terça-feira, 16 de junho de 2026

Sevilha e a Internet

A ICANN 86 terminou em Sevilha. Foi a segunda reunião anual do órgão responsável pela administração da "raiz de nomes" da rede, e pela distribuição de números IP, e foi dedicada a políticas. Discutiu-se sobre como lidar com o chamado "abuso de DNS", quando nomes de domínio são usados com fins maliciosos, tentando usurpar direitos ou enganar usuários. No caso do "phishing", uma espécie de "pescaria em águas turvas", simulam-se sítios reais buscando recolher dados dos incautos. Também foi foco desta ICANN a nova leva de propostas para mais gTLDs (domínios genéricos, que convivem com os ccTLDs, de "código de país" ) e o apoio ao WSIS+20, que completou 20 anos.

Sevilha é uma antiga e bela cidade andaluz, que impressiona com construções de estilo mourisco, fusão de arte moura com a cristã. Trouxe à ideia analogias com a Internet.

A primeira é com a ópera Barbeiro de Sevilha, em cuja ária da calúnia há uma antecipação do que passa hoje, quando se busca destruir reputações. A calúnia, diz Dom Basílio, é uma brisa sutil que, discreta e docemente, se espalha por tudo, e faz com que o visado, "sob o público flagelo, se ainda tiver alguma sorte, prefira morrer...". Também operística é a da popular Carmen, a cigana livre. Mostra os resultados que a atração pelo submundo pode trazer. É numa taberna de Sevilha que o toureiro encontra Carmen, que o desencaminhará.

Talvez a analogia mais poderosa entre Sevilha e a Internet esteja na obra Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Um dos irmãos, Ivan, propõe uma parábola sobre o período da inquisição, século XVI em Sevilha. No trecho conhecido como "O Grande Inquisidor". Jesus teria voltado à terra, anônimo e humilde, e estaria conversando com os locais sobre amor, realizando milagres, sendo reconhecido e seguido por muitos. Surge um idoso cardeal inquisidor, que o prende. Numa longa arenga a Jesus, que se limita a escutar e nada retruca, o cardeal não hesita em criticá-lo. Acusa-o: ao invés de aliviar o homem do peso da liberdade que ganha ao nascer, Jesus aumenta seu jugo ao ressaltar ainda mais a importância de o homem ser livre. Segundo o cardeal, foi a Igreja que conseguiu aliviar esse peso das costas dos humanos. Diz ele: "quem é livre, jamais será feliz"... o homem, na verdade, busca alguém a quem possa "entregar sua liberdade, em troca de segurança e sustento". Os homens trocarão liberdade por segurança, autonomia por conforto, e responsabilidade por tranquilidade. A analogia com Internet é forte. Afinal, a Internet nasceu como uma tecnologia da liberdade, dando voz aos usuários que, assumindo a responsabilidade por suas escolhas, decidem o que ler e por onde caminhar. Depois, as plataformas prosperaram oferecendo alternativas que "consertam" isso: menos autonomia em troca de mais conforto. E a IA "agêntica" leva essa lógica um passo adiante: nossa ação também pode ser terceirizada; um agente pode "fazer o que eu faço, melhor e sem meu esforço...". O Inquisidor abraçaria imediatamente essa proposta. Sua crítica a Cristo nunca foi que a liberdade era falsa, mas que ela era pesada demais para a maioria dos homens. Ao fim da conversa, Jesus, que ficou calado o tempo todo, apenas beija o inquisidor e se afasta... Certas questões não se resolvem por argumentos. mas por uma reafirmação de confiança na liberdade humana, apesar de todas os potenciais riscos.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/a-internet-nasceu-como-tecnologia-da-liberdade-mas-as-plataformas-e-agora-a-ia-mudaram-o-rumo/

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O Grande Inquisidor
https://bibliotecamundial.com.br/o-grande-inquisidor-fiodor-dostoievski/

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"a calúnia", de O Barbeiro de Sevilha
https://www.youtube.com/watch?v=CtFmBK6C_Mw

https://www.youtube.com/watch?v=r3-UZ8pyZxE
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