terça-feira, 20 de agosto de 2019

Ética artificial?

A moda é falar de inteligência artificial, IA. O primeiro percalço já vem no nome da coisa: primeiro há que se definir o que seria “inteligência”. E, mesmo após chegando a uma eventual definição satisfatória, ver como “artificial” se aplica. Afinal, se algo pode comportar-se de forma “inteligente” mesmo que via um artifício, essa qualidade estaria agora inerentemente adquirida e deixaria de ser “artificial”.

Sob essa denominação agrupam-se diferentes técnicas de processamento de dados e tomada de decisões que hoje usamos. Há a “ciência de dados”, que se ocupa dos mecanismos de tratamento de quantidades vultosas de dados brutos em busca de correlações e informações inferidas, há o “aprendizado de máquina”, quando um programa escrito pretende aperfeiçoar seu funcionamento pelo que “observa” do mundo, e há o “aprendizado profundo”, quando o sistema evolui para comportamentos não previstos em sua programação inicial e que decorreram de sua experiência com sucessos e fracassos anteriores.


É comum um sistema ser “treinado” na execução de tarefas humanas, valendo-se de uma quantidade imensa de informação a ele fornecida. Adicionando coleções de imagens sobre determinada manifestação de uma doença, podemos fazer com que o sistema a detecte. Um artigo no New York Times da semana passada comenta que mão de obra humana é contratada até para “ouvir tosses”, de forma a ajudar o sistema a classificar qual tosse é
suspeita de algo mais grave. Teremos sistemas fornecendo diagnósticos médicos, elaborando decisões judiciais ou econômicas, tomando decisões.


O que me preocupa nisso é que máquinas e programas, objetos materiais que são, não podem ser responsabilizados por resultados anti-éticos ou amorais. Ética e comportamento humanísticos generoso são apanágio dos humanos. É humano desconsiderar eventuais características de outrem em prol de tratamento digno igualitário. É humano perdoar erros ou admitir falhas. Se fosse possível incluir na evolução da IA vieses humanos, nem sempre lógicos ou matemáticos, isso seria alvissareiro e positivo. 


Contemplar decisões com base em simples cômputo numérico, reforçado por resultados anteriores de sucesso e fracasso, é abrir mão da humanidade que ainda temos. Não se espera de um programa com IA que, por exemplo, na análise de concessão ou não de um empréstimo a um solicitante, exiba um comportamento “humano” como é o caso da intuição e da emoção. Pelo contrário, a regra que “aprendeu” da experiência anterior será inflexível: se há riscos financeiros no investimento, ele não será feito, mesmo nos casos em que, humanamente, a decisão pareceria cruel ou imoral. No confronto insensível dos números e resultados, a decisão tomada será a logicamente vantajosa, mesmo que moralmente abjeta. Lembro do filme de Kubrick e Clarke, 2001 Uma Odisséia no Espaço, quando Hal, o “inteligente” computador de bordo que controlava a viagem da nave, decide deixar o humano (Bowman) morrer fora da espaçonave, para não colocar em risco a meta principal da viagem.

Usar o potencial das máquinas como ajuda ao que queremos atingir é positivo, é o que vem pela frente e é bom que seja assim. Porém atribuir a elas decisões em ações que envolvam a própria essência do que se entende por “humano”, parece-me uma contradição em termos, e pode ser um caminho sem volta.


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O artigo citado do N Y Times pode ser visto em:

https://www.nytimes.com/2019/08/16/technology/ai-humans.html

e sua tradução:

https://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,conheca-a-rotina-nada-futurista-de-quem-treina-inteligencia-artificial,70002975428

Há um interessante artigo do Prof. Valdemar Setzer em:

https://www.ime.usp.br/~vwsetzer/IAtrad.html
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terça-feira, 6 de agosto de 2019

Sobrou porque deu!

Anos 80 resolvi fazer uma reforma em casa: um puxadinho para servir de escritório. Seria um pequeno quarto, com alguma fundação, quatro pilares e uma laje de uns 20 metros quadrados. Dois joões trabalhavam: o João Branco, mirrado, fala mansa, bom com a colher de pedreiro, era quem esticava argamassa e cuidava do reboco e acabamentos; e o João Preto, espigado, com um sorriso meio maroto, responsável pelo concreto, pela estrutura e a armação dos ferros. Estava marcado para um sábado o dia de fundir a laje, já montado o madeirame, providenciados roldana, corda, baldes e o material para o concreto. Terminado o enchimento, fui comprar o que era usual para a ocasião, tanto para os brindes, como para os bons auspícios: algumas cervejas e uns sanduíches. A laje estava bonita, bem cheia, e o João Preto sapateava sobre ela para mostrar que tudo estava sólido. Num canto, um caixote de massa, ainda cheio.

– Ô João, e essa massa aí? Sobrou, né?

– Claro, seu Demi. Sobrou porque deu. Se não tivesse sobrado, teria faltado!

Eis aí uma verdade universal enunciada: não existe o zero. Se algo não sobra, é porque faltou! Listo casos que reforçam a lei. Queremos um CPD que funcione ininterruptamente? Entre outras coisas, temos que nos prevenir contra quedas de energia. Parece simples: basta colocar um banco de baterias e instalar um “no-break”. Mas... e o ar-condicionado? O “no-break” não conseguirá sustentar o ar condicionado funcionando. Fácil, adicionamos um gerador. O “no-break” precisa apenas aguentar os computadores por alguns minutos, até entrar o gerador, que suportará também o ar condicionado. Mas, e se a bendita queda da força acontecer exatamente quanto estávamos fazendo manutenção nas baterias ou “no-break”?

Para escapar desse risco precisaremos de dois conjuntos de reserva, para que ao menos um esteja sempre à disposição. O mesmo ocorre com o gerador: se houver um só e estiver em manutenção programada ou apresentar falha, estaremos a pé de novo. Um otimista diria que esse conjunto de ocorrências é improvável...

Improvável pode ser, mas impossível não é – basta lembrar do Titanic... Em resumo, para evitar falhas em equipamentos críticos deve haver redundância suficiente que inclua, por exemplo, indisponibilidades de módulos de reserva. Para posições críticas devemos fazer como no futebol: é melhor levar dois reservas para o goleiro...

Quando dimensionarmos recursos de banda e processamento na internet, é temerário levar em conta apenas o pico de uso previsto. Bastará um ataque de negação de serviço para atolar máquina e banda. Mesmo com medidas de atenuação, o remédio viria depois do estrago feito. Há que superprovisionar. O mesmo se passa com o DNS na resolução de nomes de domínios na rede: espalham-se diversos servidores DNS para resistir bem a ataques. O .br tem vários servidores, um deles alocado na Alemanha. Como contrapartida, o .de tem um servidor no Brasil. Cooperação para segurança segue sendo mote central da internet.

E a segurança nossa, pessoal, de cada dia? Claro que é importante usar senhas fortes, que não sejam vulneráveis a ataques “força bruta”, mas os realmente prevenidos usarão autenticação com dois fatores. Afinal, se não sobrar segurança, ela vai faltar!

terça-feira, 23 de julho de 2019

O Cubo de Rubik

Já se vão 45 anos de quando o húngaro Erno Rubik criou um apetrecho usado num jogo desafiador: o “cubo mágico”, rebatizado para “Cubo de Rubik”. Suas 6 faces, inicialmente uma de cada cor, estão divididas em 9 facetas de cubos menores, resultando em 54 facetas visíveis de 26 cubinhos engenhosamente acoplados a uma estrutura que permite rotações dos planos desses cubinhos. O desafio consiste em, partindo de uma disposição inicial aleatória, fazer as rotações necessárias para que 0 cubo volte a ter uma face de cada cor.

Não são nada simples ou intuitivos os movimentos que levavam à solução. Lembro-me de colegas, objeto de admiração (e de alguma inveja...), mostrando o cubo resolvido após alguma longa e misteriosa manipulação.

Na semana passada, surgiu na rede um artigo científico anunciando uma solução para o cubo, que excede em velocidade os melhores humanos e usou aprendizado profundo (em “deepcube.igb.uci.edu”) . É mais um passo na solução de desafios com o uso de inteligência artificial, com variantes.

Na programação tradicional estática, a forma de atacar o problema do cubo seria escrever um algoritmo reproduzindo o que um humano faria, passo a passo. Uma receita de bolo, a ser seguida pelo computador. Se a opção é usar aprendizado de máquina, o usual seria criar uma base de soluções já conhecidas e fazer o programa definir uma estratégia a partir disso. Era a abordagem em programas para xadrez, onde a experiência de jogos de grandes mestres orientou o “aprendizado” do programa. Também o aperfeiçoamento dos sistemas de tradução por máquina valeu-se da base existente de traduções. Com o uso pesado de dados, associado à tutoria humana, tem-se um comportamento similar e eficiente.

Evolução do “aprendizado supervisionado”, mencionado acima, seria o “auto aprendizado”: fornece-se ao programa apenas as regras de como as peças se movem. Ele partirá, assim, do zero e, por experiência e erro, treinará sua rede neural para identificar estratégias vencedoras. Foi o método adotado no sistema AlphaZero, que de início sabia apenas como mover as peças do xadrez. Fazendo-o jogar contra si mesmo, “aprendeu” estratégias vencedoras a ponto de, após apenas quatro horas alegadas de autotreinamento, bater grandes mestres e programas convencionais. Espantosamente, o AlphaZero escolhia movimentos inusitados numa primeira análise humana e, mesmo assim, vencia.

Até há uns anos, a via do auto aprendizado era um caminho lento e pouco animador. Hoje, com a velocidade de processamento disponível, a opção de “deep learning” (ou aprendizado profundo) é cada vez mais viável.

A solução proposta para o Cubo é uma variante do aprendizado profundo. Afinal este é um jogo solitário, sem “treino” possível, com uma infinidade de configurações iniciais e única posição final vencedora. Movimentos aleatórios buscando solução poderiam levar um tempo imenso e sequer convergir.

A proposta descrita no artigo envolveu criar uma estratégia que mistura avaliações do progresso já feito, com a árvore de decisões a ser seguida. O resultado foi um programa que aprendeu, sem tutoria humana, a solucionar o Cubo de Rubik com mais eficiência que os melhores especialistas humanos. Interessante e preocupante: afinal, é mais uma situação em que geramos algo que, ao mesmo tempo, nos ajuda e... nos torna obsoletos.
















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A demonstração do Cubo com IA:
http://deepcube.igb.uci.edu/

O artigo referido acima:
https://openreview.net/pdf?id=Hyfn2jCcKm

Solução tradicional, em até 30 movimentos,  e o "número de Deus"
https://www.newscientist.com/article/dn19301-god-couldnt-do-faster-rubiks-cube-mystery-solved/

Referências na rede:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cubo_de_Rubik

https://news.uci.edu/2019/07/15/uci-researchers-deep-learning-algorithm-solves-rubiks-cube-faster-than-any-human/

https://www.cnet.com/news/ai-can-solve-a-rubiks-cube-before-you-even-get-started/#ftag=COS-05-10aaa0j

terça-feira, 9 de julho de 2019

ICANN em Marrakesh


A Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (ICANN na sigla em inglês), criada em Los Angeles, Estados Unidos, em setembro de 1998, é uma organização privada, sem fins de lucro, que cuida de nomes de domínio e números IP na Internet. 

Em junho realizou sua reunião de número 65. As reuniões tem rodízio regional e são classificadas conforme seu formato. Esta última correspondeu à África e foi do tipo B, “política”. Há as do tipo A, “comunidade” e do tipo C, “reunião geral anual”). A próxima, em novembro, será em Montreal, no Canadá, do tipo C.

Em sua criação, a ICANN escolheu ter uma estrutura muito ampla, para além dos operadores técnicos de nomes (registros e registradores) e de números (provedores de acesso). Incorporou um grupo de assessoria de governos (GAC) e criou conexões com diversos órgãos técnicos, além do conjunto geral de usuários.

Estava claro que a expansão não seria simples nem indolor – lembre-se que, originalmente, a atividade era feita pela IANA, com um punhado de pesquisadores na USC, Universidade da Califórnia do Sul. Tensões surgiram de imediato e estão longe de se dissipar.

Uma, logo no início, se deveu a que parte dos representantes de governos que entraram no GAC original em 1998, sequer sabiam da Internet, ou que havia acesso local em seu país, ou que um domínio de duas letras fora alocado para a comunidade, em geral sediado numa universidade ou numa organização não governamental.

Com o tempo houve algum nivelamento, mas outros conflitos surgiram. Um deles foi o debate e a posterior adoção, sob pressão de países que não usam o conjunto de caracteres latinos, de formas internacionalizadas de se grafar um nome de domínio. Com uma solução técnica compatível, tornou-se possível o uso de caracteres não latinos em nomes de domínio. No Brasil, por exemplo, há a possibilidade do uso de acentos, til e cedilha. Assim, é possível registrar e usar “peça-café-e-pão.com.br”.

Outra decisão da ICANN – a de introduzir levas de novos domínio genéricos na raiz – gerou tensão com os envolvidos em “propriedade intelectual” e marcas, dado que teriam que proteger seus identificadores nos novos espaços. Para aliviar o problema, a Icann trouxe à cena a Organização Internacional de Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), que lidaria com os conflitos.

Mais à frente, a ICANN permitiu que as próprias instituições pudessem registrar sua marca diretamente na raiz. Certamente aí se identificaria a origem do conflito entre a empresa Amazon, que solicitou o registro do domínio “.amazon”, com diversos países da região amazônica, apoiados por outros mais, que se opõem a essa concessão. Foi outro tema quente em Marrakesh.

Claro que nada está tão complicado que não possa piorar... Discute-se hoje se emojis poderiam ser usados como parte de um nome de domínio (!).

Essas “boas ideias” nem sempre levam em consideração que não se trata apenas da identificação de um sítio: para ser de fato útil, além de “divertida e criativa”, a “novidade” teria que funcionar harmonicamente numa diversidade de navegadores e de serviços.

Ainda no tema de DNS (sistema de nomes de domínio) foi discutida sua extensão para uso em protocolos Web (HTTPS) e de transporte (TLS), além do estímulo à adoção maciça do DNSSEC, temas que se revestem de significância especial, tendo em vista a iminente expansão da Internet das Coisas.

Ao final, mesmo com algum sério risco de a reunião acabar indo “para lá de Marrakesh”, sobreviveu-se.


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Relatório Post-ICANN 65:
https://meetings.icann.org/en/marrakech65/post-icann65-policy-report-11jul19-en.pdf

Sobre o uso de "emoji" em DNS:
https://nic.br/media/docs/publicacoes/4/sac-095-en-converted_pt-br.pdf

Documento do SSAC - Security and Stability Advisory Committee,  maio 2019
https://www.icann.org/en/system/files/files/sac-105-en.pdf

Resultados da reunião de Berlim, Internet & Juridiction, junho 2019
https://www.internetjurisdiction.net/uploads/pdfs/Berlin-Roadmap-and-Secretariat-Summary-Global-Conference-Internet-Jurisdiction-Policy-Network.pdf

"Qualquer coisa˜, de Caetano Veloso:
https://www.youtube.com/watch?v=iNUsnjV3FIc

terça-feira, 25 de junho de 2019

Quem sou?

Máquinas autônomas, como os carros auto-conduzidos, podem estar muito próximas da viabilidade técnica, mas ainda estão longe de garantir “comportamentos” moralmente aceitáveis para os humanos. O Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT) desenvolveu, há algum tempo, um projeto chamado “moral machine” (máquina moral) que recolhe contribuições sobre como diferentes indivíduos, com diversas bagagens culturais, definiriam escolhas moralmente aceitáveis. Algumas são fáceis de prever, outras nos colocam em xeque. 

Vejamos: parece razoável que, num inevitável acidente, opte-se pela solução que gere menos vítimas fatais. Um operador de desvio ferroviário pode se ver numa situação em que deve escolher para qual de dois ramais desviará um trem. Num ramal há cinco pessoas sobre os trilhos, e no outro apenas uma. Mesmo com pesar, parece certo desviar o trem para o trilho em que há apenas uma pessoa, poupando cinco. Modifiquemos o cenário, eliminando a bifurcação. De novo há os cinco humanos expostos ao trem, e agora há uma ponte sob a qual o trem passará. Nesta ponte está um homem avantajado e pesado que, se for arremessado sobre os trilhos, fará o trem parar poupando os cinco. Poucos optam, neste caso, por empurrar a vítima ponte abaixo, mesmo que isso represente salvar cinco. São complexas as regras morais que usamos para decidir algo, e que eventualmente gostaríamos de ver refletidas nos autômatos. Vale a pena uma visita em “moralmachine.mit.edu”

A coisa se complica ainda mais quando considerarmos a criação de personalidades artificiais. Dia desses recebi um vídeo em que um Salvador Dalí, redivivo, falava e gesticulava de forma muito convincente e natural. Mais que isso, ele respondia a perguntas dos admiradores e até tirava fotografias com eles. 

Bem... Isso não nos causa mais tanto espanto: a partir de uma simples fotografia sabemos que já se pode criar uma animação curta e, se tivermos dados sobre a voz da pessoa e alguma documentação de seus tiques gestuais, a animação ficará quase indistinguível de uma cena real. Algo falso, profundamente falso e, ao mesmo tempo, profundamente realista.

Além de se poder falsificar a realidade em formas bastante críveis, pode-se “criá-la” do
 nada. Já há como gerar imagens de pseudo indivíduos que nunca existiram, mas que nos parecem naturais e perfeitamente e possíveis. Bem distante de caricaturas graficamente rudimentares e facilmente reconhecíveis. À medida em que a distinção tornar-se menos e menos perceptível, não estaremos longe de duvidar até de realidades de nosso passado. Aquele filme em que estou dançando, aparentemente bêbado, será meu mesmo? Afinal não sou nada hábil em meneios corporais, mas... afinal, pode ser que estivesse tão alterado que perdi a memória clara do evento. E neste, onde eu, normalmente contido, estou agressivamente ofendendo um amigo de longa data? Por que raios eu estaria fazendo isso? Seria eu mesmo?

Fernando Pessoa, que tinha isso sob estrito controle, escreveu: “... Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão. Muitos creem coisas falsas ou incompletas de mim; e eu, falando com eles, faço tudo por deixá-los continuar nessa crença. Perante um que me julgue um mero crítico, eu só falo crítica. A princípio fazia isto espontaneamente. Depois decidi que isto era porque, no meu perpétuo anseio de não levantar atritos...”


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MIT, Media Lab:
http://moralmachine.mit.edu

Salvador Dalí:
https://www.youtube.com/watch?v=MZ2X-fSIPSU

o trecho do Fernando Pessoa:
http://arquivopessoa.net/textos/2676
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terça-feira, 11 de junho de 2019

Problemas Importantes

Segundo Eisenhower, ex-presidente dos Estados Unidos, “há problemas importantes, e há problemas urgentes. Usualmente, os urgentes não são importantes, e os importantes nunca são urgentes”. Um problema importante deveria ser tratado com calma e ponderação. Se buscarmos uma solução urgente para ele, poderemos estar obtendo ainda mais encrenca.

Coibir comportamentos delituosos na internet é, certamente, uma questão importante, mas como agir?. O primeiro passo é definir o que seria “delituoso” para a rede. Salvo poucas situações, não há unanimidade nas legislações nacionais: algo que é ilegal no país X, pode ser perfeitamente legal no país Y.

Mais, no ambiente sem fronteiras da internet, como caracterizar que uma lei nacional foi violada, e por quem? E soluções de diplomacia internacional, que certamente se aplicam, demandam um tempo incompatível com a agilidade da Internet e, postam em prática, sempre necessitarão de coordenação multinacional.

Semana passada houve em Berlim uma reunião onde discutiram-se formas de cooperação multissetorial internacional para a contenção de crimes na Internet. Estive no grupo que discutia ações sobre o DNS (sistema de nomes de domínio) que poderiam coibir malfeitores. A primeira dificuldade é tentar definir o que seria “ilegal” internacionalmente, ao menos no sentido comum.

Um exemplo citado: há uma lei da Tailândia que pune gravemente quem falar mal da família real de lá. Poderia essa restrição local ser expandida internacionalmente, mesmo que na forma de simples consenso? O grupo pendeu para um claro “não”. Penso que neste caso e em muitos outros equivalentes, quanto à legislação local, seria obrigação primeira do cidadão não quebrar as leis do país em que mora. Se um livro é proibido num país X (mas não em outros), os cidadãos deste país estarão transgredindo as leis locais ao comprarem o livro. O vendedor do livro está sob a legislação de outro país Y e sua oferta visa a um público indistinto. Estaria ele violando a legislação do país X?

Claro que há situações em que um serviço ou conteúdo na rede podem estar sujeitos à rejeição universal, por violarem princípios globalmente acordados. Mesmo nesse caso, seria prudente iniciar com a suspensão do nome de domínio? O serviço que o DNS presta resume-se a traduzir um nome para um número IP; não leva ao local, e muito menos hospeda os dados visados.

Usar como primeira providência a remoção do nome, além de poder afetar outros serviços e conteúdos perfeitamente legais, não eliminará nem o conteúdo danoso, nem o acesso a ele, dado que ele continuará acessível via endereço IP. Pior, ao impedir a resolução do nome, estaremos “avisando” nosso suspeito de que há algo em marcha contra ele. Logicamente, sua primeira providência será remover o conteúdo ilegal e se esconder, o que pode dificultar ou mesmo inviabilizar toda a investigação em andamento.

Na cadeia de ações de que se pode lançar mão para coibir abusos, parece claro que atacar o DNS será o último passo, nunca o primeiro. Agir imediatamente sobre o DNS sob o pretexto da urgência, pode levar a não se atingir o objetivo almejado e a prejudicar inocentes. Mesmo assim, na falta de soluções mais ágeis e coordenadas, muitos afobados tentarão ir pela via curta e simplória. Há outro adágio que diz: “a quem só tem martelo, todos os problemas parecerão pregos".

terça-feira, 28 de maio de 2019

Quase-Direito

“Revolução Digital” é palavra de ordem. No lugar de “digital” (que remete a dígito ou dedo) poderia ter-se usado “discreto”, antônimo de “analógico” ou “contínuo”. Mas, convenhamos: a revolução que está aí é tudo menos “discreta”... 

Se correio, telégrafo e telefonia já permitiam conexões entre os cidadãos do mundo, a forma com que essa interligação passou a ser operada hoje é algo incomparável: por primeira vez temos uma “comunicação franca” ao alcance de todos. E há rupturas sociais muito maiores do que simplesmente a introdução da informática, da automação, da eletrônica em nosso dia a dia. 

A Internet realizou a interpenetração de fronteiras físicas. Se nos referirmos ao Tratado de Vestfália, a consolidação do moderno conceito de nação tem menos de 400 anos, com definição de “soberania” e introdução da diplomacia nas negociações. Fronteiras físicas são elementos cruciais das nações. A imposição de leis e normas sociais fica adstrita aos limites físicos dos estados nacionais. Há tratados internacionais que buscam homogeneizar comportamentos e ações, mas são raros e de difícil consecução. 

Quando estamos discutindo algo em um grupo, é claro que não é necessário que os participantes ou o gestor do grupo estejam localizados no país cuja língua está sendo utilizada. Muito menos a plataforma na qual o grupo se articula. Então, em situações dessas, em face de potencial abuso, como definir qual lei foi burlada, se não é claro o contexto sociocultural nacional que se aplica? 

Outro ponto a ponderar é que, longe de nações ou de associações convencionais, a proximidade física concorre pouco para o alinhamento de grupos de discussão. Buscamos afinidades de temas, ideias e posicionamento, mais do que vizinhança física. As tensões que surgem hoje pouco se relacionam a países e fronteiras, mas sim a linhas de pensamento, de negócio e de poder. Uma corrente que queira atacar a posição oposta, encontrará aliados em diversos lugares do globo, prontos a cerrarem fileiras. 

Buscar legislação de consenso é uma forma de atenuar o problema. Mas tratados internacionais, além de difíceis de obter, demoram muito mais do que os novos tempos exigem. Buscar homogeneização entre leis nacionais pode ser parte da solução, como parece estar sendo o caso da proteção de dados individuais. Outra forma, conhecida como “soft law” ou “quase-direito”, é buscar um consenso não formal nesses temas. Nessa linha, em junho haverá em Berlim a terceira reunião de “Internet e Jurisdição”, conferência que debate temas transfronteiriços em três vertentes: dados, conteúdos inadequados, e nomes de domínio.

O “quase-direito” é uma forma de articulação que pode nos livrar de alternativas bem ruins. É recorrente a ameaça, lançada de tempos em tempos por países descontentes com a rede mundial, de estabelecerem-se também “fronteiras” para a Internet.

Essa opção, de “fragmentar” a rede, representaria abjurar a revolução que ela trouxe, tornando-a uma realidade nacional contida nas fronteiras físicas, com características locais. Mas mesmo para as nações que não se sentem confortáveis com o cenário global, fragmentar a rede implicará, para elas também, na perda de acesso ao enorme mercado além das fronteiras físicas. Terão elas coragem de “trucar” aí? A emenda pode sair pior que o soneto.


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Internet & Jurisdiction Policy Network
https://www.internetjurisdiction.net/


https://www.reddit.com/r/MapPorn/comments/4qemua/map_of_europe_after_the_treaty_of_westphalia_24th/