terça-feira, 24 de março de 2026

Reminiscências

A data de nascimento da Arpanet, mãe da Internet, é 29 de outubro de 1969, quando os dois primeiros nós, UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles) e SRI (Instituto de Pesquisa de Stanford), trocaram pacotes de dados com sucesso. Na sala do Prof. Leonard Kleinrock (UCLA, sala 3420) há uma placa celebrando o feito. Em agosto de 1969 houve outra efeméride importante: o festival de música de Woodstock. A junção da contracultura com a Arpanet pode parece pouco razoável, mas há elementos para considerá-la. Por exemplo, um dos conjuntos de rock que se apresentou com memorável sucesso no festival foi o Grateful Dead. E seu letrista era John Perry Barlow, importante voz na Internet por ser um dos fundadores, em 1990, da EFF (Electronic Frontier Foundation), e por ter escrito em 1996 a "Declaração de Independência do Ciberespaço", documento que descrevia, algo romântica e utopicamente, os conceitos do nascente mundo virtual, onde o "domínio da mente", não seria submetido ao poder econômico e à lógica territorial.

O que esse histórico mostra é que a própria Arpanet, custeada com recursos do Departamento de Defesa norte-americano, nasceu com uma concepção libertária e sem controle central. Sempre foi voluntária a adesão de redes que adotassem seus protocolos e forma de funcionar. Afinal seus definidores foram jovens acadêmicos de alguma forma embebidos na cultura e conceitos dos anos 70.

Outra lembrança da época é de um cartum do The New Yorker, 1993, que mostrava dois cães diante de um computador. Um deles dizia: "Na Internet ninguém sabe que você é um cachorro", uma leve ironia que captava o espírito da rede: a dissociação entre identidade física e expressão. Havia uma confiança implícita, talvez excessiva e ingênua, de que a abertura e a liberdade gerariam per si formas adequadas de convivência. Certamente trina anos depois o cenário é bem diverso

A expansão rápida, da área acadêmica para todos os segmentos da sociedade, trouxe diluição ética. A grande conquista da "voz para todos", sem barreira de entrada, acarretou uma cacofonia eventualmente irresponsável. E, do lado econômico, a busca pelo conforto e o menoscabo dos princípios originais "empurrou" usuários para uma centralização baseada em plataformas, os "jardins murados".

Originalmente associava-se a Internet a uma enorme praça pública, um "commons", mas hoje isso parece cada vez mais remoto. Em ambiente que nos identifique e monitore continuamente poderemos estar, sob alguns aspectos, mais seguros, mas tudo se torna menos espontâneo, aberto, ou plural. Não é mais uma praça.

Habermas, o filósofo que nos deixou recentemente, diria que esfera pública segue cada vez mais fragmentada. Múltiplas comunidades, fluxos paralelos de informação e debates que raramente se encontram. A comunicação passa a ser mediada por plataformas cuja lógica é o engajamento, não o debate. Entre o cachorro anônimo de 1993 e o usuário identificado de hoje, não mudou apenas a tecnologia. Mudou a nossa disposição em aceitar a incerteza como condição da liberdade. Entre proteger quem entra, e preservar a natureza do espaço, talvez haja apenas escolhas cujas consequências ainda não estão nada claras.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/a-internet-era-originalmente-comparada-a-uma-praca-publica-isso-parece-cada-vez-mais-remoto/

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O cartun do The New Yorker, 1993:

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https://www.bbc.com/future/article/20250618-how-the-grateful-dead-shaped-social-media
How the Grateful Dead built the internet


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John Perry Barlow:
Selling Wine Without Bottles: The Economy of Mind on the Global Net
https://www.eff.org/pages/selling-wine-without-bottles-economy-mind-global-net

Declaração de Independência do Cyberespaço
https://www.eff.org/cyberspace-independence

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