O tema musical de "2001, uma Odisséia no espaço" é a composição de Richard Strauss, "Assim falava Zaratustra". Em 1883 Frederico Nietzsche publicou livro com esse título unindo ficção e filosofia, e já alertava na epígrafe que se tratava de "um livro para todos, e para ninguém". É bem anterior à IA e seus conceitos, o que não inibe algumas elucubrações provocativas, que não se pretendem sólidas, mas poderão ser aprofundadas ou demolidas pelos interessados.
Logo no início da obra que descreve a caminhada de Zaratustra, uma frase busca definir "o homem" e seu destino: "O homem é uma corda estendida entre o animal e o além-do-homem: uma corda sobre um abismo. Perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim: o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um ocaso.”. O desafio de ousarmos essa passagem não é muito distante do dilema atual que a IA nos impõe: uma travessia sobre o abismo, sem olhar prá trás ou parar. Para Nietzsche, o que nos espera do outro lado é o além-do-homem (ou o "super-homem"), com um sentido da própria superação ínterna do pequeno homem atual. Mas com IA a coisa pode levar a outra leitura...Mais um ponto de convergência: para Nietzsche um objetivo fundamental do homem é garantir sua continuidade e, para isso, ele volta seu amor absoluto aos filhos e à própria obra. Filhos, certamente, ganharão voo autônomo com o crescimento, enquanto a obra fica limitada sob controle do autor. Mas... (e é aí que a "porca torce o rabo") obras como IA mostram características que lembram a autonomia de filhos crescidos e liberados dos pais. IA aglutinaria filhos e obra e, em época de queda em taxas de natalidade, a IA poderia representar a almejada "continuidade do humano"...
Há outro ponto, esse mais difícil de coadunar: o conceito do "último homem", a ultrapassar rumo ao super-homem. Em Zaratustra, o "último homem" é mesquinho, busca conforto, segurança, não-confronto e ausência de dor. Ele diz "encontrei a felicidade", enquanto pisca os olhinhos. Não se questiona, apenas seguir. Uma analogia aqui é que IA potencializa algoritmos, perfilamento e reforço dos conceitos pré-existente, agradando aos interesses do pequeno "último homem". Se a ponte para se chegar ao além-do-homem exige sacrifício e vontade para enfrentar riscos, a IA oferece de forma imediata o conforto, a redução de fricções e, eventualmente, a atrofia da vontade... Assim, se por um lado a IA acena para um novo humano, híbrido, o fato de ela atender aos desejos dos "últimos homens" a faz ir de encontro aos pressupostos de uma ruptura humana interior evolutiva.
O risco é abrirmos mão da travessia sobre o abismo. O "último homem" se satisfaria bastante com o que IA traz: dispensa-se de fazer, de optar, de decidir ou julgar. Obter ajuda lúcida com IA é ótimo, mas abrir mão de pensar ou agir não deveria ser um resultado. A inteligência artificial não é o além-do-homem, e pode tornar a busca por superação em simples acomodamento.
E talvez o risco maior não seja que ela nos ultrapasse, mas que, diante dela,
desistamos de querer ultrapassar a nós mesmos.
https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%9Altimo_homem
https://www.pensador.com/frase/OTU5MzAx/
https://humanitas.ufrn.br/wp-content/uploads/2025/03/Assim-Falou-Zaratustra.pdf
"Ai de nós! Aproxima-se o tempo do homem mais desprezível, que já não sabe desprezar a si mesmo. Vede! Eu vos mostro o último homem"."Sua estirpe é indestrutível, como a pulga; o último homem é o que mais tempo vive".
"A terra se tornou pequena, e sobre ela salta o último homem, que torna tudo pequeno".


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