terça-feira, 19 de maio de 2026

Crianças na rede

Há um mes entrou um vigor o "ECA digital", lei que visa à proteção de crianças e adolescentes, agora expandida para Internet (redes, plataformas, aplicativos). O busílis da questão é conseguir equilibrio entre as características da Internet e as necessárias medidas de proteção às crianças.

Ao escolher a forma mais acertada de ação é muito importante avaliar efeitos colaterais, nem sempre previstos ou desejados. Afinal a Internet é uma rede concebida como aberta, onde todos podem se expressar e, também, arcar com as responsabilidades atribuíveis a seus atos. A coleção de conteúdos e serviços é ilimitada e impossível de se classificar, até pela falta de "régua" universal para isso: na rede mundial cohabitam culturas, valores e éticas distintas, indo desde comunidades que banem alcool e drogas às que aceitam, e com diferentes definições de "maioridade" e "família", apenas para pontuar algumas diferenças.

Há basicamente tres caminhos a examinar. O primeiro é a sumária vedação do acesso à internet para crianças abaixo de certa idade. É a opção já adotada por alguns países, e numa analogia, por exemplo, alinha-se à proibição no uso de celulares em classe de aula, ou o controle de entrada em locais restritos. A vedação estaria a cargo, além dos pais, dos dispositivos e provedores de acesso à rede. A segunda maneira seria estabelecerem-se áreas seguras para crianças, numa lista permanentemente atualizável e controlada pelos pais, e implantada por tecnologia nos navegadores: a chamada "white list". Finalmente, a terceria seria querer que a Internet, como um todo, provisse controle universal de acesso. Parece atraente, mas é irrealizável, e pode danos inesperados, não apenas ao acesso à rede com à nossa privacidade.

Essa terceira opção contem um paradoxo: para proteger as crianças, exigiremos dos adultos prova rigorosa de maioridade. Amplia-se a aquisição corporativa de dados sensíveis e a vigilância. Podia ser implantada em sistemas operacionais de celulares e equipamentos, mas isso nem é fácil, nem é consenso. A mais nova versão do IPhone, por exemplo, para liberar o acesso quer algum documento que prove a maioridade do usuário. Usuários constantes usam versões anteriores há anos, e essa verificação poderia ser automática mas, dado o risco do fabricante não atender à legislação local, estimula-se uma reautenticação forte. E isso também pode vir a calhar para o fabricante, que ele passa a ter ainda mais dados do usuário. Do outro lado do pêndulo, há formas alternativas e amenas de aferição de idade, via imagens capturadas, mas motraram-se facilmente burláveis: desenha-se um bigode ou barba com um lápis no rosto, e eis o sistema identificando "adulto"...

Nos velhos tempos, pais advertiam crianças a "não falar com estranhos", ao mesmo tempo em que educavam para os riscos: crianças podiam usar faca metálica à mesa, se adequadamente. Brinquedos como o "Pequeno Químico", que eu tive, traziam contacto com reagentes e produtos nem sempre seguros, mas havia a orientação e supervisão paternal no processo, gerando amadurecimento e autonomia. Parece que estamos deixando de formar os futuros adultos, e preferimos passar essa responsabilidade para ambientes que tem outras características. Podemos acabar errando em ambas as frentes...

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/criancas-na-rede-eca-digital-desafia-equilibrar-natureza-da-web-e-objetivo-de-proteger-as-criancas/

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Dos "kits perigosos..."
https://www.youtube.com/watch?v=lPZ3EV44Okk

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Das formas de burlar a avaliação etária por foto:
https://techcrunch.com/2026/05/06/some-kids-are-bypassing-age-verification-checks-with-a-fake-mustache/

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Sobre a versão mais nova do Iphone, e sua verificação etária
https://osxdaily.com/2026/03/26/psa-ios-26-4-age-verification-in-uk-fails-for-some/

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O Pequeno Químico:

O Pequeno Químico" foi um icônico kit de experiências científicas produzido pela fabricante Brinquedos Guaporé nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil. Ele fez grande sucesso ao permitir que crianças realizassem experimentos básicos de química em casa.

Os kits continham uma variedade de pequenos frascos com substâncias químicas seguras para a época, tubos de ensaio, suportes, pinças, lamparinas e um manual de instruções. Com ele, as crianças podiam aprender na prática sobre misturas, reações e mudanças de cores.




terça-feira, 5 de maio de 2026

Zaratustra e IA

O tema musical de "2001, uma Odisséia no espaço" é a composição de Richard Strauss, "Assim falava Zaratustra". Em 1883 Frederico Nietzsche publicou livro com esse título unindo ficção e filosofia, e já alertava na epígrafe que se tratava de "um livro para todos, e para ninguém". É bem anterior à IA e seus conceitos, o que não inibe algumas elucubrações provocativas, que não se pretendem sólidas, mas poderão ser aprofundadas ou demolidas pelos interessados.

Logo no início da obra que descreve a caminhada de Zaratustra, uma frase busca definir "o homem" e seu destino: "O homem é uma corda estendida entre o animal e o além-do-homem: uma corda sobre um abismo. Perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim: o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um ocaso.”. O desafio de ousarmos essa passagem não é muito distante do dilema atual que a IA nos impõe: uma travessia sobre o abismo, sem olhar prá trás ou parar. Para Nietzsche, o que nos espera do outro lado é o além-do-homem (ou o "super-homem"), com um sentido da própria superação ínterna do pequeno homem atual. Mas com IA a coisa pode levar a outra leitura...

Mais um ponto de convergência: para Nietzsche um objetivo fundamental do homem é garantir sua continuidade e, para isso, ele volta seu amor absoluto aos filhos e à própria obra. Filhos, certamente, ganharão voo autônomo com o crescimento, enquanto a obra fica limitada sob controle do autor. Mas... (e é aí que a "porca torce o rabo") obras como IA mostram características que lembram a autonomia de filhos crescidos e liberados dos pais. IA aglutinaria filhos e obra e, em época de queda em taxas de natalidade, a IA poderia representar a almejada "continuidade do humano"...

Há outro ponto, esse mais difícil de coadunar: o conceito do "último homem", a ultrapassar rumo ao super-homem. Em Zaratustra, o "último homem" é mesquinho, busca conforto, segurança, não-confronto e ausência de dor. Ele diz "encontrei a felicidade", enquanto pisca os olhinhos. Não se questiona, apenas seguir. Uma analogia aqui é que IA potencializa algoritmos, perfilamento e reforço dos conceitos pré-existente, agradando aos interesses do pequeno "último homem". Se a ponte para se chegar ao além-do-homem exige sacrifício e vontade para enfrentar riscos, a IA oferece de forma imediata o conforto, a redução de fricções e, eventualmente, a atrofia da vontade... Assim, se por um lado a IA acena para um novo humano, híbrido, o fato de ela atender aos desejos dos "últimos homens" a faz ir de encontro aos pressupostos de uma ruptura humana interior evolutiva.

O risco é abrirmos mão da travessia sobre o abismo. O "último homem" se satisfaria bastante com o que IA traz: dispensa-se de fazer, de optar, de decidir ou julgar. Obter ajuda lúcida com IA é ótimo, mas abrir mão de pensar ou agir não deveria ser um resultado. A inteligência artificial não é o além-do-homem, e pode tornar a busca por superação em simples acomodamento.

E talvez o risco maior não seja que ela nos ultrapasse, mas que, diante dela,
desistamos de querer ultrapassar a nós mesmos.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/o-maior-risco-com-a-ia-e-nao-querermos-mais-ultrapassar-nos-mesmos/

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Assim falava Zaratustra. Referências:

https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%9Altimo_homem

https://www.pensador.com/frase/OTU5MzAx/



https://humanitas.ufrn.br/wp-content/uploads/2025/03/Assim-Falou-Zaratustra.pdf

"Ai de nós! Aproxima-se o tempo do homem mais desprezível, que já não sabe desprezar a si mesmo. Vede! Eu vos mostro o último homem".

“Descobrimos a felicidade” – dizem os últimos homens, e piscam os olhos.

"Sua estirpe é indestrutível, como a pulga; o último homem é o que mais tempo vive".

“Que é amor? Que é criação? Que é desejo? Que é estrela?” – pergunta o último homem, e pisca os olhos.

"A terra se tornou pequena, e sobre ela salta o último homem, que torna tudo pequeno".

"Não há mais pastor, nem rebanho! Cada um quer o mesmo, todos são iguais: quem sente de modo diferente, vai voluntariamente para o hospício".