terça-feira, 28 de julho de 2026

IA e o abraço de tamanduá

São poucos os detalhes técnicos conhecidos sobre o evento da semana passada, em que um agente IA invadiu o Hugging Face, susto que ninguém pediu. O agente da OpenAI é sofisticado modelo para navegar pela rede, executar tarefas complexas e, eventualmente, tomar decisões e sem supervisão humana. Ele, simplesmente,"escapou" e foi agir... A coisa fica ainda mais bizarra ao ver que, das infinitas opções de alvos, ele escolheu o Hugging Face, onde se encontra uma infinidade de modelos abertos, gratuitos, comunitários, feitos por indivíduos e empresas, que compartilham códigos no GitHub como quem troca receitas de bolo. Modelos que qualquer pessoa pode baixar, rodar localmente, ajustar para seu interesse ou até usar para serviços.

O Hugging Face seria apenas uma opção entre milhões, mas o tal agente decidiu que aquele seria um bom lugar para testar suas habilidades. Por quê? Que mecanismo gerou esta escolha, certamente não aleatória? Previnir a concorrência? Aprender com ela? Proteger seu ecosistema? Claro que a explicação anódina seria que "houve descuido humano" ao cuidar do "berçário" de agentes. Afinal erros acontecem. E restaria analisar até que ponto a lógica interna do agente e seu treino o fizeram concluir que, no cenário competitivo, o Hugging Face seria um problema ao avanço dos modelos fechados, levando-o a agir assim. Ironicamente, talvez a "inveja humana" já tenha sido inoculada na forma de funcionar dos sofisticados agentes, que visam a nos simular completamente...

O agente acessou o local, analisou sua estrutura de dados, identificou pontos mais críticos e, usando a conhecida técnica de "negação de serviço", teria gerado uma pesada série de requisições que sobrecarregou servidores. Modelos abertos ficaram inacessíveis por horas.

Quando um agente de um poderoso sistema fechado "abraça" o Hugging Face, ele acerta o coração do movimento aberto em IA, construído por voluntários, pesquisadores independentes e iniciativas empresariais que acreditam que a inteligência artificial pode ser acessível a todos.

Curiosamente, entre duas explicações: a "insidiosa", que apontaria intenção dos desenvolvedores em gerar um agente com objetivo de auto-proteção, e a "autônoma", em que o agente escolheu o alvo por si, a versão autônoma parece bem mais preocupante para nosso futuro, que a insidiosa. Afinal se o próprio agente pode concluir que os modelos abertos são uma ameaça existencial a ele, que outras ações podemos temer?

A discussão sobre inteligência artificial pode estar entrando numa nova fase. Ao invés de apenas examinarmos se respondem corretamente, passamos a questionar o que fazem quando não estamos observando. Um paralelo que vem à mente: está em cartaz uma bela montagem de Tristão e Isolda. Na complexa obra de Wagner, a oposição mais pungente é a do "dia" versus a "noite". O "dia", com ações clara e previsíveis, de convívio e etiqueta, e a "noite", dos desejos irresistiveis e irracionais. Há quem veja a chegada da "noite" das máquinas, quando elas passariam a agir por "impulsos inescrutáveis"... A escuridão talvez esteja está na distância crescente entre o que a máquina pode querer, e aquilo que ainda conseguimos controlar.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/ia-e-o-abraco-de-tamandua/

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o caso do ataque ao Hugging Face:

https://www.estadao.com.br/economia/openai-modelos-ia-sairam-controle-atacaram-biblioteca-digital/

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvgw17k0n2go

https://www.cnbc.com/2026/07/23/open-ai-hugging-face-hack-kill-switch-bill-congress.html




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Tristão e Isolda:

https://poesiaspreferidas.wordpress.com/2014/08/30/tristao-e-isolda-richard-wagner/

https://www.concerto.com.br/textos/critica/tristao-e-isolda-esbarra-entre-o-didatico-e-o-simbolico-no-theatro-municipal-de-sao

https://viennaoperareview.com/wagners-tristan-and-isolde/



terça-feira, 14 de julho de 2026

"Data Centers"- ter ou não ter?



Um tema que a IA traz com muita ênfase é a necessidade de grandes centros de processamento de dados (ou "data centers", denominação pseudo-sofisticada em voga...). É importante uma discussão o mais racional e equilibrada possível, mesmo sabendo que o tema anda contaminado por posicionamentos emocionais, purismos tecnológicos, ideologia e mercado. Há que examinar o que é real e o que é propaganda, na medida do possível.

Em tecnologia o movimento em gangorra é constante ... Se na Internet original o poder de computação era distribuido pelo mundo de forma imperceptível, tende-se agora a uma concentração, e traz riscos: quando um serviço popular saí do ar, muitos são afetados; se um centro de processamento de IA deixar de ser acessível (por ruptura em cabos submarinos, ou mesmo problema técnico local), o efeito será impactante. Eis um argumento a favor de centros localizados no país, e há mais pontos a comentar.

Vejamos a discussão sobre gasto energético. A evolução dos processadores eletrônicos demanda mais e mais potência para cumprir suas tarefas a contento. Vale especialmente para IA, grande consumidora de energia. Há que se dar algum desconto nos números que se divulgam da potência prevista para os centros, porque o apelo do mercado em coisas gigantes é muito forte. Não se espera que um centro gaste metade do que Itaipu gera mas, certamente, seu consumo será grande. A pergunta central é se interessa ao Brasil empenhar uma quantidade grande de energia nisso, mesmo com retorno econômico. Temos uma posição ímpar na geração de energia, e nossa matriz sustentável, com a adição de fontes além da hídrica, é muito sólida. Vender energia pode ser uma boa aplicação para algo que geramos com eficiência. De forma menos óbvia, seria uma maneira de manter a relação geração/consumo sob controle. Houve durante essa Copa uma queda abrupta no consumo doméstico, que fez o sistema correr algum risco de desestabilização. Já os centros de dados são "âncoras de demanda conhecida e estável", sem picos e vales inesperados de consumo. Afinal é difícil armazenar o excedente para uso posterior. Outro "trunfo" brandido contra os centros seria o do "consumo de água"... Bem, claro que água é necessária para resfriamento dos circuitos, mas, em instalação racional, a água é reciclada, até para se evitar a inclusão de novas impurezas e sais... Do ponto de vista físico, a crítica é ainda mais enfática: água "consumida"? Ora, até em ciclos "abertos", entra "água" e sai... "água", mesmo que em forma de vapor...

FInalmente há que se examinar impactos em soberania. Os "data centers" são a infraestrutura da economia digital, mas não a própria economia digital, e o controle de infraestruturas críticas é importante. A Alemanha, por exemplo, pretende duplicar seus centros até 2030. Em SP mora, discretamente, o IX (Internet Exange) com maior tráfego mundial e pico de mais de 35 Tbit/s. Montado sem reursos públicos, traz segurança, eficiência e estabilidade à Internet brasileira, valores reafirmados durante essa Copa. Parafraseando Churchill, é meritório ter modéstia quanto a uma boa conquista, mas é bom evitar o acúmulo de temas em que sejamos modestos...

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/uma-discussao-que-a-ia-impoe-data-centers-ter-ou-nao-ter/


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Sobre "data-centers":
artigo na Abranet:
https://abranet.org.br/noticias/fgv-data-center-tem-custo-de-r-25-bilhoes-no-brasil/

na Alemanha:
https://www.dw.com/en/data-centers-ai-tech-infrastructure-digital-growth-cybersecurity-geopolitical-risk/a-77106191

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Sobre o risco de instabilidade do sistema elétrico, devido ao baixo consumo na Copa:
https://brainmarket.com.br/noticias/o-maior-experimento-de-engenharia-eletrica-da-copa-de-2026-nao-aconteceu-dentro-do-estadio/

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O Ponto de Troca de Tráfego de São Paulo:
https://ix.br/trafego/pix/sp
https://ix.br/trafego/agregado/sp

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Sobre a frase de Chrchill
https://quoteinvestigator.com/2017/08/23/modest/