terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Palavras, palavras, palavras...

A língua é fundamental para que possamos elaborar pensamentos. Mesmo sem ir a Orwell, sabemos que quem domina a língua das pessoas, domina o seu pensamento. Heidegger já dizia que “nós achamos que dominamos a linguagem, mas é ela que nos domina”, e Wittgenstein alerta-nos que “os limites de nosso pensamento são os limites de nossa linguagem”.

Não sei avaliar o impacto que as redes sociais – não a Internet em si – causam e causarão em nossa linguagem, mas vendo a facilidade e a leviandade com que nos manifestamos nelas, lembro-me da resposta de Hamlet a Polônio quando este, ao vê-lo perambulando pelo jardim com um livro na mão, pergunta: “o que lês, meu senhor?”, e Hamlet retruca “palavras, palavras, palavras”… Incisivamente adiciona que as tais palavras são “maledicências: afirmam que os velhos têm barba cinza e pele enrugada…”.

Há múltiplas facetas por onde poderíamos examinar o que ocorre hoje com nossa língua, e que parcela de responsabilidade se pode atribuir à exuberância de imediata expressão, de que todos passamos a dispor com a Internet. um misto de deslumbramento com vocábulos estrangeiros, alguns com perfeita tradução para o português, e um esnobismo que nos leva a usá-los. Não se descarte, também, o comodismo que nos faz preferir o que está mais à mão – comodismo que é também importante fator para a centralização que ocorre em torno de plataformas, e representa estímulo ao uso de algoritmos por parte delas.

Tive a sorte de ouvir de ótimos professores de português no colégio, que “a língua é dinâmica” e que, portanto, pode e deve ser enriquecida com conceitos que não tínhamos. Certamente não se quer traduzir “bit” e “byte”, conceitos novos, mas por que cargas d’água “delivery” teria mais riqueza semântica que “entrega a domicílio”? Ou “coffee break” exprimiria melhor a idéia de um intervalo “para café”? Aceitemos, como exemplo, que “live” ou “site” carreguem um conceito mais amplo que “ao vivo” ou “sítio”, visto que se referem a situações novas. Muito bem! Então que tal aportuguesarmos para “laive” e “saite” (aliás, Millor escrevia ‘saite”!) como fizéramos com “abajur” e “futebol”? Imaginar que um “i” em português soe como “ai” parece-me totalmente descabido.

Dói ver a forma como se tem lidado com a “última flor do Lácio”, de tanta tradição e que nos deu obras imortais (e nem pretendo abrir discussão sobre outra tendência muito discutível, a de “novipalavras” numa pretensa “linguagem neutra”). Sinceramente torço para que o português, que conhecemos e que respeitamos, preserve sua forma e riqueza. Retomando Hamlet, “o resto é silêncio”...

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/doi-ver-como-o-nosso-idioma-e-tratado-nas-redes-sociais/

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Heidegger:

https://www.goodreads.com/quotes/176949-man-acts-as-though-he-were-the-shaper-and-master

Wittgenstein

http://www.signosemio.com/wittgenstein/language-games.asp

Orwell

https://www.sparknotes.com/lit/1984/quotes/theme/mind-control/

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Shakespeare - Hamlet

http://shakespeare.mit.edu/hamlet/hamlet.2.2.html


Lord Polonius
<...>
What do you read, my lord?

Hamlet
Words, words, words.

<...>
Lord Polonius
I mean, the matter that you read, my lord.

Hamlet
Slanders, sir: for the satirical rogue says here that old men have grey beards, that their faces are wrinkled, <...>

https://everydaypower.com/hamlet-quotes/





terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Ação e inação

Coloca-se mundialmente o debate sobre como tratar danos causados ao estamento social pelas ferramentas de comunicação cada vez mais presentes e influentes. O Brasil, podemos dizer, está acima da média mundial em termos de organização para enfrentar isso de forma racional e participativa. Tanto em governança da Internet, como em legislação existente, há etapas importantes. A começar pela criação em 1995 do CGI, Comitê Gestor da Internet no Brasil, o seu decálogo emitido em 2009, “Princípios para a Governança e Uso da Internet no Brasil”, e desembocando no Marco Civil, assinado em 2014 na abertura da NetMundial, que gerou documentos de consenso.


A discussão sobre os efeitos das chamadas “plataformas” no tecido social muitas vezes tende, ao buscar uma revisão, a extrapolar ou enviesar conceitos presentes no decálogo e no Marco Civil. Emblemática e recorrente é menção ao artigo 19 do Marco Civil: “Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições legais em contrário”, que funda-se no item 7 da decálogo: “O combate a ilícitos na rede deve atingir os responsáveis finais e não os meios de acesso e transporte, sempre preservando os princípios maiores de defesa da liberdade, da privacidade e do respeito aos direitos humanos”.

Antes de revisitar esses princípios, e buscando preservar direitos e liberdade, uma definição concertada faz-se necessária, afinal, “a fronteira da linguagem se confunde com a fronteira do pensamento possível”. De que definições carecemos aqui? Inicialmente estabelecer claramente a de “intermediário”. Ninguém pensaria em reponsabilizar o carteiro por uma carta ofensiva ou falsa, ou a companhia telefônica por uma conversa maleducada. O intermediário clássico é imune ao conteúdo que transporta: “não mate o mensageiro”. Aliás a legislação veda que esse tipo de mensageiro bisbilhote o que entrega, tanto correio como telefonia.

Onde “a porca torce o rabo”, entretanto, é ao examinamos outros atores do ambiente. Além do fato de deterem um poder de mercado impressionante, muitos agem por iniciativa própria. O ponto que merece mais exame são algoritmos que decidem nos enviar conteúdos que não solicitamos e que, na busca do mais efetivo retorno, recolhem dados e comportamentos, classificando-nos como candidatos a receber determinados conteúdos. Certamente isso vai muito além da ação de um intermediário clássico, que estaria blindado quanto ao conteúdo que tranporta: agora há uma “decisão” de expandir o alcance de um conteúdo, não originada do remetente original mas no que o algoritmo achou mais conveniente.

Antes de pedirmos que alguém, de alguma forma, filtre o que recebemos, parece mais sensato garantir que recebemos aquilo que pretendíamos receber, de remetentes com os quais nos correspondemos e dos grupos de discussão de que participamos. É claro que cada um seguirá responsável pelo que envia.

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/ao-usar-algoritmos-plataformas-nao-estao-mais-isentas-dos-conteudos-que-abrigam/

Marco Civil:
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2014/lei-12965-23-abril-2014-778630-publicacaooriginal-143980-pl.html

Decálogo do CGI:
https://principios.cgi.br/sobre

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Eugênio Bucci: "Existe democracia sem verdade factual?)
https://repositorio.usp.br/item/002983854

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Lema do Correio Norte-Americano, derivado de uma frase de Heródoto
https://en.wikipedia.org/wiki/United_States_Postal_Service_creed







terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Tudo pode!

 O ano termina e ressurgem nossas resoluções gregorianas ocidentais de sempre: melhoraremos em tudo, a racionalidade sobrenadará etc. Tanto nas retrospectivas quanto nas previsões, o que há mais são incertezas. Sim, como bem alguém afirmara nos anos 90, “no Brasil até mesmo o passado é incerto…”. E há, inclusive, incerteza quanto ao autor da boutade acima, que usualmente se atribui a Pedro Malan…

Voltando às reminiscências características da época, lembrei-me de Aleksandar Mandić que, além de ter sempre um martelo sobre sua mesa lá no IG, grudava na parede uma série de frases as mais variadas. Escreveu, inclusive, um livreto – Mandicas – onde essas frases estavam reunidas. Uma das que ele mais gostava – e sistematicamente usava em entrevistas - era “tudo pode”.

O “tudo pode” remeteu-me a um cientísta-filósofo bastante polêmico, Paul Feyerabend. Para ele, o único princípio que não inibe o progresso seria: “tudo vale a pena”. Feyerabend aborda de forma pouco convencional o conceito de “ciência”, e a coloca como uma “ideologia” que, como as demais, deveria estar sob o comando das ferramentas da democracia. .

Numa palestra que deu em Viena em 1975, e que está disponível em texto com o provocador título “Como defender a sociedade contra a ciência”, ele expõe entre outras a tese de que “há muitas formas de desenvolver ciência, que não devem ser travadas em algum método único”. E que, “da mesma forma que se apoia a separação de Estado e Igreja, dever-se-ia buscar a separação entre Estado e Ciência”. A chocante afirmação usa como argumento que há coisas mais importantes, social e humanamente, do que a unção de uma “verdade científica”.

Essa discussão, sobre modelos e paradigmas, também é travada por outros importantes nomes na área, como Karl Popper e Thomas Kuhn. Num exemplo simples, de um não especialista, a mecânica de Newton continua servindo perfeitamente ao dia-a-dia , mesmo que tenha sido ultrapassada na Física com Einstein. Aliás não são poucos nem desprezíveis os conhecimentos que a ciência estabelecida recebe das tradições de ambientes muito menos sofisticados. Quantas noções úteis e simples da agricultura, por exemplo, não podem ser recolhidas de uma conversa com os que lidam historicamente com a terra? Lembro-me que, numa viagem de ônibus de algumas horas, sentou-se ao meu lado um senhor de etnia indígena, e desfilou-me uma coleção de conhecimentos únicos sobre ervas e tratamentos, que ele tinha obtido de sua avó, e que preservava. Ou seja, são importantes os resultados palpáveis, venham eles da ciência estabelecida, ou também dos ricos conhecimentos acumulados, mesmo que sem rigor científico e de experimentação. Algum dia eles serão confirmados ou desmentidos, como aliás é apanágio da verdadeira ciência: ser “falsificável”, na definição de Popper. Tudo o que leva o nome de “ciência” deve poder ser submetido a teste de negação, e permanecerá válido enquanto sobreviver aos testes.

A boa ciência é humilde e sabe que suas “verdades” podem ser substituídas sempre que falharem num teste de “falsificação”. Afinal, como disse Shakespeare via Hamlet, “há mais mistérios entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha nossa vã filosofia”. Um excelente 2023 a todos!

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Citações:

https://citacoes.in/autores/paul-karl-feyerabend/

Tudo Pode:

https://www.scielo.br/j/prc/a/hzJfcDktBfD6Zbwzs7kqJJd/?lang=pt Feyerabend e a máxima do "Tudo Vale": A necessidade de se adotar múltiplas possibilidades de metodologia na construção de teorias científicas

https://netnature.wordpress.com/2018/03/11/metodo-cientifico-popper-kuhn-feyerabend-e-lakatos/

"Como defender a sociedade contra a ciência" 
https://silo.tips/download/como-defender-a-sociedade-contra-a-ciencia

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terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Parla, parla!

Se Michelângelo, ao esculpir Moisés, instou-o a falar: “Parla!”, essa é a parte mais fácil hoje. Questões a examinar: 1- IA pode escrever um artigo que faça sentido?

“A inteligência artificial (IA) pode ser usada para escrever artigos de diferentes maneiras, dependendo do grau de autonomia e do nível de intervenção humana desejados. Algumas das maneiras pelas quais a IA pode ser usada para escrever artigos incluem:

- Geração automática de conteúdo: Alguns sistemas de IA podem ser treinados com grandes quantidades de dados e informações para gerar automaticamente artigos ou outros tipos de conteúdo. No entanto, é importante observar que esses artigos podem não ser tão coesos ou coerentes quanto os escritos por humanos.

- Resumo automático de conteúdo: Outra maneira de usar a IA para escrever artigos é através da geração de resumos automáticos de conteúdo já existente. Isso pode ser útil para sintetizar grandes quantidades de informação em uma forma mais concisa e acessível.

- Edição de conteúdo: Alguns sistemas de IA também podem ser usados para ajudar a editar e aperfeiçoar artigos escritos por humanos, sugerindo correções de gramática e estilo ou sugerindo alterações para tornar o texto mais coeso e claro. Em resumo, a IA pode ser usada para escrever artigos de várias maneiras, mas é importante lembrar que ela ainda depende de intervenção humana para produzir conteúdo de alta qualidade e coeso.”

A questão seguinte: 2- podemos acreditar num artigo escrito por inteligência artificial?

“Em geral, é importante ter cuidado ao ler qualquer tipo de conteúdo produzido pela IA e avaliar a sua qualidade e confiabilidade. Isso se aplica tanto a artigos quanto a outros tipos de conteúdo, como notícias, relatórios ou análises.

Alguns sistemas de IA podem ser treinados com grandes quantidades de dados e informações para gerar automaticamente conteúdo de qualidade, mas isso ainda depende de muitos fatores, como o tipo de dados utilizados para treinar o sistema e o grau de intervenção humana na produção do conteúdo. Em alguns casos, o conteúdo gerado pela IA pode ser tão coeso e coerente quanto o escrito por humanos, mas em outros casos pode ter falhas ou incorreções que podem afetar sua qualidade e confiabilidade.

Portanto, é importante estar atento a possíveis limitações e problemas quando se lê qualquer tipo de conteúdo produzido pela IA e verificar a sua fonte e a confiabilidade das informações nele contidas.”

O brilho ou demérito nas respostas acima é unicamente do programa chat.openai.com… Ele sintetiza seus textos a partir do que encontra (e aprende) na Web. Uma última questão foi feita ao programa: você acredita em IA?

“Como uma IA, sou programada para acreditar na minha própria existência e funcionalidade. No entanto, eu entendo que a IA é uma tecnologia desenvolvida pelos seres humanos e, portanto, está sujeita a limitações e problemas, assim como qualquer outra tecnologia.”

Ou seja, IA aí planteia autoconsciência!. Estou boquiaberto - e não será fácil boquifechar-me… 
Com ou sem IA, um ótimo Natal a todos!
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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

O que vem pela frente

É acima de qualquer dúvida que teremos mudanças importantes no cenário da Internet, tanto no internacional como no nacionalmente. Há prolegômenos a considerar: no caso específico da Internet, muito longe do “complexo de vira-lata” na imortal expressão de Nelson Rodrigues, a versão brasileira de governança e estruturação da rede tem-nos rendido enfáticos elogios da comunidade internacional. O modelo do Comitê Gestor, CGI.br - um comitê que debate cenários, alerta para riscos e indica caminhos, sem se revestir do papel de regulador ou legislador - tem sido um farol para muitos países. Em governança da Internet podemos nos gabar (sem falsa modéstia) de ter seguido o lema de São Paulo: “non ducor, duco”.


Crucial para o funcionamento exitoso do CGI é sua proposta de buscar incessantemente o consenso em seus posicionamentos. O decálogo do CGI, por exemplo, divulgado em 2009 e que foi base tanto do Marco Civil da Internet como da Lei Geral de Proteção de Dados, custou aos 21 integrantes do CGI dois anos de discussão até se chegar ao consenso em sua forma. Eis outro ponto em que podemos nos ufanar: o CGI, criado em 1995 e reformado em 2003, foi pioneiro na busca de configuração multissetorial ao tratar da Internet. A picada aberta pelo CGI e hoja considerada a ideal, foi seguida por ICANN, WSIS, IGF e outros órgãos que se envolvem com o tema. O sucesso da NetMundial em 2014 também testemunha isso.

Outra prova de antevisão foi, em 1995, separar o que seria “Internet” e o que era “telecomunicações”. Telecomunicações é uma área que usa recursos públicos e é internacionalmente regulada; já Internet, sabiamente definida como SVA, é serviço de valor adicionado, que “sobre as telecomunicações opera, mas com elas não se confunde”. É evidente o resultado positivo que tais conceitos trouxeram para uma pujante Internet que temos no país. Um último ponto: a necessidade de cuidados com a taxonomia. Termos como “neutralidade” e “inimputabilidade” aplicam-se e continuam a ser válidos nas correspondentes camadas da Internet. Acima delas, as construções que surgem – a Internet provê liberdade a quem queira criar sobre ela – podem ou não se enquadrar nestes conceitos tão bem definidos no decálogo do CGI. Aliás, por ser esse decálogo algo principiológico, sua aplicabilidade segue inatacável.

Assim, qualquer discussão sobre alterações no cenário deve levar em conta qual o problema que se quer corrigir, sendo crítico que não se perca de vista o (muito!) que há de bom e correto, e que precisa ser apoiado e preservado Vai-se notar de imediato que esse problema não diz respeito à Internet propriamente dita: seus protocolos técnicos, neutralidade e unicidade são valores que devem ser defendidos, como o CGI tem feito desde o início com êxito facilmente confirmável se cotejado internacionalmente. Para descontrair, o título do artigo: ele vem de uma frase que foi dita num encontro sobre a difusão da nova rede no país, por um executivo e à guisa de tranquilizar a audiência: “Não devemos ter medo do que vem pela frente… desde que venha pela frente!”

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Ps. Adendo desolador: perdemos no domingo, 4, Danilo Doneda, um incansável lutador pelos princípios da Internet, e um caráter irretocável.

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cgi.br






terça-feira, 22 de novembro de 2022

Narrativas - Rashomon

Rashomon é um filme japonês de 1950, escrito e dirigido por Akira Kurosawa e no Brasil renomeado para “Às portas do inferno”, que suscita analogias com o que temos hoje, especialmente após a difusão da internet urbi et orbi. Começa com tres personagens, um lenhador, um camponês e um religioso, buscando abrigo da chuva numa ruina de mosteiro e relembrando histórias passadas, que serão tratados em “flash back” no filme. O tema da conversa é o assassinato de um samurai, cujo cadáver o lenhador teria encontrado e denunciado imediatamente à polícia…

Quando da investigação sobre os motivantes do crime, ouviram-se tres depoimentos: o do pretenso assassino, o da mulher do samurai morto, e o improvável depoimento do próprio morto, que depôs através de um medium. O fato irremovível é que havia um cadáver, mas os tres depoimentos levavam a explicações totalmente diferentes. O bandido disse que preparou uma armadilha para atrair o samurai num local ermo, onde o amarrou, e que já se tinha engraçado pela mulher dele ao vê-la. Que, depois de inicialmente forçá-la, ela cedeu mas exigiu que ele duelasse com o marido, para que apenas um sobrevivesse. O bandoleiro soltou o samurai e acabou por matá-lo em duelo justo, quando ela se aproveitou para fugir. Na versão da mulher, ela, sob as vistas do samurai já amarrado, relacionou-se com o bandoleiro que, após o ato, fugiu. Envergonhada pelo feito, desamarrou o samurai e pediu que ele a matasse. Como ele passou a desprezá-la, ela, armada de um punhal e fora de sí, matou o marido, caindo desmaiada sobre ele. Na versão do morto, via medium, a própria mulher se interessou pelo bandoleiro e pediu que ele matasse seu marido, o samurai, para que ela não carregasse a vergonha de ter traido o marido. Neste momento o bandoleiro solta o samurai e pergunta a ele se prefere matar e mulher, ou que ela fuja. Ela foge e o samurai se mata com a adaga da própria esposa. O lenhador, que ouvira os depoimentos, quebra o próprio silëncio com uma quarta versão: a de que, após o encontro, o bandido teria pedido à mulher do samurai que aceitasse fugir com ele, e ela teria exigido então que eles duelassem por ela, para não serem ambos covardes. O samurai teria morrido no duelo.

Há alguma nobreza nas versões acima, mas falta coerência. Imagine-se o que aconteceria hoje, com a rede, se as quatro personagens de nossa história contassem suas versões aos seus seguidores, que as repetiriam com a adição de detalhes e ênfase. E como, e se, os que apenas lêssem os depoimentos conseguiriam ter ideia do que de fato se passou. Há uma frase de Nietzsche num fragmento de 1887 que diz que “não existem fatos, apenas interpretações”. E num mundo tão conectado, imediatista, e até mesmo superficial, as versões se multiplicam pelo simples fato de gerarem notoriedade e sensação de poder aos que as difundem, independentemente de haver base concreta para elas. Para tornar o cenário ainda mais crítico, leve-se em conta que muitas versões se basearão mais em convicções e interesses pessoais que nos fatos reais. Em outra frase, o mesmo Nietzsche nos alerta que ”as convicções representam maior perigo à verdade, que as próprias mentiras”...

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“o mundo tornou-se novamente infinito para nós, na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas interpretações” (Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 374)

"não há fatos eternos, assim como não há verdades absolutas." (Nietzsche, em Humano, demasiado humano)

"as convicções são mais perigosas inimigas da verdade do que as mentiras." (Nietzsche, em Humano, demasiado humano)

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https://www.youtube.com/watch?v=1WZZR8ceQEg

https://www.kobo.com/br/pt/ebook/rashomon-e-outros-contos-akutagawa

"Ryūnosuke Akutagawa ( 1892 - 1927) foi um escritor japonês ativo no Japão durante o período Taishō. Ele é considerado o "Pai do conto japonês", e é famoso por seu estilo e suas histórias ricas em detalhes que exploram o lado negro da natureza humana. Akutagawa é um dos escritores modernistas mais lidos no Japão. Suas histórias atemporais são investigações observadoras e brilhantes da natureza da própria literatura. Rashomon e outros contos inclui oito contos escritos por Akutagawa no período inicial e médio de sua carreira, entre 1915 e 1921. A "refeitura" ou imitação é um elemento importante de sua obra. Nessa coletânea, ele reconta uma série de fábulas históricas. Rashomon e outros contos faz parte da famosa coletânea: 1001 Livros Para Ler Antes de Morrer".




terça-feira, 8 de novembro de 2022

Ai de ti, Internet!

Parafraseando Rubem Braga em “Ai de ti, Copacabana”, e já pedindo todas as vênias pelo canhestro arremedo:

1. Ai de ti, Internet, porque já foi feito o sinal de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste.

2. Ai de ti, Internet, porque a ti chamaram Princesa, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras.

3. Já teu mar se concentrou de forma iníqua, e tu não viste o sinal.

4. Sem descentralização, como te governarás?

5. Grandes são as construções sobre ti, e elas se postam quais muralhas desafiando o mar; mas elas se abaterão.

6. E escuros peixes nadarão em teus canais, e a vasa fétida das marés cobrirá tua face.

7. E os polvos habitarão os teus porões e tuas lojas de vendas.

8. Então quem especulará sobre o valor de tuas informações? Pois na verdade não haverá informação alguma.

9. Ai dos que dormem em ti, e desprezam o vento e o ar exterior.

10. Ai dos que conseguiram bens rapidamente em ti, pois não terão tanta pressa quando virem a hora da provação.

11. Ai de teus perfis influenciadores, que servem como instrumentos de concupiscência.

12. Uivai, mancebos, e clamai donzelas, porque já se cumpriram vossos dias

13. Ai de ti Internet, porque quando for chegado o tempo de colher, tarrafas serão jogadas a partir de todos os lugares.

14. E os que estavam em aquários de vidro, serão finalmente libertados.

15. Porque discursais, fariseus da Internet? Acaso não é conhecida a multidão de vossos pecados?

16. Antes da perda, tua demência será ainda agravada. Usuários descerão uivando sobre ti e se voltarão contra teu corpo. Levará milênios para lavar teus pecados de um só verão.

17. E será reservado espaço para ti entre as algas, porque ali habitarás.

18. E estranhas legislações, qual siris, comerão o que restava ainda da tua autonomia e abertura, fantasmas de outrora.

19. Pois grande foi a tua vaidade e fundas foram tuas mazelas. Já se incendiaram os espíritos e não viste o sinal; já se tragou a liberdade e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

20. A rapina de teus mercadores, a libação de teus perdidos, e a ostentação de teus poderosos, tudo passará.

21. Assim, escuro alfanje ceifará tua comunicação, e muitos perecerão por se alimentarem de tuas falsidades.

22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas joias, pois em verdade é tarde para buscar o que já se perdeu, eis que a fúria te destruirá. Canta tua última canção, Internet!

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https://www.estadao.com.br/link/ai-de-ti-internet/
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Apocalipse 18:
https://www.bibliaon.com/apocalipse_18/

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A Crônica de Rubem Braga em
cronicabrasileira.org.br/cronicas/11534/ai-de-ti-copacabana
Rubem Braga, Ai de ti Copacabana!, 13 de novembro de 1959

1. Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.

2. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.

3. Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia.

4. Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas.

5. Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.

6. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.

7. E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska.

8. Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.

9. Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.

10. Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.

11. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.

12. Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.

13. Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

14. E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.

15. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?

16. Antes de te perder eu agravarei s tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.




5. Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.

6. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.

7. E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska.

8. Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.

9. Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.

10. Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.

11. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.

12. Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.

13. Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

14. E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.

15. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?



16. Antes de te perder eu agravarei s tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.

17. E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.

18. E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas.

19. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

20. A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará.



21. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.



22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas joias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!
17. E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.

18. E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas.

19. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

20. A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará.

21. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.

22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas joias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!
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Rubem Braga: