terça-feira, 21 de abril de 2026

Amor a Roma

Nesta terça-feira, 21 de abril, celebra-se a mitológica fundação de Roma. Não há certeza de que foi exatamente neste dia, em 753 AC, que a cidade tenha sido fundada, mas a precisão cronológica aqui é irrelevante. O que importa é o significado do ato fundador, há 2778 anos.
Grandes civilizações começaram pequenas: no livro Ortodoxia, G. K. Chesterton diz: "de início o povo escolhe um lugar para honrar; a glória poderá vir depois. Os homens não amaram Roma por ela ser grande. Foi o fato de amá-la que a fez grande". Assim como não se previu a expansão de Roma, tampouco se imaginou o alcance da Internet.

Roma tornou-se a cultura de fato de parte do mundo. Criou sistemas políticos, administrativos e jurídicos; promoveu coexistência entre diferentes povos; construiu estradas que conectavam terras distantes. A analogia com a integração que a Internet proveu é visível. O debate sobre fragmentação e crise da Internet não é por tecnologia, mas por desvio de propósito. A rede foi criada para compartilhar, conectar e informar. Como Roma, teve sua invasão de "bárbaros” com a tagarelice dos que falam irresponsávelmente, e de forças internas, que concentraram poder, controlam fluxos e moldam nossa experiência.

A Inteligência Artificial é peça crucial nesse processo. Se antes a rede transportava conteúdo produzido por humanos, agora também o produz: não apenas distribui, mas interpreta, sintetiza, antecipa. A distinção entre meio e mensagem borrou-se; a praça torna-se mercado, e o mercado o sistema.

Se há objetivos legítimos para pedir a verificação de identidade de participantes, a moderação preventiva e a antecipação de riscos, o meio para obter isso torna-se crítico. Buscar eliminar o imprevisto transformará inevitavelmente o ambiente. Não se pode garantir o comportamento de todos sem transformar o próprio espaço em algo distinto, controlado, monitorado, previsível. Aceitar o desconhecido e a incerteza é condição de liberdade e inovação, mas a IA opera de outro modo. Diante de uma pergunta, ela não hesita: sempre responderá, de forma plausível, mesmo que incorreta.

Outro ponto de alerta é sobre soberanias. Modelos não neutros tendem a reduzir incertezas, organizar fluxos, transformar o imprevisível em algo gerenciável. Se IA intensifica esse movimento, quem a controlaria? Numa entrevista particularmente interessante ao Estadão, Manoel Lemos defende que o Brasil não tem como disputar a camada profunda da IA, cujo custo e escala estão ao alcance de poucos. E isso não significa perda de soberania, nem inação: há um vasto campo para ajustar o foco e ir da infraestrutura básica para a operação sobre ela. Podemos ser competitivos em aplicações locais, em integrar dados específicos e capturar valor em contextos nossos.



Roma não desaparece de repente, transforma-se. A Internet, ao incorporar novas camadas econômicas, políticas e técnicas, pode estar no mesmo processo, e o que resultará pode não ser mais reconhecível. Talvez os “bárbaros às portas” já tenham entrado. e agora o verdadeiro desafio será defender que tipo de “Roma” queremos habitar. O palíndromo persiste: "amor a Roma".

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/amor-a-roma-internet-ia-invasoes-barbaras/
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https://en.wikipedia.org/wiki/SPQR


Sobre a fundação de Roma:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Funda%C3%A7%C3%A3o_de_Roma

https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2025/05/como-roma-foi-fundada-a-cidade-nao-foi-criada-em-um-dia-e-nem-pelos-gemeos-romulo-e-remo

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A frase de Chesterton, no capítulo 5 de Orthodoxy
https://www.online-literature.com/chesterton/orthodoxy/5/

"People first paid honour to a spot and afterwards gained glory for it. Men did not love Rome because she was great. She was great because they had loved her."

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A entrevista de Manoel Lemos:

https://www.estadao.com.br/economia/nao-teremos-chatgpt-brasileiro-mas-ter-soberania-aplicacoes-ia-manoel-lemos/
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