terça-feira, 22 de agosto de 2017

Tempos de Pós-verdade

Está em voga hoje, especialmente em tempos de Internet e de redes sociais, falar em “pós-verdade” O dicionário Oxford recentemente introduziu o verbete “pós-verdade” como um adjetivo “relacionado ou denotando circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública que os apelos à emoção e às crenças pessoais”. Além de chocar os que ainda creem mais em fatos que em deformações úteis, a definição espelha uma realidade que se infiltra, nem tanto subrepticiamente, entre nós. Aquilo que era tido apenas como uma “boutade”, uma frase espirituosa do ex-vice-presidente, o mineiro José Maria Alkimin, “o que importa não é o fato em si, mas sim a versão do fato” ganha espaço, momento e uma triste confirmação.

Diógenes, o Cínico, aquele que há 2500 anos perambulava pelas ruas de Atenas, com uma lanterna acesa em plena luz do dia “procurando um homem honesto”, sentir-se-ia superado pelo que ocorre nos “pós-tempos” de hoje. Do pós-modernismo à “pós-verdade” poucos resistem à tentação de falar, contra ou a favor de algo ou alguém, adicionando ou não algo de concreto ao discurso. É de Diógenes também a avaliação de que “dentre os animais ferozes, o que tem a mordedura mais perigosa é o delator, e dentre os animais domésticos, o adulador”.

São tempos fluidos, em que as novas possibilidades e dimensões trazidas pela internet não puderam ser, ainda, minimamente absorvidas, entendidas em sua extensão, incorporadas no corpo social de cultura e costumes. Hoje todos podem valer-se instantaneamente de um “lugar de fala” na rede, no que parece ser um “empoderamento” inimaginável há quarenta anos. É algo certamente positivo e auspicioso mas, associado à euforia da descoberta, ao inebriamento de novos e ilimitados horizontes, gera uma cacofonia de posicionamentos rasos e muitas vezes emprestados, de notícias verídicas misturadas a boatos, da incontinente repercussão instantânea de versões se sobrepondo-se a fatos. No início do tempos de Mao, na China, houve a implantação de um programa de “estímulo ao desabrochar de mil flores”. A ideia então era incentivar o surgimento das mais diversas discussões sobre qualquer linha de pensamento, de todas as teses e antíteses, visando abrir a fechada e milenar cultura chinesa às diferentes matizes de escolas internacionais de pensamento. Durou pouco e, paradoxalmente, redundou na instauração de uma única linha admissível, a do maoismo.

Não se trata de defender, nem de longe, qualquer limitação na expressão de ideias e de posicionamentos. A liberdade de expressão é valor central e inegociável do que hoje conhecemos como civilização. Mas espera-se que a balbúrdia acabe por decantar, que haja um maior amadurecimento e entendimento daquilo que nos abriu portas a avanços importantes. É alvissareiro poder usar livremente as novas ferramentas, tanto no apoio à consolidação do que nos pareça correto, como apostrofando e combatendo falhas morais. A Afinal, segundo o saudoso Millôr Fernandes, autor de tantas frases inesquecíveis: “jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”. Viremos a página da “pos-verdade”.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O Bom Demônio

“Demônio” carrega usualmente um sentido de malefício, de destruição, de pecado. Nem sempre teve, porém, essa semântica: no grego antigo “demon” (daimon) era algum espírito poderoso, eventualmente divino, sem nenhuma conotação maligna. Em computação o termo “demon” pode se referir a um programa que executa tarefas auxiliares num sistema, nem sempre visíveis ao usuário comum. Outro exemplo: a tradução do título do livro de Nikos Kazantzákis, “Zorba, o Grego”, que se usa em Portugal é “O Bom Demónio”... Se olharmos para o que os gregos entendiam por demônio faz todo o sentido chamar seu protagonista, um espírito livre, criativo e puro, de “bom demônio”.

Mas o que vem a fazer esses “demônios” no texto? Por partes: nesta semana a discussão sobre Inteligência Artifical, seus eventuais amplos benefícios e seus potencialmente fatais riscos, ocupou a cena do debate tecnológico. Divergiram publicamente sobre IA, de um lado o sul-africano Elon Musk, criador da SpaceX e da Tesla, talentoso e audacioso empreendedor, e de outro Mark Zuckerberg, o quinto na atual lista de multibilionários do mundo, dono do Facebook e adjacências... Um debate interessante, especialmente porque Musk, com raízes profundas em projetos de Inteligência Artificial, foi quem surpreendentemente advertiu os governos sobre a necessidade de se buscar maior entendimento quanto aos riscos que essa tecnologia traz. Do outro lado da cerca, Zuckerberg defendeu ardorosamente pesquisas ilimitadas na área, apontando apenas benefícios que ela trará à humanidade.

Podemos ser pessimistas quanto à IA e avaliar que ela destruirá empregos e que ao atingirmos a “singularidade” de Ray Kurtzweil, ou seja, quando as máquinas superarem a capacidade intelectual humana, a própria espécie estará em risco. Que andróides, meio humanos meio máquinas, dominarão o mundo e todo um porvir terrificante da nem-tanto-ficção científica. Podemos ser otimistas como Vint Cerf, que imagina o poder ilimitado do “software” ajudando-nos nas tarefas mais difíceis e tediosas, examinando com eficiência bases gigantescas de dados (“big data”) para tirar conclusões mais corretas do que conseguiríamos sobre diagnósticos médicos, ou como aperfeiçoar processos e sistemas. Seja qual for nossa posição, entretanto, o inarredável é que IA deve ser levada em conta seriamente.

No final de 2016, o IEEE (Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos) publicou um documento de mais de 100 páginas chamado “Projetos Eticamente Alinhados” em que abre à discussão pública, exatamente, a necessidade de se incluir a ética entre os principais componentes de um projeto tecnológico, notadamente os de Inteligência Artificial. No sumário do documento aparece a busca da “eudemonia” - um termo cunhado por Aristóteles em Ética a Nicômaco - para definir o que seria o maior anelo do ser humano: viver uma vida plena, com bom espírito e felicidade. Em “eudemia” “eu” significa “bom” e “demon”, no contexto grego original, “espírito”. Aliás essa “busca pela felicidade” também aparece como um dos direitos inalienáveis do Homem na Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Estamos, portanto, numa encruzilhada ética, tecnológica, mas também semântica: o demônio que invocaremos será uma espécie de Zorba, … ou de Mefistófeles?