terça-feira, 1 de outubro de 2019

A dose do remédio

Além de ameaças diárias à nossa privacidade, estamos expostos a uma cacofonia crescente no ambiente virtual, e isso nos causa incômodo. É compreensível e adequado querer livrar-se de um incômodo;  o risco é agir precipitadamente e acabar gerando um mal pior. Vale a regra enunciada por Jon Postel: para vivermos na Internet devemos ser liberais no que aceitamos e conservadores no que fazemos. Ou seja, é inevitável que tenhamos que passar por situações que nos desagradam, mas devemos evitar gerá-las aos demais. E resta tentar amenizar o quadro.

Para abordar alguns desses abusos, é importante distinguir entre “Internet” e as construções feitas sobre ela. A estrutura essencial da Internet é o conjunto de protocolos e equipamentos sobre os quais esse mundo imaterial e sem fronteiras opera. “Internet” não são as redes sociais, nem os aplicativos, nem mesmo os sítios que visitamos, mas é, sim, quem tornou viáveis essas construções. Foi a eletricidade, por exemplo, que permitiu motores elétricos, mas não parece sensato culpá-la quando alguém é eletrocutado, ou quando computadores elétricos ajudam a violar nossa privacidade. Isso, entretanto, não significa que não sejam necessários esforços contínuos para tornar essa plataforma mais sólida e segura.  É uma preocupação constante dos grupos técnicos a criação de protocolos que incorporem criptografia, processos que possam ser certificados por assinaturas digitais. Formas de tonar a rede mais resiliente a abusos dos mal-intencionados, cujo número só faz crescer...

Quem eventualmente espalha desinformação, dissemina medo, estigmatiza indivíduos, ameaça nossa segurança, são as ações que ocorrem nas construções sobre a Internet. Esse é objeto das preocupações comezinhas. Afinal não nos incomoda tanto o comportamento da infra-estrutura Internet, quanto o do que foi criado sobre ela. Enquanto todos dão tratos à bola de como melhorar esse cenário,  surge um novo e inesperado movimento: grandes empresas da área pedem aos governos “mais regulação”! Eis aí uma pílula dourada que devemos examinar com muito cuidado antes de decidir se a engolimos. Claro que uma empresa, como um clube, pode ter regras próprias de comportamento adequado para seus associados, mas isso é bem diferente de ela pedir a um governo que a regule, afetando por extensão o comportamento de todas as demais iniciativas. Fica para uma próxima um exame com mais detalhes do que se esconde sob essa aparente antinomia: um pedido de regulação sobre a eventual autorregulação.

Regulação é mecanismo importante para se garantir um jogo limpo no mercado. É um remédio para males que advém de desequilíbrios estruturais. Por exemplo, a lei de proteção de dados individuais devolve-nos o controle de nossas informações, reequilibrando o poder.  Como todo o remédio, regulação deve ser usada em situações específicas e em doses adequadas. Seu excesso ou sua falta são danosos.  No grego, remédio e veneno são a mesma palavra. Em português, “droga” pode ser remédio ou veneno. À época do descobrimento do Brasil, Paracelso, um médico e alquimista suiço, alertava: “o que separa remédio de veneno é apenas a dose”.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Vamos guardar um segredo?

Durante o momentoso caso Snowden em 2013, ouvimos falar bastante dos “5 olhos”, uma ação supra-nacional que envolveria as organizações de inteligência de cinco países: Estados Unidos, Grã-Bretanha, Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Criada inicialmente no contexto da guerra fria, com o recrudescimento de atividades de terrorismo, passou a abarcar um universo geral e suas ações tornaram-se mais visíveis, envolvendo programas como o PRISM e outros.
No outro extremo do espectro, o abuso na aquisição de dados pessoais relacionado a empresas atuantes na Internet, levou países a buscarem legislação que protegesse as informações de seus cidadãos. A Comunidade Européia puxou o trem com a implementação da GDPR em maio de 2018 e, logo após, o Brasil também promulgou sua lei de proteção de dados individuais, a LGDP, que deverá entrar em pleno vigor em 2020.

A Internet segue equilibrando-se entre esses dois pólos, tentando preservar a íntegra de seus princípios. Princípios que refletem direitos básicos nossos. E ela, organicamente, reage às pressões e se altera correspondentemente: o excesso no monitoramento de nossos passeios pela rede provocou o expansão de navegadores como o Thor, que permitem uma navegação com privacidade; o abuso de terceiros, lerndo nossa correspondência, estimulou a popularização de criptografia. Da mesma forma que a população de mariposas na Inglaterra mudou darwinisticamente de cor, passando a se camuflar em locais com fuligem e poluição, a Internet lança mão de ferramentas que a protejam.

Como tudo tem pelo menos dois lados, surgiu o debate sobre a legalidade no uso da criptografia, especialmente a robusta, aquela muito difícil de quebrar. Sob o argumento de que “é necessário monitorar o que se passa para prover mais segurança aos cidadãos”, há os que querem acesso a material criptografado, seja impondo aos fabricantes de equipamentos que providenciem uma “porta dos fundos” pela qual os agentes de investigação possam “ler” o que se transmite, seja por simplesmente tentar colocar fora da lei o uso da criptografia. Exemplo recente e preocupante é a lei australiana, promulgada no final de 2018, que obriga prestadores de serviço e fabricantes a providenciarem formas de acesso “legível” ao que transita. Mais iniciativas no mesmo sentido podem ocorrer se a comunidade não tratar de se defender.

O argumento de que “é para o nosso bem que órgãos de segurança possam ler qualquer mensagem” não se sustenta. Não se troca privacidade por segurança: buscam-se as duas! Afinal, se houver uma “porta dos fundos”, acabará serventia também dos mal-intencionados. Recentemente o IAB, Internet Advisory Board, manifestou-se defendendo com ênfase o direito ao amplo uso de criptografia fim-a-fim, como sendo “fundamental para a busca da confiança” na rede. No mesmo documento, além do chamado à restauração da confiança na rede, há um alerta para os danos que uma legislação precipitada, ou mal elaborada, pode causar.

Sem criptografia, nossa privacidade está em risco. No 1984, de George Orwell esse futuro indesejável está descrito: “...daqui prá frente, se você quiser manter um segredo, você deverá escondê-lo até de si mesmo!”


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Sobre a lei australiana de criptografia:
https://www.bbc.com/news/world-australia-46463029

Documento do IAB:
https://www.iab.org/documents/correspondence-reports-documents/2019-2/avoiding-unintended-harm-to-internet-infrastructure/

Página da ISOC correspondente:
https://www.internetsociety.org/issues/encryption/


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Dilemas...


Dilemas...

Não é fácil encontrar a tramontana no ambiente de crescente complexidade em que estamos. Dados são insumo fundamental a qualquer ação, mas se colhidos sem cuidados podem violar nossa privacidade. Sua proteção mereceu uma lei específica e importante e que está a poucos meses de viger. Por outro lado, aplicações necessitam de dados e da experiência humana para melhorar a qualidade do serviço que prestam. A Lei Geral de Proteção de Dados, a exemplo do Marco Civil da Internet, demorou alguns anos para ser editada, e isso pode ser um bom indício. Ao inovar, a legislação deveria sempre ser cautelosa e valer-se do lema do imperador Augusto, “apressa-te devagar!”. Cuidemos para que se mantenha a base legal em que se funda nossa sociedade e que, ao definir a estrutura de direitos do homem, permitiu-lhe escapar da barbárie.
Tensões entre o novo e o já existente são perenes. Chesterton foi bastante feliz em definir conservador como “aquele que busca perpetuar os erros do passado”, e progressista como “aquele que procura produzir erros novos”.
Permito-me uma analogia com a inteligência artificial, especialmente no “aprendizado de máquina”. Sem discutir a aplicabilidade do conceito de “aprendizado”, haveria duas vertentes principais: sistemas “conservadores”, que aprimoram seu funcionamento ao acumular a experiência humana disponível, e os sistemas “progressistas” que buscam, por inferência independente, gerar novas soluções. No primeiro caso podemos exemplificar com a tradução automática, que melhorou bastante ao se valer da base de traduções humanas existentes. Para o segundo temos os sistemas que “aprendem” sem supervisão humana, e não raramente nos surpreendem pelas escolhas que fazem.
Outro debate corrente é quanto aos “algoritmos” e seu eventual viés. No caso “conservador” é pouco provável haver um viés intencional incluído no algoritmo: ele apenas seguiria o que os dados que recebeu indicam. Mesmo quando aspectos de seu funcionamento geram reservas, talvez devêssemos aceitar que ele reflete os dados que há no domínio amostrado. Adapto aqui uma frase de Vint Cerf sobre a Internet: os algoritmos varrem dados e, como espelho, mostram o que lá existe. Se não gostamos do que vemos, não é culpa do espelho.
A aventura humana nos levou a planar acima das estatísticas e dos dados. Ao esposarmos, por exemplo, a igual dignidade de todos os humanos, a tese não se funda em números ou em “big data”, mas no arcabouço filosófico e moral estabelecido. Não há nem como, nem por que, buscar confirmação numérica, estatística, ou mesmo científica dessa tese.
Bertand Russel, um cientísta filósofo e pacifista, escreveu em 1953 sobre a busca de objetivos pouco sensatos: “Se o objetivo for uma tolice, quanto mais eficientes os meios de que dispomos, pior será. Conhecimento é poder, tanto para o bem quanto para o mal. A menos que os homens cresçam ainda mais em sabedoria, qualquer aumento de conhecimento será apenas aumento da dor”.
Usemos os dados de que dispomos, sem violar a privacidade dos indivíduos, para conhecer melhor o mundo que temos. De novo nas palavras de Bertand Russell, “sabedoria é, inicialmente, entender o mundo como ele é, e não como gostaríamos que fosse”.

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Video curto do Bertrand Russell sobre o futuro:
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https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/18/Bertrand_Russell_photo.jpg






terça-feira, 20 de agosto de 2019

Ética artificial?

A moda é falar de inteligência artificial, IA. O primeiro percalço já vem no nome da coisa: primeiro há que se definir o que seria “inteligência”. E, mesmo após chegando a uma eventual definição satisfatória, ver como “artificial” se aplica. Afinal, se algo pode comportar-se de forma “inteligente” mesmo que via um artifício, essa qualidade estaria agora inerentemente adquirida e deixaria de ser “artificial”.

Sob essa denominação agrupam-se diferentes técnicas de processamento de dados e tomada de decisões que hoje usamos. Há a “ciência de dados”, que se ocupa dos mecanismos de tratamento de quantidades vultosas de dados brutos em busca de correlações e informações inferidas, há o “aprendizado de máquina”, quando um programa escrito pretende aperfeiçoar seu funcionamento pelo que “observa” do mundo, e há o “aprendizado profundo”, quando o sistema evolui para comportamentos não previstos em sua programação inicial e que decorreram de sua experiência com sucessos e fracassos anteriores.


É comum um sistema ser “treinado” na execução de tarefas humanas, valendo-se de uma quantidade imensa de informação a ele fornecida. Adicionando coleções de imagens sobre determinada manifestação de uma doença, podemos fazer com que o sistema a detecte. Um artigo no New York Times da semana passada comenta que mão de obra humana é contratada até para “ouvir tosses”, de forma a ajudar o sistema a classificar qual tosse é
suspeita de algo mais grave. Teremos sistemas fornecendo diagnósticos médicos, elaborando decisões judiciais ou econômicas, tomando decisões.


O que me preocupa nisso é que máquinas e programas, objetos materiais que são, não podem ser responsabilizados por resultados anti-éticos ou amorais. Ética e comportamento humanísticos generoso são apanágio dos humanos. É humano desconsiderar eventuais características de outrem em prol de tratamento digno igualitário. É humano perdoar erros ou admitir falhas. Se fosse possível incluir na evolução da IA vieses humanos, nem sempre lógicos ou matemáticos, isso seria alvissareiro e positivo. 


Contemplar decisões com base em simples cômputo numérico, reforçado por resultados anteriores de sucesso e fracasso, é abrir mão da humanidade que ainda temos. Não se espera de um programa com IA que, por exemplo, na análise de concessão ou não de um empréstimo a um solicitante, exiba um comportamento “humano” como é o caso da intuição e da emoção. Pelo contrário, a regra que “aprendeu” da experiência anterior será inflexível: se há riscos financeiros no investimento, ele não será feito, mesmo nos casos em que, humanamente, a decisão pareceria cruel ou imoral. No confronto insensível dos números e resultados, a decisão tomada será a logicamente vantajosa, mesmo que moralmente abjeta. Lembro do filme de Kubrick e Clarke, 2001 Uma Odisséia no Espaço, quando Hal, o “inteligente” computador de bordo que controlava a viagem da nave, decide deixar o humano (Bowman) morrer fora da espaçonave, para não colocar em risco a meta principal da viagem.

Usar o potencial das máquinas como ajuda ao que queremos atingir é positivo, é o que vem pela frente e é bom que seja assim. Porém atribuir a elas decisões em ações que envolvam a própria essência do que se entende por “humano”, parece-me uma contradição em termos, e pode ser um caminho sem volta.


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O artigo citado do N Y Times pode ser visto em:

https://www.nytimes.com/2019/08/16/technology/ai-humans.html

e sua tradução:

https://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,conheca-a-rotina-nada-futurista-de-quem-treina-inteligencia-artificial,70002975428

Há um interessante artigo do Prof. Valdemar Setzer em:

https://www.ime.usp.br/~vwsetzer/IAtrad.html
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terça-feira, 6 de agosto de 2019

Sobrou porque deu!

Anos 80 resolvi fazer uma reforma em casa: um puxadinho para servir de escritório. Seria um pequeno quarto, com alguma fundação, quatro pilares e uma laje de uns 20 metros quadrados. Dois joões trabalhavam: o João Branco, mirrado, fala mansa, bom com a colher de pedreiro, era quem esticava argamassa e cuidava do reboco e acabamentos; e o João Preto, espigado, com um sorriso meio maroto, responsável pelo concreto, pela estrutura e a armação dos ferros. Estava marcado para um sábado o dia de fundir a laje, já montado o madeirame, providenciados roldana, corda, baldes e o material para o concreto. Terminado o enchimento, fui comprar o que era usual para a ocasião, tanto para os brindes, como para os bons auspícios: algumas cervejas e uns sanduíches. A laje estava bonita, bem cheia, e o João Preto sapateava sobre ela para mostrar que tudo estava sólido. Num canto, um caixote de massa, ainda cheio.

– Ô João, e essa massa aí? Sobrou, né?

– Claro, seu Demi. Sobrou porque deu. Se não tivesse sobrado, teria faltado!

Eis aí uma verdade universal enunciada: não existe o zero. Se algo não sobra, é porque faltou! Listo casos que reforçam a lei. Queremos um CPD que funcione ininterruptamente? Entre outras coisas, temos que nos prevenir contra quedas de energia. Parece simples: basta colocar um banco de baterias e instalar um “no-break”. Mas... e o ar-condicionado? O “no-break” não conseguirá sustentar o ar condicionado funcionando. Fácil, adicionamos um gerador. O “no-break” precisa apenas aguentar os computadores por alguns minutos, até entrar o gerador, que suportará também o ar condicionado. Mas, e se a bendita queda da força acontecer exatamente quanto estávamos fazendo manutenção nas baterias ou “no-break”?

Para escapar desse risco precisaremos de dois conjuntos de reserva, para que ao menos um esteja sempre à disposição. O mesmo ocorre com o gerador: se houver um só e estiver em manutenção programada ou apresentar falha, estaremos a pé de novo. Um otimista diria que esse conjunto de ocorrências é improvável...

Improvável pode ser, mas impossível não é – basta lembrar do Titanic... Em resumo, para evitar falhas em equipamentos críticos deve haver redundância suficiente que inclua, por exemplo, indisponibilidades de módulos de reserva. Para posições críticas devemos fazer como no futebol: é melhor levar dois reservas para o goleiro...

Quando dimensionarmos recursos de banda e processamento na internet, é temerário levar em conta apenas o pico de uso previsto. Bastará um ataque de negação de serviço para atolar máquina e banda. Mesmo com medidas de atenuação, o remédio viria depois do estrago feito. Há que superprovisionar. O mesmo se passa com o DNS na resolução de nomes de domínios na rede: espalham-se diversos servidores DNS para resistir bem a ataques. O .br tem vários servidores, um deles alocado na Alemanha. Como contrapartida, o .de tem um servidor no Brasil. Cooperação para segurança segue sendo mote central da internet.

E a segurança nossa, pessoal, de cada dia? Claro que é importante usar senhas fortes, que não sejam vulneráveis a ataques “força bruta”, mas os realmente prevenidos usarão autenticação com dois fatores. Afinal, se não sobrar segurança, ela vai faltar!

terça-feira, 23 de julho de 2019

O Cubo de Rubik

Já se vão 45 anos de quando o húngaro Erno Rubik criou um apetrecho usado num jogo desafiador: o “cubo mágico”, rebatizado para “Cubo de Rubik”. Suas 6 faces, inicialmente uma de cada cor, estão divididas em 9 facetas de cubos menores, resultando em 54 facetas visíveis de 26 cubinhos engenhosamente acoplados a uma estrutura que permite rotações dos planos desses cubinhos. O desafio consiste em, partindo de uma disposição inicial aleatória, fazer as rotações necessárias para que 0 cubo volte a ter uma face de cada cor.

Não são nada simples ou intuitivos os movimentos que levavam à solução. Lembro-me de colegas, objeto de admiração (e de alguma inveja...), mostrando o cubo resolvido após alguma longa e misteriosa manipulação.

Na semana passada, surgiu na rede um artigo científico anunciando uma solução para o cubo, que excede em velocidade os melhores humanos e usou aprendizado profundo (em “deepcube.igb.uci.edu”) . É mais um passo na solução de desafios com o uso de inteligência artificial, com variantes.

Na programação tradicional estática, a forma de atacar o problema do cubo seria escrever um algoritmo reproduzindo o que um humano faria, passo a passo. Uma receita de bolo, a ser seguida pelo computador. Se a opção é usar aprendizado de máquina, o usual seria criar uma base de soluções já conhecidas e fazer o programa definir uma estratégia a partir disso. Era a abordagem em programas para xadrez, onde a experiência de jogos de grandes mestres orientou o “aprendizado” do programa. Também o aperfeiçoamento dos sistemas de tradução por máquina valeu-se da base existente de traduções. Com o uso pesado de dados, associado à tutoria humana, tem-se um comportamento similar e eficiente.

Evolução do “aprendizado supervisionado”, mencionado acima, seria o “auto aprendizado”: fornece-se ao programa apenas as regras de como as peças se movem. Ele partirá, assim, do zero e, por experiência e erro, treinará sua rede neural para identificar estratégias vencedoras. Foi o método adotado no sistema AlphaZero, que de início sabia apenas como mover as peças do xadrez. Fazendo-o jogar contra si mesmo, “aprendeu” estratégias vencedoras a ponto de, após apenas quatro horas alegadas de autotreinamento, bater grandes mestres e programas convencionais. Espantosamente, o AlphaZero escolhia movimentos inusitados numa primeira análise humana e, mesmo assim, vencia.

Até há uns anos, a via do auto aprendizado era um caminho lento e pouco animador. Hoje, com a velocidade de processamento disponível, a opção de “deep learning” (ou aprendizado profundo) é cada vez mais viável.

A solução proposta para o Cubo é uma variante do aprendizado profundo. Afinal este é um jogo solitário, sem “treino” possível, com uma infinidade de configurações iniciais e única posição final vencedora. Movimentos aleatórios buscando solução poderiam levar um tempo imenso e sequer convergir.

A proposta descrita no artigo envolveu criar uma estratégia que mistura avaliações do progresso já feito, com a árvore de decisões a ser seguida. O resultado foi um programa que aprendeu, sem tutoria humana, a solucionar o Cubo de Rubik com mais eficiência que os melhores especialistas humanos. Interessante e preocupante: afinal, é mais uma situação em que geramos algo que, ao mesmo tempo, nos ajuda e... nos torna obsoletos.
















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A demonstração do Cubo com IA:
http://deepcube.igb.uci.edu/

O artigo referido acima:
https://openreview.net/pdf?id=Hyfn2jCcKm

Solução tradicional, em até 30 movimentos,  e o "número de Deus"
https://www.newscientist.com/article/dn19301-god-couldnt-do-faster-rubiks-cube-mystery-solved/

Referências na rede:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cubo_de_Rubik

https://news.uci.edu/2019/07/15/uci-researchers-deep-learning-algorithm-solves-rubiks-cube-faster-than-any-human/

https://www.cnet.com/news/ai-can-solve-a-rubiks-cube-before-you-even-get-started/#ftag=COS-05-10aaa0j

terça-feira, 9 de julho de 2019

ICANN em Marrakesh


A Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (ICANN na sigla em inglês), criada em Los Angeles, Estados Unidos, em setembro de 1998, é uma organização privada, sem fins de lucro, que cuida de nomes de domínio e números IP na Internet. 

Em junho realizou sua reunião de número 65. As reuniões tem rodízio regional e são classificadas conforme seu formato. Esta última correspondeu à África e foi do tipo B, “política”. Há as do tipo A, “comunidade” e do tipo C, “reunião geral anual”). A próxima, em novembro, será em Montreal, no Canadá, do tipo C.

Em sua criação, a ICANN escolheu ter uma estrutura muito ampla, para além dos operadores técnicos de nomes (registros e registradores) e de números (provedores de acesso). Incorporou um grupo de assessoria de governos (GAC) e criou conexões com diversos órgãos técnicos, além do conjunto geral de usuários.

Estava claro que a expansão não seria simples nem indolor – lembre-se que, originalmente, a atividade era feita pela IANA, com um punhado de pesquisadores na USC, Universidade da Califórnia do Sul. Tensões surgiram de imediato e estão longe de se dissipar.

Uma, logo no início, se deveu a que parte dos representantes de governos que entraram no GAC original em 1998, sequer sabiam da Internet, ou que havia acesso local em seu país, ou que um domínio de duas letras fora alocado para a comunidade, em geral sediado numa universidade ou numa organização não governamental.

Com o tempo houve algum nivelamento, mas outros conflitos surgiram. Um deles foi o debate e a posterior adoção, sob pressão de países que não usam o conjunto de caracteres latinos, de formas internacionalizadas de se grafar um nome de domínio. Com uma solução técnica compatível, tornou-se possível o uso de caracteres não latinos em nomes de domínio. No Brasil, por exemplo, há a possibilidade do uso de acentos, til e cedilha. Assim, é possível registrar e usar “peça-café-e-pão.com.br”.

Outra decisão da ICANN – a de introduzir levas de novos domínio genéricos na raiz – gerou tensão com os envolvidos em “propriedade intelectual” e marcas, dado que teriam que proteger seus identificadores nos novos espaços. Para aliviar o problema, a Icann trouxe à cena a Organização Internacional de Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), que lidaria com os conflitos.

Mais à frente, a ICANN permitiu que as próprias instituições pudessem registrar sua marca diretamente na raiz. Certamente aí se identificaria a origem do conflito entre a empresa Amazon, que solicitou o registro do domínio “.amazon”, com diversos países da região amazônica, apoiados por outros mais, que se opõem a essa concessão. Foi outro tema quente em Marrakesh.

Claro que nada está tão complicado que não possa piorar... Discute-se hoje se emojis poderiam ser usados como parte de um nome de domínio (!).

Essas “boas ideias” nem sempre levam em consideração que não se trata apenas da identificação de um sítio: para ser de fato útil, além de “divertida e criativa”, a “novidade” teria que funcionar harmonicamente numa diversidade de navegadores e de serviços.

Ainda no tema de DNS (sistema de nomes de domínio) foi discutida sua extensão para uso em protocolos Web (HTTPS) e de transporte (TLS), além do estímulo à adoção maciça do DNSSEC, temas que se revestem de significância especial, tendo em vista a iminente expansão da Internet das Coisas.

Ao final, mesmo com algum sério risco de a reunião acabar indo “para lá de Marrakesh”, sobreviveu-se.


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Relatório Post-ICANN 65:
https://meetings.icann.org/en/marrakech65/post-icann65-policy-report-11jul19-en.pdf

Sobre o uso de "emoji" em DNS:
https://nic.br/media/docs/publicacoes/4/sac-095-en-converted_pt-br.pdf

Documento do SSAC - Security and Stability Advisory Committee,  maio 2019
https://www.icann.org/en/system/files/files/sac-105-en.pdf

Resultados da reunião de Berlim, Internet & Juridiction, junho 2019
https://www.internetjurisdiction.net/uploads/pdfs/Berlin-Roadmap-and-Secretariat-Summary-Global-Conference-Internet-Jurisdiction-Policy-Network.pdf

"Qualquer coisa˜, de Caetano Veloso:
https://www.youtube.com/watch?v=iNUsnjV3FIc

terça-feira, 25 de junho de 2019

Quem sou?

Máquinas autônomas, como os carros auto-conduzidos, podem estar muito próximas da viabilidade técnica, mas ainda estão longe de garantir “comportamentos” moralmente aceitáveis para os humanos. O Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT) desenvolveu, há algum tempo, um projeto chamado “moral machine” (máquina moral) que recolhe contribuições sobre como diferentes indivíduos, com diversas bagagens culturais, definiriam escolhas moralmente aceitáveis. Algumas são fáceis de prever, outras nos colocam em xeque. 

Vejamos: parece razoável que, num inevitável acidente, opte-se pela solução que gere menos vítimas fatais. Um operador de desvio ferroviário pode se ver numa situação em que deve escolher para qual de dois ramais desviará um trem. Num ramal há cinco pessoas sobre os trilhos, e no outro apenas uma. Mesmo com pesar, parece certo desviar o trem para o trilho em que há apenas uma pessoa, poupando cinco. Modifiquemos o cenário, eliminando a bifurcação. De novo há os cinco humanos expostos ao trem, e agora há uma ponte sob a qual o trem passará. Nesta ponte está um homem avantajado e pesado que, se for arremessado sobre os trilhos, fará o trem parar poupando os cinco. Poucos optam, neste caso, por empurrar a vítima ponte abaixo, mesmo que isso represente salvar cinco. São complexas as regras morais que usamos para decidir algo, e que eventualmente gostaríamos de ver refletidas nos autômatos. Vale a pena uma visita em “moralmachine.mit.edu”

A coisa se complica ainda mais quando considerarmos a criação de personalidades artificiais. Dia desses recebi um vídeo em que um Salvador Dalí, redivivo, falava e gesticulava de forma muito convincente e natural. Mais que isso, ele respondia a perguntas dos admiradores e até tirava fotografias com eles. 

Bem... Isso não nos causa mais tanto espanto: a partir de uma simples fotografia sabemos que já se pode criar uma animação curta e, se tivermos dados sobre a voz da pessoa e alguma documentação de seus tiques gestuais, a animação ficará quase indistinguível de uma cena real. Algo falso, profundamente falso e, ao mesmo tempo, profundamente realista.

Além de se poder falsificar a realidade em formas bastante críveis, pode-se “criá-la” do
 nada. Já há como gerar imagens de pseudo indivíduos que nunca existiram, mas que nos parecem naturais e perfeitamente e possíveis. Bem distante de caricaturas graficamente rudimentares e facilmente reconhecíveis. À medida em que a distinção tornar-se menos e menos perceptível, não estaremos longe de duvidar até de realidades de nosso passado. Aquele filme em que estou dançando, aparentemente bêbado, será meu mesmo? Afinal não sou nada hábil em meneios corporais, mas... afinal, pode ser que estivesse tão alterado que perdi a memória clara do evento. E neste, onde eu, normalmente contido, estou agressivamente ofendendo um amigo de longa data? Por que raios eu estaria fazendo isso? Seria eu mesmo?

Fernando Pessoa, que tinha isso sob estrito controle, escreveu: “... Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão. Muitos creem coisas falsas ou incompletas de mim; e eu, falando com eles, faço tudo por deixá-los continuar nessa crença. Perante um que me julgue um mero crítico, eu só falo crítica. A princípio fazia isto espontaneamente. Depois decidi que isto era porque, no meu perpétuo anseio de não levantar atritos...”


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MIT, Media Lab:
http://moralmachine.mit.edu

Salvador Dalí:
https://www.youtube.com/watch?v=MZ2X-fSIPSU

o trecho do Fernando Pessoa:
http://arquivopessoa.net/textos/2676
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terça-feira, 11 de junho de 2019

Problemas Importantes

Segundo Eisenhower, ex-presidente dos Estados Unidos, “há problemas importantes, e há problemas urgentes. Usualmente, os urgentes não são importantes, e os importantes nunca são urgentes”. Um problema importante deveria ser tratado com calma e ponderação. Se buscarmos uma solução urgente para ele, poderemos estar obtendo ainda mais encrenca.

Coibir comportamentos delituosos na internet é, certamente, uma questão importante, mas como agir?. O primeiro passo é definir o que seria “delituoso” para a rede. Salvo poucas situações, não há unanimidade nas legislações nacionais: algo que é ilegal no país X, pode ser perfeitamente legal no país Y.

Mais, no ambiente sem fronteiras da internet, como caracterizar que uma lei nacional foi violada, e por quem? E soluções de diplomacia internacional, que certamente se aplicam, demandam um tempo incompatível com a agilidade da Internet e, postam em prática, sempre necessitarão de coordenação multinacional.

Semana passada houve em Berlim uma reunião onde discutiram-se formas de cooperação multissetorial internacional para a contenção de crimes na Internet. Estive no grupo que discutia ações sobre o DNS (sistema de nomes de domínio) que poderiam coibir malfeitores. A primeira dificuldade é tentar definir o que seria “ilegal” internacionalmente, ao menos no sentido comum.

Um exemplo citado: há uma lei da Tailândia que pune gravemente quem falar mal da família real de lá. Poderia essa restrição local ser expandida internacionalmente, mesmo que na forma de simples consenso? O grupo pendeu para um claro “não”. Penso que neste caso e em muitos outros equivalentes, quanto à legislação local, seria obrigação primeira do cidadão não quebrar as leis do país em que mora. Se um livro é proibido num país X (mas não em outros), os cidadãos deste país estarão transgredindo as leis locais ao comprarem o livro. O vendedor do livro está sob a legislação de outro país Y e sua oferta visa a um público indistinto. Estaria ele violando a legislação do país X?

Claro que há situações em que um serviço ou conteúdo na rede podem estar sujeitos à rejeição universal, por violarem princípios globalmente acordados. Mesmo nesse caso, seria prudente iniciar com a suspensão do nome de domínio? O serviço que o DNS presta resume-se a traduzir um nome para um número IP; não leva ao local, e muito menos hospeda os dados visados.

Usar como primeira providência a remoção do nome, além de poder afetar outros serviços e conteúdos perfeitamente legais, não eliminará nem o conteúdo danoso, nem o acesso a ele, dado que ele continuará acessível via endereço IP. Pior, ao impedir a resolução do nome, estaremos “avisando” nosso suspeito de que há algo em marcha contra ele. Logicamente, sua primeira providência será remover o conteúdo ilegal e se esconder, o que pode dificultar ou mesmo inviabilizar toda a investigação em andamento.

Na cadeia de ações de que se pode lançar mão para coibir abusos, parece claro que atacar o DNS será o último passo, nunca o primeiro. Agir imediatamente sobre o DNS sob o pretexto da urgência, pode levar a não se atingir o objetivo almejado e a prejudicar inocentes. Mesmo assim, na falta de soluções mais ágeis e coordenadas, muitos afobados tentarão ir pela via curta e simplória. Há outro adágio que diz: “a quem só tem martelo, todos os problemas parecerão pregos".

terça-feira, 28 de maio de 2019

Quase-Direito

“Revolução Digital” é palavra de ordem. No lugar de “digital” (que remete a dígito ou dedo) poderia ter-se usado “discreto”, antônimo de “analógico” ou “contínuo”. Mas, convenhamos: a revolução que está aí é tudo menos “discreta”... 

Se correio, telégrafo e telefonia já permitiam conexões entre os cidadãos do mundo, a forma com que essa interligação passou a ser operada hoje é algo incomparável: por primeira vez temos uma “comunicação franca” ao alcance de todos. E há rupturas sociais muito maiores do que simplesmente a introdução da informática, da automação, da eletrônica em nosso dia a dia. 

A Internet realizou a interpenetração de fronteiras físicas. Se nos referirmos ao Tratado de Vestfália, a consolidação do moderno conceito de nação tem menos de 400 anos, com definição de “soberania” e introdução da diplomacia nas negociações. Fronteiras físicas são elementos cruciais das nações. A imposição de leis e normas sociais fica adstrita aos limites físicos dos estados nacionais. Há tratados internacionais que buscam homogeneizar comportamentos e ações, mas são raros e de difícil consecução. 

Quando estamos discutindo algo em um grupo, é claro que não é necessário que os participantes ou o gestor do grupo estejam localizados no país cuja língua está sendo utilizada. Muito menos a plataforma na qual o grupo se articula. Então, em situações dessas, em face de potencial abuso, como definir qual lei foi burlada, se não é claro o contexto sociocultural nacional que se aplica? 

Outro ponto a ponderar é que, longe de nações ou de associações convencionais, a proximidade física concorre pouco para o alinhamento de grupos de discussão. Buscamos afinidades de temas, ideias e posicionamento, mais do que vizinhança física. As tensões que surgem hoje pouco se relacionam a países e fronteiras, mas sim a linhas de pensamento, de negócio e de poder. Uma corrente que queira atacar a posição oposta, encontrará aliados em diversos lugares do globo, prontos a cerrarem fileiras. 

Buscar legislação de consenso é uma forma de atenuar o problema. Mas tratados internacionais, além de difíceis de obter, demoram muito mais do que os novos tempos exigem. Buscar homogeneização entre leis nacionais pode ser parte da solução, como parece estar sendo o caso da proteção de dados individuais. Outra forma, conhecida como “soft law” ou “quase-direito”, é buscar um consenso não formal nesses temas. Nessa linha, em junho haverá em Berlim a terceira reunião de “Internet e Jurisdição”, conferência que debate temas transfronteiriços em três vertentes: dados, conteúdos inadequados, e nomes de domínio.

O “quase-direito” é uma forma de articulação que pode nos livrar de alternativas bem ruins. É recorrente a ameaça, lançada de tempos em tempos por países descontentes com a rede mundial, de estabelecerem-se também “fronteiras” para a Internet.

Essa opção, de “fragmentar” a rede, representaria abjurar a revolução que ela trouxe, tornando-a uma realidade nacional contida nas fronteiras físicas, com características locais. Mas mesmo para as nações que não se sentem confortáveis com o cenário global, fragmentar a rede implicará, para elas também, na perda de acesso ao enorme mercado além das fronteiras físicas. Terão elas coragem de “trucar” aí? A emenda pode sair pior que o soneto.


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Internet & Jurisdiction Policy Network
https://www.internetjurisdiction.net/


https://www.reddit.com/r/MapPorn/comments/4qemua/map_of_europe_after_the_treaty_of_westphalia_24th/





terça-feira, 14 de maio de 2019

Os Contos do Internauta

Ernst Hoffmann escreveu três contos curtos em que a personagem principal era ele mesmo. Foram base para uma interessante ópera de Offenbach, “Os Contos de Hoffman”. Conhecido por operetas espirituosas e alegres, Offenbach não queria morrer sem deixar uma obra de cunho mais sério e dedicou seus últimos anos escrevendo essa obra. Não viu a estreia: faleceu pouco antes. 

Hoffmann está perdidamente apaixonado por Stella, misteriosa artista. Um vilão demoníaco, o conselheiro Lindorf, com nomes diferentes permeia toda a ação, sempre destruindo os planos de Hoffmann. 

No primeiro ato as desventuras de nosso herói o ligam a uma boneca mecânica, Olympia, que se move por conta dum mecanismo a corda. Os idealizadores da boneca atraem Hoffmann e, com óculos especiais, o fazem supor que o que vê é, sim, uma belíssima moça real, por quem imediatamente se apaixona. Uma ilusão não muito distante da “realidade aumentada” de hoje. Ao tentar dançar com Olympia, quebra os óculos e a ilusão se desconjunta. A segunda aventura se dá com Antonia, cantora de voz maviosa sobre quem pesa um fado cruel: se Antonia insistir em cantar, morrerá da mesma forma que morrera sua mãe, também cantora famosa. De novo Hoffmann se apaixona, e de novo o maléfico se interpõe e faz com que Antonia, resolvendo-se a cantar, acabe por morrer. O terceiro ato passa-se em Veneza. Ouve-se a famosa barcarola e os amores de Hoffmann vão para Giulietta, uma cortesã sem escrúpulos. Outra vez o inimigo destrói os planos de Hoffmann, que acaba por perder a própria sombra. Giulietta morre envenenada por engano. Stella, a mulher ideal, seria a soma das três: teria a beleza e a técnica de Olympia, a arte de Antonia, a paixão erótica e o gosto pelo poder de Giulietta...

Para um Hoffmann internauta, Stella poderia ser a personificação da Internet. Ele busca na rede técnicas que lhe permitam ver belezas agradáveis, extasiantes, mas irreais. Inteligência artificial, realidade expandida, internet das coisas remetem a Olympia: elas nos apaixonam e, ao mesmo tempo, nos fazem correr riscos ou cair em armadilhas. Não basta Olympia, adicionemos Antônia, e teremos acesso à arte e à cultura como nunca antes. Visitaremos museus em que não pisaremos, vocalizaremos muitas ideias, às vezes mal definidas e superficiais, com todos, o tempo todo. O risco é que a verdadeira arte e cultura com o tempo sufoquem, como aconteceu com Antonia, que não poupou sua voz. Finalmente, Giulietta: o brilho da paixão por ganhos rápidos na rede, por iniciativas e empreendedorismo pouco pensados, pode esconder venenos. E está visível o acúmulo de poder em poucas mãos, com a correspondente ânsia para obterem nossa sombra (ou será nossos dados??).

Amamos nossa estrela Stella e queremos preservá-la como a imaginamos, sem deformações. Olympia, Antonia e Giulietta nos trazem riscos variados, de toda a espécie, mas o principal risco é perder o que mais almejamos: a integralidade da experiência que a Internet nos proporciona.

Hoffmann começa a ópera numa taberna, totalmente bêbado, e é lá também que a encerra, embriagado, decidindo renunciar a Stella e voltar a ser poeta. Mas nos “Contos do Internauta” propomos um final diferente: Stella não será perdida!


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Uma ótima interpretação da canção de Olympia, "Les oiseaux dans la charmille"
com Natalie Dessay:

https://www.youtube.com/watch?v=InAxtPyZVKI

E o "poster" do filme  de Michael Powell e Emeric Pressburger (1951):





terça-feira, 30 de abril de 2019

O Inimigo

São tempos complexos. Não que antes as coisas fossem simples mas, e ao menos aparentemente, elas estavam sob nosso controle. Futuros distópicos eram tema da ficção, que nos deu diversos exemplos de prospectivos futuros sombrios. Em vários deles, e de diversas formas, o homem perderia sua posição de controle. Em outros, mesmo havendo o risco de perda de controle, ela era minimizada por decisões humanas que limitariam a ação das máquinas. Em Eu, Robô, por exemplo, Isaac Asimov propõe três leis que se destinam a proteger os humanos de qualquer comportamento deletério das máquinas. Trata-se, claro, de ficção...

O poder de processamento de dados que a tecnologia nos fornece hoje é milhões de vezes maior do que há duas décadas. Desde sua proposição por Gordon Moore em 1965, a conjectura de crescimento conhecida como Lei de Moore continua inabalável: a cada 18 meses a capacidade de processamento dobra. Com isso, algumas abordagens técnicas, que antes não seriam muito promissoras, mostram-se surpreendentemente eficientes. 

Há duas décadas, já era um tema constante de debates a forma de construir programas que incluíssem “aprendizado” de máquina, mas os resultados ainda pouco animadores. Ensinar, por exemplo, um programa a traduzir uma língua envolveria tentar estabelecer uma árvore semântica que desse ao sistema algum “entendimento” do que se buscava traduzir. 

Uma segunda linha foi rapidamente agregada ao processo: valer-se do que os humanos já tivessem feito na área. Com a digitalização de enormes acervos de livros e suas respectivas traduções, essa base de dados melhoraria o resultado da tradução incorporando no processo o que humanos haviam feito antes. Essa abordagem dupla e também muito beneficiada pelo aumento da capacidade de armazenamento, trouxe melhores resultados. 

Na programação de jogos pode-se usar uma linha de aprendizado puro, em que o programa inicialmente apenas sabe como mover as peças e, após muitas tentativas e erros, acaba por selecionar estratégias vencedoras, ou pode-se incorporar a experiência dos humanos naquele jogo, como base de dados. 

Esse conjunto de enormes bases de dados (“Big Data”), mais a tecnologia de extrair deles informação selecionada (“Data Mining”), e mais as formas de se incorporar “aprendizado” pelas máquina, são componentes fundamentais do que se denomina “inteligência artificial”. 

Estamos escolhendo os caminhos a seguir e, portanto, imaginamos definir a versão do futuro que nos parece melhor. Mas, quando toda e experiência humana já tiver sido passada às máquinas, haverá o risco de perderemos o controle de nossas vidas, e de termos criado uma tecnologia que desloque o homem do centro das decisões? 

No conto de Jorge Luis Borges O jardim dos caminhos que se bifurcam, um sábio chinês havia dedicado a vida a escrever um livro/labirinto em que todos os futuros são simultaneamente possíveis. A decisão de escolher um caminho em cada bifurcação que se encontra pela frente não elimina as demais possibilidades. Como diz no conto o sinólogo que estudou o livro, “o tempo se bifurca perpetuamente para inumeráveis futuros. Num deles, sou seu inimigo”.


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trecho de "El jardín de senderos que se bifurcan", Jorge Luis Borges:

"... En la obra de Ts'ui Pên, todos los desenlaces ocurren; cada uno es el punto de partida de otras bifurcaciones. Alguna vez, los senderos de ese laberinto convergen; por ejemplo, usted llega a esta casa, pero en uno de los pasados posibles usted es mi enemigo, en otro mi amigo. "
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Bifurcação dos caminhos da Internet:  IPv6 vb IPv4, segundo Geoff Houston:
















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IA, Big Data, Data Mining e aprendizado de máquina:
https://whatsthebigdata.com/2016/10/17/visually-linking-ai-machine-learning-deep-learning-big-data-and-data-science/





terça-feira, 16 de abril de 2019

BR Balzaquiano

Daqui a dois dias, em 18 de abril, o .br torna-se balzaquiano. O adjetivo, perenizado pela obra de Balzac, remete aos 30 anos, idade da maturidade, do controle de si, da vitalidade e... da sedução. O .br caiu no gosto dos brasileiros desde o início da implantação da Internet no País, em 1991. Em um cenário muito dinâmico, às vezes confuso e fluido, o .br permanece como suporte confiável aos brasileiros que buscam identidade na rede.

A história começa por volta de 1987, quando já estava clara a necessidade, ao menos na área acadêmica, de obtenção de acesso às redes internacionais de computadores que se expandiam rapidamente. A primeira rede buscada pelos brasileiros foi a Bitnet (Because It is Time Network), nome apropriado: “Rede, porque Tá na Hora!”. O Lncc (Laboratório Nacional de Computação Científica) no Rio de Janeiro e a Fapesp, criando a ANSP (an Academic Network at São Paulo), lograram conexão à Bitnet em 1988. Rapidamente universidades e institutos de pesquisa em todo o País buscaram ligar-se à rede. No caso específico da Fapesp, podia-se também acessar a HEPNet (High Energy Physics Network), ligando laboratórios de física de alta energia. 

A área acadêmica, entretanto, não foi a única a ser enfeitiçada pela ideia da troca livre e rápida de informação. Organizações da sociedade civil como o Ibase no Rio de Janeiro, APC e outras ofereciam acesso discado a redes internacionais. Para os que operávamos a rede acadêmica passou a ser importante obter uma estrutura de nomes para as máquinas interligadas. A melhor solução era ter um identificador que fizesse sentido e permitisse uso amplo. O esquema hierárquico de nomes para a Internet, muito bem planejado, já tinha cadastrados e disponíveis todos os códigos de duas letras que identificariam países e territórios. Lá constava o .br.

O passo seguinte foi pedir o .br para uso pelas redes acadêmicas brasileiras. Para nossa agradável surpresa, em 18 de abril de 1989 Jon Postel, responsável pela IANA (Internet Assigned Numbers Authority), considerou o time brasileiro maduro o suficiente para operar o .br. Assim, antes mesmo de obtermos conexão à Internet, recebemos o .br para usar como sobrenome!

De lá pra cá pouca coisa mudou na forma, mas muito mudou na escala. Desde o começo achamos importante deixar o .br fechado, aceitando apenas a empresas e cidadãos brasileiros, e com semântica preservada. O segundo nível sob o .br foi mantido restrito, e criadas alternativas que melhor servissem à característica dos aplicantes. Uma organização não governamental usaria org.br; para comércio e uso geral, com.br; o governo poderia ofertar futuros serviços sobre a rede usando o gov.br. Essa estrutura, inicialmente aberta apenas a pessoas jurídicas, foi sendo ampliada e passou a aceitar pessoas físicas. Foram criadas instâncias para profissões, como adv.br, eng.br, med.br; instâncias para publicadores, como blog.br, wiki.br, art.br e, mais recentemente, para cidades: bhz.br, rio.br, sampa.br. Hoje são mais de 120 alternativas.

Nesses trinta anos o .br atingiu 4 milhões de domínios, o sétimo maior domínio de país no mundo. E segue sedutor, com invejável solidez técnica e resiliência: um balzaquiano atraente e de respeito. “Vida longa e próspera!”, diria o sr. Spock, da Jornada nas Estrelas.


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Página da IANA sobre delegação do .br, onde consta a data de 18/abril/1989:

https://www.iana.org/domains/root/db/br.html
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e aqui as estatísticas do CENTR - Council of European National Top-level domain Registries:


https://centr.org/statistics-centr/quarterly-reports.html

com a tabela correspondente ao final de 2018:




terça-feira, 2 de abril de 2019

Imprimatur

A prensa de Gutemberg abriu uma era de difusão de informações e conhecimento como o mundo não experimentara até então. Os raros manuscritos, guardados em conventos e igrejas, podiam ser imprimidos em quantidade e distribuídos a um número muito maior de leitores. 

Como também ocorre hoje, essa inovação trouxe a possibilidade de negócio, de se venderem muitas cópias, e a correspondente pressão para que os recursos fossem direcionais ao que mais interessaria ao público. Não demorou muito para que textos eventualmente “não canônicos” passassem a circular livremente. 

Menos de 100 anos depois, já havia resultados inesperados da popularização de textos. Lutero, por exemplo, certamente valeu-se da imprensa para difundir sua tradução alemã da bíblia, antes disponível em latim e grego e, portanto, apenas acessível aos que soubessem essas línguas.

À Igreja Católica não passaram despercebidos os riscos nascentes. Foi instituído um “crivo” para que uma obra obtivesse licença de impressão. Um bispo ou seu auxiliar deveria ler o texto, julgar se lá havia alguma falsidade ou impropriedade, e emitir um juízo: “nada obsta” (nihil obstat, em latim). Assim, finalmente, a obra obtinha o imprimatur – “imprima-se”.

Mais alguns séculos se passaram até que o princípio de livre acesso a todo o conhecimento e livre divulgação de ideias ganhasse momento. Enciclopedistas propunham coligir de forma racional o que se sabia para colocar à disposição. Podemos dizer que o pêndulo social oscilava em direção às liberdades individuais.

A Internet trouxe uma nova instabilidade no pêndulo. Potencializando imensamente o que houve há 600 anos, todos passamos a ter acesso a tudo e, mais ainda, saímos da posição de passivos leitores para a de ativos e ardentes defensores de pontos de vista, mesmo nos temas que nem dominamos tanto assim... Afinal, há um microfone amplificado disponível!

De novo, entretanto, surge reação. Pelos mais variados motivos, desde proteção contra falsidades ou defesa de direitos genéricos, passando por ideais moralizantes, reaparecem defensores de um “crivo”. 

Acaba de ser aprovada uma lei europeia que, entre outros pontos, arroga-se a proteger “direitos de autor” – note-se que esse direito inexistia à época de Gutemberg. Não é à toa que ela cria um incômodo em parcelas importantes do público: pode gerar consequências bem diversas das pretendidas. 

A par de ser totalmente lícito e correto punir os que transgridem as leis vigentes, causa-me arrepios que a ação proposta o seja de forma apriorística, ante factum. E, pior ainda, que seja uma tarefa encomendada ao segmento que conta com quem já tem bastante poder. Arriscamos a tornar inviáveis os que não dispuserem de ferramental para o crivo, e os que já gozam dele, terão ainda mais poder! O fosso aumentará.

Um grego, há 2500 anos, postulou que “leis são como teias de aranha: apanham insetos pequenos, mas os pássaros as rompem e fogem”...

O pêndulo está oscilando novamente, agora em direção a controle e tutela crescentes. 
Lembrou-me os primeiros versos da Carmina Burana: “Ó Destino, cresces e mínguas qual a lua mutante; a detestável vida escureces e depois clareias, brincando com nossa mente; dissolves como gelo a miséria e o poder”... Nihil obstat!

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https://spiritualdirection.com/2016/01/18/what-are-imprimi-potest-imprimatur-and-nihil-obstat



terça-feira, 19 de março de 2019

A Epopéia Amazônica

Uma das deliciosas obras de Monteiro Lobato é Os Doze Trabalhos de Hércules. Foi nela que, na meninice (milênio passado), tive contato com as mitológicas amazonas, tribos de mulheres guerreiras que viviam na região do Ponto, costa sul do Mar Negro, próximo à atual cidade de Terme, norte da Turquia. Um dos trabalhos do herói era obter um ambicionado cinturão que Hipólita, a rainha das amazonas, possuía. E ele o conseguiu!

Nosso rio Amazonas ganhou esse nome, lembro das aulas de história, quando o explorador Orellana foi atacado por uns indígenas liderados por mulheres. Passou a ser conhecido como “rio das Amazonas” e, por extensão, a imensa região verde que o rodeia e que atinge oito países. Há uma organização diplomática chamada Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OCTA), que é integrada por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

Quanto à Internet, tudo ia bem nesse tema até que a Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (Icann, na sigla em inglês) em 2012, resolveu expandir o número de gTLDs, “sobrenomes” genéricos de nomes de domínio. Assim, além dos que representam países, como o nosso “.br” e os outros de duas letras, os genéricos, como o “.net”, o “.com” e outros, passariam a ter numerosos “irmãos”. Apareceram gTLDs como “.hotel”, “.xyz”, “.berlin”, “.rio”, e também gTLDs de marcas, com uso mais restrito às próprias companhias que os solicitaram, como “.ibm”, “.natura” e, claro, “.amazon”. 

Nas regras havia restrição quanto a pedidos de nomes geográficos e outros casos polêmicos, mas um conflito entre uma empresa e uma região não era provável. Além do potencial conflito do “.amazon”, apareceu outro em nossa área: o “.patagonia”, também solicitado. Mais uma vez a Internet colocava face a face interesses conflitantes, que só se manifestaram na rede. 

Quando países, ciosos de sua soberania sobre nomes geográficos tidos como amplamente conhecidos, viram instituições comerciais os requisitarem para uso como gTLD, foram à luta. Afinal esse é um processo excludente: há um único dono para cada TLD. O “.patagonia” foi resolvido amistosamente em conversas com Argentina e Chile, mas o “.amazon” revelou-se osso duro de roer.

Inicialmente o Grupo Assessor de Governos na Icann (GAC) chegou a um consenso pedindo o bloqueio da solicitação da empresa Amazon. A gigante do varejo insurgiu-se e requereu um painel neutro de reavaliação. Ora, a disputa entre marcas e nomes de regiões é terreno pantanoso, e houve uma reversão: o painel sugeriu à Icann que concedesse a delegação do nome à Amazon.

Claro que a OTCA não concordou com isso. A Icann viu-se entre a frigideira e o fogo: se atendesse à Amazon, arrumava um enrosco político de vulto com oito países. Se não atendesse, provavelmente ganharia um processo multimilionário da empresa que teve o parecer favorável do painel. Na reunião de Kobe, a 64ª da Icann terminada na sexta, 15 de março, a saída possível foi esquivar-se de dar a palavra final e conceder mais um tempo para saia alguma luz das discussões. Cá entre nós, não será fácil conseguir consenso entre os países sobre qual o acordo possível e, menos ainda, que a atual pretendente, Amazon, aceite mais protelações.

Que tal chamar Hércules para um 13.o trabalho? Seria o de “deslindar o impasse OCTA x Amazon em um tempo finito”. Trabalho hercúleo!


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Comentários do "board" da ICANN na reunião de Kobe, março de 2019, sobre  o caso .amazon:

https://www.icann.org/resources/board-material/resolutions-2019-03-14-en#2.e



terça-feira, 5 de março de 2019

Terça-feira Gorda

Começo me desculpando aos que eventualmente se sintam ofendidos. Esse “gorda” do título não reflete “gordofobia”, nem “gordolatria”, horrendos hibridismos tão em voga hoje. Remonta a “Mardi Gras”, a terça-feira untuosa dos franceses, último dia para se consumir costelinhas, rabadas e torresmos, dado que vem aí a quaresma e o início do jejum. Mas hoje é “terça-feira” gorda de Carnaval, véspera da “quarta-feira de cinzas”, e sinto-me insuficiente para questionar o que nossos antepassados estabeleceram e tem se mostrado sensato.

“Terça-feira” evoca em mim pretéritas épocas da meninice. No meu bairro, terça-feira era o dia da feira livre. Dia em que os feirantes apregoavam as qualidades dos produtos, materializados nas bandejas de tomates, batatas, alfaces, laranjas. “Prove aí, freguesa, a minha laranja-da-baía... Doce como mel. Só compra se gostar! Sem compromisso!”. Época anterior ao depois famoso “pastel de feira”, do qual viraria cliente anos mais tarde. E havia uma forma fácil de saber que estava chegando o “fim da feira”: era o cheiro persistente de peixe se sobrepondo aos demais. O odor da barraca do peixeiro marcava a hora de levantar acampamento.

A lembrança da feira e o seu processo aberto de mercadeio trouxeram-me outra imagem forte: o artigo de Eric Raymond “a Catedral e o Bazar”. Nele, comparava-se duas formas de produção de bens: uma altamente hierárquica – a Catedral – onde poucos definem a arquitetura final e os demais apenas contribuem como mão de obra –, e o Bazar, onde o processo de definição e construção é interativo e continuamente participativo. Todos conhecem esse conceito, e é o que descreve a evolução do sistema operacional Linux e de outros programas abertos e colaborativos. Ousaria dizer que a própria Internet é resultado muito mais de um “bazar” do que de uma “catedral”, se bem que há que se reconhecer influências importantes de ambos os processos. Ainda na mesma linha, estamos hoje a menos de 10 dias da comemoração dos trinta anos da invenção da web por Tim Berners-Lee. A data de 12 de março de 1989 é cravada como a do nascimento da web.

Ela, a web, talvez seja o mais expressivo exemplo do que a “feira livre” nos poderia dar. Na web todos apregoamos o que nos interessa, desde o que tomamos no café da manhã, passando pelas nossas posturas políticas, se gostamos ou não de música clássica, ou de coentro. Pouco importa se isso interessa mais ou menos aos nossos leitores. Mas certamente interessa aos que farejam oportunidades de negócio usando nossos comportamentos e escrutinando as tendências em voga. O bazar e a feira livre estão aí, com seus múltiplos efeitos positivos, facilmente identificáveis e claramente louváveis. Mas (e sempre há o outro lado da moeda), como na feira livre, há as bancas que vendem batatas de qualidade, e há as que buscam ludibriar o cliente. Como nas feiras, nós, os clientes deveríamos aprender a ser hábeis e saber distinguir a “baciada” de boas batatas, daquela de batatas “de segunda”. É isso que se espera de clientes experimentados, e é o único caminho que parece promissor.

É terça-feira gorda de carnaval. Vida longa à Internet, à web e, ao vencedor, as batatas! Evoé! Evoé!


Aniversário da Web:
https://home.cern/news/news/computing/web30-30-year-anniversary-invention-changed-world

While working at CERN, Sir Tim Berners-Lee invented the World Wide Web (Image: CERN)