terça-feira, 24 de novembro de 2020

Os meios e os fins

Há um vídeo (2009) do afamado físico norte-americano Michio Kaku, com uma série de previsões para um futuro próximo (2030) e para um futuro distante. Ele usa como pontos de partida, entre outros, a chamada “lei de Moore” e também a própria evolução da Internet. 

A “lei de Moore” foi enunciada por Gordon Moore, engenheiro eletrônico e um dos fundadores da Intel em 1968, a futura líder mundial na fabricação de micro-processadores. Em 1965 Moore vaticinou que, com o rápido desenvolvimento da tecnologia de integração, a cada ano duplicaria o número de dispositivos num micro-circuito. Esse prazo, depois revisto para 18 meses, significaria também que, passados 18 meses, se compraria por um custo equivalente algo cerca de duas vezes mais potente, dentro das limitações técnicas do momento. 

Nessa taxa de crescimento, a cada 30 anos a capacidade dos dispositivos torna-se 1 milhão de vezes maior. Houve, claro, repetidos anúncios de que estaríamos próximos ao máximo de compactação possível na tecnologia atual, mas, de algum modo, o crescimento se manteve. Finalmente, em 2011 o próprio Michio Kaku estimou que não seria mais possível ter esse ritmo por mais que uma década, e que em 2022 atingiríamos um limite físico na tecnologia de que dispomos hoje. 

O fato é que hoje um simples telefone celular tem mais capacidade de processamento do que a que foi suficiente para colocar um homem na lua, e abriga uma quantidade de informações armazenáveis milhares de vezes maior do que, por exemplo, a capacidade total de que dispúnhamos na USP, anos 70, no centro de processamento de dados. 

É exatamente esse aumento colossal de capacidade de processamento e de armazenamento que permitiu grande desenvolvimento em áreas pré-existentes, como a de tradução automática, a de inteligência artificial e muitas outras. Se, por um lado, isso é motivo de otimismo e boas expectativas, também pode sinalizar evoluções mais sóbrias, como o grande crescimento na capacidade de obtenção e armazenamento de informações sobre nós, obtidas via rede ou outros meios. Some-se a isso a dependência que passamos a ter da tecnologia, e poderemos chegar a uma situação onde somos conduzidos pelo próprio ambiente em que imergimos, sem clara noção de que perdemos parte de nosso discernimento. 

Faz 75 anos “A França contra os Robôs”, escrito no Brasil por George Bernanos. Alguns desses riscos já são profeticamente apontados no livro de 1945. Alerta-se nele, por exemplo, que “o perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número cada vez maior de homens acostumados, desde a infância, a querer apenas aquilo que as máquinas podem dar." No vídeo de Kaku, outro paralelo interessante é o que ele faz com a Internet em seu início: ela seria um local ideal para discussões acadêmicas e de alto nível, contribuindo para um debate esclarecido. Claro que com sua expansão por toda a comunidade, a rede ganhou um caráter muito mais inclusivo e abrangente, nada elitista ou sofisticado. Mas essa característica então inesperada e altamente positiva, também carrega veneno embutido: pode levar-nos a pensar superficialmente e a seguir a voga sem discernimento. 

Bernanos adverte que as civilizações, como os homens, morrem. Mas enquanto os homens se decompõem depois de mortos, as civilizações se decompõem antes de morrer: “uma sociedade mostra sinais de corrupção quando, na busca de determinado objetivo, justifica quaisquer meios para atingí-lo”. Estejamos atentos!


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Saving the Future of Moore's Law
https://education.dellemc.com/content/dam/dell-emc/documents/en-us/2019KS_Yellin-Saving_The_Future_of_Moores_Law.pdf

Moore's Law
https://www.umsl.edu/~siegelj/information_theory/projects/Bajramovic/www.umsl.edu/_abdcf/Cs4890/link1.html

Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Moore's_law

Moore’s Law Dead by 2022, Expert Says
https://www.eetimes.com/moores-law-dead-by-2022-expert-says/#
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O vídeo citado de Michio Kaku: "The World in 2030"
https://www.youtube.com/watch?v=219YybX66MY
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Texto de Martim Vasques da Cunha sobre o livro de Bernanos:
https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,decadas-antes-da-internet-escritor-alertava-para-consequencias-da-tecnologia,70002360602
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Gordon Moore em "Neuromorphic Hardware: Trying to Put Brain Into Chips"
https://medium.com/computational-neuroscience/neuromorphic-hardware-trying-to-put-brain-into-chips-259638da2f12




terça-feira, 10 de novembro de 2020

O Voto Eletrônico

As eleições norte-americanas foram o principal assunto da semana. Lá, além dos votos via correio, que começaram a chegar em fins de setembro, houve o voto presencial em novembro. Um misto de voto presencial e voto com cédulas oficiais recebidas pelo correio. Se a condição da pandemia da covid-19 reforçou a necessidade de opção ao voto presencial, essa mistura de tipos de votação abriu mais espaço a discussões, fundadas ou não, sobre a segurança de todo o processo.

Há três pré condições para um processo eleitoral seguro: a capacidade de identificar claramente os eleitores habilitados a votar; a unicidade da cédula por eleitor; e a não possibilidade de alteração dos votos depositados. Respeitadas, resta garantir o sigilo do voto e a lisura na apuração do resultado, lembrando que nada é totalmente imune a fraudes, e sempre há o fator humano, elo mais fraco em qualquer processo de segurança.

Em tempos de digitalização, é esperada a pergunta do por quê não migrarmos também o voto para a Internet? Há exemplos de países, como a Estônia, que votam pela rede – caso interesse, há uma tese, de Rodrigo Cardoso Silva, recém defendida na PUC-SP sobre isso. 

Mesmo no caso da Estônia, onde a votação pode ser pela Internet, boa parte da população ainda prefere o voto presencial, o que indica uma sensação de insegurança sobre o processo. Sem resolver as pré condições acima, é temerário pensar em voto pela Internet.

No Brasil há a urna eletrônica. Sua implementação resolve dois dos quesitos levantados. É uma forma segura de permitir o voto apenas aos habilitados e permitir apenas um voto para cada eleitor. Resta garantir que o voto dado é inalterável e fidedignamente computado. É frágil a alegação de que um exame da programação do sistema supriria essa garantia. Mesmo tendo-se acesso ao código-fonte, a prova de sua total correção é muito difícil. 

Além disso, um programa correto pode resistir a tentativas externas de fraude, mas isso não o protege de um ataque interno, por quem tenha privilégio de acesso suficiente para alterar pontualmente seu funcionamento. 

Finalmente, e como fica patente nestes tempos de ataques cada vez mais ousados e destrutivos a sistemas de informação, há que se dispor de algum mecanismo independente de verificação e recuperação. Uma das alternativas sólidas seria incluir uma pequena unidade de impressão em cada estação. O voto eletrônico geraria uma cópia em papel que, conferida pelo eleitor, seria imediatamente depositada em urna inviolável. Ficariam preservados o sigilo do voto e a rapidez na obtenção dos resultados da eleição, enquanto, em paralelo, haveria uma amostragem garantidora: sorteadas umas poucas urnas, seria cotejado o resultado eletrônico com a contagem das cédulas nelas contidas.

Um processo auditável deve prever uma segunda forma de se chegar ao resultado, e que independa da primeira. Ter uma única fonte de respostas, por mais sólida que ela pareça, deixa-nos à mercê de problemas imprevisíveis, e não permitirá auditoria.

A comunidade técnica já se manifestou mais de uma vez a respeito deste tema que, por óbvio, não se confunde com uma “volta ao voto em papel. Ao contrário, trata-se de valorizar o voto eletrônico e sua celeridade, sem abrir mão da possibilidade de uma revisão independente. 

Não se trata de “desconfiar a priori” mas sim de prevenir problemas. Afinal, mesmo sendo a mulher de César totalmente honesta, é reassegurante que ela também pareça honesta...

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Artigo com entrevista do Diego Aranha sobre o tema:
https://www.welivesecurity.com/br/2018/10/17/diego-aranha-os-testes-de-seguranca-nas-urnas-eletronicas/

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Tese de Doutoramento de Rodrigo Cardoso Silva, PUC-SP (2020)
https://tede.pucsp.br/bitstream/handle/23126/2/Rodrigo%20Cardoso%20Silva.pdf

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Sobre votação eletrônica, discussão em voga na Estônia:
https://news.err.ee/1156652/kaljulaid-convening-defense-council-over-helmes-biden-remarks

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Ilustração em :
https://link.estadao.com.br/noticias/geral,o-voto-eletronico,70003507888