terça-feira, 13 de abril de 2021

Naufrágios

Foi em 14 de abril de 1912, há quase 109 anos, que o Titanic, enorme e luxuoso navio de cruzeiro, em sua viagem inaugural, colidiu com um improvável iceberg (aicebergue na melhor grafia portuguesa). Por razões que a própria razão desconhece, fui rever dados do desastrre do RMS Titanic (RMS é “Royal Mail Ship” ou “navio do correio real” britânico).

Há na Internet vasta informação sobre este acontecimento, que já se esfuma no tempo, mas que era tema constante nas conversas que ouvia à época de minha juventude. Das 2226 pessoas a bordo, apenas 703 sobreviveram (32%) e 1503 pereceram. Com os botes existentes, talvez em número insuficiente, lançados ao mar ainda não totalmente lotados, o número de mortos foi grande. Outro navio, o RMS Carpathia, atendeu aos pedidos de socorro e apareceu horas depois para o resgate dos que estavam nos botes.

Os destroços do Titanic repousam a quase 4000 metros de profundidade. Assim a própria localização do navio no fundo do oceano só foi conseguida no início dos anos 80. Encontrados os destroços, expedições tripuladas para recuperar material começaram anos depois mas, ao que se sabe, boa parte do navio hoje já foi reabsorvida pela natureza e agora ntegra o ambiente do fundo do mar.

Desde este naufrágio, o mundo viu duas guerras mundiais, diversas crises, revoluções, movimentos e revisões históricas, que afetam significativamente a forma de pensar e de agir. Um exemplo simples: o capitão do Titanic, Edward John Smith, 62 anos e oficial da RNR (Reserva da Marinha Real britânica) afundou com o Titanic, seguindo à risca seu código de honra: “o capitão deve submergir com seu navio” ou, se houver forma de se salver, que seja o último a abandonar o barco. Como contraste, cem anos após, em 2012, no naufrágio do Costa Concórdia defronte à costa italiana da Toscana, seu capitão Francesco Schettino escafedeu-se assim que pôde do navio, num evento com mais de 30 mortos… Ganhou repercussão a enérgica reprimenda que teria recebido de um capitão da guarda costeira, quando da evasão: “Vada a bordo, cazzo!!!” (vá a bordo, po**a!). A frase foi inclusive estapada em camisetas para o Carnaval italiano daquele ano. Parêntese pessoal: quando cheguei ao Brasil em 1954, o navio que trouxe a família era o Anna C, da mesma Linea C do naufragado Costa Concórdia, uma empresa de transporte marítimo com mais de 150 anos de história. Algo parece ter mudado quanto ao código de honra e comprometimento de alguns capitães.

Em casos de desastres graves e com sérios riscos a vidas humanas, outro lema que se aplicava em 1912 era “mulheres e crianças primeiro”. Os dados disponíveis sobre mortos e sobreviventes no Titanic confirmam essa premissa (claro, também um inevitável viés econômico associado: a percentagem de mortos na primeira classe foi menor que a da terceira). Tem-se: dos 1680 homens a bordo, sobreviveram 323 (19%), das 112 crianças, 56 (50%) e das 434 mulheres salvaram-se 324 (75%). Se olharmos os números da “primeira classe”, dos 171 homens sobreviveram 54 (32%), das 7 crianças, 6 (86%), e das 141 mulheres salvaram-se 137 (97%, com apenas 4 mortes). Finalmente, na “terceira classe” os números foram: dos 450 homens sobreviveram 59 (13%), das 80 crianças 25 (31%) e das 179 mulheres 88 (49%).

Como seria a avaliação popular destes comportamentos hoje, quando todos se metem a julgar todos, com a grande presença de redes sociais e dos “influenciadores” agindo através da Internet? Parece importante, especialmente em circunstâncias dramáticas, ter em conta valores e preceitos que se distanciem do conhecido mote de uma propaganda de cigarros dos anos 70: “o importante é levar vantagem em tudo”. Atitudes mais nobres, despreendidas e em benefício geral deveriam valer mais que o velho jargão “farinha pouca, meu pirão primeiro!”
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    Números sobre o acidente,  as vítimas do Titanic e os destroços podem ser encontrados em:
https://en.wikipedia.org/wiki/Titanic
http://www.icyousee.org/titanic.html
https://en.wikipedia.org/wiki/The_captain_goes_down_with_the_ship
https://en.wikipedia.org/wiki/Women_and_children_first
https://www.youtube.com/watch?v=28A_Z6p01rc
https://pt.wikipedia.org/wiki/Destro%C3%A7os_do_RMS_Titanic

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    Informação sobre os capitães Edward John Smith e Francesco Schettino:
https://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Smith_(sea_captain)
https://en.wikipedia.org/wiki/Costa_Concordia_disaster
https://en.wikipedia.org/wiki/Francesco_Schettino
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    Variedades, camisetas e música "Farinha Pouca"...
https://internacional.estadao.com.br/blogs/radar-global/camisetas-com-a-frase-volte-a-bordo-c-sao-vendidas-na-italia/
https://www.youtube.com/watch?v=9YfTuIPwhMY
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The Boston Daily Globe, ABRIL 16 1912
    
    E o Costa Concórdia:
https://www.bbc.com/news/world-europe-16577739




terça-feira, 30 de março de 2021

Internet dos Corpos

Que as coisas comuns estão cada vez mais ligadas à Internet, já é bem conhecido. Há, entretanto, diferenças importantes entre o nosso televisor receber e transmitir dados via Internet, e nosso marca-passo cardíaco estar conectado.

Se a preocupação mais imediata é a proteção de dados pessoais, indiscrições que o televisor cometa podem levar ao mapeamento dos gostos de seu dono: que programas prefere, se troca de canal quando entrem comerciais, ou a eles presta atenção, etc. Com a TV interativa isso será potencializado: o antes mero espectador e piloto do controle remoto, passa via “setup box”, a navegar na rede e a fazer pedidos. É um simples adicionar ao que já se sabia dele que coisas ele busca, que sítios visita, que interações mais atraem sua atenção e interesse.

Na outra categoria de equipamentos, as que integram o ciborgue em que estamos nos transformando, a coisa pode ser bem mais complicada. Há uns meses li um artigo que descrevia um caso interessante, de 2016. Um indivíduo que perdera a casa num incêndio relatou como, a duras penas, quebrou a vidraça com sua bengala e sair carregando o que pode, incluindo-se aí o carregador de seu equipamento de suporte cardíaco instalado em seu corpo. Ele solicitou o resgate do seguro de seu imóvel… A priori um drama pessoal em que ele, ainda mais por sua frágil condição de saúde, escapara com vida,.
A empresa de seguros, ao investigar o caso, desconfiou da origem do incêndio e da complicada história de como o homem lograra escapar. E como havia um equipamento permanentemente instalado em seu corpo, a empresa pediu acesso aos dados gerados pelo equipamento, esperando que eles revelassem outra versão. Haveria registrada no equipamento, por exemplo, uma excitação proporcional à que seria de esperar naquelas condições? Seguiu-se uma guerra jurídica que não chegou à conclusão porque o demandante faleceu antes.

O que se tira disso é, por si, bastante preocupante. Equipamentos que passam a integrar nosso “organismo expandido” – e mesmo os chamados “vestíveis” - são fonte de informações muito íntimas. Uma vez acessíveis pela rede, esses dados poderão ser garimpados por alguém. Imagine-se um invasor conseguindo acesso a um marca-passo, ou a uma bomba de insulina, e passando a cobrar resgate para não interferir no funcionamento destes equipamentos! Pesadelos não faltarão...
O cenário hoje é bem mais complexo que o de 2016. Se, por um lado, as coisas se tornaram cada vez mais conectadas – e com elas também nossos corpos - por outro temos o apoio de leis que protegem nossos dados pessoais. A lei, porém, pune mas não impede. Afinal, mesmo com a lei definindo crime a invasão de um equipamento vital, como agiremos se o invasor, no controle da situação, exigir resgate?
Sim, as informações vitais nossas devem estar disponíveis, mas sempre a nosso único critério, para as repassarmos a médicos quando necessário. Em viagens, por exemplo, um prontuário acessível (ou parte dele) poderia ser mostrádo a médicos e hospitais em caso de necessidade, Ainda restaria não resolvido o caso em que, por algum incidente grave, não tenhamos condições de conscientemente liberar com presteza o acesso a nossos dados vitais.

A simbiose do homem com dispositivos eletrônicos incorporados traz melhoras importantes em disgnósticos, tratamentos e suporte vital, mas não podemos ignorar os aspectos éticos e de segurança a preservar. Que a atenção e divulgação dadas a estes avanços divulgue também com o mesmo destaque seus efeitos colaterais e riscos inerentes. Como em Hamlet, “nada é simplesmente bom ou mau em si”.

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Artigos que tratam do tema e do exemplo acima:
https://www.rand.org/blog/articles/2020/10/the-internet-of-bodies-will-change-everything-for-better-or-worse.html
https://www.cybersecurity-insiders.com/malware-and-ransomware-attack-on-medical-devices/

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Artigo sobre riscos de dispositívos "vestíveis":
https://aircconline.com/ijnsa/V8N3/8316ijnsa02.pdf

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Sobre riscos de segurança no uso de injetores de insulina conectados:
https://www.healthcareitnews.com/news/fda-issues-new-alert-medtronic-insulin-pump-security

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https://i.ytimg.com/vi/4GPgJjoYI-g/maxresdefault.jpg



terça-feira, 16 de março de 2021

Privacidade e Coerência.

O lema do correio norte-americano é bem conhecido: “nem a chuva, nem o calor, nem a escuridão da noite impedirão o carteiro de completar eficazmente sua missão”. No tema lembro-me de um livro da adolescência: “Miguel Strogoff, o correio do Czar”, de Júlio Verne, onde essa heróica missão era a bela viagem a que o autor nos levava.

Além de garantir a entrega expedida da correspondência, seu conteúdo considera-se inviolável: o sigilo da correspondência seria sagrado, como o eram as confissões e os diários pessoais, As coisas tem mudado rapidamente com a informática. Diários pessoais se transformaram em “blogs”, cartas migraram para uma versão eletrônica e, logo depois, fundiram-se com outras formas de comunicação. Especialmente, deixaram de ser algo um-para-um e tornaram-se um-para-muitos, através das redes sociais. Novos modelos de negócio surgem fundados, por exemplo, no impacto que cada um pode causar pelo que afirma, verdadeiro ou não, desde que seja suficientemente bombástico.

Para este novo ambiente em que, sem dúvida, também multiplicam-se ameaças, a Comissão Européia estuda formas de solicitar aos provedores de serviços Internet que, “transitoriamente”, todas as comunicações entre seus usuários, tanto no correio eletrônico, como nas conversas pela rede, sejam monitoradas para a “prevenção de ameaças e crimes”. Para a “nossa própria segurança”, as comunicações pessoais seriam passíveis de constante e obigatório monitoramento pelas plataformas e provedores. E essa idéia ganha força e apoio através dos representantes da maioria dos países no Parlamento Europeu.

Sou do tempo em que se considerava o correio inviolável. Não é um objetivo recente: há referências sobre técnicas de criptografia já na antiga Grécia. Nwste mesmo tema, há dias, outra curiosa notícia dava conta de que cartas com mais de 300 anos e quenão puderam ser entregues a seus destinatáios, foram encontradas, intactas, guardadas em Haia. O artigo aproveitou para ilustrar diversas maneiras que os remetentes usavam para tornar visível uma violação da correspondência. Podiam, por exemplo, dobrar o papel de uma forma tão complexa que uma tentativa de desdobrá-lo seria fatalmente notada no destino. Ou usar lacres aplicados à carta, de forma a deixar claro que se ela fossa aberta, isso seria facilmente notado. Aliás, o próprio envelope fechado com cola, mais recente, é forma de garantir alguma proteção ao conteúdo.

O que causa perplexidade a alguns (e me incluo entre eles...) é que, ao mesmo tempo em que bradamos pela defesa de nossa privacidade e nos incomodamos quando vemos sistemas que automaticamente detectam nossos interesses e desejos, nos enviando em instantes alguma propaganda sobre o que apenas acabávamos de pensar, pouco alvoroço causa uma notícia como esta, que vai exatamente no sentido inverso. Ao invés de diminuir o monitoramento a que estamos sujeitos, estamos a vê-lo tornar-se obrigatório. Claro que sempre recheado de “boas intenções”, para “coibir ilegalidades” e garantir “nossa segurança”. Ora, afinal, “se você nada deve, porque se preocupa em manter sua correspondência sigilosa”? Rompidas barreiras éticas e morais, só nos restará o uso da criptografia. E ela também pode ser alvo da sanha dos “bem intencionados”. Iremos defendẽ-la!

Talvez haja uma explicação irônica do que se passa... Atendendo a uma leitura atravessada de Lucas 12:3: “o que vocês disseram nas trevas será ouvido à luz do dia, e o que vocês sussurraram aos ouvidos dentro de casa, será proclamado dos telhados”, membros da Comissão Européia resolveram ser o momento para assumirem. já aqui na terra, o papel que o evangelista atribui às esferas transcendentes..,

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Texto sobre o posicionamento da Comissão Européia:
https://www.patrick-breyer.de/?page_id=594160&lang=en
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O lema do Serviço Postal norte-americano:
https://en.wikipedia.org/wiki/United_States_Postal_Service_creed
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Artigos sobre o sigilo da correspondência:
https://www.theguardian.com/technology/2015/aug/12/where-did-the-principle-of-secrecy-in-correspondence-go
https://en.wikipedia.org/wiki/Secrecy_of_correspondence
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Referência à criptografia na Grécia antiga:
Polybius, a second century BC Greek historian, wrote about a communication and data encryption system. From other sources we know that such a device had been developed by Cleoxenus (Κλεόξενος o Μηχανικός) and Democleitus (Δημόκλειτος ο Εφευρέτης).
em:
http://www.hellenicaworld.com/Greece/Technology/en/Communication.html
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A carta selada de mais de 300 anos:
https://www.npr.org/2021/03/02/972607811/reading-a-letter-thats-been-sealed-for-more-than-300-years-without-opening-it
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e uma curiosidade: material para lacres
https://ceraparalacre.com.br/



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E "Miguel Strogoff", com a tradução de Rachel de Queiroz:






terça-feira, 2 de março de 2021

Riscos à Internet

Há uma queda-de-braço em andamento entre gigantes da tecnologia que operam as plataformas dominantes na Internet, e governos de alguns países. No caso da Austrália, por exemplo, uma recente lei obriga as plataformas e remunerarem empresas de informação quando do compartilhamento de linques. As consequências para a Internet podem ser bem ruins. É mais uma polêmica permeada por definições escorregadias e jogo não claro das partes, que não hesitam em travestir seus próprios objetivos em algo que pareça vir ao encontro do interesse público. Desta forma, tanto a linha de corte do que seria eticamente adequado, como o real perde-ganha dos envolvidos, tornam-se muito difusos.

A caracterização do papel das plataformas na intercomunicação há tempos deixou de ser simples e clara. A função inicial que elas assumiram foi de “vasos comunicantes” entre usuários interessados em trocar opiniões, e base para a criação de comunidades sobre tópicos ou interesses. No papel de um intermediário simples não há muita polêmica. O telefone, por exemplo, cumpre essa função, limitada normalmente a dois interlocutores simjultãneos: se alguém me ofende ao telefone, ou me faz alguma oferta de produto ilegal, não imaginaria tornar a companhia telefônica corré do eventual delito. Vale também para o correio. Para dar um exemplo de antanho, havia “torneios de xadrez por correspondência” em que os jogos eram travados por troca de cartas. É natural concluir que esses facilitadores da comunicação e da associação não tinham, a priori, nenhuma responsabilidade pelo conteúdo transportado. Vale aqui o “não mate o mensageiro”… Já na ação atual as plataformas ultrapassam em vários aspectos sua função de interemdiário. No xadrez por correspondência o correio não tiraria conclusões sobre a qualidade ou os interesses dos jogadores. Nas novas plataformas, não só o perfil do usuário é levantado, como é capz até que se metessem a sugerir jogadas...

O tema da Austrália é movido especialmente pelo fato de que há muito dinheiro de propaganda fluindo para as plataformas, enquanto secam recursos para atividades jornalísticas. Surgiu assim a idéia da lei que obriga repasse de recursos, especificamente, à indústria da informação. Os linques de notícias que circulam pelas plataformas poderiam gerar um pagamento a ser ajustado com o gerador da notícia a que o linque se refere. Há diversos textos na rede mostrando como isso ataca, não apenas o conceito de hipertexto

- onde o linque tem a única função de ser um “apontador “, e não carrega conteúdo em si - mas a própria abertura na Internet. No limite, se alguém mandar a um amigo uma referência de notícia ou conteúdo, o remetente poderia estar sujeito a pagar algo. Tim Berners-Lee, o criador da Web, já havia definido que a mera existência de um linque de hipertexto não carrega em si, nem conteúdo, nem valor autoral.

O jogo de negaças mútuas se expande. Se, por um lado, as empresas de tecnologia tentam usar o trunfo de “intermediário neutro”, por outro, ao alegar que conseguem “moderar conteúdos” para o bem público geral, assumem um papel eventualmente editorial. Se parece clara a necessidade de um nivelamento do campo de jogo e das forças de mercado, não parece razoável um governo interferir pontualmente nas relações entre dois tipos de negócio, e com o risco subjacente de fazer mal à Internet, a possível vítima deste confronto. A clara necessidade de equacionar e conter o crecente poderio dos gigantes da tecnologia, não pode redundar em danos maiores ao ecosistema de abertura e liberdade que a Internet provê. Num aforismo em “Para além do Bem e do Mal”, Nietzsche diz: “ao lutar contra os monstros, acautela-te para que não te transformes também em monstro”.

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sobre o caso Austrália:

http://www.komaitis.org/the-conversation/in-the-case-of-australia-vs-facebook-the-internet-is-the-casualty

https://m.dw.com/en/australia-passes-media-law-as-facebook-defends-news-blackout/a-56682488

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o texto de "Para além do Bem e do Mal"

https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/4/o/Al__m_do__Bem_e_do_Mal.pdf

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monstros mitológicos

https://jornal.usp.br/tag/monstros/?amp



terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Vazamentos

 Há uns dois anos, quando ainda eram possíveis as viagens internacionais, fui (presencialmente!) à agência bancária onde tenho conta para comprar alguns dólares. Expliquei à gentil atendente a minha necessidade de moeda estrangeira e ela me encaminhou a um guichê específico. Tudo parecia ir bem até que o caixa pediu-me que inserisse um especial cartão de débito na maquininha, e que teclasse a críptica senha. Até consegui achar o tal cartão no meio da tralha que carrego comigo, mas… cadê o raio da senha? Nem me lembrava dela, ou de sequer se havia algum dia usado o tal cartão para retirar resursos. Não houve contorno possível. Eu ali, pessoalmente em frente ao caixa, era muito menos confiável que o meu cartão. Na verdade, a conta-corrente parecia mais pertencer ao cartão em si, do que a mim mesmo. Em resumo, era necessário emitir novo cartão, cadastrar outra senha e, daí sim, com o aval do poderoso cartão eu voltaria a gozar de credibilidade junto ao banco…

O que nisso é sugestivo, e eventualmente preocupante, é que não só nossos valores, mas nossa personalidade e nossas ações em ambiente público foram sendo paulatinamente terceirizadas para avatares que carregamos no bolso. Claro que há mais conforto e agilidade assim, mas parece-me de lastimar que esses avanços, ao invés de se incorporarem ao que já existia, o substituam. Posso parecer (e sou…) antigo, mas era mais simples (e seguro) colocar um papelzinho no parabrisa do carro para usar a zona azul. Hoje há que se ter telefone e aplicativo, e faz-se uma conexão lógica entre uma chapa do automóvel, a conta bancária e a hora de uso do estacionamento... Com tanto dado disponível por aí, não é de se estranhar que a cada dia noticiem-se vazamentos importantes.

Nunca é demais ressaltar a importância de que se observarem boas normas de segurança: senhas fortes e autenticação com segundo fator. E, claro, não aceitar “presentes de grego” na rede, que podem vir recheados de surpresas muito desagradáveis, além da prudência em evitar acessos a locais suspeitos, muitas vezes camuflados como “seguros” ou “atraentes”…

Em resumo, independentemente de haver legislação forte visando a proteger nossa intimidade, em muitos casos o “leite já derramou”. Dado que é possível montar-se um alter ego nosso usando o que vazou, e sabendo que esse alter ego pode ser mais “confiável” em transações eletrônicas que o próprio indivíduo, estamos numa enrascada. Isso sequer é novidade: em 1999 o executivo-chefe da Sun Microsystem, , já havia virado a página: “Privacidade? Não existe. Esqueçam isso…”

A discussão do quê, e como, proteger é mais complexa. O senso comum diz que a simples identificação unívoca de um indivíduo não representa em si uma quebra de sigilo. Afinal para se proteger alguém efetivamente é necessário saber a quem nos referimos. Um identificador único, como é o caso do CPF, usado em inúmeras transações comezinhas, não se distingue do próprio nome do indivíduo. Dizer que meu nome é João Silva sem adicionar, por exemplo, o CPF. me deixaria em companhia de muitos homônimos, com variados perfis sociais e suas correpondentes pendências. Não parece ser aí que mora o perigo. Mas adicionar à identificação única de alguém seus dados bancários, os nomes dos genitores, sua localização física em cada momento e, até, senhas obtidas por monitoração de tráfego ou força bruta, permitem criar um poderoso dublê virtual que poderá causar danos de monta e dores-de-cabeça à pobre vítima física. 

Mas hoje é terça-gorda de Carvaval! Evoé e boa sorte a todos nós!

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Artigo sobre a fala de 
Scott McNealy, Sun Microsystem:

https://www.wired.com/1999/01/sun-on-privacy-get-over-it/
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Vídeo sobre roubo de impressões digitais:

https://www.youtube.com/watch?v=eTkYQyglBDo
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https://www.idlehearts.com/authors/scott-mcnealy-quotes



terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Robin Hood?

Devemos à Internet o fato de, apesar de estarmos há mais de ano sob a sobra da pandemia, conseguirmos preservar uma vida com alguma normalidade. Ela nos propiciou formas de trabalho remoto, de interação com discussão em grupo de temas, além de continuar a nos prover acesso rápido e ilimitado a informações de todos os tipos, desde aquelas críticas para o nosso dia a dia, até abundantes boatos e futricas, sem falar do expressivo número de variadas “teorias conspitórias”. Isto, entretanto, não ofusca a constatação do contínuado desconstruir que a rede provoca, e a irrefreável mudança, às vezes assustadora. Essas convulsões que vem com a disseminação da rede não são novas e nem deveriam mais ser motivo de espanto. Lembro, com alguma nostalgia, de tempos em que, por exemplo, para se buscar transporte bastava ir à rua, levantar o dedo e apanhar um taxi – era questão de minutos! Hoje, ou se tem um aplicativo para solicitar o serviço, ou arrica-se a ficar plantado por horas sem que nenhum taxi apareça. A velha tirada do Millôr, “livre como um táxi!”, perdeu muito da força.
Neste janeiro atribuiu-se à rede outra ação de ruptura, agora em área inusitada. Estamos habituados a ver modelos tradicionais de negócios serem significativamente afetados, se não destruídos, pela internet, mas a tempestade vai muito além, assombrando todas as áreas da sociedade, da ética à política, da acomodação à inssureição, da informação organizada ao caos. Quanto à área política, por exemplo, tivemos as tais “primaveras” que acometeram alguns países. Aliado a circunstâncias locais, foi também o poder de mobilização e de coordenação através da internet que tornou viáveis as “primaveras”.
A notícia agora foi a inesperada ação de “outsiders” em negócios com ações. Na imagem de um amigo, tratou-se da “primavera das bolsas de valores”… O que se viu foi tradicionais empresas operadoras desses mercados, serem confrontadas por uma maré de simplórios compradores, que se auto-organizaram via aplicativos. Por sinal, um deles com o sugestivo nome de “Robinhood”. A onda de intrusos avolumou-se causando perdas e estragos de monta aos atores oficiais de plantão. Afinal, sempre que um leigo pensava em investir seus caraminguás em ações, recorria prudentemente aos especialistas nessa área. Hoje ele se arroga a iniciativa… Não tenho a menor competência para analisar o funcionamento do “mercado futuro” e os riscos de quem fica “comprado” ou “vendido”, mas lembro de uma discussão sobre o tema há uns 20 anos, época da maciça migração dos serviços de cotações em tempo real para a Internet. Discutia-se se haveria como a internet competir em velocidade com as redes próprias dos serviços de disseminação das cotações. A par de buscar como contornar o problema da velocidade na transmissão via Internet - que então era muito menos poderosa – levantei uma questão de leigo: a universalização das informações de mercado poderia representar um risco ao seu próprio funcionamento? Afinal, em ambientes especulativos, o poder reside em se ter rapidamente informação privilegiada. A assimetria de informação é a alavanca principal para a geração de lucro. Ora, se com a internet todos souberem sobre tudo. em pouco tempo essa assimetria diminui. 
Talvez seja isso parte da explicação do que aconteceu em janeiro nos Estados Unidos, especificamente com algumas ações, e que pode se repetir em outros países, agora que o “gênio saiu da garrafa”. Segue outra boutade do mesmo amigo: “faz-se necessário democratizar os´memes’ de produção”. Internautas do mundo, uní-vos!
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sobre o caso:
https://olhardigital.com.br/2021/01/28/noticias/fintechs-impedem-investidores-do-reddit-de-comprar-acoes-meme-apos-prejuizos-bilionarios/
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uma musiquinha divertida sobre o caso:
https://www.youtube.com/watch?v=rejpDqQUcV0
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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

A Seção 230 norte-americana

Quando em 1991 estávamos recém-entrados na Internet, houve uma disputa judicial nos Estados Unidos sobre a responsabilização de um provedor de serviços. a Compuserv, por abrigar conteúdo de terceiros, eventualmente ilegal. O discussão gerou uma proposta de lei que coibisse, entre outros, o linguajar obsceno na Interne. Seguiu-se uma grande reação da comunidade contra essa proposta. Há o eloquente exemplo da “Declaração de Independência do Ciberespaço”, de John Perry Barlow, 1996. Uma versão bastante desidratada do CDA (Communications Decency Act) acabou aprovada em 1996, mas de uma maneira vitoriosa para a Internet!. Embutida no CDA constava a seção 230, conseguida pela comunidade, que criava “isenção de responsabilidade” para sítios Web em relação a conteúdo provido por terceiros. Em espírito, é muito similar ao ítem sete do decálogo do CGI, que diz: “O combate a ilícitos na rede deve atingir os responsáveis finais e não os meios de acesso e transporte, sempre preservando os princípios maiores de defesa da liberdade, da privacidade e do respeito aos direitos humanos”.

Mal comparando, trata-se aqui da isenção de responsabilidade do mensageiro em relação à mensagem; o famoso “não mate o mensageiro”. Ninguém responsabilizaria o carteiro se a carta que ele trouxe é mentirosa ou ofensiva! O ponto crítico nessa analogia é o quanto de “carteiro” há nos diversos intermediários de hoje, o que deve ser protegido, e quais os objetivos finais almejados.

Muitas vozes hoje defendem a extinção da seção 230, passando a responsabilizar ao intermediários pelo conteúdo postado. O risco é que, na ânsia de debelar o que incomoda e prejudica, acabemos por perder um bem maior: o de receber sem interferências o que nos enviam. No caso do correio, isso seria fácil de resolver: sempre culparemos o remetente pelo abuso que cometeu. Mas no caso das plataformas, a “porca torce o rabo”. Por diversas razões, desde modelos econômicos de sustentação, até a busca por poder de mercado, usa-se do crescente poder de computação, aliado a ferramentas automáticas de análise de conteúdo, para se oferecer ao público a possibilidade de um “tratamento higiênico” no que chega para ser distribuido. O poderoso “canto da sereia” é: “cuidaremos de seu conforto, usando nossos padrões éticos”. Com isso, os novos “carteiros” se colocam como juízes de valores e conteúdo, e se dispõem a livrar-nos das eventuais mensagens abusivas. Mais que isso, através dos algoritmos que prescrutam nossos gostos, sugerem com quem mais deveríamos interagir para nos sentirmos mais confortados. Como efeito colateral, o verdadeiro remetente acaba ficando no limbo da discussão, quando o alvo primário da justa ira deveria ser quem gerou a mensagem-problema.

Em resumo, é importante presevar a imunidade que a seção 230 dá ao mensageiro, desde que se trate mesmo de um mensageiro! E, se nada impede o carteiro de entregar-nos propaganda de remetentes identificados, não lhe compete filtrar conteúdos, indicar-nos grupos a integrar, ou repassar informações sobre que correspondência recebemos, sob pena de não mais se enquadrar na 230. Para manter a liberdade na Internet o espírito da 230 deve ser preservado em seu contexto original, não apenas em parte dele.

Quando um fim almejado estropia arbitrariamente meios que temos para exercer nossos direitos, em breve não haverá saída: estaremos amortecidos quanto ao perigo que nos espreita. Esopo, um escravo grego autor de sábias fábulas, contava que se gritarmos “lobo” falsamente seguidas vezes, quando o lobo real vier já será muito tarde e estaremos indefesos.

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Posição da EFF - Electronic Frontier Foundation - sobre o tema:
https://www.eff.org/issues/cda230
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A Declaração da Independência do Ciberespaço - John Perry Barlow, 8 de fevereiro de 1996
https://www.eff.org/cyberspace-independence
"Governments of the Industrial World, you weary giants of flesh and steel, I come from Cyberspace, the new home of Mind. On behalf of the future, I ask you of the past to leave us alone. You are not welcome among us. You have no sovereignty where we gather.
<...>
We will create a civilization of the Mind in Cyberspace. May it be more humane and fair than the world your governments have made before."
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O CDA - Communications Decency Act, de 1996
https://en.wikipedia.org/wiki/Communications_Decency_Act
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http://reappropriate.co/wp-content/uploads/2014/07/dont-mess-with-internet-404.jpg

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Curiosidade: as letras que John Perry Barlow fez para músicas do Grateful Dead
https://www.dead.net/lyricsby/John%20Barlow
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