terça-feira, 31 de março de 2020

A Volta ao Lar

Trabalhar de casa é uma novidade que pode causar algum estranhamento, especialmente quando a rotina era chegar muito tarde e sair cedo. Como alguém já comentou ironicamente, “há umas pessoas pela casa, sempre as mesmas – deve ser o que chamam de ‘família’, e alguns eventos, que antes aconteciam magicamente, agora têm que ser cuidados um a um…”.  O inesperado convívio intenso, antes característica dos fins de semana, e amenizado por saídas e passeios, é gerador de alguma tensão nova. Verticalizamos atividades de forma radical: tudo é feito em casa e já nem dá para ir à padaria, do outro lado do quarteirão, pedir um “x-egg” e uma cerveja…

Precisamos montar uma área de trabalho caseira, cercada dos equipamentos necessários para comunicação eficiente. Interagir de casa pede comunicação e coordenação.

E aí entra a nossa Internet, que já usávamos fartamente antes, mas que com o confinamento tornou-se crucial. A rede resistirá à nova sobrecarga? Vamos dar uma olhada rápida na estrutura que suporta nossas atividades. Há um conjunto de “tubos de dados”, conexões que ligam empresas, equipamentos, sítios Web, e também todos nós, de casa. Além das conexões, há serviços que usamos para consultas, compras e pedidos, via aplicativos ou diretamente. O conjunto de “tubos” tem uma capacidade momentânea limitada, assim como os “serviços” tem um limite de atendimentos. Já que o acesso a serviços tradicionais não deve apresentar grandes mudanças, olhemos a vazão instalada hoje.

A demanda de vazão tem mudado de perfil além, é claro, de crescer continuamente. Há 10 anos, com o acesso doméstico mais limitado, a curva de tráfego começava a subir pelas 9h da manhã, atingia um pico parcial ao redor das 11h30, caia um pouco na hora do almoço e voltava a subir de tarde, chegando ao máximo diário por volta das 17h, quando tornava a cair bastante. Com a expansão da banda larga doméstica e com a popularização de vídeos e entretenimento disponíveis via Internet, a curva mudou. O pico de uso passou para as 21h, e ficou bem mais pronunciado. Assim, o teste de esforço da “tubulação” ocorria às 21h. Com o teletrabalho, a tele-educação, a telemedicina, a curva de uso passa a ter um perfil mais constante: o tráfego nos horários comerciais aproxima-se daquele que acontecia às 21h, com ainda um pequeno predomínio do horário noturno. O máximo diário, entretanto, subiu pouco acima do que se via há dois meses.

O resumo da ópera é positivo. Não há ameaça imediata de algum problema catastrófico, que nos impeça de usar a rede, agora que vivemos fisicamente isolados. A estrutura que aguentava um máximo noturno, deve aguentar o mesmo valor, agora quase uniforme nas demais horas do dia. Se na Europa e regiões onde o acesso doméstico tem grande capacidade havia risco de colapso, aqui estamos mais tranquilos. Aliás, lá fora provedores de conteúdo tomaram medidas para economizar banda e essas providências, “exportadas” para o Brasil, fazem com que haja mais espaço às aplicações que surgiram para amenizar o isolamento.

Professores estão gerando aulas virtuais, médicos atendem a consultas pela rede e nós todos agora trabalhamos, buscamos informação e interagimos de casa. Há também uma pletora de ofertas interessantes em entretenimento e diversão para nosso conforto durante o isolamento. Vamos usá-los com parcimônia e critério, prezando pelo equilíbrio na rede. Como dizia aquela velha máxima, “sabendo usar, não vai faltar”. Vamos manter o espírito elevado. “Delenda COVID-19”!


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Dados do IX.br de 31 de março de 2020: https://ix.br/agregado/





Curvas semanaiGráfico Semanal:


Gráfico Mensal:



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Quanto ao título: "A Volta ao Lar" é  nome de uma peça de teatro de Harold Pinter, traduzida e adaptada por Millor Fernandes. http://www.sergiobritto.com/torres-e-britto/a-volta-ao-lar/






terça-feira, 17 de março de 2020

A Peste

Sob muitos pontos de vista estamos vivendo um período atípico da humanidade. Até a metade do século passado nossos ascendentes tiveram que se haver com uma guerra que começou em 1914, com a gripe espanhola em 1919, um interlúdio tenso entre 1920 e 1938, coalhado de crises econômicas e políticas, e a volta da guerra em 1939. Nós fomos bastante poupados. Há sempre conflitos aqui e ali, com o drama e as injustiças que carregam, mas em nada comparáveis com a destruição e a mortandade da primeira metade do século 20.
E eis que de repente surge uma verdadeira ameaça global. Do tipo que considerávamos apenas tema para literatura de época e que pede medidas draconianas como fronteiras fechadas e recolhimento compulsório. Há, com o título acima, um ótimo livro de Albert Camus, que descreve o improvável ressurgimento da peste bubônica, cerca de 1940, em Orã, Argélia. Aos primeiros indícios - morte repentina de milhares de ratos nas ruas de Orã - há a tendência natural de negação, mas logo fica claro que, mortos os ratos, suas pulgas infestarão os humanos e a peste de alastrará, inclusive pelo contacto direto com os infectados. Fecham-se fronteiras e introduz-se quarentena compulsória aos suspeitos, além das medidas higiênicas de praxe. O texto, delicioso e com personagens complexas, incluiu tudo o que parece estamos para viver por aqui: corrida aos mercados, prateleiras esvaziando-se, preços subindo, a necessidade de ocupar o tempo de reclusão, as tensões sociais que o convívio forçado provoca, mas também exemplos de dedicação e abnegação.
Há muitos paralelos mas, como os tempos são outros, também diferenças importantes. A disseminação galopante de informações de hoje não se compara com a forma informar novidades em Orã. Lá também circulavam boatos e inverdades, mas em proporção incomparável ao que vemos. Aliás, esse é um dos motivos da insegurança que nos assola: escolhemos "a la carte" o que queremos ouvir sobre essa pandemia. Desde algo animador, que minimiza o que virá e acalma os espíritos, a cenários aterradores que evocarão os 50 milhões de mortos da "gripe espanhola" de 1918. Ah, disseminam-se também elaboradas teorias de conspiração e de guerra biológica.

Outra diferença é o arsenal tecnológico de que dispomos para trabalhar a partir de nossas casas, remotamente. Temos equipamentos e bases de dados conectadas, temos boa capacidade de banda para comunicação, temos a estrutura da Internet a nos fornecer suporte. A barreira física que assim se cria é eficiente para inibir o vírus biológico. Mas não nos esqueçamos das modalidades artificiais de "vírus", as que são criação da informática. E para esses entes do mal, quanto mais dados trafegarem nas redes, quanto mais transações críticas forem executadas, mas instigante e promissor será o cenário. Com acesso remoto, a transmissão do virus biológico será controlada mas... haverá um recrudescimento de ameaças informáticas pelo aumento óbvio de apetitosos alvos. Transferir, sem a devidas medidas profiláticas, uma aplicação que era segura em rede local, para uma rede ampla como a Internet, pode criar riscos importantes.

Em Orã, após seis meses, a peste foi debelada.  Final feliz. Camus deixa um aviso aos leitores: "...muitos podem não saber, mas o bacilo da peste nunca morre... Espera pacientemente até o dia em que, para infortúnio (e aprendizado) dos homens, a peste acordará seus ratos e os enviará para morrer numa cidade feliz".

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algumas citações de Camus:
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"...ce qu'on appelle une raison de vivre est en même temps une excellente raison de mourir"
(o que se considera uma "razão para viver" pode ser, ao mesmo tempo, uma ótima "razão para morrer" -  de "O Mito de Sísifo")
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"Écoutant, en effet, les cris d'allégresse qui montaient de la ville, Rieux se souvenait que cette allégresse était toujours menacée. Car il savait ce que cette foule en joie ignorait, et qu'on peut lire dans les livres, que le bacille de la peste ne meurt ni ne disparaît jamais, qu'il peut rester pendant des dizaines d'années endormi dans les meubles et le linge, qu'il attend patiemment dans les chambres, les caves, les malles, les mouchoirs et les paperasses, et que, peut-être, le jour viendrait où, pour le malheur et l'enseignement des hommes, la peste réveillerait ses rats et les enverrait mourir dans une cité heureuse."

“Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”
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https://www.edition-originale.com/en/literature/first-and-precious-books/camus-la-peste-1947-44765

terça-feira, 3 de março de 2020

O Mercado de Almas

Valor de mercado é algo volátil e difícil de definir, especialmente para nós, leigos em economia. Nesta semana, por exemplo, o surto do vírus do momento derruba bolsas, estraga previsões, azeda os otimistas. Do outro lado do espelho, inteligência artificial representa a nova cornucópia de bondades e riqueza. Sua simples menção, de preferência acompanhada de "alguma-coisa 4.0", e outras expressões crípticas, bastará para desencorajar os raros incautos que se aventurariam em polemizar...

Estamos entrando na quaresma (...acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções...). Lembrou-me que foi na Páscoa que o Dr. Fausto, no poema de Goethe, um cientista ávido de conhecimento como sói usualmente acontecer com eles, encontrou-se numa praça

com um cão negro, depois transmudado em um misterioso ser de capa vermelha e sorriso torto, que lhe propõe um pacto. Há todo um prefácio disso, que envolve uma aposta entre Deus e o Diabo, nos moldes do que se passou com Jó no velho testamento, mas não

trataremos aqui desses prolegômenos. Fausto pergunta ao misterioso visitante o nome. Ele desconversa e diz ser o "espírito que nega sempre tudo" trata-se pois do Tentador, que no poema tem o nome de Mefistófeles. O pacto, assinado com sangue, exigiu negociação, pois Fausto ambicionava muito: para si, todo o conhecimento possível e para o mundo uma sociedade justa e de fartura. Quando estivesse satisfeito com o resultado atingido ordenaria ao tempo: "Pare! Perpetue este momento inefável" e aí Mefistófeles ganharia

definitivamente sua alma. Ou seja, o Demo pagaria um preço bastante elevado pela alma de Fausto.

O tema da barganha demoníaca aparece em muitas obras. Em O Mandarim, de Eça de Queiróz, Teodoro, simples escriturário cético, após ler um livro fantástico, recebe a visita de um senhor de preto e cartola que lhe propõe algo que estava no tal livro: se Teodoro

tocasse uma pequena sineta à sua frente, um riquíssimo mandarim na China morreria instantaneamente, e sua fortuna viria para Teodoro. Convencido das vantagens, ele toca a sineta, recebe a fortuna e, pouco depois, arrepende-se. Avalia ter cometido um grande erro e tenta, sem sucesso, desfazer o pacto. A misteriosa figura de negro e cartola desaparece e sobra apenas um cão negro a farejar o lixo...

O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, fala de um jovem vaidoso que, ao ser retratado numa bela pintura, lamenta-se que o retrato permanecerá sempre assim, enquanto ele envelhecerá. Propõe-se a vender a alma em troca de a pintura envelhecer ao invés do

retratado. Uma perene juventude para Dorian, enquanto seu retrato degenera. Nestes três exemplos há uma nítida diminuição no valor perceptível de almas no mercado. Se para ganhar a alma de Fausto o diabo teve que conceder poderes e conhecimento vastos,

a de Teodoro valeu riquezas, e a de Dorian, apenas o prazer narcisista de manter-se belo.

Qual seria hoje a cotação de almas, especialmente nos ambientes em redes, onde a verdade torna-se mais "flexível", e o hedonismo o individualismo experimentam inédita valorização? Quanto o Pai da Mentira teria que pagar pela nossa subserviência? Afinal todos queremos vídeos monetizados, alguns milhares de likes e ter muitos seguidores pelo mundo (quem sabe até algum moderno mandarim chinês entre eles...). Qual seria a barganha aceitável pelo nosso caráter ou ética? Ou, pior ainda, qual seria a definição de ética que vale? Alerta!


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https://link.estadao.com.br/noticias/geral,o-mercado-de-almas,70003217289


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Em  link=http://biblio.com.br/conteudo/MachadodeAssis/osermaododiabo.htm
o Sermão do Diabo, de Machado de Assis. Alguns trechos abaixo:

3º Bem-aventurados aqueles que embaçam, porque eles não serão embaçados.

9º Vós sois o sal do money market. E se o sal perder a força, com que outra coisa se há de salgar?

11. Não julgueis que vim destruir as obras imperfeitas, mas refazer as desfeitas.

17. Eu, porém, vos digo que não jureis nunca a verdade, porque a verdade nua e crua, além de indecente, é dura de roer; mas jurai sempre e a propósito de tudo, porque os homens foram feitos para crer antes nos que juram falso, do que nos que não juram nada. Se disseres que o sol acabou, todos acenderão velas.

18. Não façais as vossas obras diante de pessoas que possam ir contá-lo à polícia.






terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O Último Bastião

Nossa segurança passa também pela definição de formas de identificação individual. Há uma diversidade de métodos para isso, sigilosos ou não, e não raro aconselha-se a se lançar mão de mais de um deles simultaneamente. O uso de características essencialmente pessoais permite identificar alguém com boa margem de certeza. É o que acontece com impressões digitais, com reconhecimento facial ou da íris, e outros usos da biometria. E há ainda formas não físicas, como o uso senhas pessoais, com diferentes graus de complexidade. Forma bastante robusta de identificação, como as impressões digitais, podem não ser nada sigilosas: afinal elas acabam em quase tudo o que tocamos. Assim com nossas fotografias e, até, nosso DNA, que poderia ser conseguido de fios de cabelos perdidos. O sigilo realmente reside nas formas mentais, como é o caso de senhas. Essas sim estão unicamente em nosso poder e parecem invioláveis.

A mente, esse último baluarte da privacidade e da identidade, sempre foi objeto de profunda pesquisa, que hoje apresenta avanços imp0rtantes. Por exemplo a DARPA, agência de pesquisas avançadas do setor militar norte-americano (e onde nasceu a Internet), conduz desde 2013 o projeto BRAIN, que visa a entender o funcionamento de nosso cérebro. É um dos muitos projetos mundiais que vão nessa direção. Resultado muito meritório desse tipo de pesquisa é o desenvolvimento de próteses que possam ser controladas por impulsos cerebrais, fazendo com que pessoas com disabilidades físicas superem suas limitações. Mas surgem outros possíveis usos, nem sempre éticos. Há algum tempo, por exemplo, foi anunciado na China um boné que monitora atividade cerebral e mede o grau de atenção de operadores em atividades de risco. Um motorista de ônibus ou um operador de máquina, por exemplo, teriam sua concentração momentânea na atividade avaliada. Se já há desenvolvimentos em inteligência artificial que, a partir de uma imagem, deduzem o estado emocional de alguém, via impulsos cerebrais essa avaliação seria muito mais direta.
Entender sinais cerebrais permitirá o controle de dispositivos com ou sem implantes invasivos de sensores e circuitos. E há o caminho inverso, onde é possível introduzir no cérebro sinais que produzirão imagens e sons, que não passaram pelos nossos sentidos normais. Ou seja, em breve é possível não só que nossos pensamentos sejam legíveis, mas que nossas sensações sejam geradas sem ter que passar por olhos, ouvidos, tato: a invasão da última esfera de privacidade que se considerava inviolável. Se o próprio pensamento puder ser monitorado, o grau de controle e vigilantismo poderia ir às raias do pesadelo.

O alerta para a necessidade do estabelecimento de limites vem dos próprios pesquisadores da área. Uma preocupação imediata pode ser a de estender a proteção de direitos, de forma a incluir não só o sigilo de nossos pensamentos, como a não interferência artificial às nossas decisões. Afinal, se for possível "plantar" na mente sensações que sejam indistinguíveis daquelas geradas pelos sentidos, nossa própria identidade e o livre-arbítrio podem tornar-se ficção. Na irônica frase do Millôr, "livre pensar é só pensar", garantia-se liberdade desde que restrita apenas a pensamentos. Hoje, até nessa úlima forma corre-se risco. Ao menos o "pensar" continuará livre?

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O projeto BRAIN, da DARPA
https://www.darpa.mil/program/our-research/darpa-and-the-brain-initiative
https://www.eletimes.com/darpa-sponsored-research-revolutionize-brain-computer-interface
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Quatro prioridades éticas para neurotecnologia e inteligência artificial:
http://www.columbia.edu/cu/biology/pdf-files/faculty/Yuste/yuste%20et%20al.nature2017.pdf
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China e o monitoramento de emoções:
https://www.technologyreview.com/f/611052/with-brain-scanning-hats-china-signals-it-has-no-interest-in-workers-privacy/
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Artigo sobre preocupações do pesquisador Rafael Yuste no tema:
https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-02-13/por-que-e-preciso-proibir-que-manipulem-nosso-cerebro-antes-que-isso-seja-possivel.html
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Millôr, na coluna "Livre pensar é só pensar"...
http://www.tribunadainternet.com.br/livre-pensar-e-so-pensar-millor-fernandes-12/
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Mais canela e menos pimenta

Há um interessante filme greco-turco de 2003 que em português ganhou o título de "O Tempero da Vida", com bela trilha sonora e uma delicada análise de relacionamentos e emoções. O simples fato de ser uma produção greco-turca, conhecendo-se a tensão geopolítica da região, já mostra o clima humano e de otimismo. A tradução literal do título grego daria algo como "A Cozinha Política", mas implicaria num grave erro de interpretação: no caso, "política" remete à raiz "pólis", cidade. Parte importante do filme passa-se em Istambul, a antiga "Constantinópolis", que já foi o umbigo do mundo há mil anos. Os gregos se referiam a essa cidade simplesmente como "pólis", dado que ela era A Cidade, sem mais. Assim, o título em grego refere-se à culinária de Constantinopla. Há também um jogo de palavras em grego que mantem-se em português: o avô do protagonista explica ao então menino como se deve temperar a vida, e o faz com uma analogia à astronomia: afinal gastronomia tem apenas um "g" a mais... E trata do sal, da pimenta, da canela, das especiarias, associando seus efeitos aos corpos celestes e recomendando ao netinho atentar aos resultados que os temperos produzem em nossa vida e em nossos relacionamentos. Pena que a arte do tempero e virtude da temperança estejam entrando em desuso.


A polarização, que vemos crescente, é sinal dos nossos tempos. A aglutinação em torno de dogmas é rápida e nítida, por ser cada vez mais fácil arrebanhar partidários para qualquer idéia, mesmo as muito mal cozidas. Quando especialistas discutem um tema sabem que há opiniões divergentes e, mesmo quando tudo parece consolidado, nada impede que daqui a alguns anos a teoria suporte venha a cair. Afinal, tudo que nos parece "natural" hoje já foi "estranho" algum dia e poderá vir a ser abandonado num futuro. Muitas vezes uma idéia abandonada no seu nascedouro, depois de alguns séculos volta e se impõe. O heliocentrismo, por exemplo, inicialmente proposto por Aristarco de Samos 200 antes de Cristo, não conseguiu suplantar o geocentrismo de Aristóteles, mas voltou, mais de mil e quinhentos anos depois, com Galileu, Copérnico e outros. Ter arrogância na certeza é algo que a verdadeira ciência desconhece. Newton, fundamental para a física e para se prever a ação da gravidade nos corpos, foi humilde ponto de dizer que não forjaria uma hipótese sobre a natureza daquela força que ele tão bem equacionou: "hypotheses non fingo". Talvez seja um sábio conselho a seguir. Há os fatos, há as impressões que temos de fatos, mas sua explicação não deve ser proposta levianamente, nem acolhida apenas por representar reforço a posições momentâneas de interesse. A pressa em mostrar que temos opinião sobre tudo apenas faz engrossar as fileiras dos que, com algum objetivo, apresentarão explicações ardilosas para o ocorrido. É a origem das "teorias da conspiração" que encontram terreno cada vez mais fértil em nosso ambiente virtual. Usar de qualquer oportunidade ou fato para garimpar neles algo subjacente que possa ser usado a favor de uma posição é polarizar o discurso e abandonar a argumentação racional. Afinal, não é nem necessário, nem razoável, que todos tenham opinião sobre tudo. Marco Aurélio, imperador e filósofo estóico, recomendava "sempre temos a opção de não formar juízo sobre algo, e não sofrer pelo que não se pode controlar. São coisas que não pedem nosso julgamento. Deixemo-las em paz".

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O Tempero da Vida, trecho em português sobre temperos e astronomia/gastronomia. Vale a pena!
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de http://www.scielo.br/pdf/ss/v11n4/v11n4a05.pdf trecho da citação de Newton, "hypotheses non fingo":

" Até aqui não fui capaz de descobrir, a partir dos fenômenos, a causa dessas propriedades da gravidade, e sobre isso eu não invento hipóteses [hipotheses non fingo]. Pois o que quer que não seja deduzido dos fenômenos deve ser chamado de hipótese; e hipóteses, quer metafísicas, quer físicas, quer sobre qualidades ocultas, quer mecânicas, não têm lugar na filosofia experimental.
Nessa filosofia, proposições particulares são inferidas dos fenômenos e, depois, tornadas gerais por indução. Foi assim que a impenetrabilidade, a mobilidade, a força impulsiva dos corpos e as leis do movimento e da gravitação foram descobertas. E para nós basta que a gravidade realmente exista, e aja de acordo com as leis que explicamos, servindo abundantemente para dar conta de todos os movimentos dos corpos celestes e de nosso mar (Principia, p. 457)"
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Marco Aurélio, Meditações:
Livro VI, 52: 52. "É lícito não formar opinião a este respeito e não sofrer atribulações da alma; as coisas em si mesmas não têm natureza capaz de criar nossos juízos. "
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Cena do filme Politiki Kouzina, traduzido no Brasil como O Tempero da Vida,
em https://link.estadao.com.br/noticias/geral,mais-canela-menos-pimenta,70003184079




terça-feira, 21 de janeiro de 2020

O Verão da IA

Panacéia ou armadilha diabólica são os posições extremas no espectro de quem discute Inteligência Artificial e as conseqüências de sua aplicação. Provavelmente a verdade (mas, o que é a "verdade?") deve localizar-se em algum ponto intermediário. E tanto os apologéticos como os apocalípticos obtém apoio de peso: o próprio Stephen Hawkins teria declarado que "... conseguir sucesso na criação real de IA poderá ser o maior evento da história da nossa civilização. Ou o pior. Não sabemos..."

O que ajuda a carrear tanta atenção à IA é que, talvez levianamente, grudamos o rótulo de IA em muitas coisas que seriam, apenas, sofisticada tecnologia, tratamentos estatísticos e exame de correlação de dados. Reconhecimento facial, por exemplo, é um tema de pesquisa desde os anos 60, e até recentemente não relacionado a IA. O mesmo se pode dizer das eficientíssimas máquinas de busca de que dispomos na Internet de hoje. Foi o rápido e contínuo desenvolvimento do poder computacional que, aplicado a algoritmos, permitiu que usássemos a impressão digital, ou imagem da íris, ou reconhecimento facial como identificadores pessoais de acesso. Processamento, associado a capacidade quase ilimitada de armazenamento e intercomunicação em rede, gerou ferramentas de busca e de localização. Parece vontade de "dourar a pílula" da IA - por si já muito poderosa - colocar tudo sob o mesmo guarda-chuva. Aliás, cunhou-se a sigla IAA (Inteligência Artificial Artificial) para designar essa simplificação matreira e oportunista.

Os exemplos citados podem ser muito potencializados com a introdução de IA. Algoritmos fixos usados tornam-se dinâmicos: "aprendem" com seus próprios erros e resultados e buscam refinar sua ação. Não se trata mais, apenas, de identificar uma face, mas de detectar o estado de espírito do indivíduo e, se possível inferir suas intenções. Não estamos simplesmente encontrando coisas na rede, mas recebemos resultados personalizados que, além de ter maior sintonia com o que procuramos, procuram causar mais impacto no que faremos depois. O céu (ou o inferno...) é o limite do que se pode conseguir quando sistemas evoluem a partir da sua própria experiência, afastam-se do seu funcionamento original e chegam a obter autonomia de difícil predição ou controle.

Há, assim, um efeito "moda" sobreposto a um real e efetivo progresso rumo a uma IA exuberante. Se previsões alarmantes, como "1984" de George Orwell ou "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, parecem estar se concretizando rapidamente, outras mais otimistas e animadoras, como robôs domésticos, viagens interplanetárias e carros totalmente autônomos ainda situam-se no campo das possibilidades. A história da IA começa nos anos 60 e apresenta uma "ciclotimia": passa-se de momentos de euforia para momentos de retração, que ficaram conhecidos como os "invernos da IA". Estamos claramente num pleno verão, um pouco forçado, mas indiscutível. Há também alguns indícios de recolhimento: levantam-se dúvidas sobre "carros autônomos", se chegaremos mesmo à singularidade de Kurtzweil etc. Há quem prenuncie um novo inverno pela frente. Se esse inverno vier, que seja na forma de oportunidade para avaliar riscos e benefícios, o uso ética e controle de tecnologias críticas que representam ameaças à civilização. Que esse inverno traga um renascimento auspicioso. Shakespeare coloca na boca de Ricardo III: "... o inverno do nosso descontentamento converte-se agora em glorioso verão ... e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas no mais profundo dos oceanos."

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Sobre reconhecimento facial:
https://www.facefirst.com/blog/how-face-recognition-evolved-using-artificial-intelligence/
https://www.nytimes.com/2020/01/20/opinion/facial-recognition-ban-privacy.html
https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,a-empresa-secreta-que-pode-acabar-com-a-privacidade-como-a-conhecemos,70003165298
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Os "invernos" da IA:
https://www.actuaries.digital/2018/09/05/history-of-ai-winters/
https://hackernoon.com/is-another-ai-winter-coming-ac552669e58c
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Stephen Hawking e sua avaliação da IA:
https://www.cnbc.com/2017/11/06/stephen-hawking-ai-could-be-worst-event-in-civilization.html
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o Verão da IA, detectado em 2016
https://computerworld.com.br/2016/06/27/mundo-comeca-viver-o-verao-da-inteligencia-artificial/
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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

As Bases Unificadas

Adaptar-se ao ambiente digital e usá-lo para minimizar o esforço humano e aumentar a comodidade é um objetivo adequado e honesto. É, portanto, razoável buscar a integração de iniciativas, a digitalização de informações e a automação que nos livre de incômodos. Afinal ninguém quer guardar uma infinidade de endereços de serviços, com suas respectivas senhas de difícil memorização. Uma solução integrada e uniforme de acesso a eles, associada ao armazenamento dos dados pessoais específicos a cada serviço que se busca, é uma alternativa racional e eficiente. Porém (e sempre há um “porém”...), quando dados de contextos diferentes se misturam, corre-se o risco de perder o controle do processo e de minar o que nos restou de privacidade. No momento em que todos os dados de um indivíduo estiverem acessíveis numa única estrutura, será crítico prever barreiras que mantenham cada conjunto de informações segregado e acessível apenas no contexto do serviço buscado.

Certamente há bases com as fotografias de todos nós em instâncias do poder público. E os rostos dos cidadãos que transitam nas ruas são visíveis livremente aos que passam: não usamos capuzes. Com a capacidade de processamento de hoje aliada a ferramentais de inteligência artificial, optar pelo desenvolvimento de sistemas automáticos que busquem reconhecer quem entrou no metrô, ou caminha na rua, não é um desafio muito complexo. Some-se o apelo fácil e enganoso a uma maior segurança, e estaremos abrindo uma caixa de pandora que pode se tornar incontrolável. Mesmo sem considerar a Internet e o uso do GPS, a união de uma base enorme de fotografias de indivíduos, com as câmeras onipresentes e a localização precisa que sistemas de telefonia celular proveem é tudo de que um sistema informatizado necessita para poder monitorar completamente os nossos passos e, num futuro próximo, nossas emoções. Claro que, além dos órgãos estatais e de segurança, há outros poderosos atores interessadíssimos nesse conjunto de informações pessoais, a cujo acesso que a lei buscará regular. Conhecer usos e costumes de potenciais clientes e, se possível, saber também de seus interesses e fraquezas, é um fabuloso gerador de transações comerciais e receita. Afinal dados são o motor de boa parte da economia digital hoje.

Há também outro lado: queremos, sim, preservar nossa privacidade, mas queremos também transparência e responsabilização. Uma ação de indivíduos ou empresas que tenha repercussão social precisa e deve ser transparente. Um exemplo de antanho eram os “proclamas de casamento”: a comunidade deveria saber da existência de uma proposta de formação de um casal até para, eventualmente, levantar impedimentos ao ato, em tempo. Do mesmo modo o registro de imóveis permite que seja conhecido o dono de um terreno ou imóvel na cidade. Há, assim, dados que precisam ser públicos e dados que devem ser protegidos, como aliás prevê a Lei Geral de Proteção de Dados.

Quanto ao uso do poder das ferramentas que a informática está desenvolvendo em ritmo crescente, é cada vez mais claro que algum protocolo deveria ser definido para a sua evolução e aplicação... Não se trata de coibir progressos ou limitar o avanço da tecnologia, mas de garantir a não supressão de direitos e a manutenção de conceitos, cuja construção foi obra de séculos. Afinal, não é porque algo *pode* ser feito, que seja aceitável fazê-lo.