terça-feira, 21 de janeiro de 2020

O Verão da IA

Panacéia ou armadilha diabólica são os posições extremas no espectro de quem discute Inteligência Artificial e as conseqüências de sua aplicação. Provavelmente a verdade (mas, o que é a "verdade?") deve localizar-se em algum ponto intermediário. E tanto os apologéticos como os apocalípticos obtém apoio de peso: o próprio Stephen Hawkins teria declarado que "... conseguir sucesso na criação real de IA poderá ser o maior evento da história da nossa civilização. Ou o pior. Não sabemos..."

O que ajuda a carrear tanta atenção à IA é que, talvez levianamente, grudamos o rótulo de IA em muitas coisas que seriam, apenas, sofisticada tecnologia, tratamentos estatísticos e exame de correlação de dados. Reconhecimento facial, por exemplo, é um tema de pesquisa desde os anos 60, e até recentemente não relacionado a IA. O mesmo se pode dizer das eficientíssimas máquinas de busca de que dispomos na Internet de hoje. Foi o rápido e contínuo desenvolvimento do poder computacional que, aplicado a algoritmos, permitiu que usássemos a impressão digital, ou imagem da íris, ou reconhecimento facial como identificadores pessoais de acesso. Processamento, associado a capacidade quase ilimitada de armazenamento e intercomunicação em rede, gerou ferramentas de busca e de localização. Parece vontade de "dourar a pílula" da IA - por si já muito poderosa - colocar tudo sob o mesmo guarda-chuva. Aliás, cunhou-se a sigla IAA (Inteligência Artificial Artificial) para designar essa simplificação matreira e oportunista.

Os exemplos citados podem ser muito potencializados com a introdução de IA. Algoritmos fixos usados tornam-se dinâmicos: "aprendem" com seus próprios erros e resultados e buscam refinar sua ação. Não se trata mais, apenas, de identificar uma face, mas de detectar o estado de espírito do indivíduo e, se possível inferir suas intenções. Não estamos simplesmente encontrando coisas na rede, mas recebemos resultados personalizados que, além de ter maior sintonia com o que procuramos, procuram causar mais impacto no que faremos depois. O céu (ou o inferno...) é o limite do que se pode conseguir quando sistemas evoluem a partir da sua própria experiência, afastam-se do seu funcionamento original e chegam a obter autonomia de difícil predição ou controle.

Há, assim, um efeito "moda" sobreposto a um real e efetivo progresso rumo a uma IA exuberante. Se previsões alarmantes, como "1984" de George Orwell ou "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, parecem estar se concretizando rapidamente, outras mais otimistas e animadoras, como robôs domésticos, viagens interplanetárias e carros totalmente autônomos ainda situam-se no campo das possibilidades. A história da IA começa nos anos 60 e apresenta uma "ciclotimia": passa-se de momentos de euforia para momentos de retração, que ficaram conhecidos como os "invernos da IA". Estamos claramente num pleno verão, um pouco forçado, mas indiscutível. Há também alguns indícios de recolhimento: levantam-se dúvidas sobre "carros autônomos", se chegaremos mesmo à singularidade de Kurtzweil etc. Há quem prenuncie um novo inverno pela frente. Se esse inverno vier, que seja na forma de oportunidade para avaliar riscos e benefícios, o uso ética e controle de tecnologias críticas que representam ameaças à civilização. Que esse inverno traga um renascimento auspicioso. Shakespeare coloca na boca de Ricardo III: "... o inverno do nosso descontentamento converte-se agora em glorioso verão ... e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas no mais profundo dos oceanos."

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Sobre reconhecimento facial:
https://www.facefirst.com/blog/how-face-recognition-evolved-using-artificial-intelligence/
https://www.nytimes.com/2020/01/20/opinion/facial-recognition-ban-privacy.html
https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,a-empresa-secreta-que-pode-acabar-com-a-privacidade-como-a-conhecemos,70003165298
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Os "invernos" da IA:
https://www.actuaries.digital/2018/09/05/history-of-ai-winters/
https://hackernoon.com/is-another-ai-winter-coming-ac552669e58c
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Stephen Hawking e sua avaliação da IA:
https://www.cnbc.com/2017/11/06/stephen-hawking-ai-could-be-worst-event-in-civilization.html
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o Verão da IA, detectado em 2016
https://computerworld.com.br/2016/06/27/mundo-comeca-viver-o-verao-da-inteligencia-artificial/
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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

As Bases Unificadas

Adaptar-se ao ambiente digital e usá-lo para minimizar o esforço humano e aumentar a comodidade é um objetivo adequado e honesto. É, portanto, razoável buscar a integração de iniciativas, a digitalização de informações e a automação que nos livre de incômodos. Afinal ninguém quer guardar uma infinidade de endereços de serviços, com suas respectivas senhas de difícil memorização. Uma solução integrada e uniforme de acesso a eles, associada ao armazenamento dos dados pessoais específicos a cada serviço que se busca, é uma alternativa racional e eficiente. Porém (e sempre há um “porém”...), quando dados de contextos diferentes se misturam, corre-se o risco de perder o controle do processo e de minar o que nos restou de privacidade. No momento em que todos os dados de um indivíduo estiverem acessíveis numa única estrutura, será crítico prever barreiras que mantenham cada conjunto de informações segregado e acessível apenas no contexto do serviço buscado.

Certamente há bases com as fotografias de todos nós em instâncias do poder público. E os rostos dos cidadãos que transitam nas ruas são visíveis livremente aos que passam: não usamos capuzes. Com a capacidade de processamento de hoje aliada a ferramentais de inteligência artificial, optar pelo desenvolvimento de sistemas automáticos que busquem reconhecer quem entrou no metrô, ou caminha na rua, não é um desafio muito complexo. Some-se o apelo fácil e enganoso a uma maior segurança, e estaremos abrindo uma caixa de pandora que pode se tornar incontrolável. Mesmo sem considerar a Internet e o uso do GPS, a união de uma base enorme de fotografias de indivíduos, com as câmeras onipresentes e a localização precisa que sistemas de telefonia celular proveem é tudo de que um sistema informatizado necessita para poder monitorar completamente os nossos passos e, num futuro próximo, nossas emoções. Claro que, além dos órgãos estatais e de segurança, há outros poderosos atores interessadíssimos nesse conjunto de informações pessoais, a cujo acesso que a lei buscará regular. Conhecer usos e costumes de potenciais clientes e, se possível, saber também de seus interesses e fraquezas, é um fabuloso gerador de transações comerciais e receita. Afinal dados são o motor de boa parte da economia digital hoje.

Há também outro lado: queremos, sim, preservar nossa privacidade, mas queremos também transparência e responsabilização. Uma ação de indivíduos ou empresas que tenha repercussão social precisa e deve ser transparente. Um exemplo de antanho eram os “proclamas de casamento”: a comunidade deveria saber da existência de uma proposta de formação de um casal até para, eventualmente, levantar impedimentos ao ato, em tempo. Do mesmo modo o registro de imóveis permite que seja conhecido o dono de um terreno ou imóvel na cidade. Há, assim, dados que precisam ser públicos e dados que devem ser protegidos, como aliás prevê a Lei Geral de Proteção de Dados.

Quanto ao uso do poder das ferramentas que a informática está desenvolvendo em ritmo crescente, é cada vez mais claro que algum protocolo deveria ser definido para a sua evolução e aplicação... Não se trata de coibir progressos ou limitar o avanço da tecnologia, mas de garantir a não supressão de direitos e a manutenção de conceitos, cuja construção foi obra de séculos. Afinal, não é porque algo *pode* ser feito, que seja aceitável fazê-lo.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Sursum Corda!

Amanhã é feriado, dia de folga. Amanhã é dia de Natal que, a muitos de nós, remete a preciosas lembranças da infância. O agridoce sabor de recordar momentos e pessoas, vínculos e interações, objetivos e planos, que ficaram para sempre no horizonte.

A crescente aceleração do tempo me faz lembrar (e dar razão!) a uma explicação que o Alberto Gomide tinha, à época da Fapesp: “Não é que as coisas andem mais depressa agora. É que, à medida que envelhecemos, o tempo encolhe. Você lembra, no primário, como demorava para chegar a hora do recreio? E as férias de julho? Agora, que estamos mais velhos, você pisca, e já é Natal de novo”. Outra referência a essa aceleração associada à idade está em “Morte em Veneza”, do Thomas Mann. Lá Aschenbach relembra que em sua casa paterna havia uma ampulheta, e lhe era tedioso ver a areia lentamente, interminavelmente esvair-se. Perto do fim, porém, tudo muda. Forma-se um pequeno vórtice e o que restou de areia escoa-se quase instantaneamente. Já não há tempo para nada...


Outra reminiscência da época é o uso do latim como a língua litúrgica dos católicos, o que trazia uma mística e uma cor adicional a tudo. “Sursum Corda”, “Corações ao Alto”, um chamamento que sempre repercutiu fundamente na alma dos fiéis. Elevar-se acimas das mundanidades, das disputas mesquinhas, livrar-se das cadeias que nós mesmos fabricamos e que nos prendem a objetivos menos nobres. Charles Dickens criou uma preciosidade para a data: “Um Conto de Natal”, cuja personagem central, Ebenezer Scrooge tornou-se o posterior modelo para o Tio Patinhas, criação da Disney. Um conto em que um velho de carácter mesquinho redime-se pela mágica do Natal: seu falecido sócio, Jacob Marley, envia-lhe três fantasmas que surgem em sonhos e o fazem rever seus valores pessoais. Um quarto fantasma, o do próprio Marley, aparece arrastando pesadas correntes e busca chamá-lo à razão: “essa corrente que carrego, eu mesmo a forjei em vida. Elo por elo, metro por metro, por minha livre e espontânea vontade, e assim a carregarei comigo... Você a acha estranha?”.


Manter ao alto o coração, refrear o instinto de responder a cada palavra ou ato que nos
desagrade, evitando aumentar o tom e a ira. É difícil e cada vez mais raro respeitar limites,
quando se tem um canal superlativo e instantâneo de resposta ao alcance da mão. A “hybris”, aquela forma de soberba e de extrapolação de limites, a que os deuses gregos puniam exemplarmente, vale-se hoje da Internet. Elevar a alma é fugir da arrogância e da soberba, levando-a para alturas inalcançáveis aos de baixos propósitos.


Outro texto do Dickens, Um Conto de Duas Cidades, abre com algo que, assustadoramente,
poderíamos associar ao que se vive hoje, especialmente com a Internet. Esperemos não seja
assim que nossos tempos sejam lembrados pelos que nos sucederão: “Foi o melhor dos tempos, e o pior. Foi a era da sabedoria e a era da tolice, foi a época da fé e da descrença, foi o período da luz e o período das trevas, foi a primavera da esperança e o outono do desespero, tínhamos tudo diante de nós, e tínhamos o nada pela frente, estávamos indo direto ao Paraíso, ou claramente a outro extremo...”


Bom Natal a todos!


...
- Sursum Corda
- Habemus ad Dominum.
Gratias agamus Domino Deo nostro.
Dignum et iustum est.
...

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Imperdível a cena abaixo, do filme de Luchino Visconti, Morte em Veneza, com o Dirk Bogarde no solilóquio da ampulheta:

https://www.youtube.com/watch?v=9QAPwqctCdo
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...
- Sursum Corda
- Habemus ad Dominum.
Gratias agamus Domino Deo nostro.
Dignum et iustum est.
...

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Um Conto de Natal, Charles Dickens, em domínio público:
https://www.ibiblio.org/ebooks/Dickens/Carol/Dickens_Carol.pdf
com a parte do fantasma de Marley com as correntens na página 22
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Começo de "Um Conto de Duas Cidades", Charles Dickens, em domínio público:
http://www.gutenberg.org/files/98/98.txt

It was the best of times,
it was the worst of times,
it was the age of wisdom,
it was the age of foolishness,
it was the epoch of belief,
it was the epoch of incredulity,
it was the season of Light,
it was the season of Darkness,
it was the spring of hope,
it was the winter of despair,
we had everything before us,
we had nothing before us,
we were all going direct to Heaven,
we were all going direct the other way--
...
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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Ultracrepidanismo e Dogma

Esse “palavrão” aí do título é consignado em dicionários e foi montado a partir de uma expressão latina, atribuída a Plínio, o velho: “sutor, ne ultra crepidam”. Narra Plínio que houve na ilha de Cós, na antiga Grécia, um famoso pintor chamado Apeles, que teria sido inclusive o retratista de Alexandre o Grande. Apeles expunha suas obras para receber comentários e, numa delas, estava retratado um guerreiro com escudo e sandálias (crepida, em latim). Um sapateiro, ao ver a pintura, aproveitou para comentar que tiras das sandálias representadas não correspondiam às que se faziam em sapatarias. Apeles ouviu o comentário e, rapidamente, retocou o quadro. No dia seguinte o sapateiro passou de novo pelo local e, ao ver que as sandálias tinham sido retocadas, passou a fazer novas críticas sobre outros detalhes da obra. Apeles, desta vez, não quis ouvir as sugestões: “sapateiro, não vás além das sandálias” teria sido sua resposta ao impertinente sapateiro.

Assim, ultracrepidanismo é o ato de “palpitarmos” sobre temas que vão além de nosso domínio.

Com raras e honrosas exceções (nas quais lamentavelmente não me incluo) e tentados pelo poder de divulgação que a internet nos concede, expomos nossas ideias sobre qualquer coisa, sem muita preocupação quanto à familiaridade com o tema, ou com a substância e pertinência de nossos comentários. Além disso, gabamo-nos de um posicionamento “isento de preconceitos e imune a dogmas”.

Quanto a temas em voga e dogmas, por exemplo, hoje pontifica-se sobre Inteligência Artificial. Tema transdisciplinar que, longe de se limitar ao exclusivo âmbito da tecnologia, afeta ou ameaça praticamente todas as áreas do interesse humano. É inelutável que haja sempre quem se disponha a acrescentar algo a essa candente discussão, mesmo que o faça a partir de uma visão parcial e limitada do tema.

De minha parte, aproveitei para retomar alguns textos clássicos relacionados ao tema e à “cibernética”, área muito relacionada. Norbert Wiener foi quem cunhou o termo em seu livro de 1948, Cibernética, Controle de Comunicação no Animal e na Máquina, e voltou ao tema em outros livros.

Um deles, Cibernética e Sociedade, o uso humano de seres humanos, é voltado a leitores não técnicos e trata das implicações da cibernética sobre os humanos.

Nos parágrafos finais deste livreto há uma ponderação curiosa: Wiener afirma que “sem fé, não há ciência”. E esclarece que não está se trata de aspectos religiosos, mas de dogmas que todo o cientista aceita ao aventurar-se em descobrir alto. Afinal, afirmar que a “natureza segue leis gerais” é um dogma impossível de provar.

Num mundo onde, à exemplo de Alice no País das Maravilhas, bolas se transformassem em ouriços, tacos em pernas de flamingos, e a Rainha de Copas mudasse constantemente as regras do jogo, nada poderia ser tratado pela ciência. É necessário assumir o dogma de que há leis estáveis sendo seguidas para, a partir daí, buscar o seu eventual desvelamento.

G. K. Chesterton, um frasista ímpar, divide os homens em duas categorias: os que conscientemente admitem dogmas, e os que os também os admitem, porém inconscientemente...

Estes, do segundo tipo, são particularmente numerosos em tempos de Internet e redes sociais. Não há discussão ou fato que os iniba de darem sua opinião, enfática e ruidosa, e que acaba por reforçar em muitos outros o que neles poderia jazer insuspeitado. São os principais motores da onda de ultracrepidianismo que assola a rede. Mas, afinal, quem nunca?...


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G. K. Chesterton: "In truth there are only two kinds of people, those who accept dogmas and know it, and those who accept dogmas and don't know it."
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Norbert Wiener:  "The Human Use Of Human Beings: Cybernetics And Society"
https://archive.org/stream/NorbertWienerHumanUseOfHumanBeings/NorbertWienerHuman_use_of_human_beings_djvu.txt

"I have said that science is impossible without faith. By this I do not mean that the faith on which science depends is religious in nature or involves the acceptance of any of the dogmas of the ordinary religious creeds, yet without faith that nature is subject to law there can be no science. No amount of demonstration can ever prove that nature is subject to law. For all we know, the world from the next moment on might be something like the croquet game in Alice in Wonder- land, where the balls are hedgehogs which walk off, the hoops are soldiers who march to other parts of the field, and the rules of the game are made from instant to instant by the arbitrary decree of the Queen. It is to a world like this that the scientist must conform in totalitarian countries, no matter whether they be those of the right or of the left. The Marxist Queen is very arbitrary indeed, and the fascist Queen is a good match for her. What I say about the need for faith in science is equally true for a purely causative world and for one in which probability rules. No amount of purely objective and disconnected observation can show that probability is a valid notion. To put the same statement in other language, the laws of induction in logic can- not be established inductively. Inductive logic, the logic of Bacon, is rather something on which we can act than something which we can prove, and to act on it is a supreme assertion of faith. It is in this connection that I must say that Einstein's dictum concerning the directness of God is itself a statement of faith. Science is a way of life which can only flourish when men are free to have faith. A faith which we follow upon orders imposed from outside is no faith, and a community which puts its dependence upon such a pseudo-faith is ultimately bound to ruin itself because of the paralysis which the lack of a healthily growing science imposes upon it."
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https://www.brainpickings.org/2018/06/15/the-human-use-of-human-beings-norbert-wiener/






terça-feira, 26 de novembro de 2019

Privacidade para crescidos


Há hoje um ímpeto muito positivo no sentido da proteção da privacidade dos indivíduos. Após a promulgação da lei européia e de sua correspondente brasileira, os ventos sopram nessa direção. É importante, entretanto, diferenciar o que é proteção do que é tutela. O direito que temos de controlar nossos dados não nos impede que, a nosso juízo, os repassemos a alguém, desde que essa seja nossa opção, consciente e informada. Em Portugal, por exemplo, à luz deste debate sobre decisão consciente e informada, discute-se qual a idade mínima com que se poderia exercer a opção de permitir acesso a dados pessoais.

Ao mesmo tempo em que há claros avanços na busca da proteção a privacidade, ressurgem antigos argumentos que, à guisa de incrementar a “segurança”, trabalham na direção oposta. A velha e falsa dicotomia entre segurança e privacidade nota-se, por exemplo, na discussão em voga sobre eventual vedação do uso por indivíduos da criptografia forte. Nada mais enganoso que a armadilha, mefistofélica, de "abre-me tua privacidade, que eu poderei zelar melhor por tua segurança"...

Criptografia é uma ferramenta muito antiga, e que obviamente se destina a proteger conteúdos. Até há alguns anos não estava "na moda", nem em correio eletrônico, nem nas redes. Tudo mudou quando ficaram públicas ações de bisbilhotice oficial aqui e acolá. A Internet, como se fora um organismo vivo, defendeu-se e trouxe em seu apoio a popularização do uso de criptografia forte. Com a tecnologia que temos hoje, a quebra de criptografia forte pode ser inalcançável.

Alegam os que gostariam de vetar o uso da versão robusta da criptografia, que pretendem nos proteger, identificando conteúdos suspeitos ou criminosos na rede. Que para nos protegerem precisam ter acesso às chaves que decifrariam o que enviamos.

Se uma brecha for criada, seja pela introdução de "portas dos fundos" que permitam acesso a conteúdo limpo em equipamentos e serviços, seja por "chaves-mestras", conhecidas apenas pelos que estão do lado da lei, o sigilo de indivíduos e, mesmo, o sigilo empresarial estarão sendo comprometidos. É mais do que ingênuo supor que os mal-intencionados, após a vedação, não usarão mais criptografia forte. Quem estará vulnerável, como de praxe, é o usuário comum, cuja comunicação estará sempre ao alcance dos que se interessarem.  Os mal-intecionados continuarão a fazer o que faziam.

O argumento de que apenas terã0 acesso a nossos dados privados os que cuidam de nossa segurança, sempre se demonstrou falho.  Há um dito na rede: "se há uma janela que possibilita o abuso de algo, esse abuso ocorrerá". E isso tanto por falhas técnicas como por falhas humanas. Não se trata de descofiar dos "guardiães, mas se houver uma "porta oculta," mesmo que incialmente conhecida apenas pelas "forças do bem" , há uma possibilidade muito grande de, por descado ou desídia, ser também usada por mal-intencionados. Na frase de Juvenal, "quis custodied ipsos custodes?", quem zelaria pela correção dos que nos guardam?

Somos crescidos. Queremos manter o direito de proteger nossa informação com os melhores recursos da tecnologia. Criptografia fraca, que tenha o nível da "Língua do Pê", serve apenas como engodo e brincadeira de crianças.


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Nota Técnica do CGI sobre criptografia:
https://www.cgi.br/esclarecimento/nota-publica-sobre-o-uso-de-criptografia-em-sistemas-e-dispositivos-conectados-a-internet/

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lei da Austrália
https://arstechnica.com/tech-policy/2018/12/australia-passes-new-law-to-thwart-strong-encryption/
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terça-feira, 12 de novembro de 2019

Voto ou consenso?


Terminou mais uma reunião da ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and
Numbers), organização que cuida de nomes e números na Internet, especialmente do
conteúdo da “raíz de nomes” na rede, onde estão registrados os “sobrenomes” gerais. Desta
raíz constam os conhecidos .com, .net, .org, e os de países, como .br, .de, .it etc.

Tópicos recorrentes nos últimos encontros envolvem a definição de normas para uma nova
chamada de interessados por um “sobrenome” genérico. São cuidados a tomar, além da
definição dos procedimentos, a proteção de nomes especiais, como os geográficos. Não
seria razoável, por exemplo, que alguém postulasse o registro de .Itália, sem que houvesse
alguma relação com o país em questão. Até para que se evite, por exemplo, a repetição de
um problema, que hoje se arrasta por 7 anos: o “sobrenome” .Amazon deveria ser delegado
a uma empresa comercial ou, por ser nome de uma região, ser reservado? Vota-se quanto a
isso, ou busca-se um consenso?

Há hora do voto geral e livre, como é o caso dos processos democráticos de eleições
majoritárias, e há hora de se buscar consenso. Um exemplo mais claro deste caso é o
funcionamento do IETF (Internet Engineering Task Force), que cuida em suas reuniões da
formulação de eventuais novos padrões técnicos para a rede. Quando se trata de uma
reunião de especialistas num tema, é raro e talvez pouco razoável, que se decida por
votação. Uma analogia simplória pode ajudar a jogar luz: imaginemos 11 engenheiros civis,
os melhores da área, discutindo sobre a segurança de um determinado projeto de ponte de
concreto. Digamos que, ao final, 5 deles digam que não é seguro, enquanto 6 afirmem que
é sólido. Deveria a ponte ser construída, ou não? Um cidadão comum estaria
confortavelmente protegido sob a tal ponte? No âmbito do IETF, num caso assim, o
resultado provável seria: “Não há decisão. Continuaremos a discutir”. Se todos os 11 são
especialistas que dominam profundamente projeto de pontes, mas discordam da
conclusão, não há como se buscar uma solução por voto: não há “representatividade” (não
se pode argumentar que as opiniões representem a vontade geral), nem se pode ignorar
que a ênfase de cada um, a favor ou contra, pode ser muito diferente. Um caminho
possível seria algo como o “concílio papal”: trancam-se os 11 especialistas numa sala, sem
contacto externo, e eles discutem entre si até sair a “fumaça branca” do consenso, e o
resultado agora poder divulgado a todos: “habemus papam”!

Consenso não representa nem unanimidade, nem sequer maioria. Representa uma
proposta que, mesmo desagradando a muitos, não provoca objeções fundamentadas
veementess. Ou seja, a proposta é algo com que todos podemos viver, mesmo que
individualmente tivéssemos soluções ligeiramente diferentes. Um processo interativo, de
discussão entre especialistas, usualmente não é algo que de valha de um “voto de maioria”.

Em 1992 Davis Clark cunhou o que seria o lema mais conhecido sobre o processo de
decisão do IETF: “Nós rejeitamos reis, presidentes e votação. Nós acreditamos em
consenso simples, e código bem escrito”. Como alertaria o impagável e insubstituível
Millôr, “é proibido e ilegal ler o texto nas entrelinhas”...

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The Tao of IETF - A Novice's Guide to the Internet Engineering
https://ietf.org/about/participate/tao/
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'Rough Consensus and Running Code' and the Internet-OSI Standards War
https://ieeexplore.ieee.org/abstract/document/1677461
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O Livro do IETF
https://cgi.br/media/docs/publicacoes/1/o-livro-do-ietf.pdf
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Millôr
http://observatoriodaimprensa.com.br/mural/ed688-tantos-anos-de-millor/




terça-feira, 29 de outubro de 2019

Cinquenta Anos esta Noite


Gostamos de poder associar um evento marcante a uma data. A Internet que conhecemos é a evolução do projeto de rede ARPANET, iniciado nos Estados Unidos em 1966, e que deu o primeiro sinal de vida em 29 de outubro de 1969, às 22:30, quando dois computadores diferentes e distantes entre si trocaram a primeira mensagem. Esse momento está gravado em placa na sala 3420 do prédio Boelter, da engenharia da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles). Ainda hoje a sala é ocupada pelo pesquisador e pioneiro de redes Leonard Kleinrock.

A ARPANET foi desenvolvida dentro da Agência de Projetos Avançados de Pesquisa, ARPA, com recursos do Departamento de Defesa norte-americano, que em 1966 alocou 1 milhão de dólares para um projeto de rede que conectasse computadores de fabricantes diversos usando “comutação de pacotes”, tecnologia então desenvolvida por Paul Baran e Leonard Kleinrock. A rede resultante deveria resistir a quedas de linhas e de nós. Uma rede como a telefonia tradicional baseia a troca de dados entre dois pontos num caminho definido e único (“comutação de circuitos”). Uma ruptura nesse caminho porá a conexão a perder. Por outro lado, a “comutação de pacotes” utiliza uma malha de caminhos, com a mensagem dividida em pequenos pacotes de dados. Uma queda de linha ou nó resultará, no máximo, na perda de alguns pacotes, mas a comunicação continuará possível. É a base da resistência a falhas que a Internet apresenta.

Se nos anos seguintes surgiu uma pletora de redes de computadores a ARPANET prevaleceu a todas. Por ser independente de fabricante, por ter padrões abertos a disponíveis, por ser simples, por não ter um centro de controle, por ter mecanismos de recuperação de erros na transmissão, e por se basear em cooperação. Essas características ficaram definitivamente marcadas quando migrou definitivamente, em 1 de janeiro de 1983, de seu protocolo inicial NCP, escrito por Steve Crocker, para o TCP/IP. O projeto do TCP/IP fora iniciado em 1972 por Robert Kahn e Vinton Cerf. Com o sucesso do IP (Internet Protocol, ou “protocolo entre-redes”), que funcionou como “cola” entre todos os componentes da rede global, o nome “Internet” foi adotado para a rede. O IP permite que redes autônomas unam-se voluntariamente à Internet, sem ter que abrir mão de suas políticas administrativas.

Falando em espírito livre, aberto e de colaboração, características da Internet, é curioso notar que, há também 50 anos, ocorreu outro evento distintivo: o festival de música de Woodstock reuniu 200.000 jovens participantes e sinalizou a tendência libertária.

A ARPANET nasceu com financiamento militar, mas rapidamente redes acadêmicas passaram a integrá-la. A partir de 1980, com a implantação do TCP/IP, mais e mais redes passaram a constituir o tecido global. Ficou claro que a rede se tornara muito mais abrangente que seu objetivo inicial e chegara a hora de sua despedida. O bastão estava sendo passado à sua pujante filha, a Internet. Assim, em 28 de fevereiro de 1990 a ARPANET foi considerada definitivamente desligada. Vint Cerf escreveu um tocante “Réquiem para a ARPANET”, que traduzo livremente:


Foi a primeira e, sendo assim, também a melhor,
mas vai agora descansar para sempre.
Detenha-se comigo e derrame algumas lágrimas.
Em seu canto de cisne, por amor, por anos e anos
de serviço bem feito e fiel, eu choro.
Deite seu último pacote agora, amiga, e durma”.


===

Requiem for the ARPANET 
Vint Cerf 

Like distant islands sundered by the sea, 
We had no sense of one community. 
We lived and worked apart and rarely knew 
that others searched with us for knowledge, too. 

Distant ARPA spurred us in our request 
and for our part we worked and put to test 
new thoughts and theories of computing art; 
we deemed it science not, but made a start. 

Each time a new machine was built and sold, 
we’d add it to our list of needs and told 
our source of funds "Alas! Our knowledge loom 
will halt ’til it’s in our computer room." 

Even ARPA with its vast resources 
could not buy us all new teams of horses 
every year with which to run the race. 
Not even ARPA could keep up that pace! 

But, could these new resourcesonot be shared? 
Let links be built; machines and men be paired! 
Let distance be no barrier! They set 
that goal: design and build the ARPANET! 

As so it was in nineteen sixty-nine, 
a net arose of BBN design. 
No circuit switches these, nor net complete 
but something new: a packet switching fleet. 

The first node occupied UCLA 
where protocols and measurement would play 
a major role in shaping how the net 
would rise to meet the challenges unmet. 

The second node, the NIC, was soon installed. 
The Network Info Center, it was called. 
Hosts and users, services were touted: 
to the NIC was network knowledge routed. 

Nodes three and four soon joined the other two: 
UCSB and UTAH come on cue. 
To monitor it all around the clock 
at BBN, they built and ran the NOC. 

A protocol was built for host-to-host 
communication°.  Running coast-to-coast, 
below the TELNET and the FTP, 
we called this protocol the NCP. 

The big surprise for most of us, although 
some said they guessed, was another proto-
col used more than all the rest to shuttle 
mail in content flaming or most subtle.

When we convened the first I Triple C, 
the ARPANET was shown for all to see. 
A watershed in packet switching art, 
this demo played an overwhelming part. 

Within three years the net had grown so large 
we had to ask that DCA take charge 
to operate a system guaranteed 
for R&D and military need°.

Exploring other packet switching modes, 
we built the first spread spectrum mobile nodes° 
The Packet Radio, the mobile net, 
worked on the ground and even in a jet. 

Deployed at SAC and Eighteenth Airborne Corps, 
the Packet Radio unlocked the door 
to what we now know as the Internet. 
The driver for it all was PRNET. 

The Packet Satellite, another new technique, 
was added to the net milieu. 
And then to shed more light upon the dark, 
there came the Ethernet from Xerox PARC. 

To these we added yet another thing 
from MIT: a local token ring. 
We saw the local net techniques compound 
until the list could easily confound. 

The Internet foundation thus was laido 
Its protocols from many sources made. 
And through it all the ARPANET grew more; 
It was, for Internet, the central core°.

The hardware of the net was changing, too. 
The Honeywell was first, and then the SUE, 
which forms the heart of Pluribus today 
though where this platform sits one cannot say. 

The next big change was called the MBB. 
It emulated Honeywell, you see, 
so one by one they modified each node, 
by means of closely written microcode. 

Now known as 30 prefixed with a C, 
these nodes are everywhere from A to Zo 
The European MINET too was full 
of nodes like these from Mons to Instanbul. 

The second Autodin was long desired 
but once accepted instantly expired. 
Then to the rescue rode the ARPANET! 
And soon the MILNET by its side was set.

By Nineteen-Eighty DoD opined 
its data networks soon must be aligned 
with Internetwork protocols, to wit: 
by Eighty-Three the TCP was IT! 

Soon every host that sat on ARPANET 
became a gateway to a local net. 
By Eighty-Six new long haul nets appeared 
as ARPANET its second decade neared° 

The NSFNET and its entourage 
began a stately national dressage 
and soon was galloping at T1 speed 
out distancing its aging peer indeed. 

And so, at last, we knew its course had run, 
our faithful servant, ARPANET, was done. 

It was the first, and being first, was best, 

but now we lay it down to ever rest. 



Now pause with me a moment, shed some tears. 

For auld lang syne, for love, for years and years of 
faithful service, duty done, I weep. 

Lay down thy packet, now, O friend, and sleep.

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A sala 3420, Boelter, UCLA:

https://gizmodo.com/this-is-the-room-where-the-internet-was-born-1527205592














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E uma linha do tempo bem completa em:
http://theclarkespace.com/final-project-front/#/

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Inspiração e plágio do título: