terça-feira, 16 de abril de 2019

BR Balzaquiano

Daqui a dois dias, em 18 de abril, o .br torna-se balzaquiano. O adjetivo, perenizado pela obra de Balzac, remete aos 30 anos, idade da maturidade, do controle de si, da vitalidade e... da sedução. O .br caiu no gosto dos brasileiros desde o início da implantação da Internet no País, em 1991. Em um cenário muito dinâmico, às vezes confuso e fluido, o .br permanece como suporte confiável aos brasileiros que buscam identidade na rede.

A história começa por volta de 1987, quando já estava clara a necessidade, ao menos na área acadêmica, de obtenção de acesso às redes internacionais de computadores que se expandiam rapidamente. A primeira rede buscada pelos brasileiros foi a Bitnet (Because It is Time Network), nome apropriado: “Rede, porque Tá na Hora!”. O Lncc (Laboratório Nacional de Computação Científica) no Rio de Janeiro e a Fapesp, criando a ANSP (an Academic Network at São Paulo), lograram conexão à Bitnet em 1988. Rapidamente universidades e institutos de pesquisa em todo o País buscaram ligar-se à rede. No caso específico da Fapesp, podia-se também acessar a HEPNet (High Energy Physics Network), ligando laboratórios de física de alta energia. 

A área acadêmica, entretanto, não foi a única a ser enfeitiçada pela ideia da troca livre e rápida de informação. Organizações da sociedade civil como o Ibase no Rio de Janeiro, APC e outras ofereciam acesso discado a redes internacionais. Para os que operávamos a rede acadêmica passou a ser importante obter uma estrutura de nomes para as máquinas interligadas. A melhor solução era ter um identificador que fizesse sentido e permitisse uso amplo. O esquema hierárquico de nomes para a Internet, muito bem planejado, já tinha cadastrados e disponíveis todos os códigos de duas letras que identificariam países e territórios. Lá constava o .br.

O passo seguinte foi pedir o .br para uso pelas redes acadêmicas brasileiras. Para nossa agradável surpresa, em 18 de abril de 1989 Jon Postel, responsável pela IANA (Internet Assigned Numbers Authority), considerou o time brasileiro maduro o suficiente para operar o .br. Assim, antes mesmo de obtermos conexão à Internet, recebemos o .br para usar como sobrenome!

De lá pra cá pouca coisa mudou na forma, mas muito mudou na escala. Desde o começo achamos importante deixar o .br fechado, aceitando apenas a empresas e cidadãos brasileiros, e com semântica preservada. O segundo nível sob o .br foi mantido restrito, e criadas alternativas que melhor servissem à característica dos aplicantes. Uma organização não governamental usaria org.br; para comércio e uso geral, com.br; o governo poderia ofertar futuros serviços sobre a rede usando o gov.br. Essa estrutura, inicialmente aberta apenas a pessoas jurídicas, foi sendo ampliada e passou a aceitar pessoas físicas. Foram criadas instâncias para profissões, como adv.br, eng.br, med.br; instâncias para publicadores, como blog.br, wiki.br, art.br e, mais recentemente, para cidades: bhz.br, rio.br, sampa.br. Hoje são mais de 120 alternativas.

Nesses trinta anos o .br atingiu 4 milhões de domínios, o sétimo maior domínio de país no mundo. E segue sedutor, com invejável solidez técnica e resiliência: um balzaquiano atraente e de respeito. “Vida longa e próspera!”, diria o sr. Spock, da Jornada nas Estrelas.


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Página da IANA sobre delegação do .br, onde consta a data de 18/abril/1989:

https://www.iana.org/domains/root/db/br.html
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e aqui as estatísticas do CENTR - Council of European National Top-level domain Registries:


https://centr.org/statistics-centr/quarterly-reports.html

com a tabela correspondente ao final de 2018:




terça-feira, 2 de abril de 2019

Imprimatur

A prensa de Gutemberg abriu uma era de difusão de informações e conhecimento como o mundo não experimentara até então. Os raros manuscritos, guardados em conventos e igrejas, podiam ser imprimidos em quantidade e distribuídos a um número muito maior de leitores. 

Como também ocorre hoje, essa inovação trouxe a possibilidade de negócio, de se venderem muitas cópias, e a correspondente pressão para que os recursos fossem direcionais ao que mais interessaria ao público. Não demorou muito para que textos eventualmente “não canônicos” passassem a circular livremente. 

Menos de 100 anos depois, já havia resultados inesperados da popularização de textos. Lutero, por exemplo, certamente valeu-se da imprensa para difundir sua tradução alemã da bíblia, antes disponível em latim e grego e, portanto, apenas acessível aos que soubessem essas línguas.

À Igreja Católica não passaram despercebidos os riscos nascentes. Foi instituído um “crivo” para que uma obra obtivesse licença de impressão. Um bispo ou seu auxiliar deveria ler o texto, julgar se lá havia alguma falsidade ou impropriedade, e emitir um juízo: “nada obsta” (nihil obstat, em latim). Assim, finalmente, a obra obtinha o imprimatur – “imprima-se”.

Mais alguns séculos se passaram até que o princípio de livre acesso a todo o conhecimento e livre divulgação de ideias ganhasse momento. Enciclopedistas propunham coligir de forma racional o que se sabia para colocar à disposição. Podemos dizer que o pêndulo social oscilava em direção às liberdades individuais.

A Internet trouxe uma nova instabilidade no pêndulo. Potencializando imensamente o que houve há 600 anos, todos passamos a ter acesso a tudo e, mais ainda, saímos da posição de passivos leitores para a de ativos e ardentes defensores de pontos de vista, mesmo nos temas que nem dominamos tanto assim... Afinal, há um microfone amplificado disponível!

De novo, entretanto, surge reação. Pelos mais variados motivos, desde proteção contra falsidades ou defesa de direitos genéricos, passando por ideais moralizantes, reaparecem defensores de um “crivo”. 

Acaba de ser aprovada uma lei europeia que, entre outros pontos, arroga-se a proteger “direitos de autor” – note-se que esse direito inexistia à época de Gutemberg. Não é à toa que ela cria um incômodo em parcelas importantes do público: pode gerar consequências bem diversas das pretendidas. 

A par de ser totalmente lícito e correto punir os que transgridem as leis vigentes, causa-me arrepios que a ação proposta o seja de forma apriorística, ante factum. E, pior ainda, que seja uma tarefa encomendada ao segmento que conta com quem já tem bastante poder. Arriscamos a tornar inviáveis os que não dispuserem de ferramental para o crivo, e os que já gozam dele, terão ainda mais poder! O fosso aumentará.

Um grego, há 2500 anos, postulou que “leis são como teias de aranha: apanham insetos pequenos, mas os pássaros as rompem e fogem”...

O pêndulo está oscilando novamente, agora em direção a controle e tutela crescentes. 
Lembrou-me os primeiros versos da Carmina Burana: “Ó Destino, cresces e mínguas qual a lua mutante; a detestável vida escureces e depois clareias, brincando com nossa mente; dissolves como gelo a miséria e o poder”... Nihil obstat!

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https://spiritualdirection.com/2016/01/18/what-are-imprimi-potest-imprimatur-and-nihil-obstat



terça-feira, 19 de março de 2019

A Epopéia Amazônica

Uma das deliciosas obras de Monteiro Lobato é Os Doze Trabalhos de Hércules. Foi nela que, na meninice (milênio passado), tive contato com as mitológicas amazonas, tribos de mulheres guerreiras que viviam na região do Ponto, costa sul do Mar Negro, próximo à atual cidade de Terme, norte da Turquia. Um dos trabalhos do herói era obter um ambicionado cinturão que Hipólita, a rainha das amazonas, possuía. E ele o conseguiu!

Nosso rio Amazonas ganhou esse nome, lembro das aulas de história, quando o explorador Orellana foi atacado por uns indígenas liderados por mulheres. Passou a ser conhecido como “rio das Amazonas” e, por extensão, a imensa região verde que o rodeia e que atinge oito países. Há uma organização diplomática chamada Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OCTA), que é integrada por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

Quanto à Internet, tudo ia bem nesse tema até que a Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (Icann, na sigla em inglês) em 2012, resolveu expandir o número de gTLDs, “sobrenomes” genéricos de nomes de domínio. Assim, além dos que representam países, como o nosso “.br” e os outros de duas letras, os genéricos, como o “.net”, o “.com” e outros, passariam a ter numerosos “irmãos”. Apareceram gTLDs como “.hotel”, “.xyz”, “.berlin”, “.rio”, e também gTLDs de marcas, com uso mais restrito às próprias companhias que os solicitaram, como “.ibm”, “.natura” e, claro, “.amazon”. 

Nas regras havia restrição quanto a pedidos de nomes geográficos e outros casos polêmicos, mas um conflito entre uma empresa e uma região não era provável. Além do potencial conflito do “.amazon”, apareceu outro em nossa área: o “.patagonia”, também solicitado. Mais uma vez a Internet colocava face a face interesses conflitantes, que só se manifestaram na rede. 

Quando países, ciosos de sua soberania sobre nomes geográficos tidos como amplamente conhecidos, viram instituições comerciais os requisitarem para uso como gTLD, foram à luta. Afinal esse é um processo excludente: há um único dono para cada TLD. O “.patagonia” foi resolvido amistosamente em conversas com Argentina e Chile, mas o “.amazon” revelou-se osso duro de roer.

Inicialmente o Grupo Assessor de Governos na Icann (GAC) chegou a um consenso pedindo o bloqueio da solicitação da empresa Amazon. A gigante do varejo insurgiu-se e requereu um painel neutro de reavaliação. Ora, a disputa entre marcas e nomes de regiões é terreno pantanoso, e houve uma reversão: o painel sugeriu à Icann que concedesse a delegação do nome à Amazon.

Claro que a OTCA não concordou com isso. A Icann viu-se entre a frigideira e o fogo: se atendesse à Amazon, arrumava um enrosco político de vulto com oito países. Se não atendesse, provavelmente ganharia um processo multimilionário da empresa que teve o parecer favorável do painel. Na reunião de Kobe, a 64ª da Icann terminada na sexta, 15 de março, a saída possível foi esquivar-se de dar a palavra final e conceder mais um tempo para saia alguma luz das discussões. Cá entre nós, não será fácil conseguir consenso entre os países sobre qual o acordo possível e, menos ainda, que a atual pretendente, Amazon, aceite mais protelações.

Que tal chamar Hércules para um 13.o trabalho? Seria o de “deslindar o impasse OCTA x Amazon em um tempo finito”. Trabalho hercúleo!


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Comentários do "board" da ICANN na reunião de Kobe, março de 2019, sobre  o caso .amazon:

https://www.icann.org/resources/board-material/resolutions-2019-03-14-en#2.e



terça-feira, 5 de março de 2019

Terça-feira Gorda

Começo me desculpando aos que eventualmente se sintam ofendidos. Esse “gorda” do título não reflete “gordofobia”, nem “gordolatria”, horrendos hibridismos tão em voga hoje. Remonta a “Mardi Gras”, a terça-feira untuosa dos franceses, último dia para se consumir costelinhas, rabadas e torresmos, dado que vem aí a quaresma e o início do jejum. Mas hoje é “terça-feira” gorda de Carnaval, véspera da “quarta-feira de cinzas”, e sinto-me insuficiente para questionar o que nossos antepassados estabeleceram e tem se mostrado sensato.

“Terça-feira” evoca em mim pretéritas épocas da meninice. No meu bairro, terça-feira era o dia da feira livre. Dia em que os feirantes apregoavam as qualidades dos produtos, materializados nas bandejas de tomates, batatas, alfaces, laranjas. “Prove aí, freguesa, a minha laranja-da-baía... Doce como mel. Só compra se gostar! Sem compromisso!”. Época anterior ao depois famoso “pastel de feira”, do qual viraria cliente anos mais tarde. E havia uma forma fácil de saber que estava chegando o “fim da feira”: era o cheiro persistente de peixe se sobrepondo aos demais. O odor da barraca do peixeiro marcava a hora de levantar acampamento.

A lembrança da feira e o seu processo aberto de mercadeio trouxeram-me outra imagem forte: o artigo de Eric Raymond “a Catedral e o Bazar”. Nele, comparava-se duas formas de produção de bens: uma altamente hierárquica – a Catedral – onde poucos definem a arquitetura final e os demais apenas contribuem como mão de obra –, e o Bazar, onde o processo de definição e construção é interativo e continuamente participativo. Todos conhecem esse conceito, e é o que descreve a evolução do sistema operacional Linux e de outros programas abertos e colaborativos. Ousaria dizer que a própria Internet é resultado muito mais de um “bazar” do que de uma “catedral”, se bem que há que se reconhecer influências importantes de ambos os processos. Ainda na mesma linha, estamos hoje a menos de 10 dias da comemoração dos trinta anos da invenção da web por Tim Berners-Lee. A data de 12 de março de 1989 é cravada como a do nascimento da web.

Ela, a web, talvez seja o mais expressivo exemplo do que a “feira livre” nos poderia dar. Na web todos apregoamos o que nos interessa, desde o que tomamos no café da manhã, passando pelas nossas posturas políticas, se gostamos ou não de música clássica, ou de coentro. Pouco importa se isso interessa mais ou menos aos nossos leitores. Mas certamente interessa aos que farejam oportunidades de negócio usando nossos comportamentos e escrutinando as tendências em voga. O bazar e a feira livre estão aí, com seus múltiplos efeitos positivos, facilmente identificáveis e claramente louváveis. Mas (e sempre há o outro lado da moeda), como na feira livre, há as bancas que vendem batatas de qualidade, e há as que buscam ludibriar o cliente. Como nas feiras, nós, os clientes deveríamos aprender a ser hábeis e saber distinguir a “baciada” de boas batatas, daquela de batatas “de segunda”. É isso que se espera de clientes experimentados, e é o único caminho que parece promissor.

É terça-feira gorda de carnaval. Vida longa à Internet, à web e, ao vencedor, as batatas! Evoé! Evoé!


Aniversário da Web:
https://home.cern/news/news/computing/web30-30-year-anniversary-invention-changed-world

While working at CERN, Sir Tim Berners-Lee invented the World Wide Web (Image: CERN)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

o Artigo 13

A Europa está próxima de promulgar uma regulamentação, que se soma a outras, com o objetivo de regular a rede. Particularmente polêmico é o seu Artigo 13, que trata da proteção de propriedade intelectual na internet. Em análise simples, o artigo 13 responsabiliza plataformas por conteúdo inserido nelas que viole direitos de propriedade de outrem. Hoje é comum encontrarmos em vídeos criados por usuários trechos de filmes, de anúncios, de programas de TV, em geral com o objetivo de comentar, criticar ou satirizar o trecho incluído. Claro que nem tudo imbui-se de boa intenção, e certamente há casos de abusos. O que preocupa é a forma que se busca para coibir esses abusos. Já nos livramos de outras tentativas parecidas, como o famigerado “notice and take down”, que previa que à simples denúncia de alguém que alega ser proprietário de algo, o operador da plataforma aja imediatamente removendo o tal conteúdo, sem nenhuma decisão jurídica que embase essa remoção. No Brasil, conseguimos nos livrar dessa proto-censura que prevê a remoção antes do julgamento: nosso Marco Civil garante que apenas após ordem judicial um intermediário será obrigado a remover algo.

O jogo aqui é complexo e sombrio. Se por um lado parece correto e esperado que as plataformas sejam agnósticas em relação ao conteúdo de seus usuários, ficando estes como responsáveis finais pelo que geram, por outro há um poder tecnológico imenso em mãos das poucas empresas que dominam o ambiente. Com esse poder que elas têm em mãos, podem “intuir” mecanicamente o que terá mais efeito sobre seus usuários, sugerindo-lhes notícias, vídeos, temas, de forma a maximizar receitas. Mas elas também tem uma “carta positiva” na manga: podem declarar-se “defensoras das boas condutas” e “saneadoras” de material impróprio. Certamente para alguns governos isso soará como música. A barganha é muito perigosa para valores que nos são caros. Ninguém quer uma Internet nefasta, mas isso é bem diferente de dar a poucos o poder, inclusive via legislação, de decidir entre o “bem” e o “mal”. Encruzilhada perigosa. Espero que não estejamos no “zugzwang” do xadrez: obrigados a jogar, qualquer jogada que fizermos piorará nossa situação...

Andrew Sullivan nos deu um aviso a levar em conta. Ele, que foi o coordenador do IAB (Internet Advisory Board), ente que sanciona as propostas do IETF (Internet Engineering Task Force), é o atual presidente da ISOC (Internet Society). Num texto sobre o futuro da rede escreveu: “As coisas mudaram. Toda tecnologia pode ser usada para fins negativos. A Internet ainda nos traz, claramente, ganhos em eficiência, comodidade e comunicação. No entanto, recentemente, alguns dos usos negativos da rede se tornaram aparentes, o que levou alguns a questionarem se a Internet é “perigosa demais”. Essa preocupação gerou uma “oportunidade de ouro” para aqueles que sempre preferiram uma Internet “saneada e rigidamente controlada”, àquela criativa e empoderadora. Segundo essas forças, apenas governos, tratados, leis, regulamentos e monopólios podem nos proteger dos problemas que enfrentamos. Eles não querem a Internet extremamente colaborativa, e pensam que deve haver uma “escolha política” a ser feita entre a Internet que conhecemos, e uma rede organizada e regulamentada. Se essas forças forem bem sucedidas, todos perderemos”.


O artigo de Andrew Sullivan, de 29 de agosto de 2018:
https://www.internetsociety.org/blog/2018/08/it-is-a-challenging-time-for-the-internet-we-must-not-let-it-be-undermined/



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O futuro é Imaterial

2019 será um ano marcante para a Internet no mundo e no Brasil. Foi em outubro de 1969 que houve a primeira troca de mensagens entre computadores dentro do projeto Arpanet. São 50 anos. Em 18 de abril de 1989 o “.br” foi delegado pela Internet Assigned Numbers Authority (a Iana, na sigla em inglês, de Jon Postel) ao grupo que operava rede acadêmica na Fapesp. Foi também em 1989 que a RNP, Rede Nacional de Pesquisa, era oficialmente lançada. São 30 anos. Finalmente, foi em 2009, há 10 anos, que o CGI divulgou em forma final os “Princípios para a Governança e uso da Internet no Brasil”. 

Esse decálogo, efusivamente recebido pela comunidade da Internet mundial, seria o foco do debate que levaria à lei n.º 12.965 de 23 de abril de 2014, o Marco Civil da Internet e, também, da discussão sobre a necessidade de proteção da privacidade, que redundou na Lei Geral de Proteção de Dados, n.º 13.709 de 14 de agosto de 2018.

Às vésperas da promulgação do Marco Civil, e atendendo a um convite do capítulo italiano da ISOC (Internet Society), Carlos Afonso e eu fomos até Roma para explicar e debater com parlamentares em que se constituía o Marco Civil. Nosso guia foi Stefano Trumpy, pioneiro da Internet na Itália e o primeiro gestor do domínio “.it”. Em Roma encontramos mais um Stefano, o Quintarelli, à época deputado do parlamento italiano e que estivera envolvido na criação do primeiro provedor de Internet do país, o I.NET. Depois, a Itália também desenvolveu um conjunto de princípios na mesma linha do nosso.

Hoje, 5 de fevereiro, dia mundial por “uma Internet Mais Segura”, Quintarelli, fará a palestra de encerramento do evento em São Paulo e lançará a versão em português de seu livro Instruções para Um Futuro Imaterial, com prefácio de Ricardo Abramovay e Rafael Zanatta, ambos da USP.

Quintarelli é otimista quanto ao futuro. Um dos pontos que defende, e com o qual concordo, é que não se deve opor o “real” ao “virtual”, ao menos não na semântica corriqueira de “virtual”. O que a Internet potencializa, longe de ser algo “menos real”, é sim a superação das amarras do mundo físico. Se “criar com qualidade” continua sendo árduo e seletivo hoje, reproduzir, transportar, armazenar, distribuir são atividades simples, instantâneas e de custo quase nulo. A verdadeira disrupção ocorre nesse mergulho no “imaterial”, que provê grande capacidade e serviços, praticamente sem barreira de entrada...

Aí é que “a porca torce o rabo”. Afinal, como se sustentam essas abundantes benesses? Claro que há mecanismos de monetarização, que podem ser mais ou menos éticos, mais ou menos transparentes, mais ou menos invasivos. E é nessa arena que se luta agora. 

Não se trata de abandonar o que se conseguiu, mas tentar sobrepor a ele critérios legais e éticos. O otimismo de Quintarelli prevê, segundo ele, uma crescente regulação das atividades sobre a rede. É essa, aparentemente, a atual posição de boa parte da Europa também. 

Pessoalmente tenho sérias dúvidas sobre como essa eventual regulação poderia ser exercida. E mais receios ainda das consequências que ela traria para a Internet livre e aberta. O decálogo deu-nos uma linha segura a trilhar: responsabilizar os agentes finais pelas suas ações. 

A Internet (como a eletricidade, a telefonia, etc) não é responsável pelos danos eventuais que sofremos pelo seu mau uso. Desligá-la ou restringi-la não parece solução. Menos razoável, ainda, sua balcanização ou fragmentação. É um jogo de poder que apenas desponta, e para o qual devemos estar permanentemente atentos.



https://blog.quintarelli.it/2018/12/ai-from-users-to-beneficiaries-and-some-implications-liability.html

https://principios.cgi.br/

https://www.youtube.com/watch?v=f1kl5pPZ2qo

A sala da UCLA onde ocorreu a primeira troca de mensagens da Arpanet:



O IMP, na sala 3420:



terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A um Inovador

Estamos (sempre) no limiar de algo sensacional e inaudito, que pretende mudar radicalmente o mundo que conhecemos. Já ouvimos outras vezes e, sim, pode ser que aconteça essa “evolução disruptiva” sem volta. Parece-me clara a possibilidade da “disrupção”, mas é menos clara a semântica do “evoluir”. Afinal, tanto o bom como o mau evoluem, cada uma buscando com mais eficiência seu alvo próprio.

Em tudo há disrupção em andamento. Acabamos de ouvir que nascem humanos geneticamente modificados, o que, mesmo que eivado das “melhores intenções”, é disruptivo. Na engenharia esse tipo de experimento, em que um sistema não totalmente conhecido é testado, chama-se “caixa preta”. Sem saber o que tem dentro, mexemos nos parâmetros de entrada e, do comportamento que ele passa a exibir, tiramos conclusões.  De uma “caixa preta” mecânica a um ser humano há (ou, ao menos, havia...) uma grande diferença:a caixa preta que deu errado pode ser jogada fora. Não ouso pensar no que se faria com o experimento humano num caso equivalente.

Na informática e, claro, na Internet temos processos semelhantes em diversas áreas. Vejamos, por exemplo, informação na rede. No passado, foi a entrada em cena do modelo de publicidade paga que viabilizou o que chamamos de “serviços grátis abertos a todos”. A existência de potenciais clientes a serem atingidos fez com que anunciantes remunerassem os meios, que passaram a ser acessíveis a todos. Há compradores potenciais e o anunciante paga para acessá-los, mas atirava a esmo. A Internet permitiu “calibrar” o tiro ao perfilar os usuários e agregá-los.  A tentação seguinte foi aumentar o número dos prosélitos, catequizando indecisos e influenciáveis. O modelo de negócio foi ficando cada vez mais rebuscado e inseparável do meio. 

Mas tudo o que é complexo acaba por ser vulnerável e, assim, assistimos a diversos episódios de vazamentos e manipulação. Mesmo quando o modelo é em si claramente mostrado aos usuários, poucos chegam a buscar entendê-lo. Sequer o leem. Afinal, melhor continuar usando e não prestar atenção aos detalhes. Canais que teriam sido criados com a melhor das intenções, permitiram abusos por parte dos maliciosos.  Um “cookie”, facilitador para a navegação do usuário, acaba sendo usado na monitoração. Ao haver a possibilidade de enviar código para dentro do equipamento dos outros, alguém usará isso para mandar código malicioso.

O futuro da informação pode ser uma ladeira escorregadia. Inicialmente vendiam-se produtos e serviços e logo pensou-se em reforçar marcas junto a clientes fiéis (“branding”), o passo seguinte foi calibrar o público atingido (“targeting”) e, finalmente, modular o próprio tipo de informação que gere mais ressonância a cada comunidade.  Quando a informação vira o produto, sua acurácia é menos importante que o retorno que se consegue ao cativar o grupos visado. Enviar o que querem ouvir é uma forma insidiosa de gerar resultados econômicos e sobrevivência. Talvez uma sobrevivência efêmera.

Alberto Gomide, um pioneiro da Internet no Brasil e um espírito aguçado e crítico com quem convivi algumas décadas, ao ouvir uma ideia nova, promissora mas mal testada, lembraria o poema “A um Rato”, de Robert Burns: “... os melhores projetos de homens e ratos frequentemente acabam por falhar, deixando dor no lugar da prometida alegria...”




He Jiankui da SUSTech, anunciou a primeira edição de código genético de embriões humanos...

To a Mouse (Robert Burns): https://en.wikipedia.org/wiki/To_a_Mouse

...
But Mouse, you are not alone,
In proving foresight may be vain:
The best laid schemes of mice and men
Go often askew,
And leave us nothing but grief and pain,
For promised joy!

...