segunda-feira, 22 de setembro de 2014

As novas coisas

Há um princípio inescapável, uma espécie de "maktub" tecnológico, que nos mostra, historicamente, que "tudo o que pode ser feito, num determinado momento acaba sendo feito". Eletrônica embarcada tornou-se hoje a solução mais simples, flexível e barata para o controle de qualquer dispositivo doméstico. E ubíqua: temos processador eletrônico embutido em praticamente tudo: na geladeira, no televisor, no ar condicionado, no painel do automóvel, no relógio. Esses equipamentos, pelo fato de serem controlados por algum programa rodando no processador, tem agora a possibilidade de serem "ativos". Ao adicionarmos acesso remoto sem fio para "conversarmos" com eles de forma simples e barata (e, por que não, usando a própria internet), não estaremos longe de concluir que, afinal, eles podem também começar a "falar" entre si. Se esses dispositivos podem falar, acabarão certamente por falar entre si. Maktub.

Outra evolução interessante: objetos de menor valor e mesmo descartáveis podem usar RFID, etiquetas digitais legíveis via rádio a certa distância. Isso permite que dispositivos tenham uma forma muito simples de perceber o mundo ao seu redor.

Juntando-se os fatos, pode-se imaginar uma predisposição a que emirja desse cenário uma "consciência das coisas" e que estejamos entregando a elas, de alguma forma, cada vez mais controle e dados de nossa própria vida.

Muito conforto pode advir quando nossos servidores eletromecânicos compartilham do que sabem e procuram agir para nosso bem. Porém, há sempre o outro lado da moeda.

Iniciemos pelo lado positivo. Se nossa geladeira, por exemplo, possuir formas de conhecer o que nela está guardado (com RFID) e souber de nossas preferências, ou do que necessitamos, pode nos avisar se um produto importante está em falta, ou prestes a perder a validade. Mais que isso, pode, usando a internet, pedir automaticamente a algum fornecedor que reponha o estoque. Dispositivos vestíveis como relógios e óculos podem monitorar nosso estado de saúde e repassar qualquer novidade ao nosso médico. Automóveis inteligentes já conversam para negociar ultrapassagens, escolher rotas e saber quando um semáforo irá fechar.

Imaginemos agora esse "admirável mundo novo": enquanto estou fora de casa, meu relógio notou que hoje é meu aniversário e, para me fazer uma surpresa, avisou à geladeira e aos meus amigos próximos. A geladeira apressou-se em reabastecer o estoque de cervejas e encomendou meu bolo preferido, de nozes. O carro estaciona, após avisar o garagem que cheguei e, lógico, o elevador já está esperando no andar certo. Entro e surpreendo-me com os amigos todos me cumprimentando, enquanto o aparelho de som dispara um "parabéns a você..."

Mas a informação "vazou"! "Amigos do alheio" souberam e, de posse do código do prédio, entraram e estão agora "convocando" a todos que se amontoem no banheiro, enquanto fazem uma "limpeza" do apartamento. Ainda consigo ouvir o equipamento de som pedindo por socorro ao notar que está sendo indevidamente desligado!

Sonho? Pesadelo? Aguardemos...

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A encruzilhada da Internet

Em Istambul houve, na semana que passou, o nono Internet Governance Forum (IGF). Um evento grandioso com mais de 3 mil inscritos de todo mundo e com uma agenda com cerca de 200 sessões de vários tópicos.

A primeira reunião do IGF foi em 2006, em Atenas, com 300 participantes e, no ano seguinte, o IGF foi realizado no Rio de Janeiro, quando já havia mais de 500 participantes. Entre os temas tratados nessa edição, estão neutralidade da rede, interesse público, proteção à criança, legislação e o risco de fragmentação da rede. Tratar de algo que desconhece fronteiras sempre traz desafios e tensão aos mecanismos de aplicação das leis nacionais e de soberania.

Outro tema quente diz respeito à transição da Internet Assigned Numbers Authority (Iana). Nos anos 80/90, esse grupo era composto por pesquisadores liderados por Jon Postel na University of Southern Califórnia (USC), que cuidavam de três tópicos críticos para Internet nascente: a atribuição de números IP às redes ingressantes, a manutenção da base de informações sobre protocolos-padrão e parâmetros técnicos referentes ao funcionamento da rede, e a manutenção e atualização do conteúdo da raiz de nomes da Internet.

É nesta raiz que toda a estrutura de nomes está "ancorada" e nela constam os domínios de nível mais alto (TLD), sejam eles de país, como o ".br", sejam genéricos, como ".net" e, agora, ".rio", além de outros. Com o crescimento da rede, o Departamento do Comércio (DoC) dos EUA entrou em cena em 1998 e chamou organizações sem fins de lucro para que se candidatassem a assumir o papel e as funções da Iana.

A Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann), uma ONG instalada em Los Angeles, ganhou o contrato no final de setembro de 1998, um ano bastante tenso e tumultuado para a Internet. Cerca de um mês depois de a Icann assumir a Iana, Jon Postel faleceu. Sem ele, um clima de incerteza pode ter motivado um novo contrato, firmado entre a National Telecommunications and Information Administration (Ntia, vinculada ao DoC) e a Icann; que passaria a "supervisionar" a manutenção da raiz.

Qualquer alteração proposta e aceita pela Icann e pela Iana só poderia entrar em vigor após passar pelo crivo da Ntia. O contrato dava a um único instituto de governo o privilégio de autorizar ou não a alteração na raiz. E, pior, o que parecia ser provisório foi se eternizando. Em março de 2014, pouco antes da NETmundial, importante reunião realizada em São Paulo, a Ntia surpreendeu ao anunciar que pretendia não mais renovar o contrato trianual com a Iana, quando de seu término em 2015. Uma boa notícia! Resta ver quais propostas surgirão para assumir (ou, até mesmo, eliminar) o papel de "avalizador" das alterações na raiz de nomes da Internet.

Discute-se assim, em Istambul, a encruzilhada atual da Internet. Que esses temas sejam tratados em Istambul, um caldeirão de culturas e tradições, não deixa de ser intrigante. É, certamente, muito adequado cuidar aqui de Política, na mais profunda acepção etimológica do termo. Tratemos de política "na Pólis", em grego "éis tin Póli", expressão cujo som gerou "Istambul".