terça-feira, 19 de março de 2019

A Epopéia Amazônica

Uma das deliciosas obras de Monteiro Lobato é Os Doze Trabalhos de Hércules. Foi nela que, na meninice (milênio passado), tive contato com as mitológicas amazonas, tribos de mulheres guerreiras que viviam na região do Ponto, costa sul do Mar Negro, próximo à atual cidade de Terme, norte da Turquia. Um dos trabalhos do herói era obter um ambicionado cinturão que Hipólita, a rainha das amazonas, possuía. E ele o conseguiu!

Nosso rio Amazonas ganhou esse nome, lembro das aulas de história, quando o explorador Orellana foi atacado por uns indígenas liderados por mulheres. Passou a ser conhecido como “rio das Amazonas” e, por extensão, a imensa região verde que o rodeia e que atinge oito países. Há uma organização diplomática chamada Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OCTA), que é integrada por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

Quanto à Internet, tudo ia bem nesse tema até que a Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (Icann, na sigla em inglês) em 2012, resolveu expandir o número de gTLDs, “sobrenomes” genéricos de nomes de domínio. Assim, além dos que representam países, como o nosso “.br” e os outros de duas letras, os genéricos, como o “.net”, o “.com” e outros, passariam a ter numerosos “irmãos”. Apareceram gTLDs como “.hotel”, “.xyz”, “.berlin”, “.rio”, e também gTLDs de marcas, com uso mais restrito às próprias companhias que os solicitaram, como “.ibm”, “.natura” e, claro, “.amazon”. 

Nas regras havia restrição quanto a pedidos de nomes geográficos e outros casos polêmicos, mas um conflito entre uma empresa e uma região não era provável. Além do potencial conflito do “.amazon”, apareceu outro em nossa área: o “.patagonia”, também solicitado. Mais uma vez a Internet colocava face a face interesses conflitantes, que só se manifestaram na rede. 

Quando países, ciosos de sua soberania sobre nomes geográficos tidos como amplamente conhecidos, viram instituições comerciais os requisitarem para uso como gTLD, foram à luta. Afinal esse é um processo excludente: há um único dono para cada TLD. O “.patagonia” foi resolvido amistosamente em conversas com Argentina e Chile, mas o “.amazon” revelou-se osso duro de roer.

Inicialmente o Grupo Assessor de Governos na Icann (GAC) chegou a um consenso pedindo o bloqueio da solicitação da empresa Amazon. A gigante do varejo insurgiu-se e requereu um painel neutro de reavaliação. Ora, a disputa entre marcas e nomes de regiões é terreno pantanoso, e houve uma reversão: o painel sugeriu à Icann que concedesse a delegação do nome à Amazon.

Claro que a OTCA não concordou com isso. A Icann viu-se entre a frigideira e o fogo: se atendesse à Amazon, arrumava um enrosco político de vulto com oito países. Se não atendesse, provavelmente ganharia um processo multimilionário da empresa que teve o parecer favorável do painel. Na reunião de Kobe, a 64ª da Icann terminada na sexta, 15 de março, a saída possível foi esquivar-se de dar a palavra final e conceder mais um tempo para saia alguma luz das discussões. Cá entre nós, não será fácil conseguir consenso entre os países sobre qual o acordo possível e, menos ainda, que a atual pretendente, Amazon, aceite mais protelações.

Que tal chamar Hércules para um 13.o trabalho? Seria o de “deslindar o impasse OCTA x Amazon em um tempo finito”. Trabalho hercúleo!


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Comentários do "board" da ICANN na reunião de Kobe, março de 2019, sobre  o caso .amazon:

https://www.icann.org/resources/board-material/resolutions-2019-03-14-en#2.e



terça-feira, 5 de março de 2019

Terça-feira Gorda

Começo me desculpando aos que eventualmente se sintam ofendidos. Esse “gorda” do título não reflete “gordofobia”, nem “gordolatria”, horrendos hibridismos tão em voga hoje. Remonta a “Mardi Gras”, a terça-feira untuosa dos franceses, último dia para se consumir costelinhas, rabadas e torresmos, dado que vem aí a quaresma e o início do jejum. Mas hoje é “terça-feira” gorda de Carnaval, véspera da “quarta-feira de cinzas”, e sinto-me insuficiente para questionar o que nossos antepassados estabeleceram e tem se mostrado sensato.

“Terça-feira” evoca em mim pretéritas épocas da meninice. No meu bairro, terça-feira era o dia da feira livre. Dia em que os feirantes apregoavam as qualidades dos produtos, materializados nas bandejas de tomates, batatas, alfaces, laranjas. “Prove aí, freguesa, a minha laranja-da-baía... Doce como mel. Só compra se gostar! Sem compromisso!”. Época anterior ao depois famoso “pastel de feira”, do qual viraria cliente anos mais tarde. E havia uma forma fácil de saber que estava chegando o “fim da feira”: era o cheiro persistente de peixe se sobrepondo aos demais. O odor da barraca do peixeiro marcava a hora de levantar acampamento.

A lembrança da feira e o seu processo aberto de mercadeio trouxeram-me outra imagem forte: o artigo de Eric Raymond “a Catedral e o Bazar”. Nele, comparava-se duas formas de produção de bens: uma altamente hierárquica – a Catedral – onde poucos definem a arquitetura final e os demais apenas contribuem como mão de obra –, e o Bazar, onde o processo de definição e construção é interativo e continuamente participativo. Todos conhecem esse conceito, e é o que descreve a evolução do sistema operacional Linux e de outros programas abertos e colaborativos. Ousaria dizer que a própria Internet é resultado muito mais de um “bazar” do que de uma “catedral”, se bem que há que se reconhecer influências importantes de ambos os processos. Ainda na mesma linha, estamos hoje a menos de 10 dias da comemoração dos trinta anos da invenção da web por Tim Berners-Lee. A data de 12 de março de 1989 é cravada como a do nascimento da web.

Ela, a web, talvez seja o mais expressivo exemplo do que a “feira livre” nos poderia dar. Na web todos apregoamos o que nos interessa, desde o que tomamos no café da manhã, passando pelas nossas posturas políticas, se gostamos ou não de música clássica, ou de coentro. Pouco importa se isso interessa mais ou menos aos nossos leitores. Mas certamente interessa aos que farejam oportunidades de negócio usando nossos comportamentos e escrutinando as tendências em voga. O bazar e a feira livre estão aí, com seus múltiplos efeitos positivos, facilmente identificáveis e claramente louváveis. Mas (e sempre há o outro lado da moeda), como na feira livre, há as bancas que vendem batatas de qualidade, e há as que buscam ludibriar o cliente. Como nas feiras, nós, os clientes deveríamos aprender a ser hábeis e saber distinguir a “baciada” de boas batatas, daquela de batatas “de segunda”. É isso que se espera de clientes experimentados, e é o único caminho que parece promissor.

É terça-feira gorda de carnaval. Vida longa à Internet, à web e, ao vencedor, as batatas! Evoé! Evoé!


Aniversário da Web:
https://home.cern/news/news/computing/web30-30-year-anniversary-invention-changed-world

While working at CERN, Sir Tim Berners-Lee invented the World Wide Web (Image: CERN)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

o Artigo 13

A Europa está próxima de promulgar uma regulamentação, que se soma a outras, com o objetivo de regular a rede. Particularmente polêmico é o seu Artigo 13, que trata da proteção de propriedade intelectual na internet. Em análise simples, o artigo 13 responsabiliza plataformas por conteúdo inserido nelas que viole direitos de propriedade de outrem. Hoje é comum encontrarmos em vídeos criados por usuários trechos de filmes, de anúncios, de programas de TV, em geral com o objetivo de comentar, criticar ou satirizar o trecho incluído. Claro que nem tudo imbui-se de boa intenção, e certamente há casos de abusos. O que preocupa é a forma que se busca para coibir esses abusos. Já nos livramos de outras tentativas parecidas, como o famigerado “notice and take down”, que previa que à simples denúncia de alguém que alega ser proprietário de algo, o operador da plataforma aja imediatamente removendo o tal conteúdo, sem nenhuma decisão jurídica que embase essa remoção. No Brasil, conseguimos nos livrar dessa proto-censura que prevê a remoção antes do julgamento: nosso Marco Civil garante que apenas após ordem judicial um intermediário será obrigado a remover algo.

O jogo aqui é complexo e sombrio. Se por um lado parece correto e esperado que as plataformas sejam agnósticas em relação ao conteúdo de seus usuários, ficando estes como responsáveis finais pelo que geram, por outro há um poder tecnológico imenso em mãos das poucas empresas que dominam o ambiente. Com esse poder que elas têm em mãos, podem “intuir” mecanicamente o que terá mais efeito sobre seus usuários, sugerindo-lhes notícias, vídeos, temas, de forma a maximizar receitas. Mas elas também tem uma “carta positiva” na manga: podem declarar-se “defensoras das boas condutas” e “saneadoras” de material impróprio. Certamente para alguns governos isso soará como música. A barganha é muito perigosa para valores que nos são caros. Ninguém quer uma Internet nefasta, mas isso é bem diferente de dar a poucos o poder, inclusive via legislação, de decidir entre o “bem” e o “mal”. Encruzilhada perigosa. Espero que não estejamos no “zugzwang” do xadrez: obrigados a jogar, qualquer jogada que fizermos piorará nossa situação...

Andrew Sullivan nos deu um aviso a levar em conta. Ele, que foi o coordenador do IAB (Internet Advisory Board), ente que sanciona as propostas do IETF (Internet Engineering Task Force), é o atual presidente da ISOC (Internet Society). Num texto sobre o futuro da rede escreveu: “As coisas mudaram. Toda tecnologia pode ser usada para fins negativos. A Internet ainda nos traz, claramente, ganhos em eficiência, comodidade e comunicação. No entanto, recentemente, alguns dos usos negativos da rede se tornaram aparentes, o que levou alguns a questionarem se a Internet é “perigosa demais”. Essa preocupação gerou uma “oportunidade de ouro” para aqueles que sempre preferiram uma Internet “saneada e rigidamente controlada”, àquela criativa e empoderadora. Segundo essas forças, apenas governos, tratados, leis, regulamentos e monopólios podem nos proteger dos problemas que enfrentamos. Eles não querem a Internet extremamente colaborativa, e pensam que deve haver uma “escolha política” a ser feita entre a Internet que conhecemos, e uma rede organizada e regulamentada. Se essas forças forem bem sucedidas, todos perderemos”.


O artigo de Andrew Sullivan, de 29 de agosto de 2018:
https://www.internetsociety.org/blog/2018/08/it-is-a-challenging-time-for-the-internet-we-must-not-let-it-be-undermined/



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O futuro é Imaterial

2019 será um ano marcante para a Internet no mundo e no Brasil. Foi em outubro de 1969 que houve a primeira troca de mensagens entre computadores dentro do projeto Arpanet. São 50 anos. Em 18 de abril de 1989 o “.br” foi delegado pela Internet Assigned Numbers Authority (a Iana, na sigla em inglês, de Jon Postel) ao grupo que operava rede acadêmica na Fapesp. Foi também em 1989 que a RNP, Rede Nacional de Pesquisa, era oficialmente lançada. São 30 anos. Finalmente, foi em 2009, há 10 anos, que o CGI divulgou em forma final os “Princípios para a Governança e uso da Internet no Brasil”. 

Esse decálogo, efusivamente recebido pela comunidade da Internet mundial, seria o foco do debate que levaria à lei n.º 12.965 de 23 de abril de 2014, o Marco Civil da Internet e, também, da discussão sobre a necessidade de proteção da privacidade, que redundou na Lei Geral de Proteção de Dados, n.º 13.709 de 14 de agosto de 2018.

Às vésperas da promulgação do Marco Civil, e atendendo a um convite do capítulo italiano da ISOC (Internet Society), Carlos Afonso e eu fomos até Roma para explicar e debater com parlamentares em que se constituía o Marco Civil. Nosso guia foi Stefano Trumpy, pioneiro da Internet na Itália e o primeiro gestor do domínio “.it”. Em Roma encontramos mais um Stefano, o Quintarelli, à época deputado do parlamento italiano e que estivera envolvido na criação do primeiro provedor de Internet do país, o I.NET. Depois, a Itália também desenvolveu um conjunto de princípios na mesma linha do nosso.

Hoje, 5 de fevereiro, dia mundial por “uma Internet Mais Segura”, Quintarelli, fará a palestra de encerramento do evento em São Paulo e lançará a versão em português de seu livro Instruções para Um Futuro Imaterial, com prefácio de Ricardo Abramovay e Rafael Zanatta, ambos da USP.

Quintarelli é otimista quanto ao futuro. Um dos pontos que defende, e com o qual concordo, é que não se deve opor o “real” ao “virtual”, ao menos não na semântica corriqueira de “virtual”. O que a Internet potencializa, longe de ser algo “menos real”, é sim a superação das amarras do mundo físico. Se “criar com qualidade” continua sendo árduo e seletivo hoje, reproduzir, transportar, armazenar, distribuir são atividades simples, instantâneas e de custo quase nulo. A verdadeira disrupção ocorre nesse mergulho no “imaterial”, que provê grande capacidade e serviços, praticamente sem barreira de entrada...

Aí é que “a porca torce o rabo”. Afinal, como se sustentam essas abundantes benesses? Claro que há mecanismos de monetarização, que podem ser mais ou menos éticos, mais ou menos transparentes, mais ou menos invasivos. E é nessa arena que se luta agora. 

Não se trata de abandonar o que se conseguiu, mas tentar sobrepor a ele critérios legais e éticos. O otimismo de Quintarelli prevê, segundo ele, uma crescente regulação das atividades sobre a rede. É essa, aparentemente, a atual posição de boa parte da Europa também. 

Pessoalmente tenho sérias dúvidas sobre como essa eventual regulação poderia ser exercida. E mais receios ainda das consequências que ela traria para a Internet livre e aberta. O decálogo deu-nos uma linha segura a trilhar: responsabilizar os agentes finais pelas suas ações. 

A Internet (como a eletricidade, a telefonia, etc) não é responsável pelos danos eventuais que sofremos pelo seu mau uso. Desligá-la ou restringi-la não parece solução. Menos razoável, ainda, sua balcanização ou fragmentação. É um jogo de poder que apenas desponta, e para o qual devemos estar permanentemente atentos.



https://blog.quintarelli.it/2018/12/ai-from-users-to-beneficiaries-and-some-implications-liability.html

https://principios.cgi.br/

https://www.youtube.com/watch?v=f1kl5pPZ2qo

A sala da UCLA onde ocorreu a primeira troca de mensagens da Arpanet:



O IMP, na sala 3420:



terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A um Inovador

Estamos (sempre) no limiar de algo sensacional e inaudito, que pretende mudar radicalmente o mundo que conhecemos. Já ouvimos outras vezes e, sim, pode ser que aconteça essa “evolução disruptiva” sem volta. Parece-me clara a possibilidade da “disrupção”, mas é menos clara a semântica do “evoluir”. Afinal, tanto o bom como o mau evoluem, cada uma buscando com mais eficiência seu alvo próprio.

Em tudo há disrupção em andamento. Acabamos de ouvir que nascem humanos geneticamente modificados, o que, mesmo que eivado das “melhores intenções”, é disruptivo. Na engenharia esse tipo de experimento, em que um sistema não totalmente conhecido é testado, chama-se “caixa preta”. Sem saber o que tem dentro, mexemos nos parâmetros de entrada e, do comportamento que ele passa a exibir, tiramos conclusões.  De uma “caixa preta” mecânica a um ser humano há (ou, ao menos, havia...) uma grande diferença:a caixa preta que deu errado pode ser jogada fora. Não ouso pensar no que se faria com o experimento humano num caso equivalente.

Na informática e, claro, na Internet temos processos semelhantes em diversas áreas. Vejamos, por exemplo, informação na rede. No passado, foi a entrada em cena do modelo de publicidade paga que viabilizou o que chamamos de “serviços grátis abertos a todos”. A existência de potenciais clientes a serem atingidos fez com que anunciantes remunerassem os meios, que passaram a ser acessíveis a todos. Há compradores potenciais e o anunciante paga para acessá-los, mas atirava a esmo. A Internet permitiu “calibrar” o tiro ao perfilar os usuários e agregá-los.  A tentação seguinte foi aumentar o número dos prosélitos, catequizando indecisos e influenciáveis. O modelo de negócio foi ficando cada vez mais rebuscado e inseparável do meio. 

Mas tudo o que é complexo acaba por ser vulnerável e, assim, assistimos a diversos episódios de vazamentos e manipulação. Mesmo quando o modelo é em si claramente mostrado aos usuários, poucos chegam a buscar entendê-lo. Sequer o leem. Afinal, melhor continuar usando e não prestar atenção aos detalhes. Canais que teriam sido criados com a melhor das intenções, permitiram abusos por parte dos maliciosos.  Um “cookie”, facilitador para a navegação do usuário, acaba sendo usado na monitoração. Ao haver a possibilidade de enviar código para dentro do equipamento dos outros, alguém usará isso para mandar código malicioso.

O futuro da informação pode ser uma ladeira escorregadia. Inicialmente vendiam-se produtos e serviços e logo pensou-se em reforçar marcas junto a clientes fiéis (“branding”), o passo seguinte foi calibrar o público atingido (“targeting”) e, finalmente, modular o próprio tipo de informação que gere mais ressonância a cada comunidade.  Quando a informação vira o produto, sua acurácia é menos importante que o retorno que se consegue ao cativar o grupos visado. Enviar o que querem ouvir é uma forma insidiosa de gerar resultados econômicos e sobrevivência. Talvez uma sobrevivência efêmera.

Alberto Gomide, um pioneiro da Internet no Brasil e um espírito aguçado e crítico com quem convivi algumas décadas, ao ouvir uma ideia nova, promissora mas mal testada, lembraria o poema “A um Rato”, de Robert Burns: “... os melhores projetos de homens e ratos frequentemente acabam por falhar, deixando dor no lugar da prometida alegria...”




He Jiankui da SUSTech, anunciou a primeira edição de código genético de embriões humanos...

To a Mouse (Robert Burns): https://en.wikipedia.org/wiki/To_a_Mouse

...
But Mouse, you are not alone,
In proving foresight may be vain:
The best laid schemes of mice and men
Go often askew,
And leave us nothing but grief and pain,
For promised joy!

...

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Cuidado com o que pedimos...

    Georges Bernanos, um francês que acabara de passar 7 anos no Brasil, escreveu em 1945 “A França contra os Robôs”. Além de discutir assuntos do pós-guerra, é também um apelo a favor da liberdade, e antecipa situações que hoje nos parecem familiares: Bernanos alerta “...o problema não está nas máquinas”, mas “no número crescente de homens habituados desde a infância a desejar apenas o que as máquinas lhes podem dar”. Sobre liberdade, diz: “Não se trata de saber se essa liberdade torna os homens felizes, nem mesmo se os torna morais. Não se trata de saber se ela favorece mais o mal que o bem... Basta-me que ela torne o homem mais homem, mais digno de sua perigosa vocação de homem...”, “um mundo ganho para a técnica está perdido para a liberdade”. Orwell, na Revolução dos Bichos, define: “se liberdade significa algo, será sobretudo o direito de dizer aos outros o que eles não querem ouvir”. A Internet levou essa possibilidade ao extremo.

    Se entendermos a rede como um meio, ela agiria como um transmissor passivo do que “falamos”. Aliás, os sons são ondas mecânicas de pressão num meio específico, o ar – nada se ouve no vácuo. Ninguém acharia razoável culpar o “ar” pelas bobagens que eventualmente ouvimos e assim, em princípio, também não se deveria responsabilizar a Internet pelo que nela circula. Surgem, entretanto alguns complicadores: no “ar” da Internet existem “microfones” e “alto-falantes” que podem captar o que falamos e o repassá-lo a destinos muito além do que se pretendia atingir. E na rede formam-se “clubes”, baseados em modelos de negócio, que visam a facilitar, ainda mais, a disseminação do que é dito. A dinâmica da Internet fará com que uma iniciativa modesta, mas que tenha caído no gosto dos internautas, em poucos anos transforme-se num império poderoso, graças às informações que amealhou de seus associados e que redistribui fartamente. Quanto aos nossos dados, espera-se que um “clube” sério exponha claramente o que com eles pretende fazer, e (alvíssaras!) temos hoje uma lei específica para isso no Brasil. Mas, e quanto ao que circula na Internet facilitado pela ação dos “clubes”? O dilema persiste: qual o papel atribuível ao viabilizador do processo de interação? Ao modo do correio e do papel, parece-me claro que o simples fato de serem portadores de eventuais informações incorretas, nefastas ou ofensivas não os fará terem responsabilidades sobre isso. Diferentemente, num meio “editado” como os jornais, quando se publica algo falso denigridor haverá minimamente uma retratação. Isso aplicaria às redes sociais e suas ferramentas? Se agem como “um meio”, estariam isentas de responsabilidade. Por outro lado, se tem poder editorial, se são ativas, a coisa pode mudar de figura. Penso que o correto é sempre permitir a liberdade de todos e, caso alguém se exceda, que seja individualmente responsabilizado pelo seu ato. Querer fazer de uma ferramenta um Catão da moral e da verdade, pode ser um sério tiro pela culatra. Clamar por esse tipo de ação pode significar que estamos dando a elas um poder ainda maior e mais perigoso. Oscar Wilde já havia alertado “...quando os deuses querem nos castigar, atendem aos nossos pedidos”.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Fantasmas...

É Natal, tempo em que pensamos no que passou, enquanto tentamos manter esperanças no que ainda virá. A importância da data independe da religiosidade de cada um - afinal, em nossa cultura, o Natal e o Ano Novo estão ligados fortemente: vem aí 2019. Essa numeração baseia-se, com maior ou menor precisão, num evento em Belém, que marcou o reinício da contagem do tempo para boa parte do mundo.

A Internet é quase cinquentenária e tentarei uma conexão com uma lembrança igualmente antiga: a leitura de “Um Conto de Natal”, do Dickens. A novela, publicada há 175 anos e que teve inúmeras traduções e adaptações, talvez seja mais conhecida pela sua personagem central, Ebenezer Scrooge, que a Disney transmudou em Tio Patinhas. Qual o paralelo?

Na história, o avarento Scrooge é dono de um pequeno escritório (seria uma “start-up” daqueles tempos?) e tem um único funcionário, que é muito dedicado, mas mal pago. Com quatro filhos - um dos quais bem doente e mesmo sem conseguir fazer frente às despesas, ele mantem a bonomia. Numa noite o insensível Scrooge é visitado pelo fantasma de seu finado sócio, que o adverte a ser atento às agruras do próximo, e anuncia a visita de tres fantasmas, que trarão mais luz para Scrooge se emendar. O primeiro é o fantasma dos Natais Passados, que o inunda de melancolia ao fazê-lo relembrar os tempos de criança, quando para ele o Natal era época feliz. O segundo é o do Natal Presente, que mostra a agitação das compras e comemorações, mas também indiferença e injustiças. Luzes e futilidade. Esse segundo fantasma carrega consigo duas ameaças que poderão frustrar o futuro: a ignorância e a miséria. O terceiro é fantasma dos Natais Futuros. Calado, aponta a Scrooge um porvir soturno, de crescente isolamento e solidão.

A Internet pode representar, ao mesmo tempo, os três espectros que visitaram Scrooge e servir de alerta. A rede nos dá acesso a preciosos documentos do passado, que almas abnegadas colocaram para nosso proveito. Há textos e entrevistas históricas preservados, interpretações emocionantes de obras musicais, um mar de dados e informações para nosso uso, a que não teriamos acesso de outra forma. Por outro lado, o presente da rede tem facilitado o prosperar de tensões e divisões, que antes não eram tão presentes. A vaidade de ser partícipe de qualquer discussão nos exorta a tomarmos posições impensadas, muitas vezes agressivas. A nossa exposição a tudo pode ser um fardo que supere nossa capacidade de assimilação. Quanto ao futuro, acumulam-se incertezas, especialmente se optarmos por trilhar um caminho que dispensa nosso legado histórico. O que o futuro nos reserva dependerá de como interpretaremos os sinais do presente, cada vez mais claros.

Os Fantasmas de Natal converteram o Sr. Scrooge. Quem sabe os Fantasmas da Internet podem agir na mesma direção, perpetuando entre nós o espírito natalino. Em outro texto, bem humorado, Drummond parece entrever que, em época melhor, até a Internet das coisas participará (!). No “Organiza o Natal” achamos: ...”os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, <...> o correio só transportará correspondência gentil”

Tenhamos todos um Ótimo Natal!

http://www.editorarideel.com.br/wp-content/uploads/2015/07/MIOLO_Conto-de-Natal.pdf
https://www.ibiblio.org/ebooks/Dickens/Carol/Dickens_Carol.pdf


Charles Dickens' A Christmas Carol 1971 Oscar Winner HD Richard Williams Animation:

https://www.youtube.com/watch?v=ZTzyC9CZuOA

https://en.wikipedia.org/wiki/A_Christmas_Carol



First edition frontispiece and title page (1843)