terça-feira, 6 de dezembro de 2022

O que vem pela frente

É acima de qualquer dúvida que teremos mudanças importantes no cenário da Internet, tanto no internacional como no nacionalmente. Há prolegômenos a considerar: no caso específico da Internet, muito longe do “complexo de vira-lata” na imortal expressão de Nelson Rodrigues, a versão brasileira de governança e estruturação da rede tem-nos rendido enfáticos elogios da comunidade internacional. O modelo do Comitê Gestor, CGI.br - um comitê que debate cenários, alerta para riscos e indica caminhos, sem se revestir do papel de regulador ou legislador - tem sido um farol para muitos países. Em governança da Internet podemos nos gabar (sem falsa modéstia) de ter seguido o lema de São Paulo: “non ducor, duco”.


Crucial para o funcionamento exitoso do CGI é sua proposta de buscar incessantemente o consenso em seus posicionamentos. O decálogo do CGI, por exemplo, divulgado em 2009 e que foi base tanto do Marco Civil da Internet como da Lei Geral de Proteção de Dados, custou aos 21 integrantes do CGI dois anos de discussão até se chegar ao consenso em sua forma. Eis outro ponto em que podemos nos ufanar: o CGI, criado em 1995 e reformado em 2003, foi pioneiro na busca de configuração multissetorial ao tratar da Internet. A picada aberta pelo CGI e hoja considerada a ideal, foi seguida por ICANN, WSIS, IGF e outros órgãos que se envolvem com o tema. O sucesso da NetMundial em 2014 também testemunha isso.

Outra prova de antevisão foi, em 1995, separar o que seria “Internet” e o que era “telecomunicações”. Telecomunicações é uma área que usa recursos públicos e é internacionalmente regulada; já Internet, sabiamente definida como SVA, é serviço de valor adicionado, que “sobre as telecomunicações opera, mas com elas não se confunde”. É evidente o resultado positivo que tais conceitos trouxeram para uma pujante Internet que temos no país. Um último ponto: a necessidade de cuidados com a taxonomia. Termos como “neutralidade” e “inimputabilidade” aplicam-se e continuam a ser válidos nas correspondentes camadas da Internet. Acima delas, as construções que surgem – a Internet provê liberdade a quem queira criar sobre ela – podem ou não se enquadrar nestes conceitos tão bem definidos no decálogo do CGI. Aliás, por ser esse decálogo algo principiológico, sua aplicabilidade segue inatacável.

Assim, qualquer discussão sobre alterações no cenário deve levar em conta qual o problema que se quer corrigir, sendo crítico que não se perca de vista o (muito!) que há de bom e correto, e que precisa ser apoiado e preservado Vai-se notar de imediato que esse problema não diz respeito à Internet propriamente dita: seus protocolos técnicos, neutralidade e unicidade são valores que devem ser defendidos, como o CGI tem feito desde o início com êxito facilmente confirmável se cotejado internacionalmente. Para descontrair, o título do artigo: ele vem de uma frase que foi dita num encontro sobre a difusão da nova rede no país, por um executivo e à guisa de tranquilizar a audiência: “Não devemos ter medo do que vem pela frente… desde que venha pela frente!”

===
Ps. Adendo desolador: perdemos no domingo, 4, Danilo Doneda, um incansável lutador pelos princípios da Internet, e um caráter irretocável.

===
cgi.br






terça-feira, 22 de novembro de 2022

Narrativas - Rashomon

Rashomon é um filme japonês de 1950, escrito e dirigido por Akira Kurosawa e no Brasil renomeado para “Às portas do inferno”, que suscita analogias com o que temos hoje, especialmente após a difusão da internet urbi et orbi. Começa com tres personagens, um lenhador, um camponês e um religioso, buscando abrigo da chuva numa ruina de mosteiro e relembrando histórias passadas, que serão tratados em “flash back” no filme. O tema da conversa é o assassinato de um samurai, cujo cadáver o lenhador teria encontrado e denunciado imediatamente à polícia…

Quando da investigação sobre os motivantes do crime, ouviram-se tres depoimentos: o do pretenso assassino, o da mulher do samurai morto, e o improvável depoimento do próprio morto, que depôs através de um medium. O fato irremovível é que havia um cadáver, mas os tres depoimentos levavam a explicações totalmente diferentes. O bandido disse que preparou uma armadilha para atrair o samurai num local ermo, onde o amarrou, e que já se tinha engraçado pela mulher dele ao vê-la. Que, depois de inicialmente forçá-la, ela cedeu mas exigiu que ele duelasse com o marido, para que apenas um sobrevivesse. O bandoleiro soltou o samurai e acabou por matá-lo em duelo justo, quando ela se aproveitou para fugir. Na versão da mulher, ela, sob as vistas do samurai já amarrado, relacionou-se com o bandoleiro que, após o ato, fugiu. Envergonhada pelo feito, desamarrou o samurai e pediu que ele a matasse. Como ele passou a desprezá-la, ela, armada de um punhal e fora de sí, matou o marido, caindo desmaiada sobre ele. Na versão do morto, via medium, a própria mulher se interessou pelo bandoleiro e pediu que ele matasse seu marido, o samurai, para que ela não carregasse a vergonha de ter traido o marido. Neste momento o bandoleiro solta o samurai e pergunta a ele se prefere matar e mulher, ou que ela fuja. Ela foge e o samurai se mata com a adaga da própria esposa. O lenhador, que ouvira os depoimentos, quebra o próprio silëncio com uma quarta versão: a de que, após o encontro, o bandido teria pedido à mulher do samurai que aceitasse fugir com ele, e ela teria exigido então que eles duelassem por ela, para não serem ambos covardes. O samurai teria morrido no duelo.

Há alguma nobreza nas versões acima, mas falta coerência. Imagine-se o que aconteceria hoje, com a rede, se as quatro personagens de nossa história contassem suas versões aos seus seguidores, que as repetiriam com a adição de detalhes e ênfase. E como, e se, os que apenas lêssem os depoimentos conseguiriam ter ideia do que de fato se passou. Há uma frase de Nietzsche num fragmento de 1887 que diz que “não existem fatos, apenas interpretações”. E num mundo tão conectado, imediatista, e até mesmo superficial, as versões se multiplicam pelo simples fato de gerarem notoriedade e sensação de poder aos que as difundem, independentemente de haver base concreta para elas. Para tornar o cenário ainda mais crítico, leve-se em conta que muitas versões se basearão mais em convicções e interesses pessoais que nos fatos reais. Em outra frase, o mesmo Nietzsche nos alerta que ”as convicções representam maior perigo à verdade, que as próprias mentiras”...

===

“o mundo tornou-se novamente infinito para nós, na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas interpretações” (Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 374)

"não há fatos eternos, assim como não há verdades absolutas." (Nietzsche, em Humano, demasiado humano)

"as convicções são mais perigosas inimigas da verdade do que as mentiras." (Nietzsche, em Humano, demasiado humano)

===

https://www.youtube.com/watch?v=1WZZR8ceQEg

https://www.kobo.com/br/pt/ebook/rashomon-e-outros-contos-akutagawa

"Ryūnosuke Akutagawa ( 1892 - 1927) foi um escritor japonês ativo no Japão durante o período Taishō. Ele é considerado o "Pai do conto japonês", e é famoso por seu estilo e suas histórias ricas em detalhes que exploram o lado negro da natureza humana. Akutagawa é um dos escritores modernistas mais lidos no Japão. Suas histórias atemporais são investigações observadoras e brilhantes da natureza da própria literatura. Rashomon e outros contos inclui oito contos escritos por Akutagawa no período inicial e médio de sua carreira, entre 1915 e 1921. A "refeitura" ou imitação é um elemento importante de sua obra. Nessa coletânea, ele reconta uma série de fábulas históricas. Rashomon e outros contos faz parte da famosa coletânea: 1001 Livros Para Ler Antes de Morrer".




terça-feira, 8 de novembro de 2022

Ai de ti, Internet!

Parafraseando Rubem Braga em “Ai de ti, Copacabana”, e já pedindo todas as vênias pelo canhestro arremedo:

1. Ai de ti, Internet, porque já foi feito o sinal de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste.

2. Ai de ti, Internet, porque a ti chamaram Princesa, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras.

3. Já teu mar se concentrou de forma iníqua, e tu não viste o sinal.

4. Sem descentralização, como te governarás?

5. Grandes são as construções sobre ti, e elas se postam quais muralhas desafiando o mar; mas elas se abaterão.

6. E escuros peixes nadarão em teus canais, e a vasa fétida das marés cobrirá tua face.

7. E os polvos habitarão os teus porões e tuas lojas de vendas.

8. Então quem especulará sobre o valor de tuas informações? Pois na verdade não haverá informação alguma.

9. Ai dos que dormem em ti, e desprezam o vento e o ar exterior.

10. Ai dos que conseguiram bens rapidamente em ti, pois não terão tanta pressa quando virem a hora da provação.

11. Ai de teus perfis influenciadores, que servem como instrumentos de concupiscência.

12. Uivai, mancebos, e clamai donzelas, porque já se cumpriram vossos dias

13. Ai de ti Internet, porque quando for chegado o tempo de colher, tarrafas serão jogadas a partir de todos os lugares.

14. E os que estavam em aquários de vidro, serão finalmente libertados.

15. Porque discursais, fariseus da Internet? Acaso não é conhecida a multidão de vossos pecados?

16. Antes da perda, tua demência será ainda agravada. Usuários descerão uivando sobre ti e se voltarão contra teu corpo. Levará milênios para lavar teus pecados de um só verão.

17. E será reservado espaço para ti entre as algas, porque ali habitarás.

18. E estranhas legislações, qual siris, comerão o que restava ainda da tua autonomia e abertura, fantasmas de outrora.

19. Pois grande foi a tua vaidade e fundas foram tuas mazelas. Já se incendiaram os espíritos e não viste o sinal; já se tragou a liberdade e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

20. A rapina de teus mercadores, a libação de teus perdidos, e a ostentação de teus poderosos, tudo passará.

21. Assim, escuro alfanje ceifará tua comunicação, e muitos perecerão por se alimentarem de tuas falsidades.

22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas joias, pois em verdade é tarde para buscar o que já se perdeu, eis que a fúria te destruirá. Canta tua última canção, Internet!

===
https://www.estadao.com.br/link/ai-de-ti-internet/
===
Apocalipse 18:
https://www.bibliaon.com/apocalipse_18/

===

A Crônica de Rubem Braga em
cronicabrasileira.org.br/cronicas/11534/ai-de-ti-copacabana
Rubem Braga, Ai de ti Copacabana!, 13 de novembro de 1959

1. Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.

2. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.

3. Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia.

4. Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas.

5. Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.

6. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.

7. E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska.

8. Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.

9. Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.

10. Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.

11. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.

12. Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.

13. Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

14. E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.

15. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?

16. Antes de te perder eu agravarei s tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.




5. Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.

6. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.

7. E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska.

8. Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.

9. Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.

10. Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.

11. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.

12. Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.

13. Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

14. E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.

15. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?



16. Antes de te perder eu agravarei s tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.

17. E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.

18. E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas.

19. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

20. A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará.



21. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.



22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas joias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!
17. E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.

18. E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas.

19. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

20. A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará.

21. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.

22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas joias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!
====

Rubem Braga:



terça-feira, 25 de outubro de 2022

À espera da mágica

Na rádio um poema sinfônico, O Aprendiz de Feiticeiro, de Paul Dukas, composição tão bem sucedida que é, de longe, a mais conhecida dele (um dos não raros casos em que uma única obra marca o autor, para sua alegria ou tristeza). A popularidade desta sinfonia deve muito ao filme Fantasia, de Walt Disney, que num de seus episódios descreve o tema em saboroso desenho animado, tendo como fundo a música de Dukas. Ao que se sabe, a obra ofuscou, até mesmo, a poesia homônima de Goethe que originou a trama, 100 anos antes da música… É uma parábola quase atemporal que pode ser rastreada na antiguidade.

Do que trata o poema de Goethe, musicado por Dukas? Quem assistiu à Fantasia lembra bem da historieta: há um feiticeiro, anoso e experiente, que tem a seu serviço um jovenzinho, o Mickey, a cuidar das coisas domésticas, como varrer, lavar o piso e outras tarefas. De tanto ver o imenso poder do mago em ação, alguma coisa Mickey aprende. Quando o mago adormece, o aprendiz, cansado de carregar baldes, veste o chapéu do feiticeiro e mete-se a encantar a vassoura, que cria braços e passa a fazer serviço. Mickey acaba por adormecer em sua poltrona e tem sonhos de poder. É acordado por uma tremenda inundação provocada pela vassoura, que continua incansavelmente a trazer baldes de água… E é esse o busilis da questão: o aprendiz não sabe como parar o feitiço! Apenas a interveção do poderoso feiticeiro recoloca as coisas de volta aos trilhos, enquanto dá um pito e uma lambada no ousado aprendiz.

A internet passa por incômodos e tensões e, sem dúvida, é justo que se busquem formas de amenizar o que nos ameaça. Se pudéssemos, de uma forma quase mágica, livrar a rede de tudo o que nos ameaça, incomoda ou dá trabalho, estaríamos muito melhor. E é isso que se discute hoje em todos os lugares do mundo e particularmente na Europa, onde o DMA (M de mercado) e o DSA (S de serviços) então entrando em ação. Seus objetivos, buscados por meios complementares, são: estabelecer um cenário que incentive a inovação, o crescimento e a competitividade no mercado local e global e, também, criar um espaço digital seguro, onde são protegidos os direitos fundamentais dos usuários dos serviços na rede. Ótimos objetivos, sem dúvida. Como serão atingidos? No caso especialmente do DSA, talvez se busquem “vassouras encantadas” que ajudem na limpeza, e essas vassouras seriam os operadores de plataformas, que teriam a seu encargo policiar o que por eles transita. Pode ser que se esconda um perigo: estaríamos dando ainda mais poder aos que já detem um imenso mercado? Ao transformar o monitoramento de conversas individuais - que antes era vedado ou, ao menos, desestimulado – em obrigação, não se iria exatamente na direção do que as plataformas querem? Difícil prever, mas eventuais novos candidatos a feiticeiros deveriam precaver-se de que a mágica pudesse ser desmontada, caso ela se transforme em inesperado dano… Afinal, de há muito se sabe que “o caminho do inferno está pavimentado de boas intenções”...

===
O aprendiz de feiticeiro

terça-feira, 11 de outubro de 2022

O Eterno Retorno

O conto “O Imortal”, de Jorge Luis Borges, começa com uma intrigante frase de Francis Bacon de seu ensaio LVIII “Das vicissitudes das coisas”: “Salomão disse ‘não há nada de novo sobre a Terra’. Platão teve uma inspiração: ‘todo o conhecimento não é senão lembrança’; logo o que Salomão afirmou é que ‘toda novidade não é senão esquecimento’”.

Esse antigo ciclo de esquecimento/abandono e redescoberta foi muito acelerado pela Internet, e fica patente em nossos dias o quanto isso tornou-se crítico. Em assuntos comezinhos, do dia-a-dia, temas defendidos e considerados consolidados há poucos anos acabam por ser revisitados e, não raramente, como se fossem “terra incognita”. Particularmente na computação esse fenômeno é bastante frequente. Veja-se que a inteligência artificial, por exemplo – e ela em sí não é algo particularmente novo: suas raízes estão nos anos 50 – é um tema em voga hoje, tendo voltado com intensa visibilidade e força, e se pesquisas complexas na área são desenvolvidas em instituições sofisticadas, hoje há disponíveis ao entusiasta diletante várias ferramentas abertas na internet. Com elas pode-se ter uma antevisão do que vem por aí e, assim, entusiasmar-se, ou se preocupar…

Há diversos aplicativos que permitem, como resposta a uma simples frase digitada, a geração de imagens complexas que buscam ilustrar o significado pedido. Certamente é uma porta aberta a que se montem figuras muito verossímeis… e falsas. Pode ser um ótimo auxiliar a artistas, como também pode aumentar o oceano de desinformações em que estamos mergulhados – ah, uma dessas imagens gerada por AI já ganhou um prêmio em exposição artística, e já se disparou a polêmica correspondente, incluindo-se aí o debate sobre “propriedade intelectual” da obra… Na área de gerador de texto natural também há opções disponíveis, que podem produzir um texto muito realista e, até, imbuir nele um “tom” que pode ser escolhido pelo usuário: sério, jocoso, profissional ou provocativo.

No caso das imagens sintéticas parece estarmos vendo algo novo, mas quanto a textos artificiais há 20 anos já existia, por exemplo, um gerador automático de “artigos científicos” – o SCIgen, desenvolvido no MIT e com código aberto disponível no github. O SCIger produz textos tão críveis que alguns deles foram aceitos para apresentação em eventos e para publicação em revistas. Para temas mais prosaicos e disponível em português há o “gerador de lero-lero”, sobre assuntos variados.

A evolução da tecnologia parece ser em espiral, onde um ponto já examinado no passado volta a ser visitado, mas com potência multiplicada pelos avanços da técnica… Aliás, pareceu-me que já usei a frase aqui citada, do Bacon, em outro artigo… Bem, é mais uma demonstração de que não há novidade, apenas esquecimento. Perdão leitores!

===
El Inmortal, Jorge Luis Borges:
https://www.ingenieria.unam.mx/dcsyhfi/material_didactico/Literatura_Hispanoamericana_Contemporanea/Autores_B/BORGES/inmortal.pdf

https://www.bartleby.com/3/1/58.html
“Salomon saith, There is no new thing upon the earth. So that as Plato had an imagination, that all knowledge was but remembrance; so Salomon giveth his sentence, that all novelty is but oblivion.”
===
Geradores automáticos de texto:
https://app.copy.ai/

"O Fabuloso Gerador de Lero-Lero!"
https://lerolero.bgnweb.com.br/

o SCIgen, do MIT, e exemplos:
https://pdos.csail.mit.edu/archive/scigen/
https://pdos.csail.mit.edu/archive/scigen/#examples

O caso do artigo de Alan Sokal
https://physics.nyu.edu/faculty/sokal/

===
https://fasbam.edu.br/wp-content/uploads/2020/08/Escada-dos-Museus-Vaticanos.jpg






terça-feira, 27 de setembro de 2022

Ecos de Kuala Lumpur

Semana passada ocorreu a 75 a reunião da ICANN, em Kuala Lumpur, Malásia. ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers) é o órgão sem finalidades lucrativas, sediado em Los Angeles-EUA, que desde 1997 assumiu funções da antiga IANA (Internet Assigned Numbers Authority), cuidando da raíz de nomes de domínio e da distribuição de números IP.

Nas reuniões da ICANN, há fóruns abertos e gerais de debate, e há discussões mais aprofundadas, nas organizações de suporte: o GAC (governos), o gNSO (domínios internet genéricos), o ccNSO (domínios de código de país), e a ALAC (de usuários em geral). Dentre os temas críticos que estavam na pauta, um tratou da visão geral do que se está armando em termos de legislação sobre ações e conteúdos na rede, e outro das possíveis ações contra “abuso em nomes de domínio”.

É importante tentar definir o que poderia ser caracterizado como “abusivo” dentro da função de nomes de domínio. Um nome de domínio é um apontador, uma forma mnemônico de se obter o identificador de um dispositivo ou conteúdo na rede (seu número IP). Apagar um apontador para algo, assim, não elimina nem o conteúdo problemático, nem formas de acessá-lo, visto que conteúdo continua no mesmo endereço IP.

Em que situações pareceria adequado remover um mnemônico, e quais efeitos colaterais que isso poderia provocar? Veja-se, por exemplo, quando o domínio, pela sutil troca de caracteres, objetiva levar o usuário a erro: um sítio de nome wikipedla.org, pode fazer um desatento achar tratar-se de wikipedia.org e, se o sítio falso for ainda uma imitação do verdadeiro o problema está criado. Dano mais sério ocorrerá no caso de serviços financeiros, por exemplo. É conhecida como “phishing”, essa “pescaria em água turvas”.

Aqui parece claro que a remoção do domínio evitaria o “phishing” mas, em outras situações, quando um nome de domínio leva a um conteúdo nocivo ou ilegal, eliminar o apontador pode ter o efeito de servir de alerta ao dono do sítio mal-intencionado, que tratará de migrar seu conteúdo e arrumar outro apontador. Outra situação em que remover um domínio pode atingir inocentes é quando ele aponta para uma coleção de conteúdos além do causador do problema. Seria como bloquear o apontador a um prédio de condomínio, porque um dos condôminos tem conteúdo inadequado.

Um conteúdo pode ser ilegal num país e legal em outros. Assim, a discussão sobre eliminar-se o domínio pode tornar-se mais complexa. Exceto em casos flagrantes, como o “phishing” mostrado acima, a decisão sobre a legalidade ou não de um conteúdo deve ser do sistema judicial nacional envolvido. Remover o apontador elimina uma facilidade de acesso, mas não redunda em real ação sobre o conteúdo em si. E arvorar em instâncias de decisão os que apenas operam serviços na rede é plantar sementes de futuros problemas.

===
https://blog.apnic.net/2022/06/14/dns-abuse-trends/

===


terça-feira, 13 de setembro de 2022

Internet, a Memoriosa

Segue a inescapável discussão sobre formas de proteger nossos dados pessoais, mas podendo usá-los racionalmente quando se tratar de interações e transações seguras. Os atores principais nesse processo são as construções feitas sobre a rede que, com seus méritos e suas mazelas, proporcionam-nos experiências da informação, comunicação e do novo comércio.

Em artigo recente, outro aspecto preocupante desse labirinto de dados foi evidenciado nos comentários durante a audiência pública sobre o estado da aquisição e agregação dos dados de usuários de plataformas. Dois dos principais engenheiros de importante operadora reconheceram que, mesmo com todo o suporte técnico, é muito difícil para eles apontar com exatidão tudo o que o sistema sabe sobre alguém. A própria ferramenta colocada à disposição dos usuários para que saibam das informações que o sistema tem sobre eles é insuficiente: há dados individuais que a ferramenta não identifica. Mesmo os responsáveis pelo sistema não conseguem apontar todos os dados de alguém, embutidos no emaranhado de informações coletadas ou inferidas. Eles reconheceram, aliás, um problema algo comum em sistemas informáticos complexos, criados rapidamente a muitas mãos: sequer há documentação completa sobre os módulos desenvolvidos: a única maneira de avaliar a potência e as características finas de funcionamento do sistema é a análise do próprio código escrito. A enorme quantidade de informação recolhida ou inferida pode ser inadministrável...

No conto de Jorge Luis Borges, “Funes, o Memorioso”, essa ilimitada capacidade de memorização é tratada de forma muito criativa. É a curta história de Irineu Funes, que após ficar paraplégico numa queda de cavalo, adquire a capacidade de memorizar absolutamente tudo. Funes, por exemplo, é capaz de descrever o que aconteceu num dia qualquer, minuto a minuto. Claro que, na própria descrição se gastará outro dia inteiro. Para Funes, cada objeto, pedra, folha, número, teria um nome próprio específico; “perturbava-o que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quinze (visto de frente)”. Diz-se que Ciro, rei dos persas, referia-se a cada um de seus milhares de soldados pelo próprio nome…

É fato que a internet, suas ferramentas e as construções que nela existem nos trouxeram um mundo em que, não apenas nada é esquecido, como podemos recuperar instantaneamente coisas de cuja existência sequer suspeitávamos. Mergulhados nesse infinito mar de dados e informações, não distinguimos o importante do fútil, o essencial do anedótico, o real do imaginado. Os que estudam a evolução do comportamento humanos deveriam fazer um esforço concentrado para examinar que inesperadas e incontroláveis consequências isso trará. Diz o próprio Borges: “somos nossa memória, somos esse quimérico museu de formas inconstantes, esse montão de espelhos quebrados”.

===
O caso citado da plataforma:

https://theintercept.com/2022/09/07/facebook-personal-data-no-accountability/

===
Memória e Borges:

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160207_vert_fut_super_memoria_ml

https://super.abril.com.br/ciencia/dez-animais-classicos-criados-pela-imaginacao-humana/

https://www.ingenieria.unam.mx/dcsyhfi/material_didactico/Literatura_Hispanoamericana_Contemporanea/Autores_B/BORGES/memorioso.pdf

https://globalherit.hypotheses.org/1440 (Pedro Pereira Leite):

"... soube que formava o primeiro parágrafo do capítulo XXIV do livro sétimo da 'Naturalis historia'. O assunto desse capítulo é a memória, as últimas palavras foram  ut nihil non iisdem verbis redderetur auditum.” .<...> A frase latina, escrita com precisão da memória contem um paradoxo. Em castelhano (e também em português), ao dizermos que “nada que tenhamos ouvido, não pode repetir-se com as mesmas palavras” afirmamos uma impossibilidade."


===
http://cantinhodoalmir.blogspot.com/2019/03/funes-o-memorioso-o-conto-que-traz-uma.html