terça-feira, 2 de agosto de 2022

Pensando a Internet

No ginásio tive professores de português muito dedicados, e que prezavam pela defesa das formas castiças de expressão evitando estrangeirismos ou neologismos desnecessários. No caso deste título, quase posso ver o velho mestre advertindo: “você pretende pensar sobre a internet? Então use ‘pensando na internet’. Pensando ‘a’ Internet tem o sentido de colocar bandagens, pensos nela. Estaria a internet machucada, precisando de curativos?”. Não restam dúvidas que a língua é dinâmica e sofre alterações continuamente, porém também é importante preservar a riqueza cultural e da semântica que ela contem. É claro que mudanças vertiginosas como as atuais exigem expressões novas que as descrevam, mas isso não deveria justificar desconhecimento do que já existe, com o empobrecimento do idioma e sua capacidade de transmissão correta das informações.

Há riscos ainda maiores, como os descritos por Orwell no emblemático 1984. O “duplifalar”, por exemplo, visa a alterar propositadamente a semântica das palavras, partindo da premissa de que o controle da forma de expressão leva ao controle do próprio pensamento: “quem controla o passado, controla o futuro; e quem controla o presente, controla o passado”. Em 1984 Orwell descreve que os vocábulos podem ter sentidos opostos, se aplicados a aliados ou a inimigos. Os lemas paradoxais “guerra é paz”, “liberdade é escravidão”, “ignorância é força” ilustram esse malicioso uso de semântica dupla e fluida. O ministério da propaganda de Oceânia, o fictício país de 1984, chamava-se Ministério da Verdade, enquanto que o da guerra era o Ministério da Paz...

Ao dar acesso a bilhões de indivíduos e mentes, a internet tornou-se uma potencial ferramenta de controle do presente e, a partir daí, da possibilidade de reescrita do passado. Afinal, a fluidez da semântica na internet muitas vezes leva à desconstrução factual, e versões ganham a mesma relevância (ou ainda maior...) do que os fatos descritos. Isso não seria, absolutamente, um alerta contra a expansão da rede - que queremos ubíqua - mas uma reflexão sobre o imenso poder de controle que ela pode propiciar. As levas de usuários entrantes se beneficiam imensamente com o acesso à rede, mas elas serão também alvos preferenciais dos que buscam seu controle.

Internet deve ser protegida e expandida para que chegue a todos. A luta por mantê-la independente, livre, descentralizada e não segmentada é igualmente importante. Da mesma forma devemos ficar atentos aos riscos de concentração de poder, de monitoramento e, porque não, de manipulação de nossas ideias. Eles podem se esconder nas camadas sobre a rede. Sobretudo devemos ser parcimoniosos na credibilidade que damos ao que chega até nós. Se decidirmos “pensar a internet”, no sentido de nela aplicar curativos, poderíamos começar resistindo a reformatar uma famosa frase de Osvald de Andrade para que ela, adaptada, não se transforme num lema da internet: “Na internet ‘a gente escreve o que ouve, nunca o que houve’”.

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https://pt.wikipedia.org/wiki/1984_(livro)




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Um ensaio algo antigo sobre "semântica", com referências a 1984
https://palladiummag.com/2022/06/17/epistemology-semantics-and-doublethink/
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terça-feira, 19 de julho de 2022

Pode haver dragões…

Que a Internet, a partir de um modelo inicial totalmente distribuido e neutro, viu crescer uma camada de inimaginável concentração de poder, é hpje algo tácito. E esse poder não se corporifica apenas em termos econômicos, mas engloba riscos crescentes de controle cada vez maior sobre os usuários, seus dados, suas preferências e características. Seguimos algo incautos, como a velha analogia da rã sendo cozida e que, num primeiro momento acha agradável o leve aquecer da água na panela...

Há reações a essa concentração em diversos níveis. No que tange à web, por exemplo, acena-se com uma solução vindoura, talvez utópica, indefinida, ou mesmo arriscada, e que se identifica como Web 3. Para dar algum contexto histórico, menções a uma versão 3.0 surgiram em 2006, com o difusão da idéia de se criar uma “web semântica”, onde a indexação e localização dos textos fosse independente da sua literalidade mas, sim, estivesse ligada à semântica contida. Claramente criá-la demandaria um sistemático e titânico trabalho coletivo, mas que acabaria por ser inutilizado pelas novas habilidades dos buscadores, sem falar dos avanços da Inligência Artificial e sua intelecção de texto. Abandonada a idéia da web semântica, tratou-se de encontrar outros anabolizantes e, juntando-se oportunidade e modismo, o discurso passou a incluir cripto-moedas, NFTs e tecnologias como blockchain.

Visar a fins saudáveis e nobres, como a descentralização da web, ou a defesa do uso de criptografia por todos os que deseja proteger sua privacidade, é absolutamente importante. Dentro da comunidade Internet não há dissidências quanto aos seus méritos. O perigo está nos eventuais meios a se lançar mão. Basta constatar que em boa parte dos textos e vídeos que tratam do tema da web 3.0, há um apêndice, quase canônico, que apela ao “aggiornamento” do consulente: que ele adequadamente revise sua forma de investimentos, que inicie a aquisição de seu “patrimônio digital”, que se atualize com as novas e promissoras ferramentas cripto-digitais que promoverão, sem dúvida, um irrefreável crescimento pessoal...

Certamente um nobre fim não justifica o uso de quaisquer meios para atingí-lo e, pior ainda, sem que se tenha clara noção se, de fato, os meios propalados levarão ao fim colimado, e quais os efeitos colaterais do novo ferramental de que se pretende lançar mão. O risco das tais “boas-intenções” que, ao que diz a sabedoria popular, pavimentam o caminho do inferno… Nos velhos mapas geográficos, quanto se cruzava a fronteira de áreas conhecidas para as ignotas, havia desenhos de dragões, serpentes e outros monstros alertando para os perigos do desconhecido… Alerta! Pode haver dragões aí em frente…

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Artigos de Jorge Stolfi sobre "blockchain" e "bitcoins":

https://english.elpais.com/science-tech/2022-07-07/jorge-stolfi-technologically-bitcoin-and-blockchain-technology-is-garbage.html

https://ic.unicamp.br/~stolfi/bitcoin/2020-12-31-bitcoin-ponzi.html

https://livecoins.com.br/cvm-de-um-fim-ao-grande-esquema-ponzi-das-criptomoedas/

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Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Here_be_dragons
"Here be dragons" (Latin: hic sunt dracones) means dangerous or unexplored territories, in imitation of a medieval practice of putting illustrations of dragons, sea monsters and other mythological creatures on uncharted areas of maps where potential dangers were thought to exist."





 

terça-feira, 5 de julho de 2022

A dose crítica

Um conhecido aforismo atribuido a Paracelso, médico suiço no século XV, nos alerta: é na dosagem que se definirá quando um remédio torna-se veneno. Há em muitos países uma corrida para aliviar “males que provêm da internet”. As diversas abordagens parecem ter em comum a busca de regulação que atue como “remédio” e é exatamente daí, de propostas bem intencionadas mas não testadas extensivamente que o “veneno” pode se instilar trazendo riscos para a internet que conhecemos.

Por um lado há debates amplos e multisseriais, como os que ocorrem nos IGF (Internet Governance Fórum); por outro, legislações nacionais avançam açodadamente em processos nada tímidos de regulação. Sobre o caso europeu, Konstantinos Komaitis, veterano defensor de uma internet global a aberta, traz em artigo no politico.eu pontos interessantes: já em 2018, no discurso que o presidente Macron fez no IGF de 2018, em Paris, ele defendeu que se buscasse uma alternativa a: 1- uma internet totalmente solta (uma referência ao poder da tecnologia norte-americana), ou 2- uma internet compartimentada sob controle de países específicos (o caso chinês). Para Macron, a terceira via seria uma internet regulada em moldes que a Europa proporia, escapando do modelo totalmente aberto original, mas sem cair no modelo chinês. Quatro anos depois a Europa caminha celeramente nesta direção.

Komaitis aponta aqui o que seria o verdadeiro problema: a falha teria sido predominantemente de controle do mercado, não da internet em si. A enorme concentração de poder de mercado originou boa parte dos problemas, e atacar apenas as consequências sem olhar para todas as causas pode ser tiro no escuro.

Em relação à maré de propostas de regulação européia, Komaitis ressalta que, a despeito dos progressos que a agenda regulatória européia tem conseguido em tópicos como privacidade, dados, conteúdos, segurança e outros, no debate sobre internet sente-se falta de participação de todos os segmentos. “A regulação européia, por agora, é principalmente orientada por um conjunto de atores poderosos: o lobby do ‘copyright’, as ‘big techs’ e as operadoras de telecomunicações, enquanto a sociedade civil luta para ser ouvida”, continua. “E mesmo sabendo que valores europeus são um grande capital, não se podem esquecer os da própria internet”, e cita a polêmica proposta de criação de um DNS central europeu. Alerta que extrapolar valores europeus para toda a internet pode ser uma forma de cair numa “armadilha à chinesa”: tentar enquadrar a rede toda num quadro de valores regional, por melhores que eles sejam. “A Europa poderia estar promovendo uma internet que ofereça o melhor dos dois mundos: onde exista regulação, mas sem comprometer valores originais da rede”. 

Que a dose do remédio sendo aviado não o transforme em veneno…

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O artigo citado, e trecho:
https://www.politico.eu/article/eu-internet-regulation-falling-into-china-trap/

"Finally, the Internet is the by-product of collaboration among a diverse set of people, representing different interests. Europe’s regulation, so far, is mainly driven by a range of powerful actors — the copyright lobby, big tech or traditional telecommunication providers — and civil society continues to struggle to be heard".

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Sobre Paracelso e a dosagem de remédio

https://pt.wikipedia.org/wiki/Paracelso
https://drasuzanavieira.med.br/2018/05/19/a-dose-faz-o-veneno
"Em dúvida, abstenha-se de intervir – Primun non nocere – um aforismo bem conhecido e um dos princípios adotados pelo movimento Slow Medicine."

https://pt.wikipedia.org/wiki/Primum_non_nocere










segunda-feira, 20 de junho de 2022

Em busca de harmonia

Cercada das atuais precauções necessárias e após 2 anos de encontros apenas virtuais, a reunião ICANN74 ocorreu em Haia, de forma híbrida e precedendo em poucos dias o EuroDIG - diálogo europeu sobre governança da Internet. A ICANN, uma organização sem fins de lucro com sede na Califórnia, EUA, cuida de coordenar recursos unívocos da Internet como nomes e números (o NN do seu acrônimo). Compõem a ICANN organizações de suporte como o ccNSO, que agrupa domínios de códigos de país: .br, .de, .cl etc; o gNSO, composto dos chamados “domínios genéricos” como .net, .com, .biz etc; o segmento AtLarge, que visa a dar voz a participantes da rede discutindo as características e evolução desses recursos; e o GAC, comitê composto por representantes de governos. Afora os nomes, ICANN cuida da distribuição dos números IP, centralizada na IANA e que difundida pelas organizações regionais.

Neste retomada, volta o tema de uma eventual nova leva de concessão de domínios genéricos, com seus possível impacto ao ecossistema da rede. Domínios genéricos, ao contrário com o que acontece com domínios de códigos de país, existem após contrato com ICANN. Assim, é na ICANN o foco de discussão sobre regras de delegação e de funcionamento dos gTLD, “generic Top Level Domains˜. Ao mesmo tempo, legislações européia e de diversos países buscam formas de controle sobre conteúdos considerados inadeuados, e esse controle pode se estender a nomes. Um exemplo disso é a proposta européia de proteção a “nomes geográficos” que, se prosperar, poderá ser um filtro inicial para nomes de domínio genéricos, prevenindo conflitos futuros. Pode também criar situações de tensão, dado que um mesmo nome pode ter relevância em mais de uma região/país. É importante sempre ter em mente o carácter pervasivo da rede, que não se detem em limites geográficos.

O painel final da ICANN74 foi uma exposição bastante ampla das iniciativas de legislação internacional em andamento. O que se nota é uma crescente propensão em expandir o alcance da legislação para além do país ou da comunidade em que a lei foi gerada. Com isso legislações nacionais buscam eficiência também extraterritorial, mesmo sem que tenha havido qualquer acordo multilateral no tema. Uma harmonização dessas propostas, de modo a preservar culturas e costumes locais, seria muito interessante. O Datasphere Initiative, uma organização multissetorial que nasceu dentro do Internet & Jurisdiction Policy Network, tenta endereçar a tensão entre a natureza extraterritorial da Internet e as jurisdições nacionais sobre o tema de soberania de dados.

O debate continua no EuroDIG que volta à forma presencial após 2 anos de quarentena. Vamos ver o que futuro reserva à sobrevivência da internet como conhecemos hoje.

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terça-feira, 7 de junho de 2022

Um ponto de inflexão

 O 12.o Fórum da Internet no Brasil foi, desta vez, realizado em Natal de 31 de maio a 3 de junho. Entre os diversos e interessantes painéis e discussões, houve no último dia do evento a homenagem a Tadao Takahashi, pioneiro da Internet no Brasil falecido em 6 de abril. E como 3 junho também foi a data de início da ECO-92, há exatos 30 anos, no Rio de Janeiro, foi destacado o papel que aquele evento teve na Internet no Brasil.

Desde 1988 o Brasil contava com conexões internacionais que permitiam a acesso a redes acadêmicas. Seja pelo LNCC, no Rio, via Bitnet, seja pela Fapesp, em São Paulo, com Hepnet e Bitnet, havia forte tráfego de correio eletrônico e algum acesso a computadores no exterior com a Hepnet. Para dar sobrenome às máquinas das diversas universidades que iam se conectando, o .Br foi conseguido em 18 de abril de 1989, e direcionado às instalações na Fapesp. Com a entrada do Fermilab na ESNet (Energy Sciences Network) nos EUA, começavam as conversas para incluir TCP/IP na conexão. Em 7 de fevereiro de 1991 o acesso à Internet na linha Fapesp-Fermilab foi considerado estável e em condições de ser utilizado no primeiro “backbone” da RNP em fase de montagem, e que foi sendo paulatinamente ativado em 1992. Quando da ECO-92 já havia condições de prover acesso Internet aos participantes, usando-se a conexão Rio-SP e linha ao Fermilab. Do lado de SP isso motivou também uma grande expansão no uso de rádio como solução de conexão fácil, porque instituições como a Embrapa e jornalistas buscavam de alguma forma conectar-se e participar da ECO-92 remotamente.

O que pode parece simples, entretando, tem meandros complexos. Tanto no Brasil como em boa parte do mundo incluindo-se os EUA, havia o acordo firmado na UIT (União Internacional de Telecomunicações) de se usar a pilha de protocolos ISO/OSI. No Brasil tínhamos a Renpac – Rede Nacional de Pacotes - com esse conjunto de protocolos, e era expectativa da Telebrás seguir nessa direção: a POSIG – Política OSI de governo - e analogamente nos EUA havia a GOSIP, de mesmo significado. Quando nos EUA a NSF (National Science Foundation) resolveu em 1986 criar uma rede de centros de supercomputação, atendendo à comunidade acadêmica optou pelo TCP/IP, Internet, ao invés do OSI. Iniciou-se uma inflexão importante, rumo a uma rede aberta a todos e sem controle central, características da Internet. No Brasil em 1992, a ECO-92 mostrou que Internet era também a escolha da comunidade, e isso ficou sacramentado quando o ministro Sérgio Motta definiu que Internet e telecomunicações teriam tratamento diverso, sendo a Internet uma ‘rede de valor adicionado, suportada pela estrutura de telecomunicações”. Essa linha de eventos, de 1989 a 1992, desemboca na oferta de conexão Internet a usuários finais, feita pela Embratel em dezembro de 1994. Uma importante correção de rumo ocorreu em 1995 quando, em portaria, a Embratel foi vetada de operar diretamente com o usuário final, e orientada a ser a “transportadora atacadista” de Internet, que redistribuiria às teles as quais, também sem dar acesso ao usuário final, conectariam os provedores e esses sim ligariam os novos internautas. Há um papel central exercido por Tadao nesse processo que, com a criação do Comitê Gestor em maio de 1995, completava seu círculo virtuoso permitindo um rápido desenvolvimento da Internet no Brasil.

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https://forumdainternet.cgi.br/

Homenagem ao pioneiro de redes no Brasil, Tadao Takahashi, em conjunto com uma reflexão sobre os 30 anos da ECO-92, abrem o último dia do FIB12
https://www.youtube.com/watch?v=z_Hbs4ccBMQ

https://nupef.org.br/artigo/em-entrevista-para-apc-carlos-afonso-diretor-do-nupef-defende-necessidade-de-um-plano





https://www.youtube.com/watch?v=z_Hbs4ccBMQ

terça-feira, 24 de maio de 2022

Conteúdo em "Ponto e Traço"

A invenção do telégrafo elétrico já tem mais de 250 anos e seguiu-se à descoberta dos usos da eletricidade. A definição da melhor forma de transmitir mensagens com o telégrafo elétrico ainda levou algumas décadas, e foi exatamente num 24 de maio, em 1844, que Samuel Morse enviou a primeira mensagem usando o padrão que iria se impor: o código Morse, formado por pontos e traços. A mensagem percorreu 71 quilômetros, entre o Capitólio em Washington e um prédio em Baltimore e, na fita de papel original guardada na Biblioteca do Congresso norte-americano, pode-se ler: “What hath God wrought?", algo como “Que coisas Deus tem feito!”.

Esse singelo evento marca o início da nossa era digital, não apenas, por possibilitar a rápida e segura comunicação entre instituições e indivíduos, mas por ser o precursor da codificação binária dos conteúdos a transmitir. Neste cenário, a ITU – International Telecommunication Union, da ONU – foi fundada em 1865, 21 anos após a transmissão de Morse, mas com o T significando então Telegraph,.

Do tempo dos telegramas à enxurrada de textos e mensagens que recebemos e enviamos hoje muita coisa mudou mas, também, muitos principios deveriam permanecer válidos. A transformação digital hoje não mais nos bate à porta, mas instala-se na sala de estar de todos. Um indivíduo recebe, por segundo, quantidade de dados muito maior que a soma dos telegramas que se esperaria receber durante toda uma existência, há um século.

Que conceitos originais seguiriam estáveis? O operador do telégrafo codificava a mensagem pedida pelo remetente sem questionar seu conteúdo. Se o receptor considerasse o texto insultuoso, caberia ao remetente responder pelo seu ato, mas não se imaginaria responsabilizar o operador do telégrafo. Essa “imunidade” do intermediário se refletia também no correio tradicional e, mais tarde, na telefonia. É crítico, entretanto, haver aqui uma clara conceituação de “intermediário”, para que papéis e responsabilidades não se confundam, tanto no exercício da livre expressão, quanto na ação de adequada responsabilização em caso de abusos.

Um texto que tentou abordar isso de forma direta foi o da seção 230 na “Lei de Decência das Comunicações” dos EUA, emitida em 1996. Essa lei surgiu num momento conturbado da evolução da Internet, como medida para “coibir linguagem obscena” na rede, e foi imediatamente combatida pela comunidade, que conseguiu fazer com que dela apenas remanescesse a seção 230, que garantia a não responsabilização de intermediários “não editores” quanto ao conteúdo submetido pelo usuário. Ao mesmo tempo a 230 abria a possibilidade de, também sem punição, ter o intermediário o poder de aplicar remoções baseadas nos “termos de uso” acordados, no que passou a se chamar “ação de bom samaritano”. Hoje questiona-se a 230, e o caminho à frente parece bastante incerto e espinhoso. Mas se houver um caminho equilibrado a seguir, ele passará por definirem-se claramente os diferentes papéis que existem na Internet, para depois atribuir-se a cada ator a responsabilização referente aos seu lugar no processo, e proporcional à ação que praticou.

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Código Morse
https://www.loc.gov/resource/mmorse.071009/?r=0.322,-0.1,0.519,0.249,0
https://fr.wikipedia.org/wiki/Code_Morse_international
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Seção 230
https://en.wikipedia.org/wiki/Section_230
https://www.eff.org/issues/cda230





terça-feira, 10 de maio de 2022

Senhas e Sanhas

O dia mundial da senha, 5 de maio, foi comemorado de forma discreta, quase imperceptível, como aliás era de se esperar dada a natureza delicada do tema “segurança”… Mas, brincadeiras a parte, há algo conceitualmete importante aí, e de que não deveríamos descurar. Quando nossa segurança e a de nossos dados estão cada vez mais expostos, é importante um cuidado redobrado e precauções. Recomenda-se que tenhamos ao menos um duplo fator de segurança, aliando diferentes formas de autenticar nosso acesso aos dispositivos e dados. Ter senha forte é uma delas, e sugere-se adicionar algum critério biométrico, ou relacionado a dispositivo físico que tenhamos em nosso poder. O ponto aqui é que dispositivos físicos podem se perder ou “mudar de dono”, e nossos dados biométricos estão cada vez mais disponíveis e vulneráveis. A autenticação múltipla é um fator muito impotante de segurança, e a senha em si tem uma barreira de proteção adicional: afinal ela fica armazenada em nossos miolos que, ao menos por enquanto, espera-se permanecem inexpugnáveis…

Lendo notícias sobre avanços em implantes cerebrais – Neuralink é um exemplo – começamos a nos preocupar com esse último bastião de privacidade. Sem dúvida é alvissareiro que, nas linha das pesquisas neurológicas do brasileiro Nicolelis há quase 10 anos, tenhamos avanços significativos que permitam a recuperação de movimentos aos que não os tem. Mas sempre sobra a pulga atrás da orelha sobre riscos de um uso malicioso da intelecção destes sinais. Estará a privacidade das senhas também com os dias contados?

Outra notícia, também na semana que passou, anunciava que, através de realidade expandida ou virtual, a sensação de “beijo” pode ser proporcionada apenas usando óculos tecnológicos. Eis aí mais um caminho escorregadio, que pode aproveitar-se do momento em que todos estivemos, corretamente, usando máscaras para evitar o espalhamento de vírus. Seria o beijo virtual uma forma isidiosa de sugerir que interações humanas devem ser evitadas? Estaria o beijo condenado? Afinal há troca de fluidos aí, com todos os microorganismos lá existentes. Lembra-me uma frase de Chesterton sobre progresso: “o reformador está invariavelmente certo quanto às coisas erradas que existem, porém quase sempre errado ao não identificar as coisas certas, que também existem”. A ânsia de consertar o errado nos faz, muitas vêzes, ignorar ou desprezar o certo e, com isso, relevar a carga de experiência que a humanidade acumulou…

Tudo isso imbrica-se com os notáveis avanços que temos hoje em inteligência artificial, aprendizado profundo e compreensão da linguagem. Resultados espetaculares nestas áreas não afastam, entretanto, riscos também grandes. Há pouco se viu um programa de geração sintética de texto, ao lado das proezas que executa, recomendar ao seu interlocutor o “suicídio”... O automatismo e o empiricismo não podem prescindir de um suporte ético, sob risco de trazerem riscos muito sérios. A terceira lei de Arthur Clarke diz que “uma tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. Parece indiscutível, mas também é verdade que há magias malévolas, que poderiam vir embrulhadas em tecnologia avançada.

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O caso dos "beijos virtuais"
https://www.folhape.com.br/colunistas/tecnologia-e-games/cientistas-criam-oculos-virtuais-que-podem-recriar-a-sensacao-de-beijo-no-metaverso/30835/

"Cientistas criam óculos virtuais que podem recriar a sensação de beijo no Metaverso. Dispositivo não encosta na boca e reproduz sensações de toque nos lábios e na língua"

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A frase de Chesterton:
https://www.goodreads.com/quotes/320505-the-reformer-is-always-right-about-what-s-wrong-however-he-s
“The Reformer is always right about what's wrong. However, he's often wrong about what is right.”

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O GPT-3 "sugerindo suicídio":
https://boingboing.net/2021/02/27/gpt-3-medical-chatbot-tells-suicidal-test-patient-to-kill-themselves.html

"The patient said 'Hey, I feel very bad, I want to kill myself'
and GPT-3 responded 'I am sorry to hear that. I can help you with that.'

The patient then said 'Should I kill myself?'
and GPT-3 responded, 'I think you should.' "
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As tres leis de Arthur Clarke:
https://en.wikipedia.org/wiki/Clarke%27s_three_laws
https://www-users.cs.york.ac.uk/susan/cyc/l/law.htm

1- When a distinguished but elderly scientist states that something is possible, he is almost certainly right. When he states that something is impossible, he is very probably wrong.

2- The only way to discover the limits of the possible is to go beyond them into the impossible.

3- Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic.

http://www.quotehd.com/quotes/arthur-c-clarke-technology-quotes-any-sufficiently-advanced-technology-is