terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O Último Bastião

Nossa segurança passa também pela definição de formas de identificação individual. Há uma diversidade de métodos para isso, sigilosos ou não, e não raro aconselha-se a se lançar mão de mais de um deles simultaneamente. O uso de características essencialmente pessoais permite identificar alguém com boa margem de certeza. É o que acontece com impressões digitais, com reconhecimento facial ou da íris, e outros usos da biometria. E há ainda formas não físicas, como o uso senhas pessoais, com diferentes graus de complexidade. Forma bastante robusta de identificação, como as impressões digitais, podem não ser nada sigilosas: afinal elas acabam em quase tudo o que tocamos. Assim com nossas fotografias e, até, nosso DNA, que poderia ser conseguido de fios de cabelos perdidos. O sigilo realmente reside nas formas mentais, como é o caso de senhas. Essas sim estão unicamente em nosso poder e parecem invioláveis.

A mente, esse último baluarte da privacidade e da identidade, sempre foi objeto de profunda pesquisa, que hoje apresenta avanços imp0rtantes. Por exemplo a DARPA, agência de pesquisas avançadas do setor militar norte-americano (e onde nasceu a Internet), conduz desde 2013 o projeto BRAIN, que visa a entender o funcionamento de nosso cérebro. É um dos muitos projetos mundiais que vão nessa direção. Resultado muito meritório desse tipo de pesquisa é o desenvolvimento de próteses que possam ser controladas por impulsos cerebrais, fazendo com que pessoas com disabilidades físicas superem suas limitações. Mas surgem outros possíveis usos, nem sempre éticos. Há algum tempo, por exemplo, foi anunciado na China um boné que monitora atividade cerebral e mede o grau de atenção de operadores em atividades de risco. Um motorista de ônibus ou um operador de máquina, por exemplo, teriam sua concentração momentânea na atividade avaliada. Se já há desenvolvimentos em inteligência artificial que, a partir de uma imagem, deduzem o estado emocional de alguém, via impulsos cerebrais essa avaliação seria muito mais direta.
Entender sinais cerebrais permitirá o controle de dispositivos com ou sem implantes invasivos de sensores e circuitos. E há o caminho inverso, onde é possível introduzir no cérebro sinais que produzirão imagens e sons, que não passaram pelos nossos sentidos normais. Ou seja, em breve é possível não só que nossos pensamentos sejam legíveis, mas que nossas sensações sejam geradas sem ter que passar por olhos, ouvidos, tato: a invasão da última esfera de privacidade que se considerava inviolável. Se o próprio pensamento puder ser monitorado, o grau de controle e vigilantismo poderia ir às raias do pesadelo.

O alerta para a necessidade do estabelecimento de limites vem dos próprios pesquisadores da área. Uma preocupação imediata pode ser a de estender a proteção de direitos, de forma a incluir não só o sigilo de nossos pensamentos, como a não interferência artificial às nossas decisões. Afinal, se for possível "plantar" na mente sensações que sejam indistinguíveis daquelas geradas pelos sentidos, nossa própria identidade e o livre-arbítrio podem tornar-se ficção. Na irônica frase do Millôr, "livre pensar é só pensar", garantia-se liberdade desde que restrita apenas a pensamentos. Hoje, até nessa úlima forma corre-se risco. Ao menos o "pensar" continuará livre?

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O projeto BRAIN, da DARPA
https://www.darpa.mil/program/our-research/darpa-and-the-brain-initiative
https://www.eletimes.com/darpa-sponsored-research-revolutionize-brain-computer-interface
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Quatro prioridades éticas para neurotecnologia e inteligência artificial:
http://www.columbia.edu/cu/biology/pdf-files/faculty/Yuste/yuste%20et%20al.nature2017.pdf
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China e o monitoramento de emoções:
https://www.technologyreview.com/f/611052/with-brain-scanning-hats-china-signals-it-has-no-interest-in-workers-privacy/
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Artigo sobre preocupações do pesquisador Rafael Yuste no tema:
https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-02-13/por-que-e-preciso-proibir-que-manipulem-nosso-cerebro-antes-que-isso-seja-possivel.html
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Millôr, na coluna "Livre pensar é só pensar"...
http://www.tribunadainternet.com.br/livre-pensar-e-so-pensar-millor-fernandes-12/
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Mais canela e menos pimenta

Há um interessante filme greco-turco de 2003 que em português ganhou o título de "O Tempero da Vida", com bela trilha sonora e uma delicada análise de relacionamentos e emoções. O simples fato de ser uma produção greco-turca, conhecendo-se a tensão geopolítica da região, já mostra o clima humano e de otimismo. A tradução literal do título grego daria algo como "A Cozinha Política", mas implicaria num grave erro de interpretação: no caso, "política" remete à raiz "pólis", cidade. Parte importante do filme passa-se em Istambul, a antiga "Constantinópolis", que já foi o umbigo do mundo há mil anos. Os gregos se referiam a essa cidade simplesmente como "pólis", dado que ela era A Cidade, sem mais. Assim, o título em grego refere-se à culinária de Constantinopla. Há também um jogo de palavras em grego que mantem-se em português: o avô do protagonista explica ao então menino como se deve temperar a vida, e o faz com uma analogia à astronomia: afinal gastronomia tem apenas um "g" a mais... E trata do sal, da pimenta, da canela, das especiarias, associando seus efeitos aos corpos celestes e recomendando ao netinho atentar aos resultados que os temperos produzem em nossa vida e em nossos relacionamentos. Pena que a arte do tempero e virtude da temperança estejam entrando em desuso.


A polarização, que vemos crescente, é sinal dos nossos tempos. A aglutinação em torno de dogmas é rápida e nítida, por ser cada vez mais fácil arrebanhar partidários para qualquer idéia, mesmo as muito mal cozidas. Quando especialistas discutem um tema sabem que há opiniões divergentes e, mesmo quando tudo parece consolidado, nada impede que daqui a alguns anos a teoria suporte venha a cair. Afinal, tudo que nos parece "natural" hoje já foi "estranho" algum dia e poderá vir a ser abandonado num futuro. Muitas vezes uma idéia abandonada no seu nascedouro, depois de alguns séculos volta e se impõe. O heliocentrismo, por exemplo, inicialmente proposto por Aristarco de Samos 200 antes de Cristo, não conseguiu suplantar o geocentrismo de Aristóteles, mas voltou, mais de mil e quinhentos anos depois, com Galileu, Copérnico e outros. Ter arrogância na certeza é algo que a verdadeira ciência desconhece. Newton, fundamental para a física e para se prever a ação da gravidade nos corpos, foi humilde ponto de dizer que não forjaria uma hipótese sobre a natureza daquela força que ele tão bem equacionou: "hypotheses non fingo". Talvez seja um sábio conselho a seguir. Há os fatos, há as impressões que temos de fatos, mas sua explicação não deve ser proposta levianamente, nem acolhida apenas por representar reforço a posições momentâneas de interesse. A pressa em mostrar que temos opinião sobre tudo apenas faz engrossar as fileiras dos que, com algum objetivo, apresentarão explicações ardilosas para o ocorrido. É a origem das "teorias da conspiração" que encontram terreno cada vez mais fértil em nosso ambiente virtual. Usar de qualquer oportunidade ou fato para garimpar neles algo subjacente que possa ser usado a favor de uma posição é polarizar o discurso e abandonar a argumentação racional. Afinal, não é nem necessário, nem razoável, que todos tenham opinião sobre tudo. Marco Aurélio, imperador e filósofo estóico, recomendava "sempre temos a opção de não formar juízo sobre algo, e não sofrer pelo que não se pode controlar. São coisas que não pedem nosso julgamento. Deixemo-las em paz".

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O Tempero da Vida, trecho em português sobre temperos e astronomia/gastronomia. Vale a pena!
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de http://www.scielo.br/pdf/ss/v11n4/v11n4a05.pdf trecho da citação de Newton, "hypotheses non fingo":

" Até aqui não fui capaz de descobrir, a partir dos fenômenos, a causa dessas propriedades da gravidade, e sobre isso eu não invento hipóteses [hipotheses non fingo]. Pois o que quer que não seja deduzido dos fenômenos deve ser chamado de hipótese; e hipóteses, quer metafísicas, quer físicas, quer sobre qualidades ocultas, quer mecânicas, não têm lugar na filosofia experimental.
Nessa filosofia, proposições particulares são inferidas dos fenômenos e, depois, tornadas gerais por indução. Foi assim que a impenetrabilidade, a mobilidade, a força impulsiva dos corpos e as leis do movimento e da gravitação foram descobertas. E para nós basta que a gravidade realmente exista, e aja de acordo com as leis que explicamos, servindo abundantemente para dar conta de todos os movimentos dos corpos celestes e de nosso mar (Principia, p. 457)"
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Marco Aurélio, Meditações:
Livro VI, 52: 52. "É lícito não formar opinião a este respeito e não sofrer atribulações da alma; as coisas em si mesmas não têm natureza capaz de criar nossos juízos. "
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Cena do filme Politiki Kouzina, traduzido no Brasil como O Tempero da Vida,
em https://link.estadao.com.br/noticias/geral,mais-canela-menos-pimenta,70003184079




terça-feira, 21 de janeiro de 2020

O Verão da IA

Panacéia ou armadilha diabólica são os posições extremas no espectro de quem discute Inteligência Artificial e as conseqüências de sua aplicação. Provavelmente a verdade (mas, o que é a "verdade?") deve localizar-se em algum ponto intermediário. E tanto os apologéticos como os apocalípticos obtém apoio de peso: o próprio Stephen Hawkins teria declarado que "... conseguir sucesso na criação real de IA poderá ser o maior evento da história da nossa civilização. Ou o pior. Não sabemos..."

O que ajuda a carrear tanta atenção à IA é que, talvez levianamente, grudamos o rótulo de IA em muitas coisas que seriam, apenas, sofisticada tecnologia, tratamentos estatísticos e exame de correlação de dados. Reconhecimento facial, por exemplo, é um tema de pesquisa desde os anos 60, e até recentemente não relacionado a IA. O mesmo se pode dizer das eficientíssimas máquinas de busca de que dispomos na Internet de hoje. Foi o rápido e contínuo desenvolvimento do poder computacional que, aplicado a algoritmos, permitiu que usássemos a impressão digital, ou imagem da íris, ou reconhecimento facial como identificadores pessoais de acesso. Processamento, associado a capacidade quase ilimitada de armazenamento e intercomunicação em rede, gerou ferramentas de busca e de localização. Parece vontade de "dourar a pílula" da IA - por si já muito poderosa - colocar tudo sob o mesmo guarda-chuva. Aliás, cunhou-se a sigla IAA (Inteligência Artificial Artificial) para designar essa simplificação matreira e oportunista.

Os exemplos citados podem ser muito potencializados com a introdução de IA. Algoritmos fixos usados tornam-se dinâmicos: "aprendem" com seus próprios erros e resultados e buscam refinar sua ação. Não se trata mais, apenas, de identificar uma face, mas de detectar o estado de espírito do indivíduo e, se possível inferir suas intenções. Não estamos simplesmente encontrando coisas na rede, mas recebemos resultados personalizados que, além de ter maior sintonia com o que procuramos, procuram causar mais impacto no que faremos depois. O céu (ou o inferno...) é o limite do que se pode conseguir quando sistemas evoluem a partir da sua própria experiência, afastam-se do seu funcionamento original e chegam a obter autonomia de difícil predição ou controle.

Há, assim, um efeito "moda" sobreposto a um real e efetivo progresso rumo a uma IA exuberante. Se previsões alarmantes, como "1984" de George Orwell ou "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, parecem estar se concretizando rapidamente, outras mais otimistas e animadoras, como robôs domésticos, viagens interplanetárias e carros totalmente autônomos ainda situam-se no campo das possibilidades. A história da IA começa nos anos 60 e apresenta uma "ciclotimia": passa-se de momentos de euforia para momentos de retração, que ficaram conhecidos como os "invernos da IA". Estamos claramente num pleno verão, um pouco forçado, mas indiscutível. Há também alguns indícios de recolhimento: levantam-se dúvidas sobre "carros autônomos", se chegaremos mesmo à singularidade de Kurtzweil etc. Há quem prenuncie um novo inverno pela frente. Se esse inverno vier, que seja na forma de oportunidade para avaliar riscos e benefícios, o uso ética e controle de tecnologias críticas que representam ameaças à civilização. Que esse inverno traga um renascimento auspicioso. Shakespeare coloca na boca de Ricardo III: "... o inverno do nosso descontentamento converte-se agora em glorioso verão ... e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas no mais profundo dos oceanos."

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Sobre reconhecimento facial:
https://www.facefirst.com/blog/how-face-recognition-evolved-using-artificial-intelligence/
https://www.nytimes.com/2020/01/20/opinion/facial-recognition-ban-privacy.html
https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,a-empresa-secreta-que-pode-acabar-com-a-privacidade-como-a-conhecemos,70003165298
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Os "invernos" da IA:
https://www.actuaries.digital/2018/09/05/history-of-ai-winters/
https://hackernoon.com/is-another-ai-winter-coming-ac552669e58c
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Stephen Hawking e sua avaliação da IA:
https://www.cnbc.com/2017/11/06/stephen-hawking-ai-could-be-worst-event-in-civilization.html
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o Verão da IA, detectado em 2016
https://computerworld.com.br/2016/06/27/mundo-comeca-viver-o-verao-da-inteligencia-artificial/
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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

As Bases Unificadas

Adaptar-se ao ambiente digital e usá-lo para minimizar o esforço humano e aumentar a comodidade é um objetivo adequado e honesto. É, portanto, razoável buscar a integração de iniciativas, a digitalização de informações e a automação que nos livre de incômodos. Afinal ninguém quer guardar uma infinidade de endereços de serviços, com suas respectivas senhas de difícil memorização. Uma solução integrada e uniforme de acesso a eles, associada ao armazenamento dos dados pessoais específicos a cada serviço que se busca, é uma alternativa racional e eficiente. Porém (e sempre há um “porém”...), quando dados de contextos diferentes se misturam, corre-se o risco de perder o controle do processo e de minar o que nos restou de privacidade. No momento em que todos os dados de um indivíduo estiverem acessíveis numa única estrutura, será crítico prever barreiras que mantenham cada conjunto de informações segregado e acessível apenas no contexto do serviço buscado.

Certamente há bases com as fotografias de todos nós em instâncias do poder público. E os rostos dos cidadãos que transitam nas ruas são visíveis livremente aos que passam: não usamos capuzes. Com a capacidade de processamento de hoje aliada a ferramentais de inteligência artificial, optar pelo desenvolvimento de sistemas automáticos que busquem reconhecer quem entrou no metrô, ou caminha na rua, não é um desafio muito complexo. Some-se o apelo fácil e enganoso a uma maior segurança, e estaremos abrindo uma caixa de pandora que pode se tornar incontrolável. Mesmo sem considerar a Internet e o uso do GPS, a união de uma base enorme de fotografias de indivíduos, com as câmeras onipresentes e a localização precisa que sistemas de telefonia celular proveem é tudo de que um sistema informatizado necessita para poder monitorar completamente os nossos passos e, num futuro próximo, nossas emoções. Claro que, além dos órgãos estatais e de segurança, há outros poderosos atores interessadíssimos nesse conjunto de informações pessoais, a cujo acesso que a lei buscará regular. Conhecer usos e costumes de potenciais clientes e, se possível, saber também de seus interesses e fraquezas, é um fabuloso gerador de transações comerciais e receita. Afinal dados são o motor de boa parte da economia digital hoje.

Há também outro lado: queremos, sim, preservar nossa privacidade, mas queremos também transparência e responsabilização. Uma ação de indivíduos ou empresas que tenha repercussão social precisa e deve ser transparente. Um exemplo de antanho eram os “proclamas de casamento”: a comunidade deveria saber da existência de uma proposta de formação de um casal até para, eventualmente, levantar impedimentos ao ato, em tempo. Do mesmo modo o registro de imóveis permite que seja conhecido o dono de um terreno ou imóvel na cidade. Há, assim, dados que precisam ser públicos e dados que devem ser protegidos, como aliás prevê a Lei Geral de Proteção de Dados.

Quanto ao uso do poder das ferramentas que a informática está desenvolvendo em ritmo crescente, é cada vez mais claro que algum protocolo deveria ser definido para a sua evolução e aplicação... Não se trata de coibir progressos ou limitar o avanço da tecnologia, mas de garantir a não supressão de direitos e a manutenção de conceitos, cuja construção foi obra de séculos. Afinal, não é porque algo *pode* ser feito, que seja aceitável fazê-lo.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Sursum Corda!

Amanhã é feriado, dia de folga. Amanhã é dia de Natal que, a muitos de nós, remete a preciosas lembranças da infância. O agridoce sabor de recordar momentos e pessoas, vínculos e interações, objetivos e planos, que ficaram para sempre no horizonte.

A crescente aceleração do tempo me faz lembrar (e dar razão!) a uma explicação que o Alberto Gomide tinha, à época da Fapesp: “Não é que as coisas andem mais depressa agora. É que, à medida que envelhecemos, o tempo encolhe. Você lembra, no primário, como demorava para chegar a hora do recreio? E as férias de julho? Agora, que estamos mais velhos, você pisca, e já é Natal de novo”. Outra referência a essa aceleração associada à idade está em “Morte em Veneza”, do Thomas Mann. Lá Aschenbach relembra que em sua casa paterna havia uma ampulheta, e lhe era tedioso ver a areia lentamente, interminavelmente esvair-se. Perto do fim, porém, tudo muda. Forma-se um pequeno vórtice e o que restou de areia escoa-se quase instantaneamente. Já não há tempo para nada...


Outra reminiscência da época é o uso do latim como a língua litúrgica dos católicos, o que trazia uma mística e uma cor adicional a tudo. “Sursum Corda”, “Corações ao Alto”, um chamamento que sempre repercutiu fundamente na alma dos fiéis. Elevar-se acimas das mundanidades, das disputas mesquinhas, livrar-se das cadeias que nós mesmos fabricamos e que nos prendem a objetivos menos nobres. Charles Dickens criou uma preciosidade para a data: “Um Conto de Natal”, cuja personagem central, Ebenezer Scrooge tornou-se o posterior modelo para o Tio Patinhas, criação da Disney. Um conto em que um velho de carácter mesquinho redime-se pela mágica do Natal: seu falecido sócio, Jacob Marley, envia-lhe três fantasmas que surgem em sonhos e o fazem rever seus valores pessoais. Um quarto fantasma, o do próprio Marley, aparece arrastando pesadas correntes e busca chamá-lo à razão: “essa corrente que carrego, eu mesmo a forjei em vida. Elo por elo, metro por metro, por minha livre e espontânea vontade, e assim a carregarei comigo... Você a acha estranha?”.


Manter ao alto o coração, refrear o instinto de responder a cada palavra ou ato que nos
desagrade, evitando aumentar o tom e a ira. É difícil e cada vez mais raro respeitar limites,
quando se tem um canal superlativo e instantâneo de resposta ao alcance da mão. A “hybris”, aquela forma de soberba e de extrapolação de limites, a que os deuses gregos puniam exemplarmente, vale-se hoje da Internet. Elevar a alma é fugir da arrogância e da soberba, levando-a para alturas inalcançáveis aos de baixos propósitos.


Outro texto do Dickens, Um Conto de Duas Cidades, abre com algo que, assustadoramente,
poderíamos associar ao que se vive hoje, especialmente com a Internet. Esperemos não seja
assim que nossos tempos sejam lembrados pelos que nos sucederão: “Foi o melhor dos tempos, e o pior. Foi a era da sabedoria e a era da tolice, foi a época da fé e da descrença, foi o período da luz e o período das trevas, foi a primavera da esperança e o outono do desespero, tínhamos tudo diante de nós, e tínhamos o nada pela frente, estávamos indo direto ao Paraíso, ou claramente a outro extremo...”


Bom Natal a todos!


...
- Sursum Corda
- Habemus ad Dominum.
Gratias agamus Domino Deo nostro.
Dignum et iustum est.
...

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Imperdível a cena abaixo, do filme de Luchino Visconti, Morte em Veneza, com o Dirk Bogarde no solilóquio da ampulheta:

https://www.youtube.com/watch?v=9QAPwqctCdo
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...
- Sursum Corda
- Habemus ad Dominum.
Gratias agamus Domino Deo nostro.
Dignum et iustum est.
...

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Um Conto de Natal, Charles Dickens, em domínio público:
https://www.ibiblio.org/ebooks/Dickens/Carol/Dickens_Carol.pdf
com a parte do fantasma de Marley com as correntens na página 22
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Começo de "Um Conto de Duas Cidades", Charles Dickens, em domínio público:
http://www.gutenberg.org/files/98/98.txt

It was the best of times,
it was the worst of times,
it was the age of wisdom,
it was the age of foolishness,
it was the epoch of belief,
it was the epoch of incredulity,
it was the season of Light,
it was the season of Darkness,
it was the spring of hope,
it was the winter of despair,
we had everything before us,
we had nothing before us,
we were all going direct to Heaven,
we were all going direct the other way--
...
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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Ultracrepidanismo e Dogma

Esse “palavrão” aí do título é consignado em dicionários e foi montado a partir de uma expressão latina, atribuída a Plínio, o velho: “sutor, ne ultra crepidam”. Narra Plínio que houve na ilha de Cós, na antiga Grécia, um famoso pintor chamado Apeles, que teria sido inclusive o retratista de Alexandre o Grande. Apeles expunha suas obras para receber comentários e, numa delas, estava retratado um guerreiro com escudo e sandálias (crepida, em latim). Um sapateiro, ao ver a pintura, aproveitou para comentar que tiras das sandálias representadas não correspondiam às que se faziam em sapatarias. Apeles ouviu o comentário e, rapidamente, retocou o quadro. No dia seguinte o sapateiro passou de novo pelo local e, ao ver que as sandálias tinham sido retocadas, passou a fazer novas críticas sobre outros detalhes da obra. Apeles, desta vez, não quis ouvir as sugestões: “sapateiro, não vás além das sandálias” teria sido sua resposta ao impertinente sapateiro.

Assim, ultracrepidanismo é o ato de “palpitarmos” sobre temas que vão além de nosso domínio.

Com raras e honrosas exceções (nas quais lamentavelmente não me incluo) e tentados pelo poder de divulgação que a internet nos concede, expomos nossas ideias sobre qualquer coisa, sem muita preocupação quanto à familiaridade com o tema, ou com a substância e pertinência de nossos comentários. Além disso, gabamo-nos de um posicionamento “isento de preconceitos e imune a dogmas”.

Quanto a temas em voga e dogmas, por exemplo, hoje pontifica-se sobre Inteligência Artificial. Tema transdisciplinar que, longe de se limitar ao exclusivo âmbito da tecnologia, afeta ou ameaça praticamente todas as áreas do interesse humano. É inelutável que haja sempre quem se disponha a acrescentar algo a essa candente discussão, mesmo que o faça a partir de uma visão parcial e limitada do tema.

De minha parte, aproveitei para retomar alguns textos clássicos relacionados ao tema e à “cibernética”, área muito relacionada. Norbert Wiener foi quem cunhou o termo em seu livro de 1948, Cibernética, Controle de Comunicação no Animal e na Máquina, e voltou ao tema em outros livros.

Um deles, Cibernética e Sociedade, o uso humano de seres humanos, é voltado a leitores não técnicos e trata das implicações da cibernética sobre os humanos.

Nos parágrafos finais deste livreto há uma ponderação curiosa: Wiener afirma que “sem fé, não há ciência”. E esclarece que não está se trata de aspectos religiosos, mas de dogmas que todo o cientista aceita ao aventurar-se em descobrir alto. Afinal, afirmar que a “natureza segue leis gerais” é um dogma impossível de provar.

Num mundo onde, à exemplo de Alice no País das Maravilhas, bolas se transformassem em ouriços, tacos em pernas de flamingos, e a Rainha de Copas mudasse constantemente as regras do jogo, nada poderia ser tratado pela ciência. É necessário assumir o dogma de que há leis estáveis sendo seguidas para, a partir daí, buscar o seu eventual desvelamento.

G. K. Chesterton, um frasista ímpar, divide os homens em duas categorias: os que conscientemente admitem dogmas, e os que os também os admitem, porém inconscientemente...

Estes, do segundo tipo, são particularmente numerosos em tempos de Internet e redes sociais. Não há discussão ou fato que os iniba de darem sua opinião, enfática e ruidosa, e que acaba por reforçar em muitos outros o que neles poderia jazer insuspeitado. São os principais motores da onda de ultracrepidianismo que assola a rede. Mas, afinal, quem nunca?...


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G. K. Chesterton: "In truth there are only two kinds of people, those who accept dogmas and know it, and those who accept dogmas and don't know it."
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Norbert Wiener:  "The Human Use Of Human Beings: Cybernetics And Society"
https://archive.org/stream/NorbertWienerHumanUseOfHumanBeings/NorbertWienerHuman_use_of_human_beings_djvu.txt

"I have said that science is impossible without faith. By this I do not mean that the faith on which science depends is religious in nature or involves the acceptance of any of the dogmas of the ordinary religious creeds, yet without faith that nature is subject to law there can be no science. No amount of demonstration can ever prove that nature is subject to law. For all we know, the world from the next moment on might be something like the croquet game in Alice in Wonder- land, where the balls are hedgehogs which walk off, the hoops are soldiers who march to other parts of the field, and the rules of the game are made from instant to instant by the arbitrary decree of the Queen. It is to a world like this that the scientist must conform in totalitarian countries, no matter whether they be those of the right or of the left. The Marxist Queen is very arbitrary indeed, and the fascist Queen is a good match for her. What I say about the need for faith in science is equally true for a purely causative world and for one in which probability rules. No amount of purely objective and disconnected observation can show that probability is a valid notion. To put the same statement in other language, the laws of induction in logic can- not be established inductively. Inductive logic, the logic of Bacon, is rather something on which we can act than something which we can prove, and to act on it is a supreme assertion of faith. It is in this connection that I must say that Einstein's dictum concerning the directness of God is itself a statement of faith. Science is a way of life which can only flourish when men are free to have faith. A faith which we follow upon orders imposed from outside is no faith, and a community which puts its dependence upon such a pseudo-faith is ultimately bound to ruin itself because of the paralysis which the lack of a healthily growing science imposes upon it."
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https://www.brainpickings.org/2018/06/15/the-human-use-of-human-beings-norbert-wiener/






terça-feira, 26 de novembro de 2019

Privacidade para crescidos


Há hoje um ímpeto muito positivo no sentido da proteção da privacidade dos indivíduos. Após a promulgação da lei européia e de sua correspondente brasileira, os ventos sopram nessa direção. É importante, entretanto, diferenciar o que é proteção do que é tutela. O direito que temos de controlar nossos dados não nos impede que, a nosso juízo, os repassemos a alguém, desde que essa seja nossa opção, consciente e informada. Em Portugal, por exemplo, à luz deste debate sobre decisão consciente e informada, discute-se qual a idade mínima com que se poderia exercer a opção de permitir acesso a dados pessoais.

Ao mesmo tempo em que há claros avanços na busca da proteção a privacidade, ressurgem antigos argumentos que, à guisa de incrementar a “segurança”, trabalham na direção oposta. A velha e falsa dicotomia entre segurança e privacidade nota-se, por exemplo, na discussão em voga sobre eventual vedação do uso por indivíduos da criptografia forte. Nada mais enganoso que a armadilha, mefistofélica, de "abre-me tua privacidade, que eu poderei zelar melhor por tua segurança"...

Criptografia é uma ferramenta muito antiga, e que obviamente se destina a proteger conteúdos. Até há alguns anos não estava "na moda", nem em correio eletrônico, nem nas redes. Tudo mudou quando ficaram públicas ações de bisbilhotice oficial aqui e acolá. A Internet, como se fora um organismo vivo, defendeu-se e trouxe em seu apoio a popularização do uso de criptografia forte. Com a tecnologia que temos hoje, a quebra de criptografia forte pode ser inalcançável.

Alegam os que gostariam de vetar o uso da versão robusta da criptografia, que pretendem nos proteger, identificando conteúdos suspeitos ou criminosos na rede. Que para nos protegerem precisam ter acesso às chaves que decifrariam o que enviamos.

Se uma brecha for criada, seja pela introdução de "portas dos fundos" que permitam acesso a conteúdo limpo em equipamentos e serviços, seja por "chaves-mestras", conhecidas apenas pelos que estão do lado da lei, o sigilo de indivíduos e, mesmo, o sigilo empresarial estarão sendo comprometidos. É mais do que ingênuo supor que os mal-intencionados, após a vedação, não usarão mais criptografia forte. Quem estará vulnerável, como de praxe, é o usuário comum, cuja comunicação estará sempre ao alcance dos que se interessarem.  Os mal-intecionados continuarão a fazer o que faziam.

O argumento de que apenas terã0 acesso a nossos dados privados os que cuidam de nossa segurança, sempre se demonstrou falho.  Há um dito na rede: "se há uma janela que possibilita o abuso de algo, esse abuso ocorrerá". E isso tanto por falhas técnicas como por falhas humanas. Não se trata de descofiar dos "guardiães, mas se houver uma "porta oculta," mesmo que incialmente conhecida apenas pelas "forças do bem" , há uma possibilidade muito grande de, por descado ou desídia, ser também usada por mal-intencionados. Na frase de Juvenal, "quis custodied ipsos custodes?", quem zelaria pela correção dos que nos guardam?

Somos crescidos. Queremos manter o direito de proteger nossa informação com os melhores recursos da tecnologia. Criptografia fraca, que tenha o nível da "Língua do Pê", serve apenas como engodo e brincadeira de crianças.


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Nota Técnica do CGI sobre criptografia:
https://www.cgi.br/esclarecimento/nota-publica-sobre-o-uso-de-criptografia-em-sistemas-e-dispositivos-conectados-a-internet/

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lei da Austrália
https://arstechnica.com/tech-policy/2018/12/australia-passes-new-law-to-thwart-strong-encryption/
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