terça-feira, 25 de agosto de 2026

Os novos bárbaros

Na edição de 6 de junho do Caderno C2 (Estadão) há um artigo sobre K. Kaváfis, que começa com a referência ao seu poema "À espera dos bárbaros" (1904). Esse tema, da "espera de algo temível", é retomado em "O deserto dos tártaros" (1940) de Dino Buzzati , e no ensaio "Quatro esperas” (1990) de Antônio Candido. Uma provocação que surge é comparar os "barbaros" do poema de Kaváfis com a IA. Tentê-mo-la!

A analogia entre a Inteligência Artificial (IA) e os "bárbaros" dos gregos é, como qualquer analogia, precária; mas vale a pena explorá-la. Originalmente, o termo "bárbaro", usado pelos antigos gregos, não designava necessariamente poovos ignorantes ou selvagens, mas sim aqueles que não partilhavam de seu contexto cultural e linguístico. Consideravam a língua grega como base da civilização, e forasteiros, cujos sons, aos ouvidos helênicos, pareciam-se com um "bar-bar-bar", eram classificados "bárbaros". Até mesmo os romanos recebiam essa classificação.

Na temerária analogia com a IA o importante detalhe linguístico não deve entrar porque, hoje, IA expressa-se fluentemente em nosso idioma: certamente, não seria "bárbara" no sentido grego estrito, mas há mais pontos a considerar. Um cricial é que à IA falta o contexto humano que nos é caro. Como tratei superficialmente antes, a IA Agente parece ignorar uma advertência de G. Bernanos, de que o fim não poderia jamais justificar os meios. Temos aí um reforço à analogia: a IA, lógica e eficiente como é, buscará atingir o objetivo colimado, sem dar necessariamente a mesma atenção que o contexto ético humano provê quanto à escolha dos meios. A IA dispõe de um rico cabedal linguístico, e conheça todos os dados humanamente produzidos, mas ela (ainda) não incorporou nossos modos, costumes, ética e subjetividades.

Vamos aos riscos. A chegada dos bárbaros trazia o clássico perigo da derrubada de muralhas e o dominio do povo e suas leis. No papel de "novo bárbaro", a IA não ameaça nada físico explicitamente, mas avança de forma sutil sobre aspectos muito íntimos de nossa vida. No poema de Kaváfis, a expectativa da chegada dos bárbaros faz com que o Senado pare de legislar ("os bárbaros farão as novas leis"), e com que os magistrados deixem de agir. O próprio imperador entende que é momento de esperar pelas preferências dos bárbaros. No caso da IA, ela chegou, e já nos ajuda a encontrar e escolher coisas, a escrever, a julgar, a aconselhar, a diagnosticar doenças e indicar remédios. Ela organiza nossa vida, o que, admitamos, nos é bem confortável. Mas qual será o resultado se abrirmos mão de nossa capacidade de julgamento? A IA não teria, a princípio, más intenções, mas segue, assim, "bárbara" no sentido profundo de não partilhar os valores da nossa civilização.

O fecho do poema de Cavafis traz uma inversão assustadoramente pertinente para o nosso tempo: " é já noite, os bárbaros não vêm (...) Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! Eles eram uma solução.". No nosso caso, IA está aqui e podiamos trocar por "é noite e novos bárbaros já chegaram". Seriam eles a solução, ou a dissolução?

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/a-inteligencia-artificial-seria-a-solucao-ou-a-dissolucao/
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Konstantinos Petros Kaváfis
https://pt.wikipedia.org/wiki/Konstant%C3%ADnos_Kav%C3%A1fis



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Kaváfis:
https://estadodaarte.estadao.com.br/literatura/kavafis-em-portugues-leituras-traducoes-e-a-permanencia-de-um-poeta-moderno/

https://www.estadao.com.br/cultura/traducao-do-alexandrino-konstantinos-kavafis-recoloca-autor-em-cena/

https://www.estadao.com.br/economia/celso-ming/ocaso-de-um-imperio-e-a-espera-dos-barbaros/

O poema de Kaváfis, traduzido por José Paulo Paes

https://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet064.htm
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O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
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Dino Buzzati - O Deserto dos Tártaros

https://www.bonslivrosparaler.com.br/livros/resenhas/o-deserto-dos-tartaros/86

https://www.youtube.com/watch?v=kDTTswiK2-o&t=4s


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