terça-feira, 14 de maio de 2019

Os Contos do Internauta

Ernst Hoffmann escreveu três contos curtos em que a personagem principal era ele mesmo. Foram base para uma interessante ópera de Offenbach, “Os Contos de Hoffman”. Conhecido por operetas espirituosas e alegres, Offenbach não queria morrer sem deixar uma obra de cunho mais sério e dedicou seus últimos anos escrevendo essa obra. Não viu a estreia: faleceu pouco antes. 

Hoffmann está perdidamente apaixonado por Stella, misteriosa artista. Um vilão demoníaco, o conselheiro Lindorf, com nomes diferentes permeia toda a ação, sempre destruindo os planos de Hoffmann. 

No primeiro ato as desventuras de nosso herói o ligam a uma boneca mecânica, Olympia, que se move por conta dum mecanismo a corda. Os idealizadores da boneca atraem Hoffmann e, com óculos especiais, o fazem supor que o que vê é, sim, uma belíssima moça real, por quem imediatamente se apaixona. Uma ilusão não muito distante da “realidade aumentada” de hoje. Ao tentar dançar com Olympia, quebra os óculos e a ilusão se desconjunta. A segunda aventura se dá com Antonia, cantora de voz maviosa sobre quem pesa um fado cruel: se Antonia insistir em cantar, morrerá da mesma forma que morrera sua mãe, também cantora famosa. De novo Hoffmann se apaixona, e de novo o maléfico se interpõe e faz com que Antonia, resolvendo-se a cantar, acabe por morrer. O terceiro ato passa-se em Veneza. Ouve-se a famosa barcarola e os amores de Hoffmann vão para Giulietta, uma cortesã sem escrúpulos. Outra vez o inimigo destrói os planos de Hoffmann, que acaba por perder a própria sombra. Giulietta morre envenenada por engano. Stella, a mulher ideal, seria a soma das três: teria a beleza e a técnica de Olympia, a arte de Antonia, a paixão erótica e o gosto pelo poder de Giulietta...

Para um Hoffmann internauta, Stella poderia ser a personificação da Internet. Ele busca na rede técnicas que lhe permitam ver belezas agradáveis, extasiantes, mas irreais. Inteligência artificial, realidade expandida, internet das coisas remetem a Olympia: elas nos apaixonam e, ao mesmo tempo, nos fazem correr riscos ou cair em armadilhas. Não basta Olympia, adicionemos Antônia, e teremos acesso à arte e à cultura como nunca antes. Visitaremos museus em que não pisaremos, vocalizaremos muitas ideias, às vezes mal definidas e superficiais, com todos, o tempo todo. O risco é que a verdadeira arte e cultura com o tempo sufoquem, como aconteceu com Antonia, que não poupou sua voz. Finalmente, Giulietta: o brilho da paixão por ganhos rápidos na rede, por iniciativas e empreendedorismo pouco pensados, pode esconder venenos. E está visível o acúmulo de poder em poucas mãos, com a correspondente ânsia para obterem nossa sombra (ou será nossos dados??).

Amamos nossa estrela Stella e queremos preservá-la como a imaginamos, sem deformações. Olympia, Antonia e Giulietta nos trazem riscos variados, de toda a espécie, mas o principal risco é perder o que mais almejamos: a integralidade da experiência que a Internet nos proporciona.

Hoffmann começa a ópera numa taberna, totalmente bêbado, e é lá também que a encerra, embriagado, decidindo renunciar a Stella e voltar a ser poeta. Mas nos “Contos do Internauta” propomos um final diferente: Stella não será perdida!


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Uma ótima interpretação da canção de Olympia, "Les oiseaux dans la charmille"
com Natalie Dessay:

https://www.youtube.com/watch?v=InAxtPyZVKI

E o "poster" do filme  de Michael Powell e Emeric Pressburger (1951):





terça-feira, 30 de abril de 2019

O Inimigo

São tempos complexos. Não que antes as coisas fossem simples mas, e ao menos aparentemente, elas estavam sob nosso controle. Futuros distópicos eram tema da ficção, que nos deu diversos exemplos de prospectivos futuros sombrios. Em vários deles, e de diversas formas, o homem perderia sua posição de controle. Em outros, mesmo havendo o risco de perda de controle, ela era minimizada por decisões humanas que limitariam a ação das máquinas. Em Eu, Robô, por exemplo, Isaac Asimov propõe três leis que se destinam a proteger os humanos de qualquer comportamento deletério das máquinas. Trata-se, claro, de ficção...

O poder de processamento de dados que a tecnologia nos fornece hoje é milhões de vezes maior do que há duas décadas. Desde sua proposição por Gordon Moore em 1965, a conjectura de crescimento conhecida como Lei de Moore continua inabalável: a cada 18 meses a capacidade de processamento dobra. Com isso, algumas abordagens técnicas, que antes não seriam muito promissoras, mostram-se surpreendentemente eficientes. 

Há duas décadas, já era um tema constante de debates a forma de construir programas que incluíssem “aprendizado” de máquina, mas os resultados ainda pouco animadores. Ensinar, por exemplo, um programa a traduzir uma língua envolveria tentar estabelecer uma árvore semântica que desse ao sistema algum “entendimento” do que se buscava traduzir. 

Uma segunda linha foi rapidamente agregada ao processo: valer-se do que os humanos já tivessem feito na área. Com a digitalização de enormes acervos de livros e suas respectivas traduções, essa base de dados melhoraria o resultado da tradução incorporando no processo o que humanos haviam feito antes. Essa abordagem dupla e também muito beneficiada pelo aumento da capacidade de armazenamento, trouxe melhores resultados. 

Na programação de jogos pode-se usar uma linha de aprendizado puro, em que o programa inicialmente apenas sabe como mover as peças e, após muitas tentativas e erros, acaba por selecionar estratégias vencedoras, ou pode-se incorporar a experiência dos humanos naquele jogo, como base de dados. 

Esse conjunto de enormes bases de dados (“Big Data”), mais a tecnologia de extrair deles informação selecionada (“Data Mining”), e mais as formas de se incorporar “aprendizado” pelas máquina, são componentes fundamentais do que se denomina “inteligência artificial”. 

Estamos escolhendo os caminhos a seguir e, portanto, imaginamos definir a versão do futuro que nos parece melhor. Mas, quando toda e experiência humana já tiver sido passada às máquinas, haverá o risco de perderemos o controle de nossas vidas, e de termos criado uma tecnologia que desloque o homem do centro das decisões? 

No conto de Jorge Luis Borges O jardim dos caminhos que se bifurcam, um sábio chinês havia dedicado a vida a escrever um livro/labirinto em que todos os futuros são simultaneamente possíveis. A decisão de escolher um caminho em cada bifurcação que se encontra pela frente não elimina as demais possibilidades. Como diz no conto o sinólogo que estudou o livro, “o tempo se bifurca perpetuamente para inumeráveis futuros. Num deles, sou seu inimigo”.


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trecho de "El jardín de senderos que se bifurcan", Jorge Luis Borges:

"... En la obra de Ts'ui Pên, todos los desenlaces ocurren; cada uno es el punto de partida de otras bifurcaciones. Alguna vez, los senderos de ese laberinto convergen; por ejemplo, usted llega a esta casa, pero en uno de los pasados posibles usted es mi enemigo, en otro mi amigo. "
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Bifurcação dos caminhos da Internet:  IPv6 vb IPv4, segundo Geoff Houston:
















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IA, Big Data, Data Mining e aprendizado de máquina:
https://whatsthebigdata.com/2016/10/17/visually-linking-ai-machine-learning-deep-learning-big-data-and-data-science/





terça-feira, 16 de abril de 2019

BR Balzaquiano

Daqui a dois dias, em 18 de abril, o .br torna-se balzaquiano. O adjetivo, perenizado pela obra de Balzac, remete aos 30 anos, idade da maturidade, do controle de si, da vitalidade e... da sedução. O .br caiu no gosto dos brasileiros desde o início da implantação da Internet no País, em 1991. Em um cenário muito dinâmico, às vezes confuso e fluido, o .br permanece como suporte confiável aos brasileiros que buscam identidade na rede.

A história começa por volta de 1987, quando já estava clara a necessidade, ao menos na área acadêmica, de obtenção de acesso às redes internacionais de computadores que se expandiam rapidamente. A primeira rede buscada pelos brasileiros foi a Bitnet (Because It is Time Network), nome apropriado: “Rede, porque Tá na Hora!”. O Lncc (Laboratório Nacional de Computação Científica) no Rio de Janeiro e a Fapesp, criando a ANSP (an Academic Network at São Paulo), lograram conexão à Bitnet em 1988. Rapidamente universidades e institutos de pesquisa em todo o País buscaram ligar-se à rede. No caso específico da Fapesp, podia-se também acessar a HEPNet (High Energy Physics Network), ligando laboratórios de física de alta energia. 

A área acadêmica, entretanto, não foi a única a ser enfeitiçada pela ideia da troca livre e rápida de informação. Organizações da sociedade civil como o Ibase no Rio de Janeiro, APC e outras ofereciam acesso discado a redes internacionais. Para os que operávamos a rede acadêmica passou a ser importante obter uma estrutura de nomes para as máquinas interligadas. A melhor solução era ter um identificador que fizesse sentido e permitisse uso amplo. O esquema hierárquico de nomes para a Internet, muito bem planejado, já tinha cadastrados e disponíveis todos os códigos de duas letras que identificariam países e territórios. Lá constava o .br.

O passo seguinte foi pedir o .br para uso pelas redes acadêmicas brasileiras. Para nossa agradável surpresa, em 18 de abril de 1989 Jon Postel, responsável pela IANA (Internet Assigned Numbers Authority), considerou o time brasileiro maduro o suficiente para operar o .br. Assim, antes mesmo de obtermos conexão à Internet, recebemos o .br para usar como sobrenome!

De lá pra cá pouca coisa mudou na forma, mas muito mudou na escala. Desde o começo achamos importante deixar o .br fechado, aceitando apenas a empresas e cidadãos brasileiros, e com semântica preservada. O segundo nível sob o .br foi mantido restrito, e criadas alternativas que melhor servissem à característica dos aplicantes. Uma organização não governamental usaria org.br; para comércio e uso geral, com.br; o governo poderia ofertar futuros serviços sobre a rede usando o gov.br. Essa estrutura, inicialmente aberta apenas a pessoas jurídicas, foi sendo ampliada e passou a aceitar pessoas físicas. Foram criadas instâncias para profissões, como adv.br, eng.br, med.br; instâncias para publicadores, como blog.br, wiki.br, art.br e, mais recentemente, para cidades: bhz.br, rio.br, sampa.br. Hoje são mais de 120 alternativas.

Nesses trinta anos o .br atingiu 4 milhões de domínios, o sétimo maior domínio de país no mundo. E segue sedutor, com invejável solidez técnica e resiliência: um balzaquiano atraente e de respeito. “Vida longa e próspera!”, diria o sr. Spock, da Jornada nas Estrelas.


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Página da IANA sobre delegação do .br, onde consta a data de 18/abril/1989:

https://www.iana.org/domains/root/db/br.html
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e aqui as estatísticas do CENTR - Council of European National Top-level domain Registries:


https://centr.org/statistics-centr/quarterly-reports.html

com a tabela correspondente ao final de 2018:




terça-feira, 2 de abril de 2019

Imprimatur

A prensa de Gutemberg abriu uma era de difusão de informações e conhecimento como o mundo não experimentara até então. Os raros manuscritos, guardados em conventos e igrejas, podiam ser imprimidos em quantidade e distribuídos a um número muito maior de leitores. 

Como também ocorre hoje, essa inovação trouxe a possibilidade de negócio, de se venderem muitas cópias, e a correspondente pressão para que os recursos fossem direcionais ao que mais interessaria ao público. Não demorou muito para que textos eventualmente “não canônicos” passassem a circular livremente. 

Menos de 100 anos depois, já havia resultados inesperados da popularização de textos. Lutero, por exemplo, certamente valeu-se da imprensa para difundir sua tradução alemã da bíblia, antes disponível em latim e grego e, portanto, apenas acessível aos que soubessem essas línguas.

À Igreja Católica não passaram despercebidos os riscos nascentes. Foi instituído um “crivo” para que uma obra obtivesse licença de impressão. Um bispo ou seu auxiliar deveria ler o texto, julgar se lá havia alguma falsidade ou impropriedade, e emitir um juízo: “nada obsta” (nihil obstat, em latim). Assim, finalmente, a obra obtinha o imprimatur – “imprima-se”.

Mais alguns séculos se passaram até que o princípio de livre acesso a todo o conhecimento e livre divulgação de ideias ganhasse momento. Enciclopedistas propunham coligir de forma racional o que se sabia para colocar à disposição. Podemos dizer que o pêndulo social oscilava em direção às liberdades individuais.

A Internet trouxe uma nova instabilidade no pêndulo. Potencializando imensamente o que houve há 600 anos, todos passamos a ter acesso a tudo e, mais ainda, saímos da posição de passivos leitores para a de ativos e ardentes defensores de pontos de vista, mesmo nos temas que nem dominamos tanto assim... Afinal, há um microfone amplificado disponível!

De novo, entretanto, surge reação. Pelos mais variados motivos, desde proteção contra falsidades ou defesa de direitos genéricos, passando por ideais moralizantes, reaparecem defensores de um “crivo”. 

Acaba de ser aprovada uma lei europeia que, entre outros pontos, arroga-se a proteger “direitos de autor” – note-se que esse direito inexistia à época de Gutemberg. Não é à toa que ela cria um incômodo em parcelas importantes do público: pode gerar consequências bem diversas das pretendidas. 

A par de ser totalmente lícito e correto punir os que transgridem as leis vigentes, causa-me arrepios que a ação proposta o seja de forma apriorística, ante factum. E, pior ainda, que seja uma tarefa encomendada ao segmento que conta com quem já tem bastante poder. Arriscamos a tornar inviáveis os que não dispuserem de ferramental para o crivo, e os que já gozam dele, terão ainda mais poder! O fosso aumentará.

Um grego, há 2500 anos, postulou que “leis são como teias de aranha: apanham insetos pequenos, mas os pássaros as rompem e fogem”...

O pêndulo está oscilando novamente, agora em direção a controle e tutela crescentes. 
Lembrou-me os primeiros versos da Carmina Burana: “Ó Destino, cresces e mínguas qual a lua mutante; a detestável vida escureces e depois clareias, brincando com nossa mente; dissolves como gelo a miséria e o poder”... Nihil obstat!

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https://spiritualdirection.com/2016/01/18/what-are-imprimi-potest-imprimatur-and-nihil-obstat



terça-feira, 19 de março de 2019

A Epopéia Amazônica

Uma das deliciosas obras de Monteiro Lobato é Os Doze Trabalhos de Hércules. Foi nela que, na meninice (milênio passado), tive contato com as mitológicas amazonas, tribos de mulheres guerreiras que viviam na região do Ponto, costa sul do Mar Negro, próximo à atual cidade de Terme, norte da Turquia. Um dos trabalhos do herói era obter um ambicionado cinturão que Hipólita, a rainha das amazonas, possuía. E ele o conseguiu!

Nosso rio Amazonas ganhou esse nome, lembro das aulas de história, quando o explorador Orellana foi atacado por uns indígenas liderados por mulheres. Passou a ser conhecido como “rio das Amazonas” e, por extensão, a imensa região verde que o rodeia e que atinge oito países. Há uma organização diplomática chamada Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OCTA), que é integrada por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

Quanto à Internet, tudo ia bem nesse tema até que a Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (Icann, na sigla em inglês) em 2012, resolveu expandir o número de gTLDs, “sobrenomes” genéricos de nomes de domínio. Assim, além dos que representam países, como o nosso “.br” e os outros de duas letras, os genéricos, como o “.net”, o “.com” e outros, passariam a ter numerosos “irmãos”. Apareceram gTLDs como “.hotel”, “.xyz”, “.berlin”, “.rio”, e também gTLDs de marcas, com uso mais restrito às próprias companhias que os solicitaram, como “.ibm”, “.natura” e, claro, “.amazon”. 

Nas regras havia restrição quanto a pedidos de nomes geográficos e outros casos polêmicos, mas um conflito entre uma empresa e uma região não era provável. Além do potencial conflito do “.amazon”, apareceu outro em nossa área: o “.patagonia”, também solicitado. Mais uma vez a Internet colocava face a face interesses conflitantes, que só se manifestaram na rede. 

Quando países, ciosos de sua soberania sobre nomes geográficos tidos como amplamente conhecidos, viram instituições comerciais os requisitarem para uso como gTLD, foram à luta. Afinal esse é um processo excludente: há um único dono para cada TLD. O “.patagonia” foi resolvido amistosamente em conversas com Argentina e Chile, mas o “.amazon” revelou-se osso duro de roer.

Inicialmente o Grupo Assessor de Governos na Icann (GAC) chegou a um consenso pedindo o bloqueio da solicitação da empresa Amazon. A gigante do varejo insurgiu-se e requereu um painel neutro de reavaliação. Ora, a disputa entre marcas e nomes de regiões é terreno pantanoso, e houve uma reversão: o painel sugeriu à Icann que concedesse a delegação do nome à Amazon.

Claro que a OTCA não concordou com isso. A Icann viu-se entre a frigideira e o fogo: se atendesse à Amazon, arrumava um enrosco político de vulto com oito países. Se não atendesse, provavelmente ganharia um processo multimilionário da empresa que teve o parecer favorável do painel. Na reunião de Kobe, a 64ª da Icann terminada na sexta, 15 de março, a saída possível foi esquivar-se de dar a palavra final e conceder mais um tempo para saia alguma luz das discussões. Cá entre nós, não será fácil conseguir consenso entre os países sobre qual o acordo possível e, menos ainda, que a atual pretendente, Amazon, aceite mais protelações.

Que tal chamar Hércules para um 13.o trabalho? Seria o de “deslindar o impasse OCTA x Amazon em um tempo finito”. Trabalho hercúleo!


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Comentários do "board" da ICANN na reunião de Kobe, março de 2019, sobre  o caso .amazon:

https://www.icann.org/resources/board-material/resolutions-2019-03-14-en#2.e



terça-feira, 5 de março de 2019

Terça-feira Gorda

Começo me desculpando aos que eventualmente se sintam ofendidos. Esse “gorda” do título não reflete “gordofobia”, nem “gordolatria”, horrendos hibridismos tão em voga hoje. Remonta a “Mardi Gras”, a terça-feira untuosa dos franceses, último dia para se consumir costelinhas, rabadas e torresmos, dado que vem aí a quaresma e o início do jejum. Mas hoje é “terça-feira” gorda de Carnaval, véspera da “quarta-feira de cinzas”, e sinto-me insuficiente para questionar o que nossos antepassados estabeleceram e tem se mostrado sensato.

“Terça-feira” evoca em mim pretéritas épocas da meninice. No meu bairro, terça-feira era o dia da feira livre. Dia em que os feirantes apregoavam as qualidades dos produtos, materializados nas bandejas de tomates, batatas, alfaces, laranjas. “Prove aí, freguesa, a minha laranja-da-baía... Doce como mel. Só compra se gostar! Sem compromisso!”. Época anterior ao depois famoso “pastel de feira”, do qual viraria cliente anos mais tarde. E havia uma forma fácil de saber que estava chegando o “fim da feira”: era o cheiro persistente de peixe se sobrepondo aos demais. O odor da barraca do peixeiro marcava a hora de levantar acampamento.

A lembrança da feira e o seu processo aberto de mercadeio trouxeram-me outra imagem forte: o artigo de Eric Raymond “a Catedral e o Bazar”. Nele, comparava-se duas formas de produção de bens: uma altamente hierárquica – a Catedral – onde poucos definem a arquitetura final e os demais apenas contribuem como mão de obra –, e o Bazar, onde o processo de definição e construção é interativo e continuamente participativo. Todos conhecem esse conceito, e é o que descreve a evolução do sistema operacional Linux e de outros programas abertos e colaborativos. Ousaria dizer que a própria Internet é resultado muito mais de um “bazar” do que de uma “catedral”, se bem que há que se reconhecer influências importantes de ambos os processos. Ainda na mesma linha, estamos hoje a menos de 10 dias da comemoração dos trinta anos da invenção da web por Tim Berners-Lee. A data de 12 de março de 1989 é cravada como a do nascimento da web.

Ela, a web, talvez seja o mais expressivo exemplo do que a “feira livre” nos poderia dar. Na web todos apregoamos o que nos interessa, desde o que tomamos no café da manhã, passando pelas nossas posturas políticas, se gostamos ou não de música clássica, ou de coentro. Pouco importa se isso interessa mais ou menos aos nossos leitores. Mas certamente interessa aos que farejam oportunidades de negócio usando nossos comportamentos e escrutinando as tendências em voga. O bazar e a feira livre estão aí, com seus múltiplos efeitos positivos, facilmente identificáveis e claramente louváveis. Mas (e sempre há o outro lado da moeda), como na feira livre, há as bancas que vendem batatas de qualidade, e há as que buscam ludibriar o cliente. Como nas feiras, nós, os clientes deveríamos aprender a ser hábeis e saber distinguir a “baciada” de boas batatas, daquela de batatas “de segunda”. É isso que se espera de clientes experimentados, e é o único caminho que parece promissor.

É terça-feira gorda de carnaval. Vida longa à Internet, à web e, ao vencedor, as batatas! Evoé! Evoé!


Aniversário da Web:
https://home.cern/news/news/computing/web30-30-year-anniversary-invention-changed-world

While working at CERN, Sir Tim Berners-Lee invented the World Wide Web (Image: CERN)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

o Artigo 13

A Europa está próxima de promulgar uma regulamentação, que se soma a outras, com o objetivo de regular a rede. Particularmente polêmico é o seu Artigo 13, que trata da proteção de propriedade intelectual na internet. Em análise simples, o artigo 13 responsabiliza plataformas por conteúdo inserido nelas que viole direitos de propriedade de outrem. Hoje é comum encontrarmos em vídeos criados por usuários trechos de filmes, de anúncios, de programas de TV, em geral com o objetivo de comentar, criticar ou satirizar o trecho incluído. Claro que nem tudo imbui-se de boa intenção, e certamente há casos de abusos. O que preocupa é a forma que se busca para coibir esses abusos. Já nos livramos de outras tentativas parecidas, como o famigerado “notice and take down”, que previa que à simples denúncia de alguém que alega ser proprietário de algo, o operador da plataforma aja imediatamente removendo o tal conteúdo, sem nenhuma decisão jurídica que embase essa remoção. No Brasil, conseguimos nos livrar dessa proto-censura que prevê a remoção antes do julgamento: nosso Marco Civil garante que apenas após ordem judicial um intermediário será obrigado a remover algo.

O jogo aqui é complexo e sombrio. Se por um lado parece correto e esperado que as plataformas sejam agnósticas em relação ao conteúdo de seus usuários, ficando estes como responsáveis finais pelo que geram, por outro há um poder tecnológico imenso em mãos das poucas empresas que dominam o ambiente. Com esse poder que elas têm em mãos, podem “intuir” mecanicamente o que terá mais efeito sobre seus usuários, sugerindo-lhes notícias, vídeos, temas, de forma a maximizar receitas. Mas elas também tem uma “carta positiva” na manga: podem declarar-se “defensoras das boas condutas” e “saneadoras” de material impróprio. Certamente para alguns governos isso soará como música. A barganha é muito perigosa para valores que nos são caros. Ninguém quer uma Internet nefasta, mas isso é bem diferente de dar a poucos o poder, inclusive via legislação, de decidir entre o “bem” e o “mal”. Encruzilhada perigosa. Espero que não estejamos no “zugzwang” do xadrez: obrigados a jogar, qualquer jogada que fizermos piorará nossa situação...

Andrew Sullivan nos deu um aviso a levar em conta. Ele, que foi o coordenador do IAB (Internet Advisory Board), ente que sanciona as propostas do IETF (Internet Engineering Task Force), é o atual presidente da ISOC (Internet Society). Num texto sobre o futuro da rede escreveu: “As coisas mudaram. Toda tecnologia pode ser usada para fins negativos. A Internet ainda nos traz, claramente, ganhos em eficiência, comodidade e comunicação. No entanto, recentemente, alguns dos usos negativos da rede se tornaram aparentes, o que levou alguns a questionarem se a Internet é “perigosa demais”. Essa preocupação gerou uma “oportunidade de ouro” para aqueles que sempre preferiram uma Internet “saneada e rigidamente controlada”, àquela criativa e empoderadora. Segundo essas forças, apenas governos, tratados, leis, regulamentos e monopólios podem nos proteger dos problemas que enfrentamos. Eles não querem a Internet extremamente colaborativa, e pensam que deve haver uma “escolha política” a ser feita entre a Internet que conhecemos, e uma rede organizada e regulamentada. Se essas forças forem bem sucedidas, todos perderemos”.


O artigo de Andrew Sullivan, de 29 de agosto de 2018:
https://www.internetsociety.org/blog/2018/08/it-is-a-challenging-time-for-the-internet-we-must-not-let-it-be-undermined/