terça-feira, 7 de julho de 2020

Bom dia!

O projeto de lei 2630, agora aprovado no Senado, segue para a Câmara. Do muito que foi dito, ressalta especialmente a estranha rapidez com que tramita, associada à falta de debate mais amplo com a sociedade. Um alerta adicional: a ele se opõem vozes dos mais diversos matizes políticos, mas que convergem na importância de proteger direitos fundamentais e civilizatórios. Não só a liberdade de expressão e a privacidade, mas até a presunção de inocência correm sérios riscos, que aumentam quando se pensar em delegar decisões da justiça a âmbitos alheios. O Marco Civil da Internet, agregado à legislação já existente suprem o necessário para levar a cabo qualquer ação. E parece perigoso associar destempero verbal ou rudeza a algum novo tipo de infração, mesmo reconhecendo que muito da lhaneza no trato social desapareceu.

No tema, domingo, coincidiu uma entrevista de Vint Cerf, pioneiro da Internet, para um programa de Bombaim, Índia. Respondendo a “como a tecnologia poderia amenizar o problema de conteúdos inadequados ou falsos”, Vint elencou tres caminhos: 1- tecnológico - como cientista, constata a impossibilidade de verificação humana para o volume de dados que entra na rede: são geradas 400 horas de vídeo por minuto! Se a ideia é identificar conteúdos inadequados (partindo da hipótese que haveria como definir isso...), a saída é recorrer a “ferramentas automatizadas”, mesmo com as mazelas que seu uso pode apresentar, de “aprendizado” deficiente, até eventual viés inesperado. 2- termos de conduta - plataformas se beneficiariam com regras mais estritas e claras, bem informadas aos usuários. Analogmente a clubes, quando alguém decide usar uma plataforma precisa conhecer e aceitar suas normas internas. Muitas plataformas preveem meios de auto-controle, onde usuários podem denunciar o que lhes pareça não aderente às normas e que, uma vez confirmado, pode levar a sanções ou, até, à exclusão do abusador. Afinal, parece razoável que um clube de vegetarianos rejeite alguém que divulgue receitas de churrasco... Há também necessidade de estrita transparência e ampla divulgação do código de conduta, que deverá exibir boa estabilidade, sem mudanças repentinas ao sabor dos ventos do momento. 3- mais civilidade – que, segundo Vint, talvez seja a única forma sólida de, a médio prazo, melhorar o convívio na rede. Aqui ele fez analogia com “forças fracas” que obtem grandes resultados. A gravidade, mesmo sendo uma força extremamente fraca, consegue, pelo acúmulo de massa mover a Terra na órbita do Sol. A transmissão histórica da cultura e dos modos de civilidade, aparentemente forças fracas, moldava comportamentos nos tempos de antanho. Criança aprendi com minha avó a ceder o lugar aos mais velhos nos meios de transporte, a cumprimentar as pessoas, a não levantar a voz ao discutir… Marcas que, uma vez impressas em nós, delas não conseguimos desviar. Forças em si fracas que, disseminadas na sociedade, tornam-se regras a que não se foge. Imagine-se, por absurdo, abandonar esse caminho e criar “atalhos”: tornar o “bom dia”obrigatório por lei! Seria um claro sinal claro de degenerescência social. Características inculcadas pela educação, como a cordura, o não ofender, o não contar mentiras propositalmente, tornam-se em decisão racional e volitiva. Pedir uma lei que nos obrigue a sermos corteses  e civilizados é reconhecer o risco de falência de nosso convívio.


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O vídeo com Vint Cerf está em:

https://www.youtube.com/watch?v=pkk92NC6T9A&t=1806s

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terça-feira, 23 de junho de 2020

Atendendo desejos


Quem não gostaria de sanear a internet, ambiente em que nos movimentamos e vivemos hoje? Remover de lá o que seja maliciosamente enganador, estupidamente virulento ou viciosamente racista e excludente? Todos anseiam por um ar leve e puro. Que apenas informações fundamentadas e edificantes cheguem até nós, e que possamos confiar integralmente no próximo. Essa utopia, entretanto, além de não ter guarida no que conhecemos por “gênero humano”, estará sempre longe, no horizonte, como algo a ser incansavelmente buscado, porém inatingível. O perigo é escolhermos caminhos escorregadios e falhos para avançar mesmo um pouco na direção da ansiada meta. O perigo é a emenda sair pior que o soneto. Oscar Wilde, numa famosa e sábia tirada, nos previniu: “quando os deuses querem punir alguém, eles atendem os seus pedidos”.

Visando a atender a esses desejos há vários projetos em trâmite nas casas legislativas federais, que se propõem como eficiente bálsamo para aliviar a praga das notícias falsas na internet. Afinal quem não aplaudiria um lenitivo para isso? Mas há consequências numa legislação que inclui a necessidade de identificação positiva dos usuários de rede e o rastreamento das mensagens que são repassadas. Além de eventuais dificuldades intransponíveis para sua implantação na rede global, trará grandes riscos à nossa privacidade e ao exercício da liberdade de expressão na Internet. Muitas vezes eivados de imprecisões técnicas graves e que sugerem pouca familiaridade com aspectos técnicos do funcionamento da internet, eles oneram essencialmente os que estão à mão, os inocentes. Projetos feitos sem extenso debate prévio com a comunidade, podem levar a leis que se comportem como teias de aranha: apanham os pequenos insetos, enquanto os maiores as rasgam e escapam. E perde-se o objetivo de se construir um ambiente jurídico coerente e seguro. Hoje, quando celebramos a existência da Lei Geral de Proteção de Dados, é irônico ver outras propostas indo em direção a crescente vigilantismo, com riscos, até, de deformar o Marco Civil da Internet.

O risco dos pedidos apressados lembra “A Mão do Macaco”, um curto e sombrio conto de W.W.Jacobs, escrito em 1902. Resumidamente, um casal idoso e seu filho jovem recebem uma visita de um major, antigo amigo, e na conversa fala-se sobre magia. O major alerta que isso é algo perigoso, que se deve evitar. Mostra uma mão mumificada de macaco, que teria poderes para atender tres desejos, e sugere que ela seja jogada ao fogo, pelos riscos que representa. A família inicialmente ri-se do caso mas, ao final, decide ficar com o tal objeto, ao invés de destruí-lo. Não resistindo à ideia de testar os poderes do amuleto resolvem pedir-lhe que seja saldada a dívida remanescente da compra da casa: 200 libras. No dia seguinte, após o filho seguir ao seu emprego, recebem uma nova visita: é o representante da empresa onde o filho trabalha, trazendo uma notícia funesta: o jovem teria sido atingido pela máquina que operava e falecera. E a empresa, contristada, envia aos pais a quantia de 200 libras como maneira de aliviar a dor… O conto segue - ainda há dois desejos disponíveis - porém já fica claro que podemos nos arrepender amargamente quando formulamos pedidos mal-engendrados. O pedido foi atendido: as 200 libras chegaram, mas perdeu-se um bem muito maior! A pressa na construção de um remédio pode sair mais grave que o mal que se pretendia combater.


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"Um marido ideal" Oscar Wilde:

Sir Robert Chiltern: <...> Eu me lembro de ter lido em algum lugar, em algum livro estranho, que quando os deuses querem nos punir atendem aos nossos pedidos.
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Sobre "A Mão do Macaco" ou "The Monkey's Paw"

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Monkey%27s_Paw

https://freebookseditora.weebly.com/uploads/1/1/9/3/119330764/9_-_a_m_o_do_macaco__3__2.pdf


<...>
- E os três pedidos formulados foram realmente atendidos? - perguntou a Sra. White.
- Foram - respondeu o major, e o copo chocou-se contra seus fortes dentes.
- E ninguém mais renovou os pedidos? - perguntou a velha senhora.
- A primeira pessoa teve, sim, os seus desejos satisfeitos - respondeu -. Eu não sei quais foram os dois primeiros pedidos. Mas o terceiro desejo foi a morte. Foi dessa maneira que eu obtive a mão do macaco.

Sua entonação era tão solene que o silêncio caiu sobre o grupo.
<...>
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terça-feira, 9 de junho de 2020

Morigeração

No ginásio, meu professor de português apresentou à classe os sonetos do Bocage, enaltecendo a qualidade lírica, mas já advertindo que parte de seus outros escritos, por ser muito satírica e libidinosa, estava vedado aos de nossa idade. Manuel Maria Barbosa du Bocage viveu numa época de grande crise, e chegou a passar algum tempo preso por ter escrito um poema antirreligioso.

Hoje os tempos não são menos complexos. Numa radicalização de posições, passamos a conviver com uma linguagem abusiva, e que não raramente ignora os fatos, na ânsia de criar narrativas pouco verídicas… Há leis bem estabelecidas para punir crimes e abusos mas, por diversos motivos, entre eles o de atender a “clamor popular” difuso, multiplicam-se propostas “inovadoras” que visam a prover alívio aos usuários; medidas que pretendem conter o que pareça ser calunioso, ofensivo, ou apenas desagradável.

Que há tempos abandonamos a cordura parece claro. A virulência das expressões que circulam pelas redes sociais não tem paralelo, e só faz aumentar. Para a rede temos o Marco Civil, que completou mais de seis anos, regula direitos e deveres, e foi globalmente bem recebido.

Mas são cada vez mais frequentes as propostas de se incluírem alterações nele, que poderão esconder muito perigo para a nossa liberdade. O Marco Civil é uma lei construída de forma paradigmática e, caso haja espaço para aperfeiçoamentos, eles deveriam ser precedidos de um debate público tão amplo e extenso qual foi o que houve quando da sua elaboração.

Há pontos técnicos a observar: na internet, só regras globais funcionam bem. A tentativa de criar espaços locais com regras específicas redunda ou numa segmentação da rede global, ou em estímulos de se buscarem formas de contornar essas restrições. A resistência da internet ao controle foi expressa por John Perry Barlow: “a internet interpreta ‘censura’ como um defeito, e busca rotas para contorná-lo”. Se queremos criar uma “internet com regras próprias”, estaremos promovendo sua ruinosa desagregação. Em qualquer legislação vindoura, a infraestrutura da rede terá que ser preservada em sua neutralidade e funcionalidade, sob pena de descartarmos “o bebê junto com a água do banho”.

Quanto aos agentes na rede, todos devem ser responsáveis pelos seus atos, mas sempre por decisão judicial. Criar instâncias intermediárias com poderes censores, pode alimentar monstros e gerar problemas ainda mais complexos. Exigir identificação positiva dos internautas, por exemplo, além de violar a privacidade, sempre onerará os inocentes. Afinal Bocage usava o pseudônimo de Elmano Sadino quando fazia versos bucólicos. Na internet sempre ficam rastros e a guarda dos metadados, prevista no Marco Civil, sempre permitirá chegar ao autor do desmando, desde que assim definido pela Justiça. Repassar a intermediários o papel de definir o que é “verdade” ou “mentira” é uma decisão que geraria abusos de autoridade, e que poderia transformar nossa liberdade de expressão num aleijão.

Voltemos à elegância e à morigeração, mas sem abrir mão da liberdade. Bocage também foi o poeta da liberdade, e a usou em toda sua extensão: 


Ah! Se a vossa liberdade
zelosamente guardais, 
como sois usurpadores
da liberdade dos mais?
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https://poemasdebibe.blogspot.com/2013/08/o-passarinho-preso-bocage.html

http://www.faroldasletras.pt/bocage.html

Liberdade Querida e Suspirada

Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada!

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada;

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha;

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

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Liberdade, onde estás? Quem te demora

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não Caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo que desmaia.
Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!

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terça-feira, 26 de maio de 2020

A sete chaves

Quarta-feira, 27 de maio, o STF irá dedicar-se novamente ao exame da Ação de Descumprimento de Preceito Federal ADPF 403/SE. A sua origem foi a suspenção da operação do Whatsapp por uma decisão de um juiz do Sergipe, devido a não ter recebido as informações que esperava num caso sob investigação.

Parte do argumento usado valia-se também de uma leitura do Art. 12 do Marco Civil. Segundo essa leitura, haveria previsão legal para a ação… O art. 12 do Marco Civil é parte da Secção II, “Da Proteção aos Registros, aos Dados Pessoais e às Comunicações Privadas”, que trata da privacidade de usuários na Internet, da limitada coleta de dados sobre conexão e serviços, e do sigilo destes dados, que só podem ser repassados por ordem judicial (art. 11). As penas previstas no art 12 incluem “III - suspensão temporária das atividades que envolvam os atos previstos no art. 11”, mas estão associadas a descumprimento do artigo 11 anterior. Ao menos a um leigo como eu, parece claro que pena de suspensão de atividades visa a coibir abusos na coleta ou armazenamento de dados pessoais. Por sorte, com a Lei Geral de Proteção de Dados temos agora um espectro melhor de cobertura, mesmo que ainda não esteja totalmente funcional.


O ponto específico levantado na discussão da ADPF 403 prende-se a outro tema, não menos relevante: o tratamento que pode ser dado à criptografia. Na audiência pública de há dois anos sobre essa mesma ADPF, buscava-se discutir a existência de formas de neutralizar o uso de criptografia forte por serviços e por usuários. Parece-me crítico reafirmar aqui a importância de se proteger o uso de criptografia forte, implementada fim-a-fim. Numa conversa entre duas pessoas quaisquer, elas devem ter garantido o direito de usar a liguagem que escolherem, mesmo que cifrada. Na hipótese de uma interceptação autorizada daquela conversa, caberá ao interceptador tentar decodificar o que foi dito. Querer ter à mão uma “chave-mestra” que possa abrir o conteúdo da conversa aos que obtiveram o direito ao “grampo” pode criar uma ameaça fatal à privacidade dos indivíduos. Pior ainda seria tentar tornar o uso da criptografia ilegal. Zimmermann, um conhecido especialista da área, cunhou: “tornar ilegar essa busca de privacidade fará com que apenas os fora-da-lei tenham privacidade”.

Já houve tempos em que criptografia forte era apanágio de órgãos de Estado. Com o aumento de poder de computação e com o desenvolvimento da ferramente, hoje há soluções fáceis e sem custo, que implementam criptografia forte na comunicação. Claro que não há nada que, com o esforço e tempo adequados, não consiga ser quebrado - e mais ainda com nascentes tecnologias como a computação quântica - mas esse é um jogo usual de força e da contra-inteligência. Não faz sentido buscar limitar o uso de criptografia forte, ou miná-la exigindo a introdução de uma “porta dos fundos”, ou de algum tipo de gazua que, mesmo com a melhor das intenções, acabará por cair cedo ou tarde em mãos erradas. Já os que agem nas sombras continuarão imunes.
Sabemos que segurança e privacidade são aliadas, não competidoras. Não é uma escolha a fazer: tendo nossa privacidade, estaremos mais seguros. Bruce Schneier, criptógrafo e especialista em segurança, definiu bem esse falso dilema: “Liberdade requer segurança sem intrusão, ou seja, segurança com privacidade”. Que a ADPF 403 tenha uma sábia conclusão!
===Ensaio do Bruce Schneier, maio 2006, onde consta a frase citada:

"Too many wrongly characterize the debate as "security versus privacy." The real choice is liberty versus control. Tyranny, whether it arises under threat of foreign physical attack or under constant domestic authoritative scrutiny, is still tyranny". 

"Liberty requires security without intrusion, security plus privacy".===

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Manual do PGPhone, Phillip R. Zimmerman, de 1996 (!) :


"if we want to resist this unsettling trend in the government to outlaw cryptography, one measure we can apply is to use cryptography as much as we can now while it is still legal. When use of strong cryptography becomes popular, it's harder for the government to criminalize it. Thus, using PGP and PGPfone is good for preserving democracy." <...>

"If privacy is outlawed, only outlaws will have privacy".
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A Enigma, máquina de criptografia usada pelos alemães na segunda grande guerra:


https://en.wikipedia.org/wiki/Enigma_machine

... e  Bombe, a máquina que Alan Turing usou para conseguir quebrar a criptografia da Enigma:



https://en.wikipedia.org/wiki/Bombe

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terça-feira, 12 de maio de 2020

A hora da xepa.

Sou permeável a conselhos desde que, lógico, sigam na linha que acho correta. Assim, enquanto aguardo que as potestades nos livrem dos miasmas da peste que nos assola, mantenho-me em asséptico recolhimento. Ora, segundo os mistagogos, estando enclausurado é de bom alvitre prover alimento também à alma: revi “O Desprezo”, belo filme de 1963. Além de nos fazer pensar sobre a incomunicabilidade e outros dilemas filosóficos, o filme, esteticamente, atinge niveis sublimes. Para citar apenas tres deles, há a fulgurante Brigitte Bardot, o cenário paradisíaco de Capri e… uma Alfa Romeu vermelha de tirar o fôlego!

Mas o que fez associar o filme ao texto foi uma fala curta da personagem “Fritz Lang”, no filme um famoso diretor de cinema, interpretado por… Fritz Lang. Bem, lá pelas tantas, Fritz Lang, algo entediado, cita o poeminha curto e agudo de Bertold Brecht, “Hollywood”: “Cada manhã, para ganhar meu pão / vou ao mercado onde se compram mentiras. / Cheio de esperança / incluo-me entre os vendedores”. Talvez haja um componente autobiográfico nessas quatro linhas, dado que Brecht trabalhou em Holywood durante a segunda grande guerra, mas é interessante a visão amarga e sarcástica que tem do tal “mercado onde se compram mentiras”.

Que houve daqueles tempos para cá? Parece-me que nosso desejo de comprar mentiras adequadas não arrefeceu. Se ele era a mola propulsora de poucos e elitizados mercados como Holywood, hoje encontra resposta simples, barata e ampla na Internet… Há ali, a custo muito baixo, mentiras disponíveis para todos. E os vendedores não precisam mais pertencer a grupos específicos: hoje qualquer um de nós pode se perfilar entre os vendedorhttps://lareviewofbooks.org/article/a-brecht-for-our-time-on-the-collected-poems-of-bertolt-brecht/es, ao mesmo tempo que entre os compradores.

Essa banalização do mercado de mentiras leva-me a outra analogia, igualmente datada e certamente falha: a da “feira livre”. Sob alguns aspectos, parece estamos numa feira livre dos velhos tempos. Daquelas que tinham seus rituais, expressões, sons e aromas característicos. Desde do indefectível “pastel de feira”, em geral numa das suas extremidades e provido por orientais, até o odor pungente das barracas de peixe na outra extremidade, passando pela infinidade de vendas apregoando de tudo: da baciada de laranja bahia, “doce como mel”, ao maço da couve mais tenra e apetitosa. Se a feira lembra a nossa Internet, na rede podemos ainda mais! Podemos nos colocar como fregueses das barracas, e também… como repassadores do que recebemos. Podemos agir como propagandistas, intencionais ou não, das qualidades do açúcar mascavo, ou do feijão carioquinha da tenda do Pedrão. E, além disso, a feira tem uma forma própria de padrões de medida, que sempre admite um “chorinho”: uma bacia de laranja, mas podendo antes experimentar grátis a doçura do fruto, um maço generoso de espinafre, que sempre pode ter algum reforço para agradar o freguês.

O risco que se corre é, com a crescente oferta de tudo (e, portanto, também de mentiras), acabar caindo no conto dos pregoeiros de ocasião. Eles muitas vezes nem dinheiro querem – bastam alguns dados nossos e eis que receberemos um “brinde” ou um serviço talvez suspeito. O fim-de-feira, a conhecida xepa, é a hora com maior risco, ao arrematar os restos sempre com a impressão de que estamos a fazer vantajosas permutas... Mas preciso parar aqui, para não cair no crivo do Millôr: “as pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”.

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"Hollywood" de Bertold Brecht 
em alemão:

Jeden Morgen, mein Brot zu verdienen
Gehe ich auf den Markt, wo Lügen gekauft werden.
Hoffnungsvoll
Reihe ich mich ein zwischen die Verkäuf
er.


em inglês:
Every morning, to earn my bread
I go to the market where lies are traded
In hope
I take my place amongst the sellers.


https://lareviewofbooks.org/article/a-brecht-for-our-time-on-the-collected-poems-of-bertolt-brecht/

e quando Fritz Lang recita o poema, no filme:

https://www.youtube.com/watch?v=ITHTbewUF-c&feature=youtu.be&t=4361
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Textos sobre "O Desprezo":

https://periodicos.ufmg.br/index.php/aletria/article/download/18768/15710/

https://cinemaedebate.com/2010/09/23/o-desprezo-1963/
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A foto da escadaria que leva ao teto da casa em Capri:


em https://exame.abril.com.br/marketing/festival-de-cannes-divulga-poster-oficial-de-2016/



terça-feira, 28 de abril de 2020

Pandemias e pandemônios


Estamos acompanhando, tensos, a evolução da atual pandemia Covid-19. E torcemos para que arrefeça logo. Os mais otimistas (entre os quais me incluo) notam uma certa inflexão na curva dos números internacionais disponíveis, mas resta bastante incerteza sobre eventuais ressurgimentos (Libera nos!). O jeito é manter o isolamento e todas as demais medidas profiláticas propostas. É sempre melhor prevenir!

Com isso, estamos todos experimentando uma nova realidade, cuja permanência ou não, também é motivo de intenso debate. Passada a Covid-19 as coisas voltarão a ser como dantes, ou é um mundo bem diferente que nos espera? Confirmando que a necessidade é a mãe das invenções, a Internet nos proveu de meios para tornar esta travessia mais suave. O que antes era uma eventualidade ocasional – participar de reuniões virtuais no âmbito profissional – agora é nosso dia-a-dia para tudo. Aniversários em família são comemorados olhando a tela do computador, exibem-se copos de vinho e sorrisos, enquanto um “parabéns a você” sincronizado pede a alguém que apague velinhas – essas ainda na forma tradicional…

Pandemia é uma palavra com semântica interessante, com “pan”, raíz grega que significa “todos” ou “na íntegra”, e “demos”, nossa velha conhecida para “povo”. É, portanto, algo que se refere a todos nós, indistintamente. E o que uma onda pandêmica arrisca produzir poderia ser um “pandemônio”, também com a raíz “pan”. Se pandemônio originalmente identificava a reunião de “todos os demônios” hoje, por extensão, pode ser sinônimo de balbúrdia, de confusão. E aparentemente é o que está ocorrendo, de várias maneiras e em diferentes contextos. 

Ferramentas projetadas para casos específicos ganharam enorme projeção e uso. Os riscos de segurança de nossas informações aumentaram muito, agora que seu tráfego é feito exclusivamente pela Internet ampla, e surgem falsos dilemas como, por exemplo, se deveríamos abrir mão de nossa privacidade para que o sistema nos informe sobre a proximidade de alguém contaminado. Também cresceu o número de notícias verdadeiras (ou exageradas?) de perigos nas novas ferramentas. Claro que a pressão inesperada de uso pode levar a que se descubram fragilidades, ou comportamentos abusivos, mas também é natural que a guerra comercial tenda a amplificar esse tipo de notícias. Lembra-me uma frase que o Mandic, do início da rede comercial brasileira, usa sempre: “o prego que se destaca é o que merece ser martelado”. 

O jeito é redobrar a cautela no uso de ferramentas às quais não estávamos muito acostumados, mas sem cair num eventual pandemônio, nem permutar nossa privacidade por “informações de segurança” em tempos de pandemia. Mesmo que isolamento exacerbe a característica egocêntrica do nosso tempo: afinal, queremos (e devemos!) contribuir para que a peste não se alastre mas, por outro lado, precisamos que alguém mantenha nosso fornecimento de energia elétrica, que pessoas zelem por nossa segurança e que alguém nos venda legumes, sem falar do trabalho exposto e abnegado dos que exercem tarefas críticas como os enfermeiros e médicos. E prezamos pela nossa privacidade.

suaAcompanho esperançosamente os números da Covid-19 e reconheço a imensa utilidade das estatísticas em prever evoluções. Mas a pletora de previsões que nos é oferecida deve ser lida “com um grão de sal”. Atribui-se a Mark Twain um dito espirituoso de há mais de 100 anos: “há tres tipos de mentiras: as simples mentiras, as mentiras deslavadas, e... as estatísticas”.


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Sobre mentiras e estatísticas, em: http://lowres.jantoo.com/business-stat-statistician-lie-liar-statistic-01436756_low.jpg


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Interessante observar que o deus Pã está presente em outra palavra que é também usada em situações de crise: "pânico". Na verdade, a exṕressão original é "medo pânico", ou seja medo de ações que Pã possa tomar. Medo de Pã.
https://img.estadao.com.br/fotos/crop/640x400/resources/jpg/8/2/1588021640128.jpg

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terça-feira, 14 de abril de 2020

A “microfonia” na Internet

Li em algum lugar que a quarentena assemelha-se ao regime do “pinto na granja”: acendeu a luz, comer; apagou a luz, dormir. Do meu lado não estou neste regime do pinto. Ao contrário, as tele-reuniões se multiplicam e chega-se a ter várias marcadas para a mesma hora. Estamos em casa e nossa disponibilidade parece total! Há reuniões virtuais na hora do almoço, de noite, de manhãnzinha, sem contar as internacionais, que acabam acontecendo em horas ínvias. Um dos poucos consolos que temos é a companhia virtual dessa legião de espirituosos piadistas, ferrenhos fofoqueiros e abnegados distribuidores de informação duvidosa…

Na quarentena, a Internet é o mundo que ainda conseguimos atingir. Usamos para falar com filhos e amigos, discutir decisões a tomar em nosso trabalho, receber carradas de informações sobre o Covid, e... reenviar muitas delas, como também o fazemos com vídeos da família, piadas, etc. Diz-se que poderíamos usar o tempo, que agora nos sobra, para leituras, reencontrar velhos discos e filmes, conversar com os outros “detentos” de nossa casa, mas… como resistir ao canto de sereia da rede? E, mais, hoje há também ofertas diárias grátis de transmissão de eventos, concertos, óperas!

Volto às tele-reuniões: não raro, os que estão numa delas, descuidados, deixam o microfone ativo. Além dos ruídos caseiros que nos distraem da discussão, ouve-se muitas vezes uma tempestade de “ecos” que impede a conversa. O diagnóstico é simples: algum microfone enxerido escutou um som da conversa, o interpretou como se fosse a voz de seu “dono” e o retransmitiu. Acontece na rede algo parecido à velha “microfonia” analógica. É comum em eventos um microfone mal controlado escutar o alto-falante e reenviar ao amplificador o som recebido. Inadvertidamente reamplificado o som torna-se aquele desagradável apito ensurdecedor. Lembro dos velhos tempos da engenharia, curso de
controles, em que se alertava da instabilidade gerada por “realimentação positiva”, ou seja, quando um sinal emitido é reenviado para a entrada do mesmo amplificador. Isso para concluir que, nesses momentos de clausura compulsória, se já aprendemos a fechar o microfone para não atrapalhar vídeo-conferências, deveríamos seguir o mesmo critério ao recebemos algo e não reenviá-lo automaticamente. Repassar a quantidade avassaladora de notícias e informações duvidosas que recebemos sobre qualquer tema (e o tema do momento é a Covid), pode levar o nosso ambiente a entrar numa espécie de “microfonia de informação”, aumentando o ruído!

Na mesma toada, por exemplo, quando um aplicativo que usamos com frequência resolve nos indicar conteúdos escolhidos, pelo seu algoritmo, como sendo do “nosso interesse”, recebemos “realimentação positiva”. O cenário pode piorar se a Inteligência Artificial ajudar no esforço de enviar-nos mais daquilo que parecemos gostar.

Uma proposta que poderia ser mais saudável, mental e emocionalmente, seria que os algoritmos incluíssem propositadamente conteúdos no sentido oposto do que estamos lendo. Em eletrônica isso seria a “realimentação negativa”. Para manter um sistema funcionando de forma saudável pode ser necessário reinjetar na sua entrada uma amostra invertida da saída: a “realimentação negativa”. Se os algoritomos não nos proporcionam essa diversidade, que tal criá-la nos mesmos? Afinal Tomás de Aquino já advertia: “temo o homem de um livro só”.


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Uma "bolha" sim, porém muito sólida...
https://www.chrismadden.co.uk/cartoon-gallery/the-phone-filter-bubble-effect-creating-a-phoney-world-view/



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"Convicções são inimigas mais temíveis da verdade que as mentiras", Nietzsche em "Humano, demasiado  humano", aforismo 483:

"Convictions are more dangerous enemies of truth than lies".
http://nietzsche.holtof.com/reader/friedrich-nietzsche/human-all-too-human/aphorism-483-quote_251ee000d.html

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terça-feira, 31 de março de 2020

A Volta ao Lar

Trabalhar de casa é uma novidade que pode causar algum estranhamento, especialmente quando a rotina era chegar muito tarde e sair cedo. Como alguém já comentou ironicamente, “há umas pessoas pela casa, sempre as mesmas – deve ser o que chamam de ‘família’, e alguns eventos, que antes aconteciam magicamente, agora têm que ser cuidados um a um…”.  O inesperado convívio intenso, antes característica dos fins de semana, e amenizado por saídas e passeios, é gerador de alguma tensão nova. Verticalizamos atividades de forma radical: tudo é feito em casa e já nem dá para ir à padaria, do outro lado do quarteirão, pedir um “x-egg” e uma cerveja…

Precisamos montar uma área de trabalho caseira, cercada dos equipamentos necessários para comunicação eficiente. Interagir de casa pede comunicação e coordenação.

E aí entra a nossa Internet, que já usávamos fartamente antes, mas que com o confinamento tornou-se crucial. A rede resistirá à nova sobrecarga? Vamos dar uma olhada rápida na estrutura que suporta nossas atividades. Há um conjunto de “tubos de dados”, conexões que ligam empresas, equipamentos, sítios Web, e também todos nós, de casa. Além das conexões, há serviços que usamos para consultas, compras e pedidos, via aplicativos ou diretamente. O conjunto de “tubos” tem uma capacidade momentânea limitada, assim como os “serviços” tem um limite de atendimentos. Já que o acesso a serviços tradicionais não deve apresentar grandes mudanças, olhemos a vazão instalada hoje.

A demanda de vazão tem mudado de perfil além, é claro, de crescer continuamente. Há 10 anos, com o acesso doméstico mais limitado, a curva de tráfego começava a subir pelas 9h da manhã, atingia um pico parcial ao redor das 11h30, caia um pouco na hora do almoço e voltava a subir de tarde, chegando ao máximo diário por volta das 17h, quando tornava a cair bastante. Com a expansão da banda larga doméstica e com a popularização de vídeos e entretenimento disponíveis via Internet, a curva mudou. O pico de uso passou para as 21h, e ficou bem mais pronunciado. Assim, o teste de esforço da “tubulação” ocorria às 21h. Com o teletrabalho, a tele-educação, a telemedicina, a curva de uso passa a ter um perfil mais constante: o tráfego nos horários comerciais aproxima-se daquele que acontecia às 21h, com ainda um pequeno predomínio do horário noturno. O máximo diário, entretanto, subiu pouco acima do que se via há dois meses.

O resumo da ópera é positivo. Não há ameaça imediata de algum problema catastrófico, que nos impeça de usar a rede, agora que vivemos fisicamente isolados. A estrutura que aguentava um máximo noturno, deve aguentar o mesmo valor, agora quase uniforme nas demais horas do dia. Se na Europa e regiões onde o acesso doméstico tem grande capacidade havia risco de colapso, aqui estamos mais tranquilos. Aliás, lá fora provedores de conteúdo tomaram medidas para economizar banda e essas providências, “exportadas” para o Brasil, fazem com que haja mais espaço às aplicações que surgiram para amenizar o isolamento.

Professores estão gerando aulas virtuais, médicos atendem a consultas pela rede e nós todos agora trabalhamos, buscamos informação e interagimos de casa. Há também uma pletora de ofertas interessantes em entretenimento e diversão para nosso conforto durante o isolamento. Vamos usá-los com parcimônia e critério, prezando pelo equilíbrio na rede. Como dizia aquela velha máxima, “sabendo usar, não vai faltar”. Vamos manter o espírito elevado. “Delenda COVID-19”!


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Dados do IX.br de 31 de março de 2020: https://ix.br/agregado/





Curvas semanaiGráfico Semanal:


Gráfico Mensal:



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Quanto ao título: "A Volta ao Lar" é  nome de uma peça de teatro de Harold Pinter, traduzida e adaptada por Millor Fernandes. http://www.sergiobritto.com/torres-e-britto/a-volta-ao-lar/






terça-feira, 17 de março de 2020

A Peste

Sob muitos pontos de vista estamos vivendo um período atípico da humanidade. Até a metade do século passado nossos ascendentes tiveram que se haver com uma guerra que começou em 1914, com a gripe espanhola em 1919, um interlúdio tenso entre 1920 e 1938, coalhado de crises econômicas e políticas, e a volta da guerra em 1939. Nós fomos bastante poupados. Há sempre conflitos aqui e ali, com o drama e as injustiças que carregam, mas em nada comparáveis com a destruição e a mortandade da primeira metade do século 20.
E eis que de repente surge uma verdadeira ameaça global. Do tipo que considerávamos apenas tema para literatura de época e que pede medidas draconianas como fronteiras fechadas e recolhimento compulsório. Há, com o título acima, um ótimo livro de Albert Camus, que descreve o improvável ressurgimento da peste bubônica, cerca de 1940, em Orã, Argélia. Aos primeiros indícios - morte repentina de milhares de ratos nas ruas de Orã - há a tendência natural de negação, mas logo fica claro que, mortos os ratos, suas pulgas infestarão os humanos e a peste de alastrará, inclusive pelo contacto direto com os infectados. Fecham-se fronteiras e introduz-se quarentena compulsória aos suspeitos, além das medidas higiênicas de praxe. O texto, delicioso e com personagens complexas, incluiu tudo o que parece estamos para viver por aqui: corrida aos mercados, prateleiras esvaziando-se, preços subindo, a necessidade de ocupar o tempo de reclusão, as tensões sociais que o convívio forçado provoca, mas também exemplos de dedicação e abnegação.
Há muitos paralelos mas, como os tempos são outros, também diferenças importantes. A disseminação galopante de informações de hoje não se compara com a forma informar novidades em Orã. Lá também circulavam boatos e inverdades, mas em proporção incomparável ao que vemos. Aliás, esse é um dos motivos da insegurança que nos assola: escolhemos &quot;a la carte&quot; o que queremos ouvir sobre essa pandemia. Desde algo animador, que minimiza o que virá e acalma os espíritos, a cenários aterradores que evocarão os 50 milhões de mortos da "gripe espanhola" de 1918. Ah, disseminam-se também elaboradas teorias de conspiração e de guerra biológica.

Outra diferença é o arsenal tecnológico de que dispomos para trabalhar a partir de nossas casas, remotamente. Temos equipamentos e bases de dados conectadas, temos boa capacidade de banda para comunicação, temos a estrutura da Internet a nos fornecer suporte. A barreira física que assim se cria é eficiente para inibir o vírus biológico. Mas não nos esqueçamos das modalidades artificiais de "vírus", as que são criação da informática. E para esses entes do mal, quanto mais dados trafegarem nas redes, quanto mais transações críticas forem executadas, mas instigante e promissor será o cenário. Com acesso remoto, a transmissão do virus biológico será controlada mas... haverá um recrudescimento de ameaças informáticas pelo aumento óbvio de apetitosos alvos. Transferir, sem a devidas medidas profiláticas, uma aplicação que era segura em rede local, para uma rede ampla como a Internet, pode criar riscos importantes.

Em Orã, após seis meses, a peste foi debelada.  Final feliz. Camus deixa um aviso aos leitores: "...muitos podem não saber, mas o bacilo da peste nunca morre... Espera pacientemente até o dia em que, para infortúnio (e aprendizado) dos homens, a peste acordará seus ratos e os enviará para morrer numa cidade feliz".

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algumas citações de Camus:
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"...ce qu'on appelle une raison de vivre est en même temps une excellente raison de mourir"
(o que se considera uma "razão para viver" pode ser, ao mesmo tempo, uma ótima "razão para morrer" -  de "O Mito de Sísifo")
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"Écoutant, en effet, les cris d'allégresse qui montaient de la ville, Rieux se souvenait que cette allégresse était toujours menacée. Car il savait ce que cette foule en joie ignorait, et qu'on peut lire dans les livres, que le bacille de la peste ne meurt ni ne disparaît jamais, qu'il peut rester pendant des dizaines d'années endormi dans les meubles et le linge, qu'il attend patiemment dans les chambres, les caves, les malles, les mouchoirs et les paperasses, et que, peut-être, le jour viendrait où, pour le malheur et l'enseignement des hommes, la peste réveillerait ses rats et les enverrait mourir dans une cité heureuse."

“Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”
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https://www.edition-originale.com/en/literature/first-and-precious-books/camus-la-peste-1947-44765

terça-feira, 3 de março de 2020

O Mercado de Almas

Valor de mercado é algo volátil e difícil de definir, especialmente para nós, leigos em economia. Nesta semana, por exemplo, o surto do vírus do momento derruba bolsas, estraga previsões, azeda os otimistas. Do outro lado do espelho, inteligência artificial representa a nova cornucópia de bondades e riqueza. Sua simples menção, de preferência acompanhada de "alguma-coisa 4.0", e outras expressões crípticas, bastará para desencorajar os raros incautos que se aventurariam em polemizar...

Estamos entrando na quaresma (...acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções...). Lembrou-me que foi na Páscoa que o Dr. Fausto, no poema de Goethe, um cientista ávido de conhecimento como sói usualmente acontecer com eles, encontrou-se numa praça

com um cão negro, depois transmudado em um misterioso ser de capa vermelha e sorriso torto, que lhe propõe um pacto. Há todo um prefácio disso, que envolve uma aposta entre Deus e o Diabo, nos moldes do que se passou com Jó no velho testamento, mas não

trataremos aqui desses prolegômenos. Fausto pergunta ao misterioso visitante o nome. Ele desconversa e diz ser o "espírito que nega sempre tudo" trata-se pois do Tentador, que no poema tem o nome de Mefistófeles. O pacto, assinado com sangue, exigiu negociação, pois Fausto ambicionava muito: para si, todo o conhecimento possível e para o mundo uma sociedade justa e de fartura. Quando estivesse satisfeito com o resultado atingido ordenaria ao tempo: "Pare! Perpetue este momento inefável" e aí Mefistófeles ganharia

definitivamente sua alma. Ou seja, o Demo pagaria um preço bastante elevado pela alma de Fausto.

O tema da barganha demoníaca aparece em muitas obras. Em O Mandarim, de Eça de Queiróz, Teodoro, simples escriturário cético, após ler um livro fantástico, recebe a visita de um senhor de preto e cartola que lhe propõe algo que estava no tal livro: se Teodoro

tocasse uma pequena sineta à sua frente, um riquíssimo mandarim na China morreria instantaneamente, e sua fortuna viria para Teodoro. Convencido das vantagens, ele toca a sineta, recebe a fortuna e, pouco depois, arrepende-se. Avalia ter cometido um grande erro e tenta, sem sucesso, desfazer o pacto. A misteriosa figura de negro e cartola desaparece e sobra apenas um cão negro a farejar o lixo...

O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, fala de um jovem vaidoso que, ao ser retratado numa bela pintura, lamenta-se que o retrato permanecerá sempre assim, enquanto ele envelhecerá. Propõe-se a vender a alma em troca de a pintura envelhecer ao invés do

retratado. Uma perene juventude para Dorian, enquanto seu retrato degenera. Nestes três exemplos há uma nítida diminuição no valor perceptível de almas no mercado. Se para ganhar a alma de Fausto o diabo teve que conceder poderes e conhecimento vastos,

a de Teodoro valeu riquezas, e a de Dorian, apenas o prazer narcisista de manter-se belo.

Qual seria hoje a cotação de almas, especialmente nos ambientes em redes, onde a verdade torna-se mais "flexível", e o hedonismo o individualismo experimentam inédita valorização? Quanto o Pai da Mentira teria que pagar pela nossa subserviência? Afinal todos queremos vídeos monetizados, alguns milhares de likes e ter muitos seguidores pelo mundo (quem sabe até algum moderno mandarim chinês entre eles...). Qual seria a barganha aceitável pelo nosso caráter ou ética? Ou, pior ainda, qual seria a definição de ética que vale? Alerta!


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https://link.estadao.com.br/noticias/geral,o-mercado-de-almas,70003217289


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Em  link=http://biblio.com.br/conteudo/MachadodeAssis/osermaododiabo.htm
o Sermão do Diabo, de Machado de Assis. Alguns trechos abaixo:

3º Bem-aventurados aqueles que embaçam, porque eles não serão embaçados.

9º Vós sois o sal do money market. E se o sal perder a força, com que outra coisa se há de salgar?

11. Não julgueis que vim destruir as obras imperfeitas, mas refazer as desfeitas.

17. Eu, porém, vos digo que não jureis nunca a verdade, porque a verdade nua e crua, além de indecente, é dura de roer; mas jurai sempre e a propósito de tudo, porque os homens foram feitos para crer antes nos que juram falso, do que nos que não juram nada. Se disseres que o sol acabou, todos acenderão velas.

18. Não façais as vossas obras diante de pessoas que possam ir contá-lo à polícia.






terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O Último Bastião

Nossa segurança passa também pela definição de formas de identificação individual. Há uma diversidade de métodos para isso, sigilosos ou não, e não raro aconselha-se a se lançar mão de mais de um deles simultaneamente. O uso de características essencialmente pessoais permite identificar alguém com boa margem de certeza. É o que acontece com impressões digitais, com reconhecimento facial ou da íris, e outros usos da biometria. E há ainda formas não físicas, como o uso senhas pessoais, com diferentes graus de complexidade. Forma bastante robusta de identificação, como as impressões digitais, podem não ser nada sigilosas: afinal elas acabam em quase tudo o que tocamos. Assim com nossas fotografias e, até, nosso DNA, que poderia ser conseguido de fios de cabelos perdidos. O sigilo realmente reside nas formas mentais, como é o caso de senhas. Essas sim estão unicamente em nosso poder e parecem invioláveis.

A mente, esse último baluarte da privacidade e da identidade, sempre foi objeto de profunda pesquisa, que hoje apresenta avanços imp0rtantes. Por exemplo a DARPA, agência de pesquisas avançadas do setor militar norte-americano (e onde nasceu a Internet), conduz desde 2013 o projeto BRAIN, que visa a entender o funcionamento de nosso cérebro. É um dos muitos projetos mundiais que vão nessa direção. Resultado muito meritório desse tipo de pesquisa é o desenvolvimento de próteses que possam ser controladas por impulsos cerebrais, fazendo com que pessoas com disabilidades físicas superem suas limitações. Mas surgem outros possíveis usos, nem sempre éticos. Há algum tempo, por exemplo, foi anunciado na China um boné que monitora atividade cerebral e mede o grau de atenção de operadores em atividades de risco. Um motorista de ônibus ou um operador de máquina, por exemplo, teriam sua concentração momentânea na atividade avaliada. Se já há desenvolvimentos em inteligência artificial que, a partir de uma imagem, deduzem o estado emocional de alguém, via impulsos cerebrais essa avaliação seria muito mais direta.
Entender sinais cerebrais permitirá o controle de dispositivos com ou sem implantes invasivos de sensores e circuitos. E há o caminho inverso, onde é possível introduzir no cérebro sinais que produzirão imagens e sons, que não passaram pelos nossos sentidos normais. Ou seja, em breve é possível não só que nossos pensamentos sejam legíveis, mas que nossas sensações sejam geradas sem ter que passar por olhos, ouvidos, tato: a invasão da última esfera de privacidade que se considerava inviolável. Se o próprio pensamento puder ser monitorado, o grau de controle e vigilantismo poderia ir às raias do pesadelo.

O alerta para a necessidade do estabelecimento de limites vem dos próprios pesquisadores da área. Uma preocupação imediata pode ser a de estender a proteção de direitos, de forma a incluir não só o sigilo de nossos pensamentos, como a não interferência artificial às nossas decisões. Afinal, se for possível "plantar" na mente sensações que sejam indistinguíveis daquelas geradas pelos sentidos, nossa própria identidade e o livre-arbítrio podem tornar-se ficção. Na irônica frase do Millôr, "livre pensar é só pensar", garantia-se liberdade desde que restrita apenas a pensamentos. Hoje, até nessa úlima forma corre-se risco. Ao menos o "pensar" continuará livre?

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O projeto BRAIN, da DARPA
https://www.darpa.mil/program/our-research/darpa-and-the-brain-initiative
https://www.eletimes.com/darpa-sponsored-research-revolutionize-brain-computer-interface
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Quatro prioridades éticas para neurotecnologia e inteligência artificial:
http://www.columbia.edu/cu/biology/pdf-files/faculty/Yuste/yuste%20et%20al.nature2017.pdf
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China e o monitoramento de emoções:
https://www.technologyreview.com/f/611052/with-brain-scanning-hats-china-signals-it-has-no-interest-in-workers-privacy/
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Artigo sobre preocupações do pesquisador Rafael Yuste no tema:
https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-02-13/por-que-e-preciso-proibir-que-manipulem-nosso-cerebro-antes-que-isso-seja-possivel.html
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Millôr, na coluna "Livre pensar é só pensar"...
http://www.tribunadainternet.com.br/livre-pensar-e-so-pensar-millor-fernandes-12/
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Mais canela e menos pimenta

Há um interessante filme greco-turco de 2003 que em português ganhou o título de "O Tempero da Vida", com bela trilha sonora e uma delicada análise de relacionamentos e emoções. O simples fato de ser uma produção greco-turca, conhecendo-se a tensão geopolítica da região, já mostra o clima humano e de otimismo. A tradução literal do título grego daria algo como "A Cozinha Política", mas implicaria num grave erro de interpretação: no caso, "política" remete à raiz "pólis", cidade. Parte importante do filme passa-se em Istambul, a antiga "Constantinópolis", que já foi o umbigo do mundo há mil anos. Os gregos se referiam a essa cidade simplesmente como "pólis", dado que ela era A Cidade, sem mais. Assim, o título em grego refere-se à culinária de Constantinopla. Há também um jogo de palavras em grego que mantem-se em português: o avô do protagonista explica ao então menino como se deve temperar a vida, e o faz com uma analogia à astronomia: afinal gastronomia tem apenas um "g" a mais... E trata do sal, da pimenta, da canela, das especiarias, associando seus efeitos aos corpos celestes e recomendando ao netinho atentar aos resultados que os temperos produzem em nossa vida e em nossos relacionamentos. Pena que a arte do tempero e virtude da temperança estejam entrando em desuso.


A polarização, que vemos crescente, é sinal dos nossos tempos. A aglutinação em torno de dogmas é rápida e nítida, por ser cada vez mais fácil arrebanhar partidários para qualquer idéia, mesmo as muito mal cozidas. Quando especialistas discutem um tema sabem que há opiniões divergentes e, mesmo quando tudo parece consolidado, nada impede que daqui a alguns anos a teoria suporte venha a cair. Afinal, tudo que nos parece "natural" hoje já foi "estranho" algum dia e poderá vir a ser abandonado num futuro. Muitas vezes uma idéia abandonada no seu nascedouro, depois de alguns séculos volta e se impõe. O heliocentrismo, por exemplo, inicialmente proposto por Aristarco de Samos 200 antes de Cristo, não conseguiu suplantar o geocentrismo de Aristóteles, mas voltou, mais de mil e quinhentos anos depois, com Galileu, Copérnico e outros. Ter arrogância na certeza é algo que a verdadeira ciência desconhece. Newton, fundamental para a física e para se prever a ação da gravidade nos corpos, foi humilde ponto de dizer que não forjaria uma hipótese sobre a natureza daquela força que ele tão bem equacionou: "hypotheses non fingo". Talvez seja um sábio conselho a seguir. Há os fatos, há as impressões que temos de fatos, mas sua explicação não deve ser proposta levianamente, nem acolhida apenas por representar reforço a posições momentâneas de interesse. A pressa em mostrar que temos opinião sobre tudo apenas faz engrossar as fileiras dos que, com algum objetivo, apresentarão explicações ardilosas para o ocorrido. É a origem das "teorias da conspiração" que encontram terreno cada vez mais fértil em nosso ambiente virtual. Usar de qualquer oportunidade ou fato para garimpar neles algo subjacente que possa ser usado a favor de uma posição é polarizar o discurso e abandonar a argumentação racional. Afinal, não é nem necessário, nem razoável, que todos tenham opinião sobre tudo. Marco Aurélio, imperador e filósofo estóico, recomendava "sempre temos a opção de não formar juízo sobre algo, e não sofrer pelo que não se pode controlar. São coisas que não pedem nosso julgamento. Deixemo-las em paz".

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O Tempero da Vida, trecho em português sobre temperos e astronomia/gastronomia. Vale a pena!
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de http://www.scielo.br/pdf/ss/v11n4/v11n4a05.pdf trecho da citação de Newton, "hypotheses non fingo":

" Até aqui não fui capaz de descobrir, a partir dos fenômenos, a causa dessas propriedades da gravidade, e sobre isso eu não invento hipóteses [hipotheses non fingo]. Pois o que quer que não seja deduzido dos fenômenos deve ser chamado de hipótese; e hipóteses, quer metafísicas, quer físicas, quer sobre qualidades ocultas, quer mecânicas, não têm lugar na filosofia experimental.
Nessa filosofia, proposições particulares são inferidas dos fenômenos e, depois, tornadas gerais por indução. Foi assim que a impenetrabilidade, a mobilidade, a força impulsiva dos corpos e as leis do movimento e da gravitação foram descobertas. E para nós basta que a gravidade realmente exista, e aja de acordo com as leis que explicamos, servindo abundantemente para dar conta de todos os movimentos dos corpos celestes e de nosso mar (Principia, p. 457)"
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Marco Aurélio, Meditações:
Livro VI, 52: 52. "É lícito não formar opinião a este respeito e não sofrer atribulações da alma; as coisas em si mesmas não têm natureza capaz de criar nossos juízos. "
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Cena do filme Politiki Kouzina, traduzido no Brasil como O Tempero da Vida,
em https://link.estadao.com.br/noticias/geral,mais-canela-menos-pimenta,70003184079