sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Duas de papagaio

Há um tempo li algo que me gerou sensações diversas e misturadas. Estava em jornal reputado (.. e repasso sem confirmação adicional definitiva) que na Inglaterra uma mulher recebeu inexplicavelmente compras que ela não teria feito: alguém, passando-se por ela, teria comprado “caixas para presente”, que foram devidamente entregues pela loja e cobradas.

A pesquisa do ocorrido levou à constatação de que na compra, feita via internet, foi usado um assistente de voz da própria companhia vendedora. Nenhum dos familiares da mulher teria sido o gerador do pedido e, dado que a voz de quem o fez o era a da senhora em questão, restou uma explicação bizarra: foi seu papagaio cinza do Congo, espécie muito faladora e esperta, que imitava à perfeição a voz da dona. O tal papagaio teria ativado acidentalmente o assistente de voz e, do improvável diálogo, originou-se a ordem de compra.

O lado positivo óbvio são as facilidade que os assistentes artificiais caseiros podem adicionar ao nosso dia a dia, com os progressos da intelecção de voz. De negativo, além de constatar que um dado biométrico – a voz – foi erradamente identificado como sendo de uma pessoa, há a forma com que uma transação pode ser debitada, sem maiores considerações.

O outro caso, em linha aparentemente oposta: um amigo adquiriu um desses psitacídeos personagens de piadas. Perguntei-lhe se o papagaio era “ele” ou “ela”. Disse-me que o chama de “o”, mas apenas um teste de DNA resolveria: visualmente não se consegue identificar o sexo. Nós, os humanos, precisamos de auxílio de alta tecnologia para saber se devemos nos referir à ave como “louro” ou “loura”. Já um papagaio comum, simples, saberá imediatamente se está diante de uma moçoila papagaia, ou de um mocinho, e sem fazer nenhum teste de DNA... Certamente há espaço aqui para obtermos ajuda com sistemas automatizados... Por outro lado, quando se trata de separar pintainhos que virarão galinhas dos que, futuros frangos, apenas enriquecerão nosso almoço, há humanos que conseguem distinguir, e com bastante eficiência. Para mim, é um mistério...

O caso do “papagaio comprador” lembrou-me da discussão sobre “notícias falsas”. O que li e repassei seria notícia falsa? Falsa ou verdadeira, pareceu-me interessante! “Se non è vero, è bem trovato”, diriam os italianos. Muitas vezes o que é verossímil ou agradável ao narrador (ou ao vendedor...) passa por verdade. É uma tendência humana, que a internet apenas potencializa.

Em 1819, John Keats, poeta romântico inglês, escreveu aos 23 anos o famoso poema Ode a uma Urna Grega, cujo belo fecho diz: “Beleza é verdade, verdade é beleza, eis tudo que sabemos, e tudo o que se precisa saber!”. Keats, assim, respondeu esteticamente à terrível e eterna questão “afinal, o que é a verdade?”: se algo é belo (nos agrada, ou convém), é verdadeiro... Não é a minha forma de pensar: como engenheiro, gosto de fatos. Há que se reconhecer a atração epicurista e romântica que a beleza tem, de vestir a versão com a roupa da verdade. Afinal estamos em tempos pós-modernos, e o “eu sinto” será mais valorizado do que “os fatos mostram”...

Ah, em tempo, Keats morreu com 25 anos. Pelos padrões atualmente em discussão, estaria ainda no fim da adolescência...



https://gavetadoivo.wordpress.com/2014/05/09/ode-a-uma-urna-grega-de-john-keats/



http://www.britishmuseum.org/research/collection_online/collection_object_details.aspx?objectId=399909&partId=1


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Eliza: Conte-me seus problemas


Em época de conexão global, é de se esperar a chuva de notícias duvidosas, de perfis artificiais e de interlocutores automáticos. Nos anos 50, o matemático e pioneiro da computação Alan Turing havia proposto um teste que permitiria distinguir se nosso interlocutor é humano ou cibernético.No “teste de Turing”, sem que se possa ver o interlocutor, faz-se perguntas e, pelas respostas recebidas nesse diálogo, toma-se a decisão: é humano ou não. 

Se um programa de computador conseguir enganar os que o inquirem, esse programa terá passado no teste e chegado ao ponto de ser confundido com humanos. Lembro-me de Eliza, um programa escrito para simular diálogo sensato. Especificamente, recordo-me de uma versão em que Eliza se comportava como um “psicólogo”, o que lhe dava a vantagem de poder responder com outra pergunta e de ignorar convenientemente ilações mesmo que óbvias. Chegou a ter versão em português, e era bem divertido nos anos 70 “conversar” com Eliza usando os velhos terminais.

O teste de Turing prevê apenas texto para a interação. Claro que, se fosse possível ver o interlocutor, falar com ele, trocar olhares ou emoções, a sofisticação necessária para ele se fazer passar por humano seria muito maior e, creio, ainda estamos longe (ufa!) de ter que enfrentar esse problema. 

Mesmo assim, e como previsto no filme Blade Runner: O Caçador de Androides, será cada vez mais difícil discernir entre um robô e um humano. É interessante ver a evolução semântica da própria palavra “robô”, forma aportuguesada de “robot” que, muito provavelmente, vem do eslavo “rabota” significando algo como “trabalhador compulsório”: alguém que tem a obrigação de executar uma tarefa. Há quem diga que “arbeit” (“trabalho”, em alemão) compartilha da raiz linguística de “rabota”. 

Não havia, portanto, muito glamour no conceito original do robô: um servidor basicamente mecânico. Com a adição da capacidade de processamento a palavra adquiriu um significado mais sinistro, afim à ficção científica, que via em sua “humanização” um espectro de perigos. Não por menos Isaac Asimov escreveu o famoso Eu, Robô, onde enuncia o que seriam a regras morais básicas para a evolução segura desses mecanismos.

Na Internet não vemos, ainda, robôs, mas há uma grande população de “bots”, redução de “robots”. Há programas que escravizam computadores de terceiros para transformá-los em zumbis (“bots”) e usá-los como meios de ataque, e há os que parasitam as máquinas para roubar dados ou capacidade de processamento de forma invisível. Mas há também “bots” autônomos, que se comportam como perfis em redes sociais ou como indivíduos reais, que espalham notícias com propósitos obscuros, que arregimentam seguidores. 

Esses “bots”, conforme descrito por Turing, interagem conosco normalmente em texto. Se na categoria dos “bots” invasores há como ter alguma prevenção, evitar contágio e não cair nas armadilhas, na segunda, a dos autônomos, a tal “engenharia social” desempenha um papel central. O elo mais fraco da cadeia de segurança muitas vezes é o humano. 

E, sendo cínico, se aplicarmos o teste de Turing hoje, é bem provável que o erro mais frequente não seja o de detectar máquinas como se humanos fossem, mas o de concluir que alguns dos comportamentos humanos que encontramos parecem mais adequados a máquinas



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Logofobia

É novo ano, com batalhas a lutar (e, eventualmente perder, mas sempre galhardamente...). Assim, começo com um texto que pouco (mas algo!) tem a ver com tecnologia, aventurando-me em águas hostis. Na antiguidade, um sapateiro, ao ver um quadro do famoso pintor Apeles, teria comentado que as sandálias não estariam corretamente retratadas. Apeles deu razão ao especialista e retocou as sandálias. Em seguida, entretanto, o sapateiro passou a criticar outros aspectos do quadro, ao que Apeles, incisivamente, retrucou: “sapateiro, não vá além das sandálias”... Estarei indo além delas?

O fato é que palavras novas surgem a cada dia, e isso me traz um certo medo, “logofobia”. Ajoelhado no milho, reconheço que parte da “culpa” deve ser atribuída à tecnologia e à velocidade com que precisamos nos expressar, nem sempre com precisão e elegância.

Já foi aceito e dicionarizado o “deletar” algo; pode ser que, em breve, vejamos “printar” um texto, ou “imputar um dado” também consignado nos léxicos. Adições inúteis, por trazerem zero informação nova e por duplicarem termos já existentes em nossa língua. Essa tendência também se vê em muitas outras áreas: horrorizado ouvi (e li) que neste Natal foram ofertados “gifts”. Ora, pois!

Não se trata de discutir ou atacar os conceitos que se pretende exprimir com os “novos vocábulos” – longe disso – mas preservar um mínimo de fidelidade ao vernáculo, à semântica e ao bom senso...

Vou a alguns casos: O que seria, por exemplo, “gordofobia”, aberração vocabular que circula por aí? Eu, por exemplo, não tenho fobia, medo de gordos, muito menos aversão, são-me simpáticos e nem um pouco assustadores. Tenho medo de beiradas altas, sou acrofóbico, e medo de cobras, tenho ofidiofobia, mas, de gordos, certamente não...

Claro que o sentido que se quer passar não é de medo, mas sim contra a estigmatização, a ojeriza, ou, mesmo, o ódio. Nesse caso, o radical envolvido seria outro: miso. Os misantropos odeiam serem humanos, os misóginos detestam mulheres. Se é para manter o “fobo”, que se junte outra raiz grega: que tal lipofobia? Ou, com “miso”, lipomisia? Os latinos apostrofariam os que ainda nos preocupamos com isso: oleum perdisti!

Igualmente disforme é “heliporto”. “Porto” sabe-se o que é mas... o que seria “heli”? Um pedaço de “hélice”? Voa-se só com um pedaço da hélice? 

Aproveito para pontuar que essas invencionices não são “jabuticabas” nacionais. Os norte-americanos também são férteis em criar barbarismos (por emulação, nós os copiamos).Veja-se “workaholic”, que significaria a fixação em trabalho. A justaposição traz “work” com... o final de “alcoholic”. Mas nesse “holic” sobra um pedaço de “alcohol”. Se “ic” final, sozinho, dá a noção de “fixação” “alcoholic”, do jeito que ficou, “workaholic” dá a ideia de fixação em trabalho e... em álcool. Trata-se de alguém que trabalha bêbado?

“Hackathon” e outras novidades surgem terminadas em “athon”? Parece que a intenção era dar ideia de uma maratona de “hackers”. Mas “maratona” é o nome de uma planície (e da erva doce), não decomponível em mar + atona. Ou seja, essa desinência “athon”, sozinha, não traz sentido. E, se fossemos aportuguesar, seria “racatona” para suprir o “h” aspirado inicial. Mas aceito a justa crítica: “ne sutor ultra crepidam!”. Bom ano!




Caco Galhardo, https://cacogalhardo.wordpress.com


https://myowncommonplacebook.wordpress.com/2013/07/26/nao-suba-o-sapateiro-acima-da-chinela/




http://www.ivoviuauva.com.br/tag/ingles/


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A simbiose homem-computador

O título é o de um texto profético de J.C.R.Licklider, Man-Computer Symbiosis, escrito em 1960 (!). Licklider foi um cientista brilhante com atuação em múltiplas áreas, uma delas o projeto Arpanet, que acabou gerando a Internet que conhecemos hoje.

No último texto no Link, resvalei em IA (inteligência artificial) e arrisquei afirmar que as máquinas não desenvolverão “ética e consciência” nos moldes humanos. Reconheço que há divergências quanto a essa previsão, mas o citado artigo de Licklider ajuda a diminuir as inquietudes de diversas formas. Além de espantosamente prever que a futura interação com máquinas seria baseada em voz, e de descrever em 1960 o que hoje chamamos de “computação em nuvem”, ele traz uma visão sobre o futuro papel das máquinas. Transcrevo: “se hoje os computadores ajudam na solução de problemas que nós formulamos, eles passarão a participar da própria formulação dos problemas. Numa futura simbiose, nós definiremos os objetivos, as hipóteses e os critérios, e faremos a decisão final. Os computadores além de todo o trabalho de rotina, prepararão o caminho para conclusões técnicas e, mesmo, para o pensamento e a pesquisa científica”. Simbiose é um conceito da biologia, que define uma relação de interdependência entre criaturas de espécie/natureza diferente. Um exemplo clássico é o da figueira, cuja polinização depende de um tipo específico de vespa, a qual, por sua vez, alimenta-se apenas de figo. Sem a vespa a figueira não frutifica. Sem o figo a vespa se extingue.

Num processo de tomada de decisão, gastamos a maior parcela de tempo em reunir material, organizá-lo de forma coerente, agrupar os dados em gráficos e tabelas. Só uma pequena (mas nobre) parcela de tempo é destinada a, dado todo o panorama construido, tirar uma conclusão. Essa preparação prévia já está em boa parte a cargo dos computadores, das ferramentas de busca, da Internet com seu imenso repositório. Com as referências certas, pode-se chegar a uma decisão sensata. O que existe hoje é, assim, a interação homem-computador. Um interação que é cada vez mais uma via de duplo sentido. Há tempos a automação instalou-se em fábricas, em linhas de montagem e, mesmo hoje, não é raro a máquina precisar da ajuda do homem para completar tarefas complexas. Nem o homem sozinho, nem a máquina de forma autônoma dariam conta do que há por fazer, ou seja, a dependência mútua já está posta. Evoluirá de uma extensão mecânica do homem para uma “simbiose”? Numa interdependência real, além de ajudar a organizar o pensamento e responder nossas perguntas, as máquinas poderão nos auxiliar na própria formulação das questões. Afinal, muitas vezes é mais importante e difícil descobrir qual a pergunta certa a fazer.

Há certamente uma revolução a caminho. G.K.Chesterton alerta para um desvio nessa busca, a ser considerado: “revolucionar” deveria ser usado como um verbo transitivo, buscando um foco, não um verbo intransitivo, que se autojustifica. Quanto à importância de fazer a pergunta certa, ao final do “Guia do Mochileiro das Galáxias” de Douglas Adams, o supercomputador onisciente finalmente consegue responder à obsedante pergunta “qual o sentido da vida, do universo e tudo o mais?”. A resposta foi “42”.


Referências:
http://groups.csail.mit.edu/medg/people/psz/Licklider.html
http://memex.org/licklider.pdf
http://www.chick.net/wizards/memo.html



https://jugglingpaynes.blogspot.com.br/2010/12/carnival-of-homeschooling-42-edition.html



terça-feira, 14 de novembro de 2017

Amazon em Abu Dhabi



Si (como afirma el griego en el Cratilo)
el nombre es arquetipo de la cosa
en las letras de 'rosa' está la rosa
y todo el Nilo en la palabra 'Nilo'.

Jorge Luis Borges, El Golem


A sexagésima reunião da ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers) aconteceu há 10 dias em Abu Dhabi. A capital dos Emirados Árabes Unidos é uma cidade nova, limpa, com prédios arrojados e que transpira riqueza trazida pelo petróleo. Além de ser vizinha do Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo com quase 900 metros de altura, Abu Dhabi abriga a espantosa mesquita Sheikh Zayed com mais de mil colunas, toda revestida de mármore branco e com o maior tapete (persa) já tecido. De tirar o fôlego.

A ICANN é uma organização não governamental sem fins lucrativos, situada na Califórnia norte-americana, que assumiu em 1998 a função de coordenar a distribuição dos números IP (Internet Protocol), tanto na versão 4 como na versão 6, e o registro dos domínios de topo (TLD – Top Level Domain, caso do .br, .com, .net, .de, .etc, entre outros) na raiz da rede. Suas reuniões concentram-se em tentar acomodar interesses operacionais, comerciais, governamentais, de política pública e social, preservando uma Internet única, aberta e diversa.

A iniciativa de povoar a Internet com milhares de novos gTLDs (generic TLDs) escorou-se em argumentos como para “atender melhor a comunidades e nichos específicos de negócios, aumentar a competitividade no registro de nomes e incluir diversidade com alfabetos disponíveis”. Trouxe, além de maiores riscos com novos domínios fraudulentos, registrados para exploração de incautos, tensões com comunidades, culturas e, especialmente, governos. 

Se há, por um lado, posturas “liberalizantes” que admitiriam a priori registro de qualquer nome de domínio, há também os que opõem-se com sólidos argumentos a que um empreendedor possa obter para si nomes como .brasil, ou .ala, ou .deus

A ICANN, prudentemente, buscou minimizar a eventualidade de problemas, criando normas e reservando nomes que não poderiam ser automaticamente registrados. A situação, entretanto, é mais complexa. A nova política, por exemplo, permite que donos de marcas possam solicitar seu nome como um TLD. E a empresa Amazon assim o fez, requerendo .amazon para si. Claro que conceder a uma empresa o nome de toda uma região do mundo não é coisa que vá acontecer sem questionamentos, e rapidamente comunidades da região se organizaram para questionar o pedido.

Um órgão que dá insumos à ICANN, especialmente em temas de interesse público, é o GAC (Government Advisory Committee). E neste caso o GAC, liderado pelo Brasil e por representantes de países da América do Sul, logrou consenso: em comunicado oficial, pediu à ICANN que sustasse a concessão do .amazon, no que foi atendido. Mas há formas de recorrer, previstos nos estatutos da ICANN e a Amazon recorreu. O grupo que julgou o recurso pediu à ICANN que “revisite cuidadosamente sua decisão anterior”. 

Assim, hoje a ICANN está numa “sinuca de bico”. De um lado, o poderio econômico de uma empresa, que pode aplicar somas consideráveis em sua causa judicial, e de outro, o posicionamento de comunidades indígenas e do GAC. Não foi em Abu Dhabi que se pacificou a discussão sobre o .amazon, e a tensão deve se estender ao menos até março de 2018. Acompanharemos.


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terça-feira, 31 de outubro de 2017

O Bebê da IA

Na semana que passou duas notícias, por inusitadas, chamaram a atenção para aplicações da Inteligência Artificial e suas conseqüências.

A primeira é sobre jogos. Há tempo lemos sobre um programa que joga Go, jogo de tabuleiro complexo e bastante popular no Oriente. O programa, AlphaGo, aprendeu os movimentos e foi alimentado com a base conhecida de todas as partidas disputadas até hoje. Aproveitou-se a experiência dos humanos, adicionada à enorme capacidade de memorização e de processamento de que se dispõe hoje. AlphaGo ganhou quase todas as partidas contra os mestres. Das poucas que perdeu, parece que a derrota deveu-se ao fato do jogador humano ter feito lances inusitados e controversos, que confundiram o AlphaGo e sua base de dados.  A estratégia de se valer do que nós, humanos, fizemos até aqui, tem sido usada   com sucesso em jogos, diagnósticos, traduções, apoio jurídico etc. E nada há de muito surpreendente aí. Ocorre que uma nova versão do AlphaGo, a AlphaGo Zero, foi colocada em testes recentemente. A nova versão usa outro tipo de abordagem: apenas ensinam-se as regras do jogo - como movimentar as peças - e colocam-se duas instâncias do programa a jogarem interminavelmente entre si. Esta opção já havia sido tentada, com resultados medíocres, nos anos 70 e 80, mas hoje, com capacidade de processamento disponível milhões de vezes maior, as coisas mudam: em pouco tempo de treinamento o programa testará uma quantidade impensável de alternativas. Ganhando e perdendo desenvolverá uma estratégia própria de jogo. Eu nada sei de Go mas, ao que se comentou, mestres humanos, vendo o jogo que o AlphaGo Zero faz, só conseguem classificá-lo como "alienígena". Ou seja, o programa desenvolveu uma forma de jogar que em nada lembra a dos terráqueos. Aprendeu da "tentativa e erro" levada ao extremo e chegou àquilo parece uma "outra realidade, inexplorada". Aparentemente desdizendo Millôr: "é errando que se aprende... a errar!". Tentador e, ao mesmo tempo, assustador.

O segundo caso é mais prosaico, porém preocupante. Releciona-se a um problema de tradução automática, que levou um homem à prisão temporária. Pelo que se soube, em Israel uma conhecida rede social trazia a foto de um trabalhador palestino ao lado do seu trator, com uma legenda que, na linguagem local, significaria "bom dia". O programa de tradução automática da rede social fez do "bom dia" algo como "quero machucar". Numa região conturbada como aquela, iniciou-se busca que terminou com a detenção do "suspeito". Desfeita a confusão, ele foi solto. Quem seria o real causador do problema? Se um programa que aprende, sozinho ou com a experiência humana, comete um erro grave, até fatal, contra um ser humano, quem é o responsável por isso? O usuário? O desenvolvedor? E, no caso de tentar uma auditoria, como descobrir que caminho levou o programa à conclusão que tomou? Haveria "conserto"?

De volta ao mundo simples, ontem foi a abertura da sexagésima reunião da ICANN (Internet Coorporation for Assigned Names and Numbers), desta vez em Abu Dhabi, Emirados Árabes. Teremos discussões importantes, entre elas a relacionada ao domínio .Amazon, hoje reservado a pedido das comunidades da região, mas fortemente desejado pela empresa homônima. Para que lado a balança penderá, e a que argumentos ela cederá, saberemos em breve.


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Veja a evolução do AlphaGo Zero:(de: https://www.kdnuggets.com/2017/10/alphago-zero-biggest-ai-advance.html ):

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Mentiras Eternas

À Internet e suas costas largas é imputada hoje a resposabilidade pela enxurrada de informações de duvidosa veracidade que nos atingem. É fato incontestável que ela possibilitou a adição de milhões de novas vozes à cacofonia universal, mas “espantar-se” com o resultado é falso pudor ou, pior, um apoio enviesado a algum tipo de silenciamento.

A justa ânsia e a pressa em querer conformar o mundo em algo mais elevado e puro ameaçam o risco de perdas maiores que os ganhos eventuais. Dar voz a todos é um valor incomparável ao incômodo (e, mesmo, ao real risco) que falsas informações trazem. Impedir a livre expressão sob o pretexto de proteger-nos pode equivaler ao surrado “jogar fora a criança com a água do banho”. J.P. Barlow escreveu em 1996, no seu libelo sobre a independência do espaço da rede: “estamos criando um mundo onde qualquer um poderá expressar suas opiniões, por mais singulares que sejam, sem o medo de ser coagido ao silêncio ou à conformidade”.

A mentira e a calúnia convivem com a humanidade desde que ela existe. Nada há de novo sob o sol! Dois exemplos clássicos na literatura aplicam-se: o arquivilão Iago, em Otelo, de Shakespeare e Dom Basílio, no Barbeiro de Sevilha, de Beaumarchais.

Da boca de Iago ouvimos que “a reputação de uma pessoa nada mais é que um bem falso e vão, que se ganha sem mérito, e se perde sem motivo”. Emília, sua mulher, o define: “Ele é invejoso. Não porque inveje algo. É, apenas, por ser”. No “credo” da ópera, Iago proclama: “Sou um celerado, porque sou um homem. E em mim sinto a lama originária”. Disseminando mentiras mas de forma a torná-las críveis, adicionando “provas” e “indícios” que não resistiriam a um escrutínio banal, Iago consegue destruir reputações e levar à morte, tanto a inocente Desdêmona, quanto o ingênuo e ciumento Otelo.

Já Dom Basílio cinicamente recomenda a calúnia como forma de desqualificar um pretendente indesejado: “Caluniem, caluniem, algo sempre sobrará”.

Deveríamos resignar-nos a acreditar no que se lê na rede? Não! Ao contrário, a constante reverificação é fundamental. Voltaire aconselhou “quando ouvimos novidades, devemos esperar pelo ´sacramento da confirmação´”. Hoje a mesma tecnologia que nos inunda de informações duvidosas, permite-nos consultar uma infinidade de fontes variadas, em busca de indícios melhor sobre a qualidade do que recebemos. A tecnologia pode aliviar os danos que ela indiretamente causa. Redes sociais, por exemplo, apregoam aplicativos e ferramentas, recursos que ajudariam nosso senso crítico, agindo como poderosos detectores do certo e do errado.

Mas mesmo sabendo dos portentosos avanços da inteligência artificial e dos algoritmos de avaliação da qualidade da informação, eu fico com um “pé atrás” nesse assunto. Provocativamente, faço uma analogia com o que está no Gênesis: se Eva foi ou não enganada pelo Malicioso é menos importante do que a isca usada: “morda esse fruto e passará a conhecer e a distinguir o bem do mal”. Será que “mordendo” os aplicativos e as ferramentas que nos oferecem, atingiríamos o que o Tentador prometeu? Passaríamos a separar claramente o bem do mal?

Alerta! Ainda prefiro a falibilidade humana à mecânica onisciência do infalível algoritmo.


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Existe "qualitômetro" para informações? 😊