terça-feira, 14 de setembro de 2021

Os riscos da sincronização

A expansão das ubíquas redes sociais já foi tema de diversos artigos, que vão desde uma crescente impossibilidade, por parte de seus integrantes, de distinguirem o verdadeiro do falso no mar de informações que recebem, até comportamentos disruptivos originados por ambiente nunca antes explorado. Fazem-se analogias com bandos de pássaros, cardumes de peixes, enxames de insetos que, em situações específicas, conseguem comunicar-se de forma coletiva, assumindo magicamente configurações altamente sincronizadas, defensivas ou ofensivas.

Não distinguir entre o falso e o verdadeiro, além de ser um problema eterno e insolúvel, parece ser menos propenso a provocar o apocalipse apreogoado. Já do crescente comportamento de “manada” possibilidtado pela rede, podem surgir consequências imprevisíveis.

Segue alguma provocação, de simples observador, tendo lido alguns textos a respeito. Parece sólido afirmar que as pessoas, em sua grande maioria, sempre seguiram posições e ideias dos que consideram dignos de ouvir ou seguir. Afinal, no meio das ocupações diárias nem sempre resta tempo para aprofundamentos em temas diversos. Havia, assim, nosso crítico de cinema preferido que indicará um filme, o analista econômico que escolhemos e que desenhará o cenário vislumbrado, o veículo de informação no qual nos fiamos com mais frequência, etc. Pode-se dizer que, fora da nossa área de experiência, tendemos sempre a acompanhar alguém. Esses “guias” que de alguma forma escolhíamos para acompanhar com mais frequência eram, em geral, poucos indivíduos ou meios de comunicação. E boa parte da população, sempre atarefada, preferiria gastar o pouco tempo disponível com entretenimento, indicado por alguém ou não.

A Internet alterou isso profundamente. Não só há milhões que podemos agora ouvir ou seguir, como nós mesmo podemos tomar posição ou, simplesmente, repetir o que ouvimos e, com isso, também afetar os demais. Se antes, na medida de nossa disponibilidade e conveniência, escolhiamos a quem seguir ou imitar num tema, hoje somos cooptados, não só a acompanhar e emular um número imenso de “influenciadores” e veículos, como a fazê-lo de forma muito rápida e, portanto, superficial. Não precisamos gastar o bestunto para analisar se o que estamos aplaudindo ou repetindo é certo ou errado, verdadeiro ou falso. Bastará que estaja provindo de alguém que faz parte daqueles que seguimos. Assim, a imitação do comportamento alheio – que sempre houve – ganha proporções muito maiores com a Internet.

Outro ponto que pode ser causador de disrupção é a horizontalidade que a rede trouxe. Claro que é fundamentalmente positivo que todos se comuniquem e sejam acessíveis, mas a disponibilidade indiferenciada, potencializada pelo mimetismo citado acima, gera uma vulgarização de intervenções não apenas sem base mas também sem decoro. Afinal se posso me manifestar sobre qualquer tópico – e especialmente se meu líder do momento vai numa direção – posso criticar qualquer posição divergente, independentemente da qualidade ou especialidade de quem a emite. Hoje todos podem desmentir todos e, ainda por cima, em liguagem altamente agressiva, sem que haja nenhuma base factual além dos argumentos “ad hominem”.

Voltando a comportamentos coletivos, redes sociais podem ter consequências para nós ainda não avaliadas. Há na Internet vídeos que mostram surpreendente comunicação entre indivíduos dum bando. Enxames de vaga-lumes, por exemplo, sincronizam-se, e terminam por piscar todos, simultaneamente… Isso pode até ser bom para pirilampos, mas parece-me muito perigoso se humanos, estimulados pela rede, passarem a adotar esse tipo de sincronização.

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artigos sobre os riscos das redes sociais:

https://www.vox.com/recode/2021/6/26/22550981/carl-bergstrom-joe-bak-coleman-biologists-ecologists-social-media-risk-humanity-research-academics

https://www.pnas.org/content/118/27/e2025764118

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auto-sincronização de pirilampos:
https://www.youtube.com/watch?v=d77GdblhvEo&t=70s




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terça-feira, 31 de agosto de 2021

Cambalache

No álbum branco de Caetano Veloso, 1969, há a faixa que Gardel já havia gravado, Cambalache, letra e música de Enrique Discépolo. Adolescentes, ouvíamos com um sorriso a música cantada em espanhol contendo mensagem bastante crítica ao estado de coisas, mas sem ter a menor noção de que sua feroz ironia poderia perder totalmente a graça uns 50 anos depois…

Daí, constato que sou velho - o que em si não é uma má notícia, tendo em vista as alternativas… Entre os inúmeros indícios da idade, posso começar, por exemplo, pelo meu desconforto com leituras amplas do que seja “arte”. Exemplifico com “a fonte”, ou o “urinol” de Duchamp, que é de 1917 e anterior a Cambalache. Claro que não sou competente para comentar tecnica ou artisticamente isso mas, definitivamente, não cai no meu gosto. Reconheço grande criatividade na obra, mas creio que estaria melhor numa categoria de “humor” ou “crítica”, que em “escultura” (aliás, as “sete artes” originais ainda seriam sete?).

A conexão com Cambalache veio ao ler uma notícia nesta semana, informando que um garoto de 12 anos conseguiu arrecadar uma pequena fortuna vendendo NFTs (“Non-Fungible Tokens”) na Internet. NFT poderia ser traduzido para “objeto insubstituível” mas, porque alguém pagaria para ter um? A pulsão humana em colecionar coisas não é novidade, e deve ser vestígio de nossa fase de caçadores-coletores. Quem sabe foi ela que nos levou a colecionar selos, moedas e outros produtos do artifício humano, mas aqui há, também, o perigo de extrapolações mais difíceis de explicar. Lembro, por exemplo, de um artista italiano no início dos anos 60, cuja “pièce de résistance” era uma coleção de latas, numeradas e datadas, contendo... fezes humanas. A obra chamou-se “Merde d’Artiste” e há exemplares ainda à venda, na Internet…

Como humor, como charge e como contestação, seria perfeito. Como arte, entretanto, certamente não atende meu tacanho gosto pessoal.

Voltando aos NFTs, trata-se de objetos que, com a adição de uma assinatura digital, tornam-se únicos e, assim, ganham a atenção de colecionadores interessados que investiriam para ter posse de um. Note-se aqui que esta posse também é apenas virtual, diferentemente das latinhas citadas acima.

Uma obra executada por meios eletrônicos pode ser assinada digitalmente usando-se um processo derivado do “blockchain”, e assim ir a venda ou leilão como “objeto único”, podendo obter lances elevados. No caso do garoto, ele produziu uma coleção chamada de “Weird Whales”, “baleias estranhas”, consistituida por 3350 pequenos desenhos digitais de baleias com acessórios. Conseguiu vender a colação toda em poucos dias. Há técnica precoce, arte e criatividade no trabalho dele, que merece recompensa. O que pode parecer um oxímoro é que, a algo que consegue ser reproduzido indefinidamente e mantendo rigorosa fidelidade à sua essência como é o caso da produções digitais, possa associar-se uma unicidade conceitual, um NFT. A distinção entre objetos e idéias tornou-se cada vez menos clara. Quando Tomas Jefferson afirmou que a transmissão do conhecimento e de idéias era como “acender uma vela na chama de outra”, ou seja quem recebe a luz não a rouba de quem a repassou, certamente não tinha previsto os novos tempos...

O efeito da Internet em reforçar esse comportamento é implacável: há uma compulsão universal, na rede, de seguirem-se tendências, para o bem ou para o mal, sem que se gaste tempo em pensar sobre elas. Nos dizeres do Cambalache, “vivemos misturados num mesmo lodo, todos manuseados”.

Do meu lado reconheço que preciso de um “aggiornamento” nesses temas, mas, afinal, estou velho e de certa maneira satisfeito com minha forma de pensar e ver as coisas. Mas vou aproveitar e procurar boas ofertas de NFTs na Internet, para iniciar minha própria coleção!...

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Cambalache, cantado por Gardel e por Caetano:
https://www.youtube.com/watch?v=SvMcaSgiMro
https://www.youtube.com/watch?v=K3vuRcmDI8g

e com Raul Seixas, em português:
https://www.youtube.com/watch?v=7roDWoU2L8Y

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A "fonte", de Duchamp:
https://en.wikipedia.org/wiki/Fountain_(Duchamp)

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A "Merde d'Artiste", de Piero Manzoni:
https://en.wikipedia.org/wiki/Artist's_Shit

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Dois artigos sobre os NFT citados (Weird Whales):
https://futurism.com/the-byte/12-year-old-400000-selling-nfts-to-idiots

https://www.loop-news.com/p/a-12-year-old-kid-coded-his-own-nft





terça-feira, 17 de agosto de 2021

O reconhecimento por Imagem

A enxurrada de informações a que estamos submetidos, muitas vezes nos rouba a clareza necessária para avaliar não apenas a importância de determinada medida, mas também seus possíveis efeitos colaterais. Aliás, até parece proposital que temas importantes de debate sejam enfraquecidos através do desvio de foco para assuntos subsidiários.

Veja-se como exemplo a discussão sobre existência ou não de “viés” no uso de inteligência artificial em dispositivos equipados para reconhecimento de imagens. É muito razoável assumir que nos conjuntos de dados usados para a montagem de um sistema de reconhecimento automático de indivíduos existam significativos desequilíbrios quanto à homogênea e equitativa participação de amostras das diferentes etnias a culturas. Mas seria esse o ponto principal de discussão? Se faltam amostras de determinada etnia, o sistema deveria captar imagens adicionais para resolver essa carẽncia? Ou, e até com a nova LGPD, luta-se exatamente no sentido de diminuir a sanha de captura de dados e imagens nossas na rede? A ordem de discussão que parece prioritária seria, antes, debater a validade das intromissões que existem ao se procurar identificar automaticamente cada pessoa com base em sua imagem previamente armazenada. Se a conclusão for de que, sim, é útil e traz benefícios que sejamos identificados em cada ambiente em que nos encotramos pelas onipresentes câmaras, daí deveríamos buscar que essa aplicação tenha alcance global e atinja a todos igualmente. Se a decisão for, porém, em sentido contrário quanto ao uso da identificação de imagem automática obrigatória, parece contrasenso buscar expandir a todos algo que foi considerado não benéfico, ou abusivo. Ou seja não haveria porque corrigir qualquer viés aqui...

Ainda no mesmo tema, a decisão recente da Apple de, sob o argumento eventualmente honesto de combate à pornigrafia infantil, passar a examinar todas as fotos que usuários guardam na nuvem, deve ser examinada de forma muito cuidadosa. Argumenta-se que um dos problemas técnicos que poderiam ocorrer são os “falsos positivos”, dado que a base de fotos que seria usada como parâmetro já possui cerca de 20% de incorreções. Mas, valeria a pena lutar para limpar essas imperfeições da base (viés) de forma a eliminar os “falsos positivos”, ou o sistema em si, seja ele falho ou perfeito, já representa uma intromissão indevida em nossa privacidade? Isso não cai muito longe de implantarem-se câmaras em todas as casas com a finalidade de monitorar comportamentos adequados ou não de seus moradores! Os detalhes técnicos sobre possíveis ou prováveis viéses e erros de detecção não podem obliterar o que deveria ser o fulcro de discussão sobre a principal característica do sistema, que é buscar acesso direto ao conteúdo do que enviamos, colocando-nos, a todos, como suspeitos em potencial. Mesmo com todas as promessas de uso adequado e não vazamentos de dados, parece um abuso que, unilateralmente, alguém se meta a espionar o que enviamos.

Essa possível intromissão remete ao sempre citado “1984”, onde está postulado que “se alguém quer manter um segredo, deve escondê-lo até a si mesmo”. Afinal, a “polícia do pensamento” estará sempre atenta para detectar os que praticam “crimes de pensamento” e puní-los adequadamente...

Antes de se discutirem os detalhes técnicos de “como” algo deveria ser feito, parece muito importante que se avalie com antecedência se aquilo deveria mesmo ser feito, ou se os riscos e abusos que poderia acarretar a direitos fundamentais bastariam para que a proposta seja banida.

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terça-feira, 3 de agosto de 2021

Legislação sobre a Internet

Em recente artigo, Akriti Bopanna e Diego Canabarro examinam os objetivos e os riscos de legislações sobre a Internet, na India e no Brasil. Os projetos são bastante similares (no caso brasileiro trata-se do PL 2630, conhecido como “Projeto de lei das Fake News”) ao buscar, entre outros pontos, meios de rastreamento das informações que circulam na rede. O título do artigo, “Um conto de duas propostas de rastreabilidade”, remete ao “Conto de Duas Cidades”, de Charles Dickens, em cujo começo lemos: “aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero…”.

Essa ambiguidade entre os objetivos declarados da legislação e suas consequências, muitas vezes desastrosas, está cada vez mais presente em projetos que tramitam em diversos países. Elaborados muitas vezes de forma apressada e sem a necessária maturação que um amplo debate público poderia trazer, sob a égide de objetivos “elevados”, frequentemente trazem junto riscos aos usuários e à própria Internet, de se verem indevidamente controlados ou cerceados. Uma legislação alemã, por exemplo, à guisa de proteger direitos autorais, não apenas dá direito como obriga plataformas a removerem conteúdos denunciados como potencialmente infringentes de direitos. Assim, além de repassar mais poder a elas - que já o tem com abundância no mercado internacional - assume a priori que o denunciado é culpado enquanto não provar sua inocência: a punição é aplicada imediatamente, com a remoção do conteúdo questionado.Os Fins e os Meios

Do lado das Américas o Canadá também anda “inovando” na área. Tramita lá o projeto de lei C-10, já aprovado na Câmara – justamente nas últimas horas dos trabalhos legislativos antes do recesso - e seguirá agora ao Senado. O projeto, bastante complexo e polêmico, tenta definir o que seja “conteúdo nacional” e privilegiar sua disseminação na rede, inclusive quando se tratar de material publicado por indivíduos. Ou seja, é possível que os vídeos que os usuários colocam em plataformas possam ser prejudicados se não demostrarem a priori que possuem origem canadens. Como se faria isso, é outra e imponderável questão...

Em outra exemplo, e esse com o argumento de se combater a organização de crimes pela rede, há proposta em discussão da Inglaterra que pede às plataformas a implementação de formas de quebra da criptografia em mensagens de usuários, ou do acesso ao texto original via uma “porta dos fundos” sorrateiramente implementada nos sistemas.

Num ambiente dinâmico e em expansão como a Internet, é claramente necessário o acompanhamento e a atualização do arsenal legislativo, para proteger principalmente os direitos dos cidadãos. Há uma forma boa de se conseguir essa constante atualização: trata-se de seguir os passos do que foi feito no caso do Marco Civil, uma legislação louvada internacionalmente como das melhores para a Internet. Assim, o “caminho das pedras” é conhecido e passa por discutirem-se a fundo os possíveis objetivos visados e, especialmente, evitarem-se nefastos efeitos colaterais, que acabem por privar-nos de bens maiores. Buscar açodadamente um objetivo, por quaisquer meios e sem levar em conta seus efeitos, é mau. Georges Bernanos, escritor francês que viveu no Brasil durante a segunda geurra, tem uma frase que ilustra bem esse risco: “o primeiro sinal de que a corrupção se instala numa sociedade ainda viva, é que os fins passam a justificar os meios”….

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No Estadão:
https://link.estadao.com.br/noticias/geral,na-regulamentacao-da-internet-os-fins-nao-podem-justificar-os-meios,70003798014

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O artigo citado:
https://obcrypto.org.br/#/post/um-conto-de-duas-propostas-de-rastreabilidade-intencoes-opostas-solucoes-perversas-convergentes-na-india-e-no-brasil

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Georges Bernanos, "Why Freedom?" The Last Essays of Georges Bernanos, 1955
(1888 - 1948)  
http://www.quotehd.com/quotes/georges-bernanos-author-the-first-sign-of-corruption-in-a-society-that-is-still-alive



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Artigos sobre o tema:
https://www.michaelgeist.ca/2021/05/this-is-who-the-canadian-government-wants-to-regulate-the-internet/
https://nationalpost.com/news/politics/crtc-chairman-under-fire-over-one-on-one-meetings-with-big-telecom-lobbyists
https://www.reuters.com/world/americas/canada-unveils-plans-make-online-hate-speech-crime-2021-06-23/
https://www.bloomberg.com/news/articles/2021-06-22/trudeau-s-party-passes-bill-to-regulate-social-media-streaming
https://www.techdirt.com/articles/20210802/08443047289/canadian-government-continues-war-internet-freedom-with-new-online-harms-legislation.shtml

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Legislação em Portugal:
https://expresso.pt/politica/2021-07-29-Marcelo-envia-para-o-Constitucional-artigo-polemico-da-Carta-dos-Direitos-Digitais-68a42069

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terça-feira, 20 de julho de 2021

A serendipidade perdida

Há ano e meio que nosso ritmo de vida tem sido pautado pela Covid que assola o mundo. Ela não é apenas o tema da maioria dos noticiários e das conversas pessoais, mas também variável que afeta economias e nos ameça com um futuro ainda mal-definido, alcunhado de “novo-normal”.

A peste fez que, rapidamente, as comunicações inter-humanos migrassem para formas eletrônicas e remotas. Conversas, reuniões, aulas hoje são feitas usando plataformas (e, claro, com a indefectível adição de novas gafes e ratas…). A restrição nas idas aos estabelecimentos físicos, estimulou a entrega em domicílio de materiais e mercadorias. Afinal é a velha distinção entre bits e átomos: se os bits transitam com agilidade pelas conexões Internet nas trocas de informação e interações, a entrega física de átomos dependerá sempre de ldeslocamento físico… Para não perder a piada, “não há ainda no horizonte previsão de entrega de matéria via Internet”.

É bom acompanhar a evolução da peste para intuir, talvez, algum sinal de arrefecimento. Para testar nosso desassossego, há uma infinidade de dados e curvas a que podemos recorrer via internet, mas ainda não se vê nada muito promissor. As curvas de casos mundiais seguem um estranho desenhio de “montanha russa”, com subidas, caídas e novas subidas sem que se atine minimamento com uma explicação.

Uma análise mais objetiva das consequẽncias deste período ainda demandará tempo. Alguns pontos já ressaltam: certamente mostra-se indispensável o acesso de todos, sólido e eficaz, à rede. Em linha menos óbvia, por exemplo, há meses fala-se de uma carência de circuitos integrados (chips) no mercado, com um misto de fatores que influiram. Em recente artigo num blog da revista Spectrum, do IEEE, analisa-se esse ponto: se houve um desaquecimento de diversas indústrias consumidoras, como a automobilistica, houve, por outro lado, um impulso com a busca de dispositivos de acesso, conexão à rede e entretenimento. Agora, com a paulatina volta de setores que desaceleraram, os fabricantes de chips viram-se incapazes de atender à onda de demanda. Segundo o blog, isso começará a se normalizar durante o segundo semestre de 2021, mas apenas em 2022 voltaremos ao normal. Na pandemia, acelerou-se a disseminação de interfaces automatizadas que operem com linguagem natural e aplicações de Inteligência artificial no atendimento ao público. E, afinal, há oportunidades para sistemas que garimpem intensamente dados e perfis e, até, para os que simulam comportamento humano, não apenas exibindo linguagem natural, mas podendo comportar-se como “indivíduos” com determinado perfil ou idade, compondo textos que facilmente passariam por reais.

Haverá um “novo normal” ou voltaremos basicamente ao que havia antes? Claro que as experiências por que estamos passando deixarão sua marca no comportamento futuro mas, pessoalmente, torço pela volta de algo o mais próximo do “velho normal”. Há uma palavra inglesa,“serendipity”, que vai sendo incorporada como “serendipidade” e refere-se a acontecimento inesperado, fortuito, e benéfico. Como quando ao tropeçar em algo bolamos uma invenção. No “velho normal” muitas vezes em conversas ao redor do café, em esbarrões nos corredores, ou no lanche do almoço surgiam idéias valiosas que mudariam o curso dos acontecimentos. Um caso antigo famoso foi a descoberta por Flemig da penicilina – numa placa acidentalmente desprotegida cresceu um fungo que matava bactérias. Em acaso feliz, descobria-se a penicilina! Com o uso remoto a serendipidade diminuiu pois estamos muito mais enquadrados quando falamos em reunião virtual. Precisamos recuperar a possibilidade de toparmos com um benfazejo, inesperado e repentino “estalo”.

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https://link.estadao.com.br/noticias/geral,precisamos-recuperar-a-possibilidade-de-acontecimentos-fortuitos,70003783458

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Sobre a carência de "chips" no mercado:

terça-feira, 6 de julho de 2021

Apostas no escuro

Um relatório das Nações Unidas sobre uma reunião de especialistas do conflito na Libia deixa a entender que, em março de 2020, houve um ataque “bem sucedido”, feito autonomamente por “drones do tipo quadricóptero”. Os tais veículos aéreos não tripulados contariam com câmera, armamento e, claro, a indefectível inteligência artificial para os guiar e tomar as decisões.

Na cruenta história das guerras, a supressão de vidas em combates foi uma constante, e acabam representadas por frias tabelas numéricas e estatísticas anódinas. Exceto nos casos acidentais, as mortes foram resultantes da ação deliberada de humanos, seja em combates corpo-a-corpo, seja em bombadeiros. Mas mesmo nos piores casos, há linhas éticas que devem ser respeitadas, e efeitos colaterais que precisam ser minimizados. Veja-se por exemplo a necessidade de se removerem as minas anti-indivíduos que ficaram sem ter sido detonadas, para que não se tornem, anos depois, ameaças a terceiros. Há acordos internacionais que preveem limitações em armas nucleares, químicas e biológicas, numa tentativa de demarcar a linha ética que não se deveria cruzar.

Como se coloca aí o problema de equipamentos autônomos com IA? Pode-se argumentar que, com o avanço da IA e dos equipamentos, o número de erros que essas máquinas fariam seria menor que se essas mesmas operações estivessem a cargo de humanos. Eu não compro esse argumento... Delegar decisões, mormente as que envolvem vida ou morte, a máquinas, além de parecer uma declaração tácita de falêncĩa moral, pode carrear consequências que não se conseguiria avaliar hoje. Lembro da cena do filme baseado em conto de Arthur Clarke “2001, uma Odisséia no Espaço”, em que um computador com IA - o HAL 9000 - decide não permitir que o astronauta volte à segurança da nave, porque o programa chegou à conclusão de que isso colocaria em risco o objetivo final da missão… Mais um caso em que o fim buscado justificaria os meios, na voz sintética do HAL 9000: “esta missão é muito importante, e não vou permitir que você a coloque em risco”

Outro argumento é o de que, se houver uma auditoria profunda nos programas escritos, teríamos como prevenir ou impedir viéses e fatalidades. Também não me convence esse argumento. Como exemplo, vejam-se os programas que aprendem a jogar xadrez, partindo apenas das regras do jogo e usando aprendizagem de máquina. Com algumas horas de treino esses programas ganham de grandes mestres e, com muito mais facilidade, claro, do mesmo humano que escreveu o programa original. Ou seja, evoluiram para examinar autonomamente situações de jogo e, sem trapaça, montar uma estratégia ganhadora imbatível.

Temos uma tendência atávica de abrir “caixas de Pandora” que pode nos levar à autodestruição. Tópico do momento: hoje se pesquisa e debate a origem do virus da Covid. Saiu de laboratório ou da natureza? Não tenho a menor competência para opinar mas, pessoalmente, ficaria mais confortável se ele fosse o resultado de um experimento que vazou. Tento explicar: se for algo da natureza, estamos diante de situações perigosas, de difícil prognóstico e controle. Mas se foi um produto humano que escapou acidentalmente, isso poderia se enquadrar - caso análogo a alguma IA – em uma ousadia humana impensada, que pode gerar acidente devastador. Aqui sempre poderiamos declarar que “a linha de prudência foi ultrapassada” e que certos experimentos devem obedecer a restrições éticas e morais.

Há uma frase centenária de G. K. Chesterton que, penso, ainda se aplica bem hoje: “Hoje aprendemos a fazer coisas maravilhosas. Nossa próxima tarefa é aprender quando não fazê-las”...

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Informações sobre o ataque:

https://www.livescience.com/ai-drone-attack-libya.htm

https://undocs.org/S/2021/229

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Video sobre o HAL 9000 em "2001, uma Odisséia no Espaço":

https://www.youtube.com/watch?v=Jkv-lNAqfmk




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Frase de G. K. Chesterton citada:

https://www.chesterton.org/quotations-of-g-k-chesterton/

“We are learning to do a great many clever things…The next great task will be to learn not to do them“                        Queen Victoria, 
Varied Types

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Inteligência Artificial confundindo uma bola com a cabeça de um humano calvo...

https://www.youtube.com/watch?v=HjJmO9NvKL8


terça-feira, 22 de junho de 2021

Gravado em Silício

Há um vídeo na Internet em que Peter Hochschild, um pesquisador da Google, descreve a identificação de comportamentos erráticos em módulos de processamento. O adjetivo que ele usa para isso é interessante: “comportamento mercurial”. O romano Mercúrio, Hermes dos gregos, era o deus da comunicação e também do comércio. Dotado de sandálias aladas, era rápido mas muitas vẽzes errático e incerto. E de comportamento imprevisível nem sempre claro: uma comunicação “hermética” refere-se a algo obscuro, não facilmente inteligíveil… O mercúrio, metal fluido e vivaz, prata-líquida ou prata-viva, faz jus ao nome.

Não é nenhuma novidade que a crescente miniaturização dos componentes de circuitos integrados de silício cria fragilidades. Uma célula de memória atualmente é tão pequena, e com tão pouca carga elétrica associada, que eventos de radiação cósmica ionizante, partículas alfa, ou mesmo alguma radioatividade do invólucro poderiam alterar algum “um” para “zero”, ou vice-versa. Há diversas formas de proteção contra esses riscos: a inclusão de algum tipo de verificação de consistência dos dados que detecte alterações ou, em casos mais críticos e sofisticados, a adição de informação redundante que permita não apenas apontar uma corrupção nos dados, mas consertá-la, desde que pontual e não disseminada. Do lado dos processadores, em aplicações muito críticas, ou onde há exposição a agressões maiores, como em aplicações espaciais, pode-se aumentar a segurança provendo a triplicação de recursos computacionais. Desta forma, em caso de alguma discrepância, haverá uma “maioria” que permita descartar o dissonente e dar mais segurança ao resultado.

Poderia haver aí uma analogia com as formas da evolução biológica? Afinal, somos o que somos porque uma infinidade de transformações aleatórias, devidamente filtradas e sancionadas pelo ambiente, nos trouxe a esse estágio. O risco de alterações inesperadas pode ser devastador, mas é atenuado quando se dispõe de alguma redundância. Há mecanismos que buscam automaticamente consertar “erros” em DNA, e biólogos poderão falar disso muito melhor mas, para um mero engenheiro, o fato do DNA ser uma fita dupla já parece uma ajuda importante em prevenir mutações caóticas: uma fonte adicional de dados provê aos reparadores automáticos uma segunda referência...

Problemas causados por fatores exteriores não se confundem com erros gerados por deficiências no projeto do “hardware” ou falhas na programação em “firmware” ou “software”. Há diversos casos bem documentados de erros encontrados em versões de equipamentos e que, uma vez indentificados, foram corrigidos nas versões seguintes. Um caso famoso, por exemplo, é o relacionado a problemas de cálculo em divisões em ponto flutuante de processadores Pentium em 1995, que foi rapidamente consertado. Uma outra fonte de surpresas, mas que não seria um “erro de projeto”, é a existência de instruções ocultas, não documentadas nos manuais. Como exemplo pessoal, lembro que o processador Motorola 6800 tinha uma instrução não documentada conhecida como HCF (Halt and Catch Fire, ou “pare e pegue fogo”), que fazia o processador transformar-se num simples e impávido contador sequencial.

A preocupação suscitada agora não é comportamento errático gerado por falhas de projeto ou de programação, e nem mesmo o efeito corruptor que elementos externos como radiação e partículas incidentes possam causar na exatidão do processamento, mas uma característica errática, não especialmente rara, que vem sendo detectada em processadores de alta capacidade e alta densidade. Um ponto de alerta preocupante: parece que nem o que está “escrito em siício” é imutável ou plenamente confiável.

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Mercúrio, muito adequadamente, é símbolo de algumas bolsas de valores (abaixo, a da Argentina)
https://www.bcba.sba.com.ar/el-clasico-emblema-de-la-bolsa/




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Vídeo citado, artigo sobre ele, e bits que mudam:
https://www.youtube.com/watch?v=QMF3rqhjYuM
https://www.theregister.com/2021/06/04/google_chip_flaws/
https://www.johndcook.com/blog/2019/05/20/cosmic-rays-flipping-bits/

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DNA e seus reparos:
https://courses.lumenlearning.com/boundless-biology/chapter/dna-repair/

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O "bug" de ponto flutuante do Pentium
https://en.wikipedia.org/wiki/Pentium_FDIV_bug

História do Motorola 6800 e a descrição da instrução (HCF) não documentada
https://www.embarcados.com.br/40-anos-motorola-mc6800/

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"Mercurial", em:
https://nepe.wab.com.br/pesquisa-dicionario?query=mercurial
"Cujas reações ou comportamentos são intempestivos, intensos; que reage de maneira inesperada, impulsiva, repentina ou sem reflexão, diante de alguma situação; temperamental, impulsivo."

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No Link:
https://link.estadao.com.br/noticias/geral,comportamento-erratico-em-processadores-e-preocupante,70003754428


terça-feira, 8 de junho de 2021

O Prurido dos sete anos...

Neste junho a coluna completa sete anos e sete é um número especial. Se, por um lado, Camões nos lembra que Labão serviu sete anos para obter Raquel, mas ficou com Lia, por outro há uma deliciosa comédia dos anos 50 “The seven year itch” e que para nós foi trazida como “O pecado mora ao lado”. Assim, cedendo aos pruridos que os tais sete anos provocam, e já pedindo as vênias de praxe, cometerei o pecadilho de navegar em águas que não albergam meu “lugar de fala”, um simples engenheiro, mas que me permitirão algubs comentários pontuais: nossa língua, de que sou incompetente mas ardoroso defensor.

Veja-se, então, o uso de palavras exóticas, especialmente importantes e frequentes em campos como tecnologia e informática. Sendo a língua viva e dinâmica, os novos conceitos exigem a importação ou criação de palavras, especialmente quando não se encontra um sinônimo adequado. Neologismos são importantes. Lembro-me, por exemplo, do professor de português do ginásio tentando inutilmente convercer-nos a usar “ludopédio” ou “pedibólio” em lugar de “futebol”: uma cruzada quixotesca. Era mais que evidente e lógico que “futebol” seria o termo a prevalecer: importação adequada e razoável. Mas o desarrazoado e pretencioso seria escrever-se “football”. Penso que sempre se deva aportuguesar as palavras exóticas que passaem a se incorporar à “última flor do Lácio”. É o que ocorreu com cheque, voleibol, basquete, sutiã, abajur e tantas outras que se integraram ao português. Usar um estrangeirismo sem adaptá-lo à grafia nacional, pediria o uso de “muletas” como aspas ou itálico... Millôr Fernandes escrevia “saite” quando se referia às páginas da Internet - afinal os garotos que começam a estudar a língua não podem imaginar que o “i” em “site” tenha estranhamente o som de “ai”. E já que me atolei nesse tema, sigo no pântano: para mim, por exemplo, a reforma que eliminou o trema é elitizante! O trema em “freqüente” ensinaria aos alunos que o “u” é audível nesta palavra, ao contrário de “quente”, onde o “u” é mudo. Sem o trema, um autodidata, ou alguém menos familiarizado com a língua culta, estaria exposto à segregação por mostrar pronúncia deficiente.

Ainda em neologismos, a pressa em criar palavras novas nem sempre permite a devida atenção à semântica das raízes que as compõem. Todos sabemos que “fobia” é “medo”, enquanto “ódio” é “misia”. O misógino odeia mulheres, e misantropo odeia humanos. Mas a torto e a direito vê-se o uso de “fobia” como “ódio” ou “aversão”. Nessa linha esquisita - e já pedindo desculpas pelo chiste - o que seria hoje um “claustrofóbico”? Alguém que “odeia mosteiros”? Nas justaposições, outro exemplo que me deixa incomodado é “paralímpico”. A junção de “para” com “olimpico” deveria dar “parolimpico”, como sempre se fazia. Como exemplo, gastro + enterologia dá gastrentorologia, e não “gastronterologia”.

O mais triste é ver a mera substituição de palavras nossas, perfeitamente expressivas e utilizáveis, apenas com a intenção de mostrar sofisticação ou atualidade. Cartazes apregoando “sale” em lugar de “liquidação”, “off” em lugar de “desconto”, ou “delivery” no lugar de “entrega a domicílio”. Nem haveria o que aportuguesar aí, dado que já tínhamos o equivalente em nossa língua. Sou diabético e peço refrigerantes dietéticos, mas me dizem para pedi-los “dáite”.

Não se pode minimizar a necessidade de adição de elementos novos em nossa língua. Em tempos tão dinâmicos, a iimportação se impõe com frequência. Mas ao fazermos esses enriquecimentos, que as novas palavras sejam escritas na forma prosódica de nossa língua. Nesse ponto podiamos seguir um pouco mais de perto o que nossos irmãos lusos usam e fazem. Claro que poderemos e deveremos sempre adicionar nosso tempero tropical (ou será ele “spicy”?). Perdão, leitores!

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Texto interessante e divertido sobre estrangeirismos:
http://www.tradutoradeespanhol.com.br/2013/08/extrangeirismos-na-lingua-portuguesa.html






terça-feira, 25 de maio de 2021

Onde mora o perigo...



Chamou a atenção na semana passada uma carta aberta da ISOC (Internet Society) ao primeiro-ministro do Canadá alertando sobre sérios riscos à Internet e às liberdades individuais, embutidos em legislação que se está discutindo no Canadá. O projeto de lei visa oficialmente a nivelar o tratamento de empresas que trabalham com transmissão (“broadcast”). Alega-se, com bastante razão, que a lei de 1991, que regula as transmissões de rádio e tevê, não contempla transmissões via Internet, então ainda incipientes.

A carta, assinada por dezenas de indivíduos historicamente ligados à Internet, causa alguma surpresa dado que o Canadá sempre foi considerado um baluarte da Internet aberta e livre, sendo frequentemente citado como exemplo. O que estaria ocorrendo de errado agora? O cenário nestes novos tempos é amplo e complexo. Note-se, por exemplo, o que passa em governos como o da Grã-Bretanha, que estão se movendo para coibir o uso de criptografia. Os argumentos variam, desde o de proteger crianças, até o de combater terrorismo, mas são frágeis a um exame mais detalhado. Certamente não são as figuraas do submundo que acabarão sendo atingidas, mas sim os usuários comuns, que tentam conservar o pouco que lhes resta de privacidade. São esses as potenciais vítimas de uma proibição do uso da criptografia, ou de seu enfraquecimento com a criação de “portas dos fundos” em provedores e aplicações.

Outro ponto, também objeto da carta aberta, é o possível ataque a estruturas básicas da rede. Uma coisa é, ao combater abusos e crimes atuar sobre aplicações e plataformas; outra, completamente diferente, é atingir a estrutura de transporte e interconexão que constitui o núcleo da rede. Ações diretas nessa infraestrutura podem resultar em imediata quebra de neutralidade da rede, impedindo a livre navegação e gerando zonas de exclusão. Se, sob o pretexto de sua própria proteção, os usuários forem proibidos de chegar a locais da rede, além da óbvia tutela de adultos, abrem-se as portas para uma infinidade de violações de liberdade muito mais sérias.

Finalmente, outro argumento que também se veste de “protetivo” é o de buscar eliminar conteúdos em seu nascedouro, antes mesmo de sua distribuição, para “coibir danos maiores”. De alguma forma isso me lembra o filme “Minority Report”, onde um sistema de previsão – baseado em videntes humanos, mas nada impederia seu transporte para a inteligência artificial – identificaria um “criminoso” antes mesmo que um crime fosse cometido, e já se armava sua “detenção preventiva”. Indo mais longe, Cesare Lombroso pregava no início do século passado que alguém estaria predestinado a ser mantiroso (ou violento, ou ladrão) baseando-se em suas assimetrias e medições faciais. Nos livramos de Lombroso, mas hoje há uma confusão, talvez proposital, entre definir formas de punição a delitos, e buscar maneiras de impedir que eles sequer ocorram. Levando o argumento ao limite, se todos forem proibidos de se expressar, não haveria como cometer crimes de calúnia, difamação ou injúria… Ou seja, até para coibir e punir abusos é necessário, a priori, haver liberdade de expressão para que, depois, se possa buscas os eventuais abusos. Suprimir a liberdade de expressão como forma de limitar abusos é condenar a priori, mesmo que travestido de proteção.

A carta sublinha riscos deste tipo. Certamente há necessidade de se discutir regulação de camadas sobre a Internet, mas preservando infraestrutura e indivíduos. Ao se buscar um regime uniforme para plataformas de transmissão de conteúdos , seja via Internet, seja pelos meios tradicionais de rádio e tevẽ, deve-se cuidar para não colocar no mesmo balaio os “broadcasters” e o que os indivíduos produzem com sua liberdade de expressão; Todos arcam, claro, com a responsabilidade pelas suas ações, mas sempre a posteriori e seguido o rito judicial canônico.

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A carta aberta da ISOC a Justin Trudeau;
https://www.internetsociety.org/open-letters/open-letter-to-government-of-canada/

e uma análise da proposta lei canadense:
https://www.theglobeandmail.com/politics/article-what-is-bill-c-10-and-why-are-the-liberals-planning-to-regulate-the/

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Criptografia e UK:
https://bazzacollins.medium.com/how-the-nspcc-rigged-its-report-on-the-dangers-of-end-to-end-encryption-bcd4dce0c410

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Texto sobre Cesare Lombroso, na Wikipedia:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cesare_Lombroso

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Um resumo de Minority Report e o "trailer"
https://advocaciamarizdeoliveira.com.br/the-minority-report/
https://www.youtube.com/watch?v=8E0sX5So_uo






terça-feira, 11 de maio de 2021

Arcaísmos

Um “ano de cachorro” equivaleria a sete anos humanos. A rápida evolução da Internet ocorre a passos de “anos de cachorro”, senão ainda mais velozmente. Os trinta anos desde a conexão à Internet já teriam gerando mais mudanças que dois séculos convencionais, e resgatar o que então acontecia na comunicação via rede é quase uma atividade de arqueologia.

A grande atração dos anos 90 era o correio eletrônico: quem o usava era digno de consideração, e receberia uma resposta ágil, mesmo que seu contactado fosse uma sumidade de outra forma quase inacessível. Rapidamente o correio eletrônico tornava-se ubíquo.

Ainda em tempos de Bitnet, resolvi acompanhar uma lista de acadẽmicos brasileiros no exterior, a Bras-net. Com tres sub-listas de distribuição, EUA, Inglaterra e Brasil, para uma distribuição mais eficiente, eu, que a imaginava um grupo sisudo e circunspecto, encontrei lá um pessoal animado e bem-humorado. Além de dicas sobre onde encontrar pertences para fazer uma feijoada nos EUA, a Bras-net tinha... uma “rádio” via e-mail (!). A RUI, Rádio Uirapuru de Itapipoca, era tocada pelo “d.j. Mauro Pacatuba” (Mauro Oliveira, um cearense doutorando na UCLA). E a RUI transmitia até festa junina usando texto!. Uma “pândega!”, diriam os antigos.

Mas enquanto o correio eletrônico se expandia entre os acadẽmicos, existiam ainda outras formas de agregar interessados: as BBS (Bulletin Board System), usando linhas telefônicas, que contavam com um Sysop (o coordenador da BBS, usualmente seu dono) cuidando do funcionamento dia e noite. Os usuários ligavam para o tronco da BBS munidos de um modem, recebiam e enviavam recados aos demais membros, além de trocar informações e debater. Eram comunidades restritas muito ativas e, sob a batuta do Sysop, formavam vínculos de amizade que perduram até hoje.

Das muitas BBS no Brasil, cito apenas duas: a CanalVip de 1986, talvez a mais antiga, com o Sysop Paulo César Breim (PCB), e outra, a Mandic de 1990, que ganhou notoriedade e importância nas mãos do Sysop Aleksandar Mandic. Assim que as BBS notaram a clara vantagem de conectarem suas comunidades a uma rede ampla, iníciou-se a atividade de “provimento de acesso” à Internet, com BBS atuando como provedores. Nos EUA a “invasão” da Internet por usuários não acadêmicos já havia acontecido quando a populosa BBS CompuServ carreou centenas de milhares de usuários, mudando radicalmente o cenário da Internet.

Semana passada perdemos o Mandic, personagem emblemática do “caos criativo” que a Internet inicial vivia. Reforça-se a sensação de que é uma época que se vai. A trajetória do Mandic está bem documentada em vários artigos, mas a figura humana nem sempre transparece nos textos. Ele era de movimentos não previsíveis, um “alvo móvel”, como numa das frases de que gostava: “pior do que mudar de idéia, é não ter idéia para mudar”. Desde o começo difícil e ousado, até o sucesso espetacular obtido no final dos 90 passou ele por muitas fases diferentes. Chegou a possuir automóveis de luxo e até um pequeno avião, mas reavaliou seus objetivos, vendeu tudo e se limitou a um fusquinha azul, 72. Ao mesmo tempo em que mantinha uma sofisticada coleção de vinhos, ia comer em bares simples, desde que com comida e preço honestos, mas sem esnobar os lugares da moda. Mandic foi, sobretudo, um empreendedor com visão do futuro que sempre apoiou a equipe técnica de escol que tinha montado, e preservou seu clã de amigos. Permito-me um falso cognato com seu sobrenome: a avó paterna dele era de Corfu, Grécia. Em grego, “profetizador” é “mandis”, donde vem “cartomante”, aquele que adivinha vendo cartas. Se Mandic previu o futuro observando a rede (que é “dictyo”, em grego), poderia ter cunhado o neologismo “dictiomante”. Termino com duas das inúmeras frases que tanto amava, e que continuam válidas: “Se for mentir, seja breve” e “Pense grande! Afinal ninguém jamais falou de ‘Alexandre, o Médio’”.

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Sobre a Bras-net e a RUI:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/8/20/ilustrada/19.html
https://amauroboliveira.wordpress.com/4-barca-extensao/e-livros-publicados/apostilas/
https://amauroboliveira.files.wordpress.com/2011/05/1992-no-reino-encantado-do-barnet-parte-1.pdf
https://amauroboliveira.files.wordpress.com/2011/05/1992-no-reino-encantado-do-barnet-parte-2.pdf

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Alguma informação sobre listas de discussão no começo da rede no Brasil, em 
BR Domain | gomide@brfapesp.ansp.br |Brazilian Mailing List Info
            mailserv@brfapesp.ansp.br
            listserv@fapq.fapesp.ansp.br
            mailserv@fpsp.fapesp.ansp.br
            listserv@brfapq.ansp.br
            (Note: This is NOT a mailing list itself, rather, it is a way)
            (to find out more about Brazilian mailing lists. Send the command)
            (HELP or LISTS to any one of the above addresses.)
BRAS-CON  | listserv%frors12.bitnet@cunyvm.cuny.edu |Brasnet na Europa Continen.
BRAS-NET  | listserv%pccvm.bitnet@cunyvm.cuny.edu |Brazilian Net(Portuguese)
            listserv@vm1.lcc.ufmg.br
            listserv@brufmg.anmg.br
            listserv@brufpb.anpb.br
e em: 
https://crln.acrl.org/index.php/crlnews/rt/printerFriendly/20472/24846
BRAS-NET: Brazilian Discussion Group/Network. To subscribe send message to: <brasnet- request@cs.ucla.edu>. Several other Brazilian interest groups exist. To get more general info on these other lists, try sending an e-mail message to: <gomide@brfa pesp.bitnet> or to: <listserv@fapq.fapesp.br>.
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terça-feira, 27 de abril de 2021

A Roda do Tempo

 Quando descrevemos a evolução da tecnologia, notamos em muitos casos uma reabilitação de conceitos antigos. Não se trata do “eterno retorno” nietzschiano, mas de algo mais prosaico: reaproveitar ou “recauchutar” ideias já exploradas antes e que, por alguma razão, foram abandonadas, seja pelo surgimento de obstáculos instranponíveis, seja por limitações da tecnologia da época.

Uma situação que pode ilustrar essa retomada é o movimento pendular que ocorre na computação entre centralidade e distribuição, entre o local e o global. Se, no início, usar um computador obrigava a deslocar-se, como numa peregrinação a Meca, até o local onde ele se encontrava, esta limitação, rapidamente identificada, foi combatida, inicialmente com o uso de terminais que, através de canais de comunicação (à época linhas telefônicas e pares de cobre), permitiam receber e enviar dados remotamente. Em breve, os terminais foram adicionando capacidade local e parte das tarefas passou a ser realizada no próprio terminal. O coroamento desta tendância ocorreu com a maciça entrada em cena do microcomputador pessoal. Mais um pouco e eis-nos prescindindo das velhas máquinas centrais: o que necessitávamos estava agora, quase sempre, ao alcance em nossa mesa.

Uma volta completa fôra completada – saíramos do centralizado para o distribuido: “o centro está em toda a parte”. As redes de comunicação, entretanto, iniciaram um novo ciclo: a limitação espacial voltava a incomodar. Visitar locais para consultar bases de dados, trocar informações com colegas, informar-se e informar representaram um novo e poderoso espalhamento do poder. Mas (e é aí que a porca torce o rabo…) uma conectividade ampla e fácil leva à ideia de uma nova concentração. Por que um “poderio local” se tudo do que se necessita está na rede, e sob demanda?. E mais, evoluimos para o nefelibatismo: tudo está “na nuvem”.

Este também não será ponto de repouso. Ter espalhados num domínio imaterial, não apenas nossos dados mas o poder de computação, além de trazer eventual desconforto. Isso pode trazer riscos à privacidade e liberdade. A roda gira e voltamos a pensar, de novo, em soluções localizadas. Assim, continuamente, uma evolução em espiral recupera velhos conceitos, mesmo que em latitudes mais elevadas.

Esse eterno retomar parece não se restringir a conceitos ligados à tecnologia, Para atiçar, pensemos por exemplo em algo bem diferente: no que houve com a “democracia direta ateniense”, que durou cerca de 200 anos até o começo do século IV AC. Era a reunião organizada da sociedade em fóruns, para tratar da elaboração de leis, punir os que as desrespeitassem e, mesmo, banir cidadãos por 10 anos do convívio na “pólis”- o ostracismo. Um modelo que, com várias restrições e defeitos, mostrava-se eficiente em comunidades com alguns milhares de cidadãos, mas que não teria como se expandir, tanto geografica quanto numericamente, para milhões de indivíduos.

Assim, a democracia direta da ágora, foi substituida por alternativas mais hierárquicas e centralizadoras e, mais tarde, por formas de representatividade via câmaras e parlamentos, das tendências da opinião popular. De novo aqui o tempo pode nos pregar uma peça. Com a Internet e as redes sociais, é muito fácil para milhões agregarem-se rapidamente em torno de posições, emitindo opiniões próprias ou instiladas. Afinal, se o sábio fala porque tem algo a dizer, o tolo fala porque precisa dizer algo. Assim, não apenas um arremedo de “democracia direta” pode tentar voltar, como o próprio ostracismo ateniense, agora apodado como “cultura do cancelamento”, renasce com força. Se Atenas, à época com poucos milhares de cidadãos, condenou Sócrates a beber cicuta, o que aconteceria hoje numa votação “direta” via Internet? A escala gigantesca da rede traz mais segurança às nossas decisões?

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Ivan Moura Campos propôs uma interessante evolução da Internet em espiral: a "espiral de Campos"
Segue uma entrevista com ele e um artigo de Michael Stanton sobre Internet II, de 2005
https://www.comciencia.br/dossies-1-72/entrevistas/internet/campos.htm
http://www.wirelessbrasil.org/michael_stanton/artigos/2005/mai_30.html


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Um texto sobre "ostracismo", a votação que podia decidir o exílio de alguém por 10 anos
https://www.greecehighdefinition.com/blog/ostracism-ballot-voting-system-of-ancient-greece







terça-feira, 13 de abril de 2021

Naufrágios

Foi em 14 de abril de 1912, há quase 109 anos, que o Titanic, enorme e luxuoso navio de cruzeiro, em sua viagem inaugural, colidiu com um improvável iceberg (aicebergue na melhor grafia portuguesa). Por razões que a própria razão desconhece, fui rever dados do desastrre do RMS Titanic (RMS é “Royal Mail Ship” ou “navio do correio real” britânico).

Há na Internet vasta informação sobre este acontecimento, que já se esfuma no tempo, mas que era tema constante nas conversas que ouvia à época de minha juventude. Das 2226 pessoas a bordo, apenas 703 sobreviveram (32%) e 1503 pereceram. Com os botes existentes, talvez em número insuficiente, lançados ao mar ainda não totalmente lotados, o número de mortos foi grande. Outro navio, o RMS Carpathia, atendeu aos pedidos de socorro e apareceu horas depois para o resgate dos que estavam nos botes.

Os destroços do Titanic repousam a quase 4000 metros de profundidade. Assim a própria localização do navio no fundo do oceano só foi conseguida no início dos anos 80. Encontrados os destroços, expedições tripuladas para recuperar material começaram anos depois mas, ao que se sabe, boa parte do navio hoje já foi reabsorvida pela natureza e agora ntegra o ambiente do fundo do mar.

Desde este naufrágio, o mundo viu duas guerras mundiais, diversas crises, revoluções, movimentos e revisões históricas, que afetam significativamente a forma de pensar e de agir. Um exemplo simples: o capitão do Titanic, Edward John Smith, 62 anos e oficial da RNR (Reserva da Marinha Real britânica) afundou com o Titanic, seguindo à risca seu código de honra: “o capitão deve submergir com seu navio” ou, se houver forma de se salver, que seja o último a abandonar o barco. Como contraste, cem anos após, em 2012, no naufrágio do Costa Concórdia defronte à costa italiana da Toscana, seu capitão Francesco Schettino escafedeu-se assim que pôde do navio, num evento com mais de 30 mortos… Ganhou repercussão a enérgica reprimenda que teria recebido de um capitão da guarda costeira, quando da evasão: “Vada a bordo, cazzo!!!” (vá a bordo, po**a!). A frase foi inclusive estapada em camisetas para o Carnaval italiano daquele ano. Parêntese pessoal: quando cheguei ao Brasil em 1954, o navio que trouxe a família era o Anna C, da mesma Linea C do naufragado Costa Concórdia, uma empresa de transporte marítimo com mais de 150 anos de história. Algo parece ter mudado quanto ao código de honra e comprometimento de alguns capitães.

Em casos de desastres graves e com sérios riscos a vidas humanas, outro lema que se aplicava em 1912 era “mulheres e crianças primeiro”. Os dados disponíveis sobre mortos e sobreviventes no Titanic confirmam essa premissa (claro, também um inevitável viés econômico associado: a percentagem de mortos na primeira classe foi menor que a da terceira). Tem-se: dos 1680 homens a bordo, sobreviveram 323 (19%), das 112 crianças, 56 (50%) e das 434 mulheres salvaram-se 324 (75%). Se olharmos os números da “primeira classe”, dos 171 homens sobreviveram 54 (32%), das 7 crianças, 6 (86%), e das 141 mulheres salvaram-se 137 (97%, com apenas 4 mortes). Finalmente, na “terceira classe” os números foram: dos 450 homens sobreviveram 59 (13%), das 80 crianças 25 (31%) e das 179 mulheres 88 (49%).

Como seria a avaliação popular destes comportamentos hoje, quando todos se metem a julgar todos, com a grande presença de redes sociais e dos “influenciadores” agindo através da Internet? Parece importante, especialmente em circunstâncias dramáticas, ter em conta valores e preceitos que se distanciem do conhecido mote de uma propaganda de cigarros dos anos 70: “o importante é levar vantagem em tudo”. Atitudes mais nobres, despreendidas e em benefício geral deveriam valer mais que o velho jargão “farinha pouca, meu pirão primeiro!”
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    Números sobre o acidente,  as vítimas do Titanic e os destroços podem ser encontrados em:
https://en.wikipedia.org/wiki/Titanic
http://www.icyousee.org/titanic.html
https://en.wikipedia.org/wiki/The_captain_goes_down_with_the_ship
https://en.wikipedia.org/wiki/Women_and_children_first
https://www.youtube.com/watch?v=28A_Z6p01rc
https://pt.wikipedia.org/wiki/Destro%C3%A7os_do_RMS_Titanic

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    Informação sobre os capitães Edward John Smith e Francesco Schettino:
https://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Smith_(sea_captain)
https://en.wikipedia.org/wiki/Costa_Concordia_disaster
https://en.wikipedia.org/wiki/Francesco_Schettino
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    Variedades, camisetas e música "Farinha Pouca"...
https://internacional.estadao.com.br/blogs/radar-global/camisetas-com-a-frase-volte-a-bordo-c-sao-vendidas-na-italia/
https://www.youtube.com/watch?v=9YfTuIPwhMY
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The Boston Daily Globe, ABRIL 16 1912
    
    E o Costa Concórdia:
https://www.bbc.com/news/world-europe-16577739