segunda-feira, 30 de junho de 2014

Vinho com gosto de vinagre

Com mais de 3 mil participantes, a 50ª reunião da Corporação da Internet para Designação de Nomes e Números (Icann) em Londres, semana passada, foi a maior até hoje. E entre os temas mais discutidos, o vinho!

Não a bebida em si, mas ela na forma de dois domínios genéricos, o “.wine” e o “.vin”, cuja eventual concessão aos solicitantes foi considerada inaceitável por diversos países europeus, liderados pela França. Uma declaração candente da jovem Axelle Lemaire, ministra da França para a “área digital”, ameaça a harmonia dentro do Comitê Governamental Consultivo (GAC) e sua relação com a Icann.

Após a batalha pela reserva do domínio “.amazon”, em que a Icann acatou o aconselhamento do GAC e não seguiu repassando o domínio para a conhecida empresa norte-americana, novos embates se prenunciam.

O motivo desta tensão vem da criação da Icann, em 1998, como uma organização sem fins lucrativos, estabelecida na Califórnia (EUA), e que assumiu a coordenação da raiz da estrutura de nomes da Internet (DNS) e a distribuição de números IP, funções que eram exercidas pela Autoridade para Atribuição de Números na Internet (Iana), sediada na Universidade da Califórnia do Sul (USC) e liderada pelo pioneiro Jon Postel, que faleceu em 1998.

O período de 1995 a 2000 gerou um legado complexo para a Internet. A nascente atividade de registro de nomes de domínio de forma comercial, inaugurada em 1996 quando “.com”, “.net” e “.org” deixaram de ser grátis e passaram a ser geridos por uma empresa, a Network Solutions, atiçou o apetite dos que viam nesse segmento um promissor negócio.

A raiz de nomes de domínio ficou praticamente sem alteração por décadas, constituindo-se dos três citados acima (os genéricos) mais um por código de país, como “.ar”, “.br”, “.de” e outros, totalizando menos de 300. Há dois anos, a Icann aprovou a entrada de novos domínios genéricos na raiz de nomes e esses 300 passarão em breve a ser mais de 2 mil! E há pedidos para tudo: nomes genéricos como “.wine”, marcas como “.amazon”, nomes de cidades como “.berlin”, todos com seu potencial de conflito com estruturas existentes, sem falar da confusão que podem trazer ao internauta. E os governos, representados dentro do GAC, têm opiniões fortes a respeito.

Dentre o leque de atividades que lhe coube ao assumir a Iana, a Icann escolheu dedicar-se quase que exclusivamente a definir a forma de aumentar a raiz de nomes. As reações começam e podem ser bastante duras. Em tempos mais amenos, em março de 1994, Jon Postel, que além de engenheiro era sábio, escreveu no RFC (documento que descreve padrões de protocolos de Internet) 1591 a descrição do que se esperaria encontrar na raiz de nomes: “No Sistema de Nomes de Domínio (DNS) há uma hierarquia de nomes (…) Existem nomes genéricos como “.edu”, “.com”, “.net”, “.org”, “.gov”. “.min” e “.int” e nomes de duas letras que provêm da tabela de código de países, a ISO-3166. É extremamente improvável que outros nomes de domínio sejam criados na raiz.”

As coisas mudaram e não temos mais a avaliação segura de Postel para ajudar.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Internet e seu desaparecimento adiado

Em 2001 me perguntaram qual seria o futuro da Internet. Respondi que para a Internet ser realmente bem-sucedida, ela deveria “sumir” – no sentido de que se tornaria invisível aos seus usuários. Algo do dia a dia, com o qual contaríamos automaticamente e ao qual não prestaríamos nenhuma atenção específica.

A Internet estaria oculta sob as numerosas aplicações bem-sucedidas, da mesma forma que a eletricidade está sob os eletrodomésticos, de forma automática, sorrateira e confiável. Sem saber, estava plagiando o cientista Mark Weiser (autor do conceito de computação ubíqua), que em 1991 havia escrito que “as mais profundas tecnologias são aquelas que desaparecem, que se mesclam ao tecido do dia a dia até dele se tornarem indistinguíveis”.Há hoje, entretanto, uma “pedra no meio do caminho” do apregoado e saudável desaparecimento da Internet. É uma urgência técnica à qual devemos atentar: a migração do IPv4 para o IPv6. Explico: o IPv4 é a versão atual do protocolo básico da rede IP (Internet Protocol), sua língua-mãe. O IPv4 vem com uma numeração que permite “apenas” quatro bilhões de “habitantes” na rede. Pode parecer muito (e talvez parecesse à época, quando os engenheiros Vinton Cerf e Bob Kahn definiram o tamanho e formato do endereço IP), mas é insuficiente para o número de usuários e máquinas da rede de hoje.

A saída é o IPv6. A nova versão do IP terá um número impronunciavelmente maior de elementos conectáveis. O IPv6 permitirá que cada um de nós ligue milhões de equipamentos à rede: será a nova alvorada da Internet, agora como a “rede das coisas”. Assim (e esperamos que pela última vez), teremos que prestar atenção técnica à Internet e a ela dar o tratamento necessário. Mal comparando, seria como trocar o “padrão de tomadas”.

O estoque de IPv4 destinado às regiões do mundo se esgota. Acabou na Ásia há três anos, e na Europa há um ano e meio. Agora foi a vez da América Latina e Caribe. Como sempre, quem está na “região de conforto” usando IPv4 e sem necessidades expressivas de crescimento não dá atenção a providências que não parecem afetá-lo imediatamente.

Mas aqueles que não prestarem atenção ao fim do IPv4 cometerão um erro que pode custar muito caro, tanto em termos de solidez e crescimento da rede, como em termos de novas aplicações e conexões. Ninguém, ao construir casa nova, usaria tomadas do padrão antigo – seria algo totalmente sem sentido. A Internet recria-se a cada instante. Precisa de padrões sólidos e que suportem sua expansão, não de meros adaptadores que prolonguem seu uso sem segurança.

Em suas compras de equipamentos, certifique-se de que eles aceitam IPv6. Fale com seu provedor de acesso sobre a disponibilidade e estimule os serviços que você mais usa na rede para que também sejam acessíveis com o protocolo IPv6. Vida longa à Internet!


DEMI GETSCHKO ESTREIA HOJE COMO COLUNISTA QUINZENAL DO 'LINK'. PERSONAGEM CENTRAL NA HISTÓRIA DA INTERNET NO BRASIL, JÁ FOI DIRETOR DE TECNOLOGIA DA AGÊNCIA ESTADO, EMPRESA DO GRUPO ESTADO, E POR DOIS PERÍODOS DIRETOR DA ICANN, ENTIDADE AMERICANA RESPONSÁVEL PELA GESTÃO DE ENDEREÇOS DA WEB E NÚMEROS IP. DESDE 1995, É CONSELHEIRO DO COMITÊ GESTOR DA INTERNET (CGI.BR).