terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Vazamentos

 Há uns dois anos, quando ainda eram possíveis as viagens internacionais, fui (presencialmente!) à agência bancária onde tenho conta para comprar alguns dólares. Expliquei à gentil atendente a minha necessidade de moeda estrangeira e ela me encaminhou a um guichê específico. Tudo parecia ir bem até que o caixa pediu-me que inserisse um especial cartão de débito na maquininha, e que teclasse a críptica senha. Até consegui achar o tal cartão no meio da tralha que carrego comigo, mas… cadê o raio da senha? Nem me lembrava dela, ou de sequer se havia algum dia usado o tal cartão para retirar resursos. Não houve contorno possível. Eu ali, pessoalmente em frente ao caixa, era muito menos confiável que o meu cartão. Na verdade, a conta-corrente parecia mais pertencer ao cartão em si, do que a mim mesmo. Em resumo, era necessário emitir novo cartão, cadastrar outra senha e, daí sim, com o aval do poderoso cartão eu voltaria a gozar de credibilidade junto ao banco…

O que nisso é sugestivo, e eventualmente preocupante, é que não só nossos valores, mas nossa personalidade e nossas ações em ambiente público foram sendo paulatinamente terceirizadas para avatares que carregamos no bolso. Claro que há mais conforto e agilidade assim, mas parece-me de lastimar que esses avanços, ao invés de se incorporarem ao que já existia, o substituam. Posso parecer (e sou…) antigo, mas era mais simples (e seguro) colocar um papelzinho no parabrisa do carro para usar a zona azul. Hoje há que se ter telefone e aplicativo, e faz-se uma conexão lógica entre uma chapa do automóvel, a conta bancária e a hora de uso do estacionamento... Com tanto dado disponível por aí, não é de se estranhar que a cada dia noticiem-se vazamentos importantes.

Nunca é demais ressaltar a importância de que se observarem boas normas de segurança: senhas fortes e autenticação com segundo fator. E, claro, não aceitar “presentes de grego” na rede, que podem vir recheados de surpresas muito desagradáveis, além da prudência em evitar acessos a locais suspeitos, muitas vezes camuflados como “seguros” ou “atraentes”…

Em resumo, independentemente de haver legislação forte visando a proteger nossa intimidade, em muitos casos o “leite já derramou”. Dado que é possível montar-se um alter ego nosso usando o que vazou, e sabendo que esse alter ego pode ser mais “confiável” em transações eletrônicas que o próprio indivíduo, estamos numa enrascada. Isso sequer é novidade: em 1999 o executivo-chefe da Sun Microsystem, , já havia virado a página: “Privacidade? Não existe. Esqueçam isso…”

A discussão do quê, e como, proteger é mais complexa. O senso comum diz que a simples identificação unívoca de um indivíduo não representa em si uma quebra de sigilo. Afinal para se proteger alguém efetivamente é necessário saber a quem nos referimos. Um identificador único, como é o caso do CPF, usado em inúmeras transações comezinhas, não se distingue do próprio nome do indivíduo. Dizer que meu nome é João Silva sem adicionar, por exemplo, o CPF. me deixaria em companhia de muitos homônimos, com variados perfis sociais e suas correpondentes pendências. Não parece ser aí que mora o perigo. Mas adicionar à identificação única de alguém seus dados bancários, os nomes dos genitores, sua localização física em cada momento e, até, senhas obtidas por monitoração de tráfego ou força bruta, permitem criar um poderoso dublê virtual que poderá causar danos de monta e dores-de-cabeça à pobre vítima física. 

Mas hoje é terça-gorda de Carvaval! Evoé e boa sorte a todos nós!

===
Artigo sobre a fala de 
Scott McNealy, Sun Microsystem:

https://www.wired.com/1999/01/sun-on-privacy-get-over-it/
===

Vídeo sobre roubo de impressões digitais:

https://www.youtube.com/watch?v=eTkYQyglBDo
===

https://www.idlehearts.com/authors/scott-mcnealy-quotes



terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Robin Hood?

Devemos à Internet o fato de, apesar de estarmos há mais de ano sob a sobra da pandemia, conseguirmos preservar uma vida com alguma normalidade. Ela nos propiciou formas de trabalho remoto, de interação com discussão em grupo de temas, além de continuar a nos prover acesso rápido e ilimitado a informações de todos os tipos, desde aquelas críticas para o nosso dia a dia, até abundantes boatos e futricas, sem falar do expressivo número de variadas “teorias conspitórias”. Isto, entretanto, não ofusca a constatação do contínuado desconstruir que a rede provoca, e a irrefreável mudança, às vezes assustadora. Essas convulsões que vem com a disseminação da rede não são novas e nem deveriam mais ser motivo de espanto. Lembro, com alguma nostalgia, de tempos em que, por exemplo, para se buscar transporte bastava ir à rua, levantar o dedo e apanhar um taxi – era questão de minutos! Hoje, ou se tem um aplicativo para solicitar o serviço, ou arrica-se a ficar plantado por horas sem que nenhum taxi apareça. A velha tirada do Millôr, “livre como um táxi!”, perdeu muito da força.
Neste janeiro atribuiu-se à rede outra ação de ruptura, agora em área inusitada. Estamos habituados a ver modelos tradicionais de negócios serem significativamente afetados, se não destruídos, pela internet, mas a tempestade vai muito além, assombrando todas as áreas da sociedade, da ética à política, da acomodação à inssureição, da informação organizada ao caos. Quanto à área política, por exemplo, tivemos as tais “primaveras” que acometeram alguns países. Aliado a circunstâncias locais, foi também o poder de mobilização e de coordenação através da internet que tornou viáveis as “primaveras”.
A notícia agora foi a inesperada ação de “outsiders” em negócios com ações. Na imagem de um amigo, tratou-se da “primavera das bolsas de valores”… O que se viu foi tradicionais empresas operadoras desses mercados, serem confrontadas por uma maré de simplórios compradores, que se auto-organizaram via aplicativos. Por sinal, um deles com o sugestivo nome de “Robinhood”. A onda de intrusos avolumou-se causando perdas e estragos de monta aos atores oficiais de plantão. Afinal, sempre que um leigo pensava em investir seus caraminguás em ações, recorria prudentemente aos especialistas nessa área. Hoje ele se arroga a iniciativa… Não tenho a menor competência para analisar o funcionamento do “mercado futuro” e os riscos de quem fica “comprado” ou “vendido”, mas lembro de uma discussão sobre o tema há uns 20 anos, época da maciça migração dos serviços de cotações em tempo real para a Internet. Discutia-se se haveria como a internet competir em velocidade com as redes próprias dos serviços de disseminação das cotações. A par de buscar como contornar o problema da velocidade na transmissão via Internet - que então era muito menos poderosa – levantei uma questão de leigo: a universalização das informações de mercado poderia representar um risco ao seu próprio funcionamento? Afinal, em ambientes especulativos, o poder reside em se ter rapidamente informação privilegiada. A assimetria de informação é a alavanca principal para a geração de lucro. Ora, se com a internet todos souberem sobre tudo. em pouco tempo essa assimetria diminui. 
Talvez seja isso parte da explicação do que aconteceu em janeiro nos Estados Unidos, especificamente com algumas ações, e que pode se repetir em outros países, agora que o “gênio saiu da garrafa”. Segue outra boutade do mesmo amigo: “faz-se necessário democratizar os´memes’ de produção”. Internautas do mundo, uní-vos!
===
sobre o caso:
https://olhardigital.com.br/2021/01/28/noticias/fintechs-impedem-investidores-do-reddit-de-comprar-acoes-meme-apos-prejuizos-bilionarios/
===
uma musiquinha divertida sobre o caso:
https://www.youtube.com/watch?v=rejpDqQUcV0
===



terça-feira, 19 de janeiro de 2021

A Seção 230 norte-americana

Quando em 1991 estávamos recém-entrados na Internet, houve uma disputa judicial nos Estados Unidos sobre a responsabilização de um provedor de serviços. a Compuserv, por abrigar conteúdo de terceiros, eventualmente ilegal. O discussão gerou uma proposta de lei que coibisse, entre outros, o linguajar obsceno na Interne. Seguiu-se uma grande reação da comunidade contra essa proposta. Há o eloquente exemplo da “Declaração de Independência do Ciberespaço”, de John Perry Barlow, 1996. Uma versão bastante desidratada do CDA (Communications Decency Act) acabou aprovada em 1996, mas de uma maneira vitoriosa para a Internet!. Embutida no CDA constava a seção 230, conseguida pela comunidade, que criava “isenção de responsabilidade” para sítios Web em relação a conteúdo provido por terceiros. Em espírito, é muito similar ao ítem sete do decálogo do CGI, que diz: “O combate a ilícitos na rede deve atingir os responsáveis finais e não os meios de acesso e transporte, sempre preservando os princípios maiores de defesa da liberdade, da privacidade e do respeito aos direitos humanos”.

Mal comparando, trata-se aqui da isenção de responsabilidade do mensageiro em relação à mensagem; o famoso “não mate o mensageiro”. Ninguém responsabilizaria o carteiro se a carta que ele trouxe é mentirosa ou ofensiva! O ponto crítico nessa analogia é o quanto de “carteiro” há nos diversos intermediários de hoje, o que deve ser protegido, e quais os objetivos finais almejados.

Muitas vozes hoje defendem a extinção da seção 230, passando a responsabilizar ao intermediários pelo conteúdo postado. O risco é que, na ânsia de debelar o que incomoda e prejudica, acabemos por perder um bem maior: o de receber sem interferências o que nos enviam. No caso do correio, isso seria fácil de resolver: sempre culparemos o remetente pelo abuso que cometeu. Mas no caso das plataformas, a “porca torce o rabo”. Por diversas razões, desde modelos econômicos de sustentação, até a busca por poder de mercado, usa-se do crescente poder de computação, aliado a ferramentas automáticas de análise de conteúdo, para se oferecer ao público a possibilidade de um “tratamento higiênico” no que chega para ser distribuido. O poderoso “canto da sereia” é: “cuidaremos de seu conforto, usando nossos padrões éticos”. Com isso, os novos “carteiros” se colocam como juízes de valores e conteúdo, e se dispõem a livrar-nos das eventuais mensagens abusivas. Mais que isso, através dos algoritmos que prescrutam nossos gostos, sugerem com quem mais deveríamos interagir para nos sentirmos mais confortados. Como efeito colateral, o verdadeiro remetente acaba ficando no limbo da discussão, quando o alvo primário da justa ira deveria ser quem gerou a mensagem-problema.

Em resumo, é importante presevar a imunidade que a seção 230 dá ao mensageiro, desde que se trate mesmo de um mensageiro! E, se nada impede o carteiro de entregar-nos propaganda de remetentes identificados, não lhe compete filtrar conteúdos, indicar-nos grupos a integrar, ou repassar informações sobre que correspondência recebemos, sob pena de não mais se enquadrar na 230. Para manter a liberdade na Internet o espírito da 230 deve ser preservado em seu contexto original, não apenas em parte dele.

Quando um fim almejado estropia arbitrariamente meios que temos para exercer nossos direitos, em breve não haverá saída: estaremos amortecidos quanto ao perigo que nos espreita. Esopo, um escravo grego autor de sábias fábulas, contava que se gritarmos “lobo” falsamente seguidas vezes, quando o lobo real vier já será muito tarde e estaremos indefesos.

===
Posição da EFF - Electronic Frontier Foundation - sobre o tema:
https://www.eff.org/issues/cda230
===
A Declaração da Independência do Ciberespaço - John Perry Barlow, 8 de fevereiro de 1996
https://www.eff.org/cyberspace-independence
"Governments of the Industrial World, you weary giants of flesh and steel, I come from Cyberspace, the new home of Mind. On behalf of the future, I ask you of the past to leave us alone. You are not welcome among us. You have no sovereignty where we gather.
<...>
We will create a civilization of the Mind in Cyberspace. May it be more humane and fair than the world your governments have made before."
===
O CDA - Communications Decency Act, de 1996
https://en.wikipedia.org/wiki/Communications_Decency_Act
===
http://reappropriate.co/wp-content/uploads/2014/07/dont-mess-with-internet-404.jpg

===
Curiosidade: as letras que John Perry Barlow fez para músicas do Grateful Dead
https://www.dead.net/lyricsby/John%20Barlow
===

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Riscos da Segurança Presumida

No ano que terminou, o da pandemia, houve um crescimento acelerado de tudo o que se relaciona a ambiente digital. Consequentemente cresceu o número de eventos preocupantes relacionados à nossa segurança e privacidade.

Se a maioria dos incidentes se encaixou nos perfis tradicionais, desde identidade enganadora (“phishing”), passando por envio de código malicioso (vírus, vermes), encriptação de conteúdos ou negação de serviço, houve casos mais preocupantes e sofisticados. Uma das formas dissimuladas e mais perigosas é, por exemplo, a que se vale da invasão de um certificado de autenticidade real e registrado, e compromete internamente uma cadeia de distribuição segura já estabelecida.

Talvez o caso mais paradigmático de 2020, com engenhoso comprometimento, seja o do Sunburst (irrupção solar), revelado só em dezembro. Além de levar mais de seis meses para ser identificado, ele atacou uma plataforma largamente utilizada por companhias e pelo governo norte-americano: a Orion, da empresa SolarWinds. Orion é um bem conceituado aplicativo para apoio a sistemas financeiros e de tecnologia da informação, adotado inclusive por agências de inteligência e ministérios dos Estados Unidos.

O primeiro aspecto notável foi a maneira com que o Sunbust se infiltrou nos sistemas. Todos sabemos que uma das mais enfatizadas recomendações de segurança reza sobre a necessidade de manter os equipamentos sempre atualizados, usando a última versão que o fabricante tornou disponível. Essas alterações são muitas vezes (e para nosso conforto) automáticas. O próprio programa identifica a intenção do fabricante em fazer uma atualização, confere a assinatura do pacote que recebeu e, normalmente, apenas nos pergunta se pode finalizar o processo já que, no mais das vezes, isso envolve uma reinicialização do sistema. Sunburst encontrou uma forma insidiosa de apresentar-se como uma corriqueira e segura “atualização de sistema” e ser reconhecido como “proveniente do fabricante”. De fato era um “cavalo de tróia” que carregava e instalava no Orion um módulo dll (“dynamic link library”) malicioso.

Uma vez instalado o Sunburst buscava seguir despercebido a programas de proteção e de varredura. Durante duas semanas mantinha-se dormente, sem nenhuma atividade visível, apenas examinando as características de seu hospedeiro. Se concluía que estava na instalação de um simples usuário e sem nada de interessante a vasculhar, o Sunburst armava sua própria desinstalação sem deixar vestígios. Mas se, por outro lado, o hospedeiro era uma empresa importante ou algum órgão de governo, ele iniciava sutilmente a comunicação remota com seu criador, preservando complexas maneiras de se manter invisível e não chamar a atenção. Com esse sutil e ardiloso comportamento permaneceu por mais de seis meses infectando máquinas sem ter sido detectado. E pelo tipo de vítima preferencial que escolhia, tudo indica que se trate de uma iniciativa ampla, que envolveria bem mais que a simples ação de maliciosos e competentes programadores buscando enriquecer.

Estamos em um cenário crescentemente complexo, em que há de se “confiar desconfiando”. Como diriam os escoteiros, estar“sempre alerta”, mas sem perder o otimismo: que 2021 ainda seja bom para todos! E aqui não consigo evitar um comentário: não atino com nenhum argumento lógico para trocar por “todos e todas”.  Em minha visão (míope), “todos” é completamente inclusivo, com a elisão de “indivíduos”. Ou, se preferirem, “todas”, com a elipse de “pessoas”… Mas esse é outro pântano, em que, prudentemente, tentarei por enquanto não me afundar. Então, um ótimo 2021 para todas (as pessoas)!

===
sobre o caso Sunburst

https://www.theguardian.com/technology/2020/dec/16/solarwinds-orion-hack-scrutiny-technology

https://www.bbc.com/news/technology-55321643

https://www.varonis.com/blog/solarwinds-sunburst-backdoor-inside-the-stealthy-apt-campaign/

https://medium.com/swlh/a-summary-of-fireeyes-detailed-analysis-on-the-sunburst-malware-d76cef328a3b


https://miro.medium.com/max/700/1*nmRzSvLJvOeVT0tIljIfiQ.jpeg

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Humanismos

Estamos terminando 2020, um ano que desafia e inquieta a todos. Imaginávamos que grandes mudanças culturais e comportamentais exigíssem um período extenso de tempo, mas, nas condições excepcionais de 2020, um ano pareceu bastar. Evoluimos e vemos um mundo diferente e, quem sabe, também um homem diferente. “Evoluir”, em si, não traz um sentido inerentemente positivo: afinal um simples resfriado pode evoluir para uma pneumonia, e essa pode evoluir para óbito…

De muitas formas a pandemia nos levou a uma crescente simbiose com a tecnologia e com a máquina. Se máquinas eram extensão de nossos corpos, hoje são a extensão de nossos sentimentos e conexões. Sem o contato individual, sem os encontros nas praças públicas, sem as álacres e amistosas confraternizações natalinas, a interação se dá via ferramentas digitais que, por mais completas, carecem do calor e da informação subjetiva que há no ambiente presencial.

Dependemos cada vez mais da tecnologia que adotamos. Sempre que acontece uma pane em serviços de gigantes da tecnologia, sobrevem desorientação angústia e perplexidade. Então, o que considerávamos de uso garantido e permanentemente disponível, pode esfumar-se no ar? Saberíamos ainda, agora sem contar com o apoio dos algoritmos e do ferramental que nos alimentavam automaticamente, como chegar às informações de que necessitamos? E se até mesmo as decisões que tomamos estiverem sendo mais e mais delegadas à tecnologia, ficaremos sem ação?

Nos anos 90, quando começou a expansão do correio eletrônico e das listas de discussão - precursoras das redes sociais - um detalhe ficou claro: muitas das acaloradas diatribes nas listas eram devidas a simples mal-entendidos: alguém tentara ser irônico num comentário que acabou entendido literalmente. A expressão taquigráfica sintética, tida como “factual”, carece das nuances da linguagem falada, ou de um texto mais rebuscado. Uma forma de se contornar o problema foi adicionar indicadores de humor, “emoticons”, à época simples caracteres justapostos. Acrescente-se :-) e a frase será entendida como de ironia e humor. Mas como o diabo está sempre atento a detalhes, e se é tão fácil alguém ser mal-entendido, talvez isso possa ser usado como uma “característica” e não uma “falha”. Ou seja, pode-se explorar a pressa e a ingenuidade do leitor superficial para outros fins pouco éticos. Com todos se falando via rede hoje, criar tensões, movimento e engajamento é bem fácil: basta tirar proveito da insopitável tentação que temos de tomar partido, de dar opinião sobre tudo que nos chega, mesmo que seja uma simples manchete. Uma discussão reduzida a uma frase diferencia-se muito pouco de troca de insultos ou de dogmatismo. E há a clara tendência de aglutinação: afinal quem correria o risco de ir contra a maré que se forma?

Por fim, diversas historietas de ficção científica, que colocavam as criaturas tecnológicas num nivel próximo ou até superior ao humano, parecem ter migrado para a realidade. Já há quem pretendeu unir-se a um equipamento, por achar nele mais ressonância que num humano. Bem… isso não é exatamente novo: segundo a mitologia, Pigmalião, rei de Chipre, era um escultor muito talentoso e moldou uma estátua tão perfeita que dela se apaixonou, e lhe deu o nome de Galatéia. Por sorte, Afrodite apiedou-se do amor que Pigmalião mostrava pela estátua e fez com que, a um beijo, Galatéia ganhasse vida. Mesmo que surjam robôs belíssimos e espertos, não parece sensato colocar nossas esperanças nas mãos de Afrodite…

Que tenhamos todos um ótimo Natal, e que 2021 nos seja leve!

===
Sobre Pigmalião e Galatéia:
https://mitologiagrega.net.br/pigmaleao-e-galateia/

A peça de Bernard Shaw. Pygmalion, depois adaptada ao cinema com o nome "My Fair Lady"
https://pt.wikipedia.org/wiki/Pigmali%C3%A3o_(pe%C3%A7a_de_teatro)
e adaptada para uma novela brasileira - Pigmalião 70
https://pt.wikipedia.org/wiki/Pigmali%C3%A3o_70

https://m.leitura.com.br/produto/pigmaleao-55643#




===
Ainda sobre obras magníficas de escultura, MIchelângelo ao terminar o Moisés teria se revoltado porque uma obra tão perfeita não falasse: "Per ché non parli?"
https://pt.wikipedia.org/wiki/Mois%C3%A9s_(Michelangelo)

===
Um texto interessante sobre tecnologia e o antropocentrismo:
https://www.theguardian.com/technology/2016/aug/27/technology-myth-of-human-centrality

===
casar com um robô?
https://www.newworldai.com/would-you-marry-a-robot/


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

A cruz e a caldeirinha

Estamos perto de mais um Natal, e esse em plena pandemia. O domingo que passou é o dia de São Nicolau, bispo de Mira que, segundo a tradição, distribuía escondido presentes aos pobres. É a origem de Santa Claus, o nosso Papai Noel. Nos usos cristãos é comum que se monte a árvore de Natal neste dia. Hoje isso envolve novo ritual, de máscaras para as conversas a uma prudente distância, e álcool no trato dos enfeites… Será um alívio quando pudermos voltar a convívio mais livre!

Após tão longo enfrentamento da Covid-19, passamos a ser mais o objeto do que o sujeito dessa questão. Seguimos o que nos é recomendado pelos meios, buscando manter a cautela. Afinal, mesmo que algumas medidas pareçam um pouco exageradas, é sempre melhor previnir. Cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal.

Instam-nos a ficar em casa e, graças à tecnologia, podemos sim trabalhar do lar, consultar um médico sem sair da poltrona, ver os filhos estudando em frente à tela do computador. E, precisando de algo, sempre podemos comprar pela Internet: sem sair da mesma poltrona, visitamos sítios que apresentam tentadoras ofertas, escolhemos com critério algo que nos possa ser útil ou, ao menos, que possa nos ajudar a quebrar a tensão do recolhimento, melhorar o ânimo e diminuir a angústia. Ah, também uma pizza ou um lanche são encomendáveis pela rede. E os restaurantes que frequentávamos, hoje fazem “delivery” (outrora isso era chamado de “entrega a domicílio”, mas…). Remédios e bálsamos também podem ser comprados remotamente. Em suma, o “ficar em casa” parece simples e seguro de fazer.

A tecnologia nos dá o ferramental suficiente para nossas ações remotas, mas há ainda um componente físico que permanece: não se prescinde ainda do carteiro, do entregador, do “moto-boy” (ou “moto-girl”), para receber as mercadorias. Parece que esses humanos, ao contrário de nós, precisam sair por aí o tempo todo. E, mais que sair, enfrentar trânsito, manusear pacotes, interagir com muitas pessoas durante as infindáveis entregas. Certamente eles não são imunes à pandemia mas, ao que parece, também não são alvo das campanhas de pregam a cautela. Se, por de um lado, ficamos em casa para nossa própria proteção e a dos demais, isso é possível se houver uma outra parcela que arrosta o perigo para nos entregar o que adquirimos. Um incômodo desequilíbrio que escolhemos não analisar...

Examinemos isso por um outro ângulo: essa atividade de risco poderá ser suprida com a Inteligência Artificial, que promete eliminar trabalhos mecânicos. A entrega com drones auto-orientáveis parece muito próxima da realidade. Grandes companhias, cuja automação e abrangência global já gerou um sensível desmonte de empresas locais, além da supressão de empregos, estão a um passo de conseguir fazer a distribuição de produtos sem participação humana. Aliás há demonstrações impressionantes de voo seguro, complexo e altamente coordenado. Enxames de mini-drones fazem-se, até, de “luzes natalinas”.

Se parece muito humano e adequado diminuir os riscos a que estão expostos os que nos trazem produtos, especialmente em tempos de pandemia, também é certo que sua substituição por drones será irreversível e extinguirá inúmeros postos de trabalho. Sabemos que a tecnologia tem o poder de fazer cada vez mais, mas há que se cuidar de “onde, como e quando” ela entra em cena. Na abertura, livro II, de “Da natureza da coisas”, Lucrécio (século I, AC) passa um recado duro: é suave acompanhar um embate de alguém com o mar e os ventos, desde que estejamos vendo isso da terra firme e segura. “Suavi mari magno...”De Rerum Natura - Livro II - Tito Lucretius Carus


===
6 de dezembro - São Nicolau de Mira
https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_de_Mira

===
https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/123456789/17845/1/De%20Rerum%20Natura%20-%20Livro%20II.pdf

Suave, mari magno turbantibus aequora ventis
e terra magnum alterius spectare laborem;
non quia vexari quemquamst iucunda voluptas,
sed quibus ipse malis careas quia cernere suave est.
suave etiam belli certamina magna tueri
per campos instructa tua sine parte pericli;

É suave, grande mar com ventos que perturbam as superfícies,
desde a terra observar grande desgraça do outro;
não porque atormentar quem quer que seja é agradável prazer,
mas porque suave é ver males de que tu mesmo estás a salvo.
É suave também olhar grandes combates da guerra
dispostos pelos campos, sem parte tua de perigo.

===
Suave mari magno, poema de Machado de Assim em:
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2097

SUAVE MARI MAGNO 

Lembra-me que, em certo dia, 
Na rua, ao sol de verão, 
Envenenado morria 
Um pobre cão. 

Arfava, espumava e ria, 
De um riso espúrio e bufão, 
Ventre e pernas sacudia 
 Na convulsão. 

Nenhum, nenhum curioso 
Passava, sem se deter, 
Silencioso, 

Junto ao cão que ia morrer, 
Como se lhe desse gozo 
Ver padecer. 


===
https://link.estadao.com.br/noticias/geral,a-cruz-e-a-caldeirinha,70003543451





 

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Os meios e os fins

Há um vídeo (2009) do afamado físico norte-americano Michio Kaku, com uma série de previsões para um futuro próximo (2030) e para um futuro distante. Ele usa como pontos de partida, entre outros, a chamada “lei de Moore” e também a própria evolução da Internet. 

A “lei de Moore” foi enunciada por Gordon Moore, engenheiro eletrônico e um dos fundadores da Intel em 1968, a futura líder mundial na fabricação de micro-processadores. Em 1965 Moore vaticinou que, com o rápido desenvolvimento da tecnologia de integração, a cada ano duplicaria o número de dispositivos num micro-circuito. Esse prazo, depois revisto para 18 meses, significaria também que, passados 18 meses, se compraria por um custo equivalente algo cerca de duas vezes mais potente, dentro das limitações técnicas do momento. 

Nessa taxa de crescimento, a cada 30 anos a capacidade dos dispositivos torna-se 1 milhão de vezes maior. Houve, claro, repetidos anúncios de que estaríamos próximos ao máximo de compactação possível na tecnologia atual, mas, de algum modo, o crescimento se manteve. Finalmente, em 2011 o próprio Michio Kaku estimou que não seria mais possível ter esse ritmo por mais que uma década, e que em 2022 atingiríamos um limite físico na tecnologia de que dispomos hoje. 

O fato é que hoje um simples telefone celular tem mais capacidade de processamento do que a que foi suficiente para colocar um homem na lua, e abriga uma quantidade de informações armazenáveis milhares de vezes maior do que, por exemplo, a capacidade total de que dispúnhamos na USP, anos 70, no centro de processamento de dados. 

É exatamente esse aumento colossal de capacidade de processamento e de armazenamento que permitiu grande desenvolvimento em áreas pré-existentes, como a de tradução automática, a de inteligência artificial e muitas outras. Se, por um lado, isso é motivo de otimismo e boas expectativas, também pode sinalizar evoluções mais sóbrias, como o grande crescimento na capacidade de obtenção e armazenamento de informações sobre nós, obtidas via rede ou outros meios. Some-se a isso a dependência que passamos a ter da tecnologia, e poderemos chegar a uma situação onde somos conduzidos pelo próprio ambiente em que imergimos, sem clara noção de que perdemos parte de nosso discernimento. 

Faz 75 anos “A França contra os Robôs”, escrito no Brasil por George Bernanos. Alguns desses riscos já são profeticamente apontados no livro de 1945. Alerta-se nele, por exemplo, que “o perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número cada vez maior de homens acostumados, desde a infância, a querer apenas aquilo que as máquinas podem dar." No vídeo de Kaku, outro paralelo interessante é o que ele faz com a Internet em seu início: ela seria um local ideal para discussões acadêmicas e de alto nível, contribuindo para um debate esclarecido. Claro que com sua expansão por toda a comunidade, a rede ganhou um caráter muito mais inclusivo e abrangente, nada elitista ou sofisticado. Mas essa característica então inesperada e altamente positiva, também carrega veneno embutido: pode levar-nos a pensar superficialmente e a seguir a voga sem discernimento. 

Bernanos adverte que as civilizações, como os homens, morrem. Mas enquanto os homens se decompõem depois de mortos, as civilizações se decompõem antes de morrer: “uma sociedade mostra sinais de corrupção quando, na busca de determinado objetivo, justifica quaisquer meios para atingí-lo”. Estejamos atentos!


===
Saving the Future of Moore's Law
https://education.dellemc.com/content/dam/dell-emc/documents/en-us/2019KS_Yellin-Saving_The_Future_of_Moores_Law.pdf

Moore's Law
https://www.umsl.edu/~siegelj/information_theory/projects/Bajramovic/www.umsl.edu/_abdcf/Cs4890/link1.html

Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Moore's_law

Moore’s Law Dead by 2022, Expert Says
https://www.eetimes.com/moores-law-dead-by-2022-expert-says/#
===

O vídeo citado de Michio Kaku: "The World in 2030"
https://www.youtube.com/watch?v=219YybX66MY
===

Texto de Martim Vasques da Cunha sobre o livro de Bernanos:
https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,decadas-antes-da-internet-escritor-alertava-para-consequencias-da-tecnologia,70002360602
===
Gordon Moore em "Neuromorphic Hardware: Trying to Put Brain Into Chips"
https://medium.com/computational-neuroscience/neuromorphic-hardware-trying-to-put-brain-into-chips-259638da2f12