terça-feira, 8 de junho de 2021

O Prurido dos sete anos...

Neste junho a coluna completa sete anos e sete é um número especial. Se, por um lado, Camões nos lembra que Labão serviu sete anos para obter Raquel, mas ficou com Lia, por outro há uma deliciosa comédia dos anos 50 “The seven year itch” e que para nós foi trazida como “O pecado mora ao lado”. Assim, cedendo aos pruridos que os tais sete anos provocam, e já pedindo as vênias de praxe, cometerei o pecadilho de navegar em águas que não albergam meu “lugar de fala”, um simples engenheiro, mas que me permitirão algubs comentários pontuais: nossa língua, de que sou incompetente mas ardoroso defensor.

Veja-se, então, o uso de palavras exóticas, especialmente importantes e frequentes em campos como tecnologia e informática. Sendo a língua viva e dinâmica, os novos conceitos exigem a importação ou criação de palavras, especialmente quando não se encontra um sinônimo adequado. Neologismos são importantes. Lembro-me, por exemplo, do professor de português do ginásio tentando inutilmente convercer-nos a usar “ludopédio” ou “pedibólio” em lugar de “futebol”: uma cruzada quixotesca. Era mais que evidente e lógico que “futebol” seria o termo a prevalecer: importação adequada e razoável. Mas o desarrazoado e pretencioso seria escrever-se “football”. Penso que sempre se deva aportuguesar as palavras exóticas que passaem a se incorporar à “última flor do Lácio”. É o que ocorreu com cheque, voleibol, basquete, sutiã, abajur e tantas outras que se integraram ao português. Usar um estrangeirismo sem adaptá-lo à grafia nacional, pediria o uso de “muletas” como aspas ou itálico... Millôr Fernandes escrevia “saite” quando se referia às páginas da Internet - afinal os garotos que começam a estudar a língua não podem imaginar que o “i” em “site” tenha estranhamente o som de “ai”. E já que me atolei nesse tema, sigo no pântano: para mim, por exemplo, a reforma que eliminou o trema é elitizante! O trema em “freqüente” ensinaria aos alunos que o “u” é audível nesta palavra, ao contrário de “quente”, onde o “u” é mudo. Sem o trema, um autodidata, ou alguém menos familiarizado com a língua culta, estaria exposto à segregação por mostrar pronúncia deficiente.

Ainda em neologismos, a pressa em criar palavras novas nem sempre permite a devida atenção à semântica das raízes que as compõem. Todos sabemos que “fobia” é “medo”, enquanto “ódio” é “misia”. O misógino odeia mulheres, e misantropo odeia humanos. Mas a torto e a direito vê-se o uso de “fobia” como “ódio” ou “aversão”. Nessa linha esquisita - e já pedindo desculpas pelo chiste - o que seria hoje um “claustrofóbico”? Alguém que “odeia mosteiros”? Nas justaposições, outro exemplo que me deixa incomodado é “paralímpico”. A junção de “para” com “olimpico” deveria dar “parolimpico”, como sempre se fazia. Como exemplo, gastro + enterologia dá gastrentorologia, e não “gastronterologia”.

O mais triste é ver a mera substituição de palavras nossas, perfeitamente expressivas e utilizáveis, apenas com a intenção de mostrar sofisticação ou atualidade. Cartazes apregoando “sale” em lugar de “liquidação”, “off” em lugar de “desconto”, ou “delivery” no lugar de “entrega a domicílio”. Nem haveria o que aportuguesar aí, dado que já tínhamos o equivalente em nossa língua. Sou diabético e peço refrigerantes dietéticos, mas me dizem para pedi-los “dáite”.

Não se pode minimizar a necessidade de adição de elementos novos em nossa língua. Em tempos tão dinâmicos, a iimportação se impõe com frequência. Mas ao fazermos esses enriquecimentos, que as novas palavras sejam escritas na forma prosódica de nossa língua. Nesse ponto podiamos seguir um pouco mais de perto o que nossos irmãos lusos usam e fazem. Claro que poderemos e deveremos sempre adicionar nosso tempero tropical (ou será ele “spicy”?). Perdão, leitores!

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Texto interessante e divertido sobre estrangeirismos:
http://www.tradutoradeespanhol.com.br/2013/08/extrangeirismos-na-lingua-portuguesa.html






terça-feira, 25 de maio de 2021

Onde mora o perigo...



Chamou a atenção na semana passada uma carta aberta da ISOC (Internet Society) ao primeiro-ministro do Canadá alertando sobre sérios riscos à Internet e às liberdades individuais, embutidos em legislação que se está discutindo no Canadá. O projeto de lei visa oficialmente a nivelar o tratamento de empresas que trabalham com transmissão (“broadcast”). Alega-se, com bastante razão, que a lei de 1991, que regula as transmissões de rádio e tevê, não contempla transmissões via Internet, então ainda incipientes.

A carta, assinada por dezenas de indivíduos historicamente ligados à Internet, causa alguma surpresa dado que o Canadá sempre foi considerado um baluarte da Internet aberta e livre, sendo frequentemente citado como exemplo. O que estaria ocorrendo de errado agora? O cenário nestes novos tempos é amplo e complexo. Note-se, por exemplo, o que passa em governos como o da Grã-Bretanha, que estão se movendo para coibir o uso de criptografia. Os argumentos variam, desde o de proteger crianças, até o de combater terrorismo, mas são frágeis a um exame mais detalhado. Certamente não são as figuraas do submundo que acabarão sendo atingidas, mas sim os usuários comuns, que tentam conservar o pouco que lhes resta de privacidade. São esses as potenciais vítimas de uma proibição do uso da criptografia, ou de seu enfraquecimento com a criação de “portas dos fundos” em provedores e aplicações.

Outro ponto, também objeto da carta aberta, é o possível ataque a estruturas básicas da rede. Uma coisa é, ao combater abusos e crimes atuar sobre aplicações e plataformas; outra, completamente diferente, é atingir a estrutura de transporte e interconexão que constitui o núcleo da rede. Ações diretas nessa infraestrutura podem resultar em imediata quebra de neutralidade da rede, impedindo a livre navegação e gerando zonas de exclusão. Se, sob o pretexto de sua própria proteção, os usuários forem proibidos de chegar a locais da rede, além da óbvia tutela de adultos, abrem-se as portas para uma infinidade de violações de liberdade muito mais sérias.

Finalmente, outro argumento que também se veste de “protetivo” é o de buscar eliminar conteúdos em seu nascedouro, antes mesmo de sua distribuição, para “coibir danos maiores”. De alguma forma isso me lembra o filme “Minority Report”, onde um sistema de previsão – baseado em videntes humanos, mas nada impederia seu transporte para a inteligência artificial – identificaria um “criminoso” antes mesmo que um crime fosse cometido, e já se armava sua “detenção preventiva”. Indo mais longe, Cesare Lombroso pregava no início do século passado que alguém estaria predestinado a ser mantiroso (ou violento, ou ladrão) baseando-se em suas assimetrias e medições faciais. Nos livramos de Lombroso, mas hoje há uma confusão, talvez proposital, entre definir formas de punição a delitos, e buscar maneiras de impedir que eles sequer ocorram. Levando o argumento ao limite, se todos forem proibidos de se expressar, não haveria como cometer crimes de calúnia, difamação ou injúria… Ou seja, até para coibir e punir abusos é necessário, a priori, haver liberdade de expressão para que, depois, se possa buscas os eventuais abusos. Suprimir a liberdade de expressão como forma de limitar abusos é condenar a priori, mesmo que travestido de proteção.

A carta sublinha riscos deste tipo. Certamente há necessidade de se discutir regulação de camadas sobre a Internet, mas preservando infraestrutura e indivíduos. Ao se buscar um regime uniforme para plataformas de transmissão de conteúdos , seja via Internet, seja pelos meios tradicionais de rádio e tevẽ, deve-se cuidar para não colocar no mesmo balaio os “broadcasters” e o que os indivíduos produzem com sua liberdade de expressão; Todos arcam, claro, com a responsabilidade pelas suas ações, mas sempre a posteriori e seguido o rito judicial canônico.

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A carta aberta da ISOC a Justin Trudeau;
https://www.internetsociety.org/open-letters/open-letter-to-government-of-canada/

e uma análise da proposta lei canadense:
https://www.theglobeandmail.com/politics/article-what-is-bill-c-10-and-why-are-the-liberals-planning-to-regulate-the/

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Criptografia e UK:
https://bazzacollins.medium.com/how-the-nspcc-rigged-its-report-on-the-dangers-of-end-to-end-encryption-bcd4dce0c410

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Texto sobre Cesare Lombroso, na Wikipedia:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cesare_Lombroso

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Um resumo de Minority Report e o "trailer"
https://advocaciamarizdeoliveira.com.br/the-minority-report/
https://www.youtube.com/watch?v=8E0sX5So_uo






terça-feira, 11 de maio de 2021

Arcaísmos

Um “ano de cachorro” equivaleria a sete anos humanos. A rápida evolução da Internet ocorre a passos de “anos de cachorro”, senão ainda mais velozmente. Os trinta anos desde a conexão à Internet já teriam gerando mais mudanças que dois séculos convencionais, e resgatar o que então acontecia na comunicação via rede é quase uma atividade de arqueologia.

A grande atração dos anos 90 era o correio eletrônico: quem o usava era digno de consideração, e receberia uma resposta ágil, mesmo que seu contactado fosse uma sumidade de outra forma quase inacessível. Rapidamente o correio eletrônico tornava-se ubíquo.

Ainda em tempos de Bitnet, resolvi acompanhar uma lista de acadẽmicos brasileiros no exterior, a Bras-net. Com tres sub-listas de distribuição, EUA, Inglaterra e Brasil, para uma distribuição mais eficiente, eu, que a imaginava um grupo sisudo e circunspecto, encontrei lá um pessoal animado e bem-humorado. Além de dicas sobre onde encontrar pertences para fazer uma feijoada nos EUA, a Bras-net tinha... uma “rádio” via e-mail (!). A RUI, Rádio Uirapuru de Itapipoca, era tocada pelo “d.j. Mauro Pacatuba” (Mauro Oliveira, um cearense doutorando na UCLA). E a RUI transmitia até festa junina usando texto!. Uma “pândega!”, diriam os antigos.

Mas enquanto o correio eletrônico se expandia entre os acadẽmicos, existiam ainda outras formas de agregar interessados: as BBS (Bulletin Board System), usando linhas telefônicas, que contavam com um Sysop (o coordenador da BBS, usualmente seu dono) cuidando do funcionamento dia e noite. Os usuários ligavam para o tronco da BBS munidos de um modem, recebiam e enviavam recados aos demais membros, além de trocar informações e debater. Eram comunidades restritas muito ativas e, sob a batuta do Sysop, formavam vínculos de amizade que perduram até hoje.

Das muitas BBS no Brasil, cito apenas duas: a CanalVip de 1986, talvez a mais antiga, com o Sysop Paulo César Breim (PCB), e outra, a Mandic de 1990, que ganhou notoriedade e importância nas mãos do Sysop Aleksandar Mandic. Assim que as BBS notaram a clara vantagem de conectarem suas comunidades a uma rede ampla, iníciou-se a atividade de “provimento de acesso” à Internet, com BBS atuando como provedores. Nos EUA a “invasão” da Internet por usuários não acadêmicos já havia acontecido quando a populosa BBS CompuServ carreou centenas de milhares de usuários, mudando radicalmente o cenário da Internet.

Semana passada perdemos o Mandic, personagem emblemática do “caos criativo” que a Internet inicial vivia. Reforça-se a sensação de que é uma época que se vai. A trajetória do Mandic está bem documentada em vários artigos, mas a figura humana nem sempre transparece nos textos. Ele era de movimentos não previsíveis, um “alvo móvel”, como numa das frases de que gostava: “pior do que mudar de idéia, é não ter idéia para mudar”. Desde o começo difícil e ousado, até o sucesso espetacular obtido no final dos 90 passou ele por muitas fases diferentes. Chegou a possuir automóveis de luxo e até um pequeno avião, mas reavaliou seus objetivos, vendeu tudo e se limitou a um fusquinha azul, 72. Ao mesmo tempo em que mantinha uma sofisticada coleção de vinhos, ia comer em bares simples, desde que com comida e preço honestos, mas sem esnobar os lugares da moda. Mandic foi, sobretudo, um empreendedor com visão do futuro que sempre apoiou a equipe técnica de escol que tinha montado, e preservou seu clã de amigos. Permito-me um falso cognato com seu sobrenome: a avó paterna dele era de Corfu, Grécia. Em grego, “profetizador” é “mandis”, donde vem “cartomante”, aquele que adivinha vendo cartas. Se Mandic previu o futuro observando a rede (que é “dictyo”, em grego), poderia ter cunhado o neologismo “dictiomante”. Termino com duas das inúmeras frases que tanto amava, e que continuam válidas: “Se for mentir, seja breve” e “Pense grande! Afinal ninguém jamais falou de ‘Alexandre, o Médio’”.

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Sobre a Bras-net e a RUI:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/8/20/ilustrada/19.html
https://amauroboliveira.wordpress.com/4-barca-extensao/e-livros-publicados/apostilas/
https://amauroboliveira.files.wordpress.com/2011/05/1992-no-reino-encantado-do-barnet-parte-1.pdf
https://amauroboliveira.files.wordpress.com/2011/05/1992-no-reino-encantado-do-barnet-parte-2.pdf

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Alguma informação sobre listas de discussão no começo da rede no Brasil, em 
BR Domain | gomide@brfapesp.ansp.br |Brazilian Mailing List Info
            mailserv@brfapesp.ansp.br
            listserv@fapq.fapesp.ansp.br
            mailserv@fpsp.fapesp.ansp.br
            listserv@brfapq.ansp.br
            (Note: This is NOT a mailing list itself, rather, it is a way)
            (to find out more about Brazilian mailing lists. Send the command)
            (HELP or LISTS to any one of the above addresses.)
BRAS-CON  | listserv%frors12.bitnet@cunyvm.cuny.edu |Brasnet na Europa Continen.
BRAS-NET  | listserv%pccvm.bitnet@cunyvm.cuny.edu |Brazilian Net(Portuguese)
            listserv@vm1.lcc.ufmg.br
            listserv@brufmg.anmg.br
            listserv@brufpb.anpb.br
e em: 
https://crln.acrl.org/index.php/crlnews/rt/printerFriendly/20472/24846
BRAS-NET: Brazilian Discussion Group/Network. To subscribe send message to: <brasnet- request@cs.ucla.edu>. Several other Brazilian interest groups exist. To get more general info on these other lists, try sending an e-mail message to: <gomide@brfa pesp.bitnet> or to: <listserv@fapq.fapesp.br>.
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terça-feira, 27 de abril de 2021

A Roda do Tempo

 Quando descrevemos a evolução da tecnologia, notamos em muitos casos uma reabilitação de conceitos antigos. Não se trata do “eterno retorno” nietzschiano, mas de algo mais prosaico: reaproveitar ou “recauchutar” ideias já exploradas antes e que, por alguma razão, foram abandonadas, seja pelo surgimento de obstáculos instranponíveis, seja por limitações da tecnologia da época.

Uma situação que pode ilustrar essa retomada é o movimento pendular que ocorre na computação entre centralidade e distribuição, entre o local e o global. Se, no início, usar um computador obrigava a deslocar-se, como numa peregrinação a Meca, até o local onde ele se encontrava, esta limitação, rapidamente identificada, foi combatida, inicialmente com o uso de terminais que, através de canais de comunicação (à época linhas telefônicas e pares de cobre), permitiam receber e enviar dados remotamente. Em breve, os terminais foram adicionando capacidade local e parte das tarefas passou a ser realizada no próprio terminal. O coroamento desta tendância ocorreu com a maciça entrada em cena do microcomputador pessoal. Mais um pouco e eis-nos prescindindo das velhas máquinas centrais: o que necessitávamos estava agora, quase sempre, ao alcance em nossa mesa.

Uma volta completa fôra completada – saíramos do centralizado para o distribuido: “o centro está em toda a parte”. As redes de comunicação, entretanto, iniciaram um novo ciclo: a limitação espacial voltava a incomodar. Visitar locais para consultar bases de dados, trocar informações com colegas, informar-se e informar representaram um novo e poderoso espalhamento do poder. Mas (e é aí que a porca torce o rabo…) uma conectividade ampla e fácil leva à ideia de uma nova concentração. Por que um “poderio local” se tudo do que se necessita está na rede, e sob demanda?. E mais, evoluimos para o nefelibatismo: tudo está “na nuvem”.

Este também não será ponto de repouso. Ter espalhados num domínio imaterial, não apenas nossos dados mas o poder de computação, além de trazer eventual desconforto. Isso pode trazer riscos à privacidade e liberdade. A roda gira e voltamos a pensar, de novo, em soluções localizadas. Assim, continuamente, uma evolução em espiral recupera velhos conceitos, mesmo que em latitudes mais elevadas.

Esse eterno retomar parece não se restringir a conceitos ligados à tecnologia, Para atiçar, pensemos por exemplo em algo bem diferente: no que houve com a “democracia direta ateniense”, que durou cerca de 200 anos até o começo do século IV AC. Era a reunião organizada da sociedade em fóruns, para tratar da elaboração de leis, punir os que as desrespeitassem e, mesmo, banir cidadãos por 10 anos do convívio na “pólis”- o ostracismo. Um modelo que, com várias restrições e defeitos, mostrava-se eficiente em comunidades com alguns milhares de cidadãos, mas que não teria como se expandir, tanto geografica quanto numericamente, para milhões de indivíduos.

Assim, a democracia direta da ágora, foi substituida por alternativas mais hierárquicas e centralizadoras e, mais tarde, por formas de representatividade via câmaras e parlamentos, das tendências da opinião popular. De novo aqui o tempo pode nos pregar uma peça. Com a Internet e as redes sociais, é muito fácil para milhões agregarem-se rapidamente em torno de posições, emitindo opiniões próprias ou instiladas. Afinal, se o sábio fala porque tem algo a dizer, o tolo fala porque precisa dizer algo. Assim, não apenas um arremedo de “democracia direta” pode tentar voltar, como o próprio ostracismo ateniense, agora apodado como “cultura do cancelamento”, renasce com força. Se Atenas, à época com poucos milhares de cidadãos, condenou Sócrates a beber cicuta, o que aconteceria hoje numa votação “direta” via Internet? A escala gigantesca da rede traz mais segurança às nossas decisões?

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Ivan Moura Campos propôs uma interessante evolução da Internet em espiral: a "espiral de Campos"
Segue uma entrevista com ele e um artigo de Michael Stanton sobre Internet II, de 2005
https://www.comciencia.br/dossies-1-72/entrevistas/internet/campos.htm
http://www.wirelessbrasil.org/michael_stanton/artigos/2005/mai_30.html


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Um texto sobre "ostracismo", a votação que podia decidir o exílio de alguém por 10 anos
https://www.greecehighdefinition.com/blog/ostracism-ballot-voting-system-of-ancient-greece







terça-feira, 13 de abril de 2021

Naufrágios

Foi em 14 de abril de 1912, há quase 109 anos, que o Titanic, enorme e luxuoso navio de cruzeiro, em sua viagem inaugural, colidiu com um improvável iceberg (aicebergue na melhor grafia portuguesa). Por razões que a própria razão desconhece, fui rever dados do desastrre do RMS Titanic (RMS é “Royal Mail Ship” ou “navio do correio real” britânico).

Há na Internet vasta informação sobre este acontecimento, que já se esfuma no tempo, mas que era tema constante nas conversas que ouvia à época de minha juventude. Das 2226 pessoas a bordo, apenas 703 sobreviveram (32%) e 1503 pereceram. Com os botes existentes, talvez em número insuficiente, lançados ao mar ainda não totalmente lotados, o número de mortos foi grande. Outro navio, o RMS Carpathia, atendeu aos pedidos de socorro e apareceu horas depois para o resgate dos que estavam nos botes.

Os destroços do Titanic repousam a quase 4000 metros de profundidade. Assim a própria localização do navio no fundo do oceano só foi conseguida no início dos anos 80. Encontrados os destroços, expedições tripuladas para recuperar material começaram anos depois mas, ao que se sabe, boa parte do navio hoje já foi reabsorvida pela natureza e agora ntegra o ambiente do fundo do mar.

Desde este naufrágio, o mundo viu duas guerras mundiais, diversas crises, revoluções, movimentos e revisões históricas, que afetam significativamente a forma de pensar e de agir. Um exemplo simples: o capitão do Titanic, Edward John Smith, 62 anos e oficial da RNR (Reserva da Marinha Real britânica) afundou com o Titanic, seguindo à risca seu código de honra: “o capitão deve submergir com seu navio” ou, se houver forma de se salver, que seja o último a abandonar o barco. Como contraste, cem anos após, em 2012, no naufrágio do Costa Concórdia defronte à costa italiana da Toscana, seu capitão Francesco Schettino escafedeu-se assim que pôde do navio, num evento com mais de 30 mortos… Ganhou repercussão a enérgica reprimenda que teria recebido de um capitão da guarda costeira, quando da evasão: “Vada a bordo, cazzo!!!” (vá a bordo, po**a!). A frase foi inclusive estapada em camisetas para o Carnaval italiano daquele ano. Parêntese pessoal: quando cheguei ao Brasil em 1954, o navio que trouxe a família era o Anna C, da mesma Linea C do naufragado Costa Concórdia, uma empresa de transporte marítimo com mais de 150 anos de história. Algo parece ter mudado quanto ao código de honra e comprometimento de alguns capitães.

Em casos de desastres graves e com sérios riscos a vidas humanas, outro lema que se aplicava em 1912 era “mulheres e crianças primeiro”. Os dados disponíveis sobre mortos e sobreviventes no Titanic confirmam essa premissa (claro, também um inevitável viés econômico associado: a percentagem de mortos na primeira classe foi menor que a da terceira). Tem-se: dos 1680 homens a bordo, sobreviveram 323 (19%), das 112 crianças, 56 (50%) e das 434 mulheres salvaram-se 324 (75%). Se olharmos os números da “primeira classe”, dos 171 homens sobreviveram 54 (32%), das 7 crianças, 6 (86%), e das 141 mulheres salvaram-se 137 (97%, com apenas 4 mortes). Finalmente, na “terceira classe” os números foram: dos 450 homens sobreviveram 59 (13%), das 80 crianças 25 (31%) e das 179 mulheres 88 (49%).

Como seria a avaliação popular destes comportamentos hoje, quando todos se metem a julgar todos, com a grande presença de redes sociais e dos “influenciadores” agindo através da Internet? Parece importante, especialmente em circunstâncias dramáticas, ter em conta valores e preceitos que se distanciem do conhecido mote de uma propaganda de cigarros dos anos 70: “o importante é levar vantagem em tudo”. Atitudes mais nobres, despreendidas e em benefício geral deveriam valer mais que o velho jargão “farinha pouca, meu pirão primeiro!”
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    Números sobre o acidente,  as vítimas do Titanic e os destroços podem ser encontrados em:
https://en.wikipedia.org/wiki/Titanic
http://www.icyousee.org/titanic.html
https://en.wikipedia.org/wiki/The_captain_goes_down_with_the_ship
https://en.wikipedia.org/wiki/Women_and_children_first
https://www.youtube.com/watch?v=28A_Z6p01rc
https://pt.wikipedia.org/wiki/Destro%C3%A7os_do_RMS_Titanic

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    Informação sobre os capitães Edward John Smith e Francesco Schettino:
https://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Smith_(sea_captain)
https://en.wikipedia.org/wiki/Costa_Concordia_disaster
https://en.wikipedia.org/wiki/Francesco_Schettino
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    Variedades, camisetas e música "Farinha Pouca"...
https://internacional.estadao.com.br/blogs/radar-global/camisetas-com-a-frase-volte-a-bordo-c-sao-vendidas-na-italia/
https://www.youtube.com/watch?v=9YfTuIPwhMY
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The Boston Daily Globe, ABRIL 16 1912
    
    E o Costa Concórdia:
https://www.bbc.com/news/world-europe-16577739




terça-feira, 30 de março de 2021

Internet dos Corpos

Que as coisas comuns estão cada vez mais ligadas à Internet, já é bem conhecido. Há, entretanto, diferenças importantes entre o nosso televisor receber e transmitir dados via Internet, e nosso marca-passo cardíaco estar conectado.

Se a preocupação mais imediata é a proteção de dados pessoais, indiscrições que o televisor cometa podem levar ao mapeamento dos gostos de seu dono: que programas prefere, se troca de canal quando entrem comerciais, ou a eles presta atenção, etc. Com a TV interativa isso será potencializado: o antes mero espectador e piloto do controle remoto, passa via “setup box”, a navegar na rede e a fazer pedidos. É um simples adicionar ao que já se sabia dele que coisas ele busca, que sítios visita, que interações mais atraem sua atenção e interesse.

Na outra categoria de equipamentos, as que integram o ciborgue em que estamos nos transformando, a coisa pode ser bem mais complicada. Há uns meses li um artigo que descrevia um caso interessante, de 2016. Um indivíduo que perdera a casa num incêndio relatou como, a duras penas, quebrou a vidraça com sua bengala e sair carregando o que pode, incluindo-se aí o carregador de seu equipamento de suporte cardíaco instalado em seu corpo. Ele solicitou o resgate do seguro de seu imóvel… A priori um drama pessoal em que ele, ainda mais por sua frágil condição de saúde, escapara com vida,.
A empresa de seguros, ao investigar o caso, desconfiou da origem do incêndio e da complicada história de como o homem lograra escapar. E como havia um equipamento permanentemente instalado em seu corpo, a empresa pediu acesso aos dados gerados pelo equipamento, esperando que eles revelassem outra versão. Haveria registrada no equipamento, por exemplo, uma excitação proporcional à que seria de esperar naquelas condições? Seguiu-se uma guerra jurídica que não chegou à conclusão porque o demandante faleceu antes.

O que se tira disso é, por si, bastante preocupante. Equipamentos que passam a integrar nosso “organismo expandido” – e mesmo os chamados “vestíveis” - são fonte de informações muito íntimas. Uma vez acessíveis pela rede, esses dados poderão ser garimpados por alguém. Imagine-se um invasor conseguindo acesso a um marca-passo, ou a uma bomba de insulina, e passando a cobrar resgate para não interferir no funcionamento destes equipamentos! Pesadelos não faltarão...
O cenário hoje é bem mais complexo que o de 2016. Se, por um lado, as coisas se tornaram cada vez mais conectadas – e com elas também nossos corpos - por outro temos o apoio de leis que protegem nossos dados pessoais. A lei, porém, pune mas não impede. Afinal, mesmo com a lei definindo crime a invasão de um equipamento vital, como agiremos se o invasor, no controle da situação, exigir resgate?
Sim, as informações vitais nossas devem estar disponíveis, mas sempre a nosso único critério, para as repassarmos a médicos quando necessário. Em viagens, por exemplo, um prontuário acessível (ou parte dele) poderia ser mostrádo a médicos e hospitais em caso de necessidade, Ainda restaria não resolvido o caso em que, por algum incidente grave, não tenhamos condições de conscientemente liberar com presteza o acesso a nossos dados vitais.

A simbiose do homem com dispositivos eletrônicos incorporados traz melhoras importantes em disgnósticos, tratamentos e suporte vital, mas não podemos ignorar os aspectos éticos e de segurança a preservar. Que a atenção e divulgação dadas a estes avanços divulgue também com o mesmo destaque seus efeitos colaterais e riscos inerentes. Como em Hamlet, “nada é simplesmente bom ou mau em si”.

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Artigos que tratam do tema e do exemplo acima:
https://www.rand.org/blog/articles/2020/10/the-internet-of-bodies-will-change-everything-for-better-or-worse.html
https://www.cybersecurity-insiders.com/malware-and-ransomware-attack-on-medical-devices/

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Artigo sobre riscos de dispositívos "vestíveis":
https://aircconline.com/ijnsa/V8N3/8316ijnsa02.pdf

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Sobre riscos de segurança no uso de injetores de insulina conectados:
https://www.healthcareitnews.com/news/fda-issues-new-alert-medtronic-insulin-pump-security

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https://i.ytimg.com/vi/4GPgJjoYI-g/maxresdefault.jpg



terça-feira, 16 de março de 2021

Privacidade e Coerência.

O lema do correio norte-americano é bem conhecido: “nem a chuva, nem o calor, nem a escuridão da noite impedirão o carteiro de completar eficazmente sua missão”. No tema lembro-me de um livro da adolescência: “Miguel Strogoff, o correio do Czar”, de Júlio Verne, onde essa heróica missão era a bela viagem a que o autor nos levava.

Além de garantir a entrega expedida da correspondência, seu conteúdo considera-se inviolável: o sigilo da correspondência seria sagrado, como o eram as confissões e os diários pessoais, As coisas tem mudado rapidamente com a informática. Diários pessoais se transformaram em “blogs”, cartas migraram para uma versão eletrônica e, logo depois, fundiram-se com outras formas de comunicação. Especialmente, deixaram de ser algo um-para-um e tornaram-se um-para-muitos, através das redes sociais. Novos modelos de negócio surgem fundados, por exemplo, no impacto que cada um pode causar pelo que afirma, verdadeiro ou não, desde que seja suficientemente bombástico.

Para este novo ambiente em que, sem dúvida, também multiplicam-se ameaças, a Comissão Européia estuda formas de solicitar aos provedores de serviços Internet que, “transitoriamente”, todas as comunicações entre seus usuários, tanto no correio eletrônico, como nas conversas pela rede, sejam monitoradas para a “prevenção de ameaças e crimes”. Para a “nossa própria segurança”, as comunicações pessoais seriam passíveis de constante e obigatório monitoramento pelas plataformas e provedores. E essa idéia ganha força e apoio através dos representantes da maioria dos países no Parlamento Europeu.

Sou do tempo em que se considerava o correio inviolável. Não é um objetivo recente: há referências sobre técnicas de criptografia já na antiga Grécia. Nwste mesmo tema, há dias, outra curiosa notícia dava conta de que cartas com mais de 300 anos e quenão puderam ser entregues a seus destinatáios, foram encontradas, intactas, guardadas em Haia. O artigo aproveitou para ilustrar diversas maneiras que os remetentes usavam para tornar visível uma violação da correspondência. Podiam, por exemplo, dobrar o papel de uma forma tão complexa que uma tentativa de desdobrá-lo seria fatalmente notada no destino. Ou usar lacres aplicados à carta, de forma a deixar claro que se ela fossa aberta, isso seria facilmente notado. Aliás, o próprio envelope fechado com cola, mais recente, é forma de garantir alguma proteção ao conteúdo.

O que causa perplexidade a alguns (e me incluo entre eles...) é que, ao mesmo tempo em que bradamos pela defesa de nossa privacidade e nos incomodamos quando vemos sistemas que automaticamente detectam nossos interesses e desejos, nos enviando em instantes alguma propaganda sobre o que apenas acabávamos de pensar, pouco alvoroço causa uma notícia como esta, que vai exatamente no sentido inverso. Ao invés de diminuir o monitoramento a que estamos sujeitos, estamos a vê-lo tornar-se obrigatório. Claro que sempre recheado de “boas intenções”, para “coibir ilegalidades” e garantir “nossa segurança”. Ora, afinal, “se você nada deve, porque se preocupa em manter sua correspondência sigilosa”? Rompidas barreiras éticas e morais, só nos restará o uso da criptografia. E ela também pode ser alvo da sanha dos “bem intencionados”. Iremos defendẽ-la!

Talvez haja uma explicação irônica do que se passa... Atendendo a uma leitura atravessada de Lucas 12:3: “o que vocês disseram nas trevas será ouvido à luz do dia, e o que vocês sussurraram aos ouvidos dentro de casa, será proclamado dos telhados”, membros da Comissão Européia resolveram ser o momento para assumirem. já aqui na terra, o papel que o evangelista atribui às esferas transcendentes..,

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Texto sobre o posicionamento da Comissão Européia:
https://www.patrick-breyer.de/?page_id=594160&lang=en
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O lema do Serviço Postal norte-americano:
https://en.wikipedia.org/wiki/United_States_Postal_Service_creed
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Artigos sobre o sigilo da correspondência:
https://www.theguardian.com/technology/2015/aug/12/where-did-the-principle-of-secrecy-in-correspondence-go
https://en.wikipedia.org/wiki/Secrecy_of_correspondence
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Referência à criptografia na Grécia antiga:
Polybius, a second century BC Greek historian, wrote about a communication and data encryption system. From other sources we know that such a device had been developed by Cleoxenus (Κλεόξενος o Μηχανικός) and Democleitus (Δημόκλειτος ο Εφευρέτης).
em:
http://www.hellenicaworld.com/Greece/Technology/en/Communication.html
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A carta selada de mais de 300 anos:
https://www.npr.org/2021/03/02/972607811/reading-a-letter-thats-been-sealed-for-more-than-300-years-without-opening-it
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e uma curiosidade: material para lacres
https://ceraparalacre.com.br/



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E "Miguel Strogoff", com a tradução de Rachel de Queiroz: