazem diversão anódina e a sensação de pertencimento. Para completar o quadro há, é lógico, uso intenso de pílulas estimulantes e soporíferos. Montag, a personagem principal, é “bombeiro” numa época em que sua a função não é mais apagar chamas em casas incendiadas mas, ao contrário, de procurar (e queimar) livros dos que, desafiando a lei, continuam a guardar exemplares para leitura. Se Mildred, mulher de Montag, está perfeitamente adaptada ao modo de vida, Montag começa a se interessar por aquilo que queima, e tem crescente inquietação e dúvidas sobre o que seria “ser feliz”. Anos antes, em “Admirável Mundo Novo” (Huxley) livros eram irrelevantes por “inúteis”, e em “1984” (Orwell) são proibidos por serem “nocivos”. Fahrenheit 451 consegue juntar essas duas visões e, de quebra, trazer uma dura sensação de profecia realizada.

Ao tema! Todos já recebemos alguma vez, ao consultar um sítio na web, o detestável erro 404 (http) “não encontrado”. É parte de uma família de mensagens de erro (de 400 a 499) associadas ao protocolo de transferência de hipertexto (http). Nem todos os números do segmento estão em uso e, recentemente, mais um foi definido: o 451, significando “conteúdo indisponível por razões legais”. Com o aumento de pedidos de remoção de conteúdo por órgãos de justiça de muitos países, achou-se que valia a pena discriminar o motivo da indisponibilidade. O RFC 7725 define “451” como o código que informará que o conteúdo buscado está inacessível por ordem judicial. De forma inteligente e algo matreira, o autor do RFC escolheu usar 451 e, explicitamente, agradece a Bradbury pela inspiração...Para o fim de transparência, O RFC 7725 especifica também que deve ser adicionada informação que indique o contexto, ou aponte à ordem que levou à exclusão daquele material. Nem sempre, entretanto, esses dados adicionais são providos e o usuário acaba sabendo, apenas, que “não é possível aceder” ao que ele queria...

Há certamente razões sólidas que justificariam a remoção de algo da rede. Mas sempre resta um travo, amargo, que associa eliminação de um conteúdo com a memória de ações indignas e deploráveis, como as que ocorreram na Segunda Guerra e serviram de inspiração para Bradbury escrever sobre queima de livros. Se, por um lado, bits não pegam fogo mas podem ser facilmente apagados, buscando-se de boa fé eliminar conteúdo nocivo da rede e torná-la mais segura, por outro, e especialmente no caso de abusos em regimes menos abertos, pode-se estar pavimentando a estrada da censura e da discriminação. Em 1966 o celebrado diretor de cinema François Truffaut levou, algo higienizadamente, “Fahrenheit 451” às telas. Vale a pena rever.

Algumas frases  em:
https://www.shmoop.com/fahrenheit-451/dissatisfaction-quotes.html

Uma análise em:
https://gabrieladiehlcombr.wordpress.com/2017/09/11/fahrenheit-451-de-ray-bradbury-uma-analise/

http://1.bp.blogspot.com/-sDy0QYIv8eo/VDwmhdaDCWI/AAAAAAAAKj4/7aIsfLybINc/s1600/Fahrenheit451FilmeColagem.jpg

terça-feira, 17 de abril de 2018

Desandou a Maionese!

Uma proeza culinária, que para mim beira o milagre, é a preparação da maionese. Uma coisa de nossas avós, exigia bastante esforço manual, muita atenção e alguma mandinga: bater antes de mexer, usar ou não batedeira, girar no sentido horário ou anti-horário, dizer palavras mágicas... 

Hoje, a maionese se compra industrializada – mais uma das antigas habilidades humanas em extinção...
A dificuldade começa a ficar clara quando se lembra que fazer a maionese exige misturar óleo e água, obtendo uma emulsão homogênea: fazer com que a água e o óleo convivam, pacificamente, sem que cada um busque sua área de conforto. Se a preparação desanda, as microporções de óleo vão se juntar às suas irmãs e, da mesma forma, as gotículas de água vão se agrupar entre sí, e teremos não mais o saboroso creme que queríamos, mas apenas ilhas de óleo e ilhas de água, divorciadas. 
Na maionese, quem realiza a mágica da “comunhão”, segundo me informaram amigos versados em química – os modernos alquimistas – é o ovo. O ovo (mais especialmente, a gema dele) tem a propriedade de se introduzir entre o óleo e a água e prover o convívio pacífico de elementos naturalmente inconciliáveis. O ovo faz parte da turma do “deixa disso!”. Mais ou menos como a cerveja agrega em torno da mesa de bar torcedores de times de futebol diferentes.
Voltemos ao nosso tema canônico: a Internet. O convívio social, especialmente, mudou muito com a Internet, que nos trouxe a perspectiva de que todos falariam com todos e sobre tudo. Seria a enorme panela onde faríamos uma “maionese” complexa e aberta, onde o óleo continuaria óleo e a água permaneceria água, mas haveria uma interpenetração e um intercâmbio com ganho para todos. 
E, de fato, foi assim que começou, para a alegria e o entusiasmo geral. Por algum motivo, ou por ação dos poderes das trevas, a adição de novas levas de diferentes óleos e mais quantidade de água trouxe rancor, agressões e ruptura no tecido em construção...
Como no caso da maionese desandada, os partidários das diversas correntes se reuniram em guetos, e passaram a se atacar mutuamente. Mais por serem de natureza diferente, do que por terem argumentos sólidos contra os outros grupos...
Teriam faltado ou sobrado componentes? Será que a adição não foi acompanhada do pesado empenho necessário em preparar a mistura, do proverbial “bater e mexer” na confecção da maionese? Houve pressa no processo? Ou isso é assim mesmo, estamos sendo exigentes demais, e precisamos dar tempo ao tempo?
Pode ser, por outro lado, que inexista gema de ovo na internet. Alternativas? Dizem-me que a bile, o fel, também é emulsificante. Teríamos usado fel na mistura? Isso explicaria muita coisa... 
Busquei alternativas de compromisso. Aparentemente, o sabão, por ser anfipático (!!!) e ter a propriedade de, em uma ponta gostar de óleo e na outra ponta gostar de água, conseguiria gerar uma mistura homogênea de óleos e água. Claro que seria uma beberagem de gosto horrível, mas teríamos, ao menos, um líquido uniforme, Quem sabe se usássemos o sabão (em nossas bocas) antes de falarmos o que nos vem na telha (na Internet) teríamos uma nova “maionese”, agora talvez bastante insossa e aguada, mas sem desandar. 


terça-feira, 3 de abril de 2018

O Poder da Escolha

Eventos recentes mostraram o quão vulneráveis e expostas na internet são as informações sobre nossas características. Eles aumentaram a sensação de que estamos expostos à manipulação. São tempos fluidos, em que a ânsia de buscar ancorar em algum porto, que nos dê segurança e solidez, muitas vezes apenas aumenta a instabilidade da embarcação, que segue a destino obscuro.

O vazamento de dados na internet traz à discussão o papel dos intermediários e das plataformas. É óbvio que tudo o que nos oferecem prevê contrapartida – afinal trata-se de iniciativas que visam retorno e lucro. Essa contrapartida pode ser abusiva, quando viola preceitos legais, ou apenas oportunista. Para evitar contrapartidas legalmente abusivas há que se lutar por mais clareza na proteção de nossos valores, do que não é passível de escambo; mas tratemos aqui apenas das oportunistas.

É sabido que poucos leem os termos dos “contratos virtuais” ao aceitar as “regras do clube” e, mesmo que não sejam regras dentro do que a lei permite, alegremente dão sua aprovação e partem para o uso. Escrevem, ouvem, falam, criam círculos de amigos que muitas vezes nem são reais ou, se o forem, nunca serão encontrados ao vivo, comentam notícias verdadeiras e falsas dando seu apoio ou rejeição, às vezes discretamente, muitas vêzes enfaticamente. Ora, não é preciso ser bidu para imaginar que, com a capacidade de computação a baixo custo que temos, mesmo que nada seja formalmente “abusado” pode-se levantar detalhadamente um perfil. E se for de interesse do explorador, ele pode mandar mensagens que saberão vibrar a corda certa do usuário, que responderá entusiasticamente à engenhosa maquinação.

Quando se mostram resultados dessas varreduras, corre-se a trancar portas arrombadas. Para tornar o cenário pior, tenta-se erigir a plataforma num Catão moderno, que julgará o que pode ou não ser publicado. O que era para ser apenas um intermediário, torna-se um tutor. Claro que a plataforma alegará que “é difícil fazer o que vocês pedem” mas, em seu íntimo, ela se rejubila porque ganhou poder: examinará o que nela colocamos, e sancionará  o conteúdo. Foi elevada a um patamar que não tinha.

Não creio que este seja um caminho promissor. Pessoalmente, preferiria plataformas mecânicas e “burras”, responsabilizando diretamente aqueles que as usaram pelo mal causado. Há certamente casos em que a plataforma não é nada ingênua, e faz parte de sua estratégia a manipulação dos dados de seus usuários, e estaríamos em um estado avançado de deterioração. Mas mesmo em casos em que não há flagrante e ilegal abuso, persiste a leviandade com que tentamos nos eximir, da falta de uma maior temperança ao nos manifestarmos, a imersão no mar de futricas em que estamos gaiatamente nadando.

Laboramos em nosso desfavor ao pedirmos às plataformas que supram o que deveria estar acima delas: que apaguem coisas de que não gostamos, que desliguem usuários apenas por deles discordarmos. Há, é claro, regras de conduta a serem seguidas e que podem levar a sanção de usuários, mas esse cenário deveria ser estático e não dependente do calor momento. Como disse Joseph Reagle, “na internet, seu clique é seu voto”: afinal quantos ambientes já não sumiram por falta de cliques? Temos o voto - votemos certo!

terça-feira, 20 de março de 2018

Desgraça pouca é bobagem...

Temas quentes na reunião da ICANN, órgão que cuida da raiz de nomes da Internet, em Porto Rico, um Estado associado aos Estados Unidos, incluíram discussão sobre os efeitos da GDPR europeia (regulação geral para proteção de dados) que, potencialmente, pode estender seus braços para além das fronteiras físicas da Europa, em mais um caso de possível jurisdição extraterritorial. 

A intenção da GDPR é altamente positiva e elogiável: proteger o que nos resta de privacidade. Há o risco de “leituras particulares”, expandidas a gosto do eventual oportunismo em monetarizar nossas informações ou criar censura indireta, que podem ameaçar o precário balanço entre transparência, responsabilidade e privacidade. 

Há muitos lobos em peles de cordeiro espreitando por aí e, convenhamos, a expansão rápida da rede provê levas de vítimas, novos usuários incautos à mercê de aproveitadores.

Mas falemos da algo mais divertido, porém não menos emblemático: há uma proposta de uso de emojis como identificadores! Na pré-história da rede (há uns 10 anos) usava-se o alfabeto latino nos identificadores: nomes de domínio, endereço de correio eletrônico, páginas na rede. O conteúdo, sim, podia ser escrito em idiomas diversos,como cirílico, japonês ou grego; mas não os identificadores. 

Uma analogia seria com o velho correio: os dados do envelope (endereço, país) sempre em caracteres latinos e, mais precisamente, em francês. Um operador local de correio não precisaria entender todos os idiomas do mundo para encaminhar uma carta. Imagine-se uma agência de correio brasileira que recebesse uma carta com o endereço do destinatário em árabe: como decidir para onde enviar? A máquina facilitou o “aggiornamento” do sistema e hoje existem os IDN (nomes de domínio internacionalizados) que admitem o uso de diversos conjuntos de caracteres. Posso escrever “estadão.com.br” e chegarei em seu sítio. 

A implementação do IDN exigiu ação rápida da comunidade técnica, para ter uma solução que não afetasse a compatibilidade com tudo o que já existia: o uso do Unicode, padrão que engloba caracteres da várias línguas do mundo. 

Abriu-se um horizonte à criatividade. E se usarmos caracteres semi-gráficos não incluidos em alfabetos? Que tal emojis? Seria uma boa e lucrativa ideia ofertar nomes de identificadores que incluam emojis no meio da cadeia. 

O diabo mora nos detalhes: afinal identificador deve ser algo unívoco. Enquanto um “A” é sempre um “A”, seja minúsculo, verde, itálico, em qualquer fonte, não há a mesma constância num emoji com a diversidade de implementação nas plataformas, e seriíssimos riscos de confusão, sem falar o que se perde em acessibilidade. 

Afinal, como contar a alguém meu endereço se nele há uma caretinha risonha? O risco, que já havia com caracteres latinos, onde um “i” maiúsculo pode parecer um “1”, piorou com o IDN, e chegaria às raias do intratável se emojis fossem incorporados. 

Imaginem as fraudes possíveis se a identificação de meu remetente depender do tipo de “risadinha” ou do “tom de pele” do emoji que chegou? O SSAC, grupo técnico que cuida disso, recomendou fortemente que não se abrisse mais essa caixa de Pandora. Bastam as já escancaradas.




terça-feira, 6 de março de 2018

Internet e Jurisdição

Um tema crítico que precisa ser abordado profundamente é o alcance e a interoperação das jurisdições na Internet. É confortável esquivar-mo-nos de pensar em mais essa ruptura, mas ela nos espreita atrás de cada esquina. Afinal, como fazer valer (… e até onde) legislações nacionais numa “aldeia global”?. A rede, hoje única e sem fronteiras, faz com que os sítios de todo o mundo possam ter ação sobre os internautas. Não há limitação de distância, de língua, de conteúdo ... e, em minha opinião, é muito bom que continue assim. Mas, e se um vendedor usa provedores nos países A, B e C para ludibriar seus clientes que se espalham pela rede? Pode ser fácil e não-polêmica a imediata constatação de que houve fraude, mas como agir? E se, não havendo fraude, o produto vendido, legal nos países A, B e C, é ilegal nos países R, S e T? Ou pior, se a questão não é de produto, mas de conteúdo que, mesmo perfeitamente aceitável em diversos países/culturas, pode ser considerado altamente ofensivo em outros? Estamos aqui sobre o “fio da navalha”: qualquer desvio pode levar à censura, à coerção, à fratura da rede hoje única.

Não creio que se possa “uniformizar” o mundo e os entendimentos que existem. Assim, há que se buscar formas de convivência e ferramentas que possam ser ativadas pelos países localmente, sem esquecer que o alcance dessas medidas é, necessariamente, limitado. Há países, por exemplo, com fortes restrições a bebidas alcoólicas. Poderiam eles pedir que a venda de bebidas via Internet fosse banida? Não me parece sensato, nem possível. Claro que, quando falamos de produtos materiais, cabe à alfândega desses países coibir a entrada, sem interferir no que é disseminado na rede, porém, e no caso do produto ser apenas bits, como conteúdo ou ideias? Proibir o que alguns considerarão “linguagem de ódio”, ou “notícias falsas”, ou “apologia crime” pode ser medianamente praticável dentro de um país, mesmo que eu pessoalmente tenha sérias dúvidas de que haja uma forma racional de qualificar o que isso seja. Mas... e na rede global? Países mais ativos ou preocupados com esses temas tenderão a estender seu braço de atuação para o mais longe possível. Porém se meu braço vai além das minhas fronteiras, o mesmo se dará com braços de outros países, que invadirão o meu espaço nacional...

A discussão sobre se haverá uma jurisdição trans-fronteiras Internet e como isso seria implementável sem ferir a liberdade dos usuários da rede, as culturas regionais, os usos e costumes, foi tema da Conferência Global de Jurisdição na Internet, semana passada em Ottawa, Canadá. Tres linhas paralelas foram discutidas: como tratar “dados”, levando em conta sua necessidade na investigação, em negócios, em transações internacionais, sem atingir privacidade ou leis nacionais; como tratar de “conteúdos”, passíveis de diferentes classificações dependendo de sua natureza e das legislações nacionais, e o que fazer com “nomes de domínio” que possam representar alguma forma de ataque a estruturas da rede ou seus usuários (por exemplo mais simples, domínios que se especializam em fraudes conhecidas como “phishing”). Tres dias de animada discussão, mas ainda longe de resultados concretos. Seguirá em Berlim, ano que vem.



https://conference.internetjurisdiction.net/


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

É Barlow!

Em 7 de fevereiro perdemos John Perry Barlow, um ferrenho defensor dos conceitos fundadores da internet. Era véspera do 22.o aniversário de sua Declaração da Independência do Ciberespaço produzida em 1996, Davos, Suiça, que descreve uma internet ideal, libertária e aberta. Foi também uma reação à emenda da lei de telecomunicações norte-americana, que propunha censura a expressões ofensivas.

Barlow tinha uma vasta gama de interesses, da academia, incluindo passagem por Harvard à contracultura. Definia-se com um “velho hippie”, foi rancheiro, membro e letrista do Grateful Dead, fundador da EFF (Electronic Frontier Foundation), amante de gatos (perdeu seu gato Buck em 2014), ensaista e escritor. Visitou o Brasil algumas vezes.

Do que escreveu, citaria The Economy of Ideas, de 1994. É uma instigante obra que me permite uma historieta: Saí da Fapesp em 1996 e mudei-me para a Agência Estado, cujo time ímpar e foco amplo e atrativo incluia participação em eventos semestrais no Media Lab do MIT, então sob a batuta do Nicholas Negroponte. Num desses eventos (1998?) o tema era “ferramentas de proteção à reprodução dos textos jornalísticos” e internet era o foco, pois era lá que os textos começavam a ser copiados à larga. Durante dois dias ouvimos pesquisadores do Media Lab propondo formas para “marcar” os textos, prevenindo ou identificando cópias indevidas. Sugeriam-se desde sutis alterações no espaçamento de caracteres, adição de assinaturas digitais, até uso de “marcas d´água” invisíveis. Ao final, o contraponto: uma palestra do Barlow. Com botas e cinturão de um rancheiro do Wyoming, e a postura de ativista da contracultura dos anos 70, ele nos daria sua visão do tema. “Vocês estão aqui discutindo detalhes desimportantes. O que cada um de nós produz pouco tem de próprio e muito deve ao lido e aprendido. E, com o fim do suporte físico, sem capas, embalagens, garrafas, a intenção de ´dificultar reproduções da obra´ está fadada à impossibilidade. Tudo serão bits indistinguíveis; não há mais onde colocar etiquetas. Isso não significa que não devamos remunerar, e bem, o autor. O suporte e o intermediário, uma entidade recente, vão sumir. Vejam, quando Bach compunha uma cantata, torcia para que fosse bem recebida e bastante reproduzida, porque isso significaria uma nova encomenda de música, garantindo o seu sustento e de sua numerosa prole. Penso que, uma vez publicada a obra, ela passa a ser de todos. O que eu acabo de dizer aqui, passa a ser de vocês e, por favor, disseminem isso livremente e fartamente. Se essa minha apresentação foi bem avaliada, receberei novo convite para outra palestra e, lógico... cobrarei o dobro!”.

Voltando à Declaração, em tempos de “local de fala” e de hipersensibilidade geral, vale recordar um trecho: “Estamos criando um mundo que todos possam entrar sem preconceitos ou privilégios de raça, poder econômico, força militar ou local de nascimento. Estamos criando um mundo em que qualquer um, de qualquer lugar, possa expressar suas ideias, por mais singulares que sejam, sem medo de ser forçado ao silêncio ou à conformidade. <...> Criaremos a civilização da Mente no Ciberespaço, mais justa e humana do que a que temos hoje”... Oxalá o espírito da internet contido nas palavras de Barlow sobreviva.



A Declaração:
https://www.eff.org/cyberspace-independence

Buck, o gato, e o "procura-se" que Barlow colocou no "twitter"

John Perry Barlow, durante discurso em Nova York em 2012


http://link.estadao.com.br/noticias/geral,e-barlow,70002195832


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Duas de papagaio

Há um tempo li algo que me gerou sensações diversas e misturadas. Estava em jornal reputado (.. e repasso sem confirmação adicional definitiva) que na Inglaterra uma mulher recebeu inexplicavelmente compras que ela não teria feito: alguém, passando-se por ela, teria comprado “caixas para presente”, que foram devidamente entregues pela loja e cobradas.

A pesquisa do ocorrido levou à constatação de que na compra, feita via internet, foi usado um assistente de voz da própria companhia vendedora. Nenhum dos familiares da mulher teria sido o gerador do pedido e, dado que a voz de quem o fez o era a da senhora em questão, restou uma explicação bizarra: foi seu papagaio cinza do Congo, espécie muito faladora e esperta, que imitava à perfeição a voz da dona. O tal papagaio teria ativado acidentalmente o assistente de voz e, do improvável diálogo, originou-se a ordem de compra.

O lado positivo óbvio são as facilidade que os assistentes artificiais caseiros podem adicionar ao nosso dia a dia, com os progressos da intelecção de voz. De negativo, além de constatar que um dado biométrico – a voz – foi erradamente identificado como sendo de uma pessoa, há a forma com que uma transação pode ser debitada, sem maiores considerações.

O outro caso, em linha aparentemente oposta: um amigo adquiriu um desses psitacídeos personagens de piadas. Perguntei-lhe se o papagaio era “ele” ou “ela”. Disse-me que o chama de “o”, mas apenas um teste de DNA resolveria: visualmente não se consegue identificar o sexo. Nós, os humanos, precisamos de auxílio de alta tecnologia para saber se devemos nos referir à ave como “louro” ou “loura”. Já um papagaio comum, simples, saberá imediatamente se está diante de uma moçoila papagaia, ou de um mocinho, e sem fazer nenhum teste de DNA... Certamente há espaço aqui para obtermos ajuda com sistemas automatizados... Por outro lado, quando se trata de separar pintainhos que virarão galinhas dos que, futuros frangos, apenas enriquecerão nosso almoço, há humanos que conseguem distinguir, e com bastante eficiência. Para mim, é um mistério...

O caso do “papagaio comprador” lembrou-me da discussão sobre “notícias falsas”. O que li e repassei seria notícia falsa? Falsa ou verdadeira, pareceu-me interessante! “Se non è vero, è bem trovato”, diriam os italianos. Muitas vezes o que é verossímil ou agradável ao narrador (ou ao vendedor...) passa por verdade. É uma tendência humana, que a internet apenas potencializa.

Em 1819, John Keats, poeta romântico inglês, escreveu aos 23 anos o famoso poema Ode a uma Urna Grega, cujo belo fecho diz: “Beleza é verdade, verdade é beleza, eis tudo que sabemos, e tudo o que se precisa saber!”. Keats, assim, respondeu esteticamente à terrível e eterna questão “afinal, o que é a verdade?”: se algo é belo (nos agrada, ou convém), é verdadeiro... Não é a minha forma de pensar: como engenheiro, gosto de fatos. Há que se reconhecer a atração epicurista e romântica que a beleza tem, de vestir a versão com a roupa da verdade. Afinal estamos em tempos pós-modernos, e o “eu sinto” será mais valorizado do que “os fatos mostram”...

Ah, em tempo, Keats morreu com 25 anos. Pelos padrões atualmente em discussão, estaria ainda no fim da adolescência...



https://gavetadoivo.wordpress.com/2014/05/09/ode-a-uma-urna-grega-de-john-keats/



http://www.britishmuseum.org/research/collection_online/collection_object_details.aspx?objectId=399909&partId=1


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Eliza: Conte-me seus problemas


Em época de conexão global, é de se esperar a chuva de notícias duvidosas, de perfis artificiais e de interlocutores automáticos. Nos anos 50, o matemático e pioneiro da computação Alan Turing havia proposto um teste que permitiria distinguir se nosso interlocutor é humano ou cibernético.No “teste de Turing”, sem que se possa ver o interlocutor, faz-se perguntas e, pelas respostas recebidas nesse diálogo, toma-se a decisão: é humano ou não. 

Se um programa de computador conseguir enganar os que o inquirem, esse programa terá passado no teste e chegado ao ponto de ser confundido com humanos. Lembro-me de Eliza, um programa escrito para simular diálogo sensato. Especificamente, recordo-me de uma versão em que Eliza se comportava como um “psicólogo”, o que lhe dava a vantagem de poder responder com outra pergunta e de ignorar convenientemente ilações mesmo que óbvias. Chegou a ter versão em português, e era bem divertido nos anos 70 “conversar” com Eliza usando os velhos terminais.

O teste de Turing prevê apenas texto para a interação. Claro que, se fosse possível ver o interlocutor, falar com ele, trocar olhares ou emoções, a sofisticação necessária para ele se fazer passar por humano seria muito maior e, creio, ainda estamos longe (ufa!) de ter que enfrentar esse problema. 

Mesmo assim, e como previsto no filme Blade Runner: O Caçador de Androides, será cada vez mais difícil discernir entre um robô e um humano. É interessante ver a evolução semântica da própria palavra “robô”, forma aportuguesada de “robot” que, muito provavelmente, vem do eslavo “rabota” significando algo como “trabalhador compulsório”: alguém que tem a obrigação de executar uma tarefa. Há quem diga que “arbeit” (“trabalho”, em alemão) compartilha da raiz linguística de “rabota”. 

Não havia, portanto, muito glamour no conceito original do robô: um servidor basicamente mecânico. Com a adição da capacidade de processamento a palavra adquiriu um significado mais sinistro, afim à ficção científica, que via em sua “humanização” um espectro de perigos. Não por menos Isaac Asimov escreveu o famoso Eu, Robô, onde enuncia o que seriam a regras morais básicas para a evolução segura desses mecanismos.

Na Internet não vemos, ainda, robôs, mas há uma grande população de “bots”, redução de “robots”. Há programas que escravizam computadores de terceiros para transformá-los em zumbis (“bots”) e usá-los como meios de ataque, e há os que parasitam as máquinas para roubar dados ou capacidade de processamento de forma invisível. Mas há também “bots” autônomos, que se comportam como perfis em redes sociais ou como indivíduos reais, que espalham notícias com propósitos obscuros, que arregimentam seguidores. 

Esses “bots”, conforme descrito por Turing, interagem conosco normalmente em texto. Se na categoria dos “bots” invasores há como ter alguma prevenção, evitar contágio e não cair nas armadilhas, na segunda, a dos autônomos, a tal “engenharia social” desempenha um papel central. O elo mais fraco da cadeia de segurança muitas vezes é o humano. 

E, sendo cínico, se aplicarmos o teste de Turing hoje, é bem provável que o erro mais frequente não seja o de detectar máquinas como se humanos fossem, mas o de concluir que alguns dos comportamentos humanos que encontramos parecem mais adequados a máquinas



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Logofobia

É novo ano, com batalhas a lutar (e, eventualmente perder, mas sempre galhardamente...). Assim, começo com um texto que pouco (mas algo!) tem a ver com tecnologia, aventurando-me em águas hostis. Na antiguidade, um sapateiro, ao ver um quadro do famoso pintor Apeles, teria comentado que as sandálias não estariam corretamente retratadas. Apeles deu razão ao especialista e retocou as sandálias. Em seguida, entretanto, o sapateiro passou a criticar outros aspectos do quadro, ao que Apeles, incisivamente, retrucou: “sapateiro, não vá além das sandálias”... Estarei indo além delas?

O fato é que palavras novas surgem a cada dia, e isso me traz um certo medo, “logofobia”. Ajoelhado no milho, reconheço que parte da “culpa” deve ser atribuída à tecnologia e à velocidade com que precisamos nos expressar, nem sempre com precisão e elegância.

Já foi aceito e dicionarizado o “deletar” algo; pode ser que, em breve, vejamos “printar” um texto, ou “imputar um dado” também consignado nos léxicos. Adições inúteis, por trazerem zero informação nova e por duplicarem termos já existentes em nossa língua. Essa tendência também se vê em muitas outras áreas: horrorizado ouvi (e li) que neste Natal foram ofertados “gifts”. Ora, pois!

Não se trata de discutir ou atacar os conceitos que se pretende exprimir com os “novos vocábulos” – longe disso – mas preservar um mínimo de fidelidade ao vernáculo, à semântica e ao bom senso...

Vou a alguns casos: O que seria, por exemplo, “gordofobia”, aberração vocabular que circula por aí? Eu, por exemplo, não tenho fobia, medo de gordos, muito menos aversão, são-me simpáticos e nem um pouco assustadores. Tenho medo de beiradas altas, sou acrofóbico, e medo de cobras, tenho ofidiofobia, mas, de gordos, certamente não...

Claro que o sentido que se quer passar não é de medo, mas sim contra a estigmatização, a ojeriza, ou, mesmo, o ódio. Nesse caso, o radical envolvido seria outro: miso. Os misantropos odeiam serem humanos, os misóginos detestam mulheres. Se é para manter o “fobo”, que se junte outra raiz grega: que tal lipofobia? Ou, com “miso”, lipomisia? Os latinos apostrofariam os que ainda nos preocupamos com isso: oleum perdisti!

Igualmente disforme é “heliporto”. “Porto” sabe-se o que é mas... o que seria “heli”? Um pedaço de “hélice”? Voa-se só com um pedaço da hélice? 

Aproveito para pontuar que essas invencionices não são “jabuticabas” nacionais. Os norte-americanos também são férteis em criar barbarismos (por emulação, nós os copiamos).Veja-se “workaholic”, que significaria a fixação em trabalho. A justaposição traz “work” com... o final de “alcoholic”. Mas nesse “holic” sobra um pedaço de “alcohol”. Se “ic” final, sozinho, dá a noção de “fixação” “alcoholic”, do jeito que ficou, “workaholic” dá a ideia de fixação em trabalho e... em álcool. Trata-se de alguém que trabalha bêbado?

“Hackathon” e outras novidades surgem terminadas em “athon”? Parece que a intenção era dar ideia de uma maratona de “hackers”. Mas “maratona” é o nome de uma planície (e da erva doce), não decomponível em mar + atona. Ou seja, essa desinência “athon”, sozinha, não traz sentido. E, se fossemos aportuguesar, seria “racatona” para suprir o “h” aspirado inicial. Mas aceito a justa crítica: “ne sutor ultra crepidam!”. Bom ano!




Caco Galhardo, https://cacogalhardo.wordpress.com


https://myowncommonplacebook.wordpress.com/2013/07/26/nao-suba-o-sapateiro-acima-da-chinela/




http://www.ivoviuauva.com.br/tag/ingles/