terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Espelho meu

Internet é tema em diversos fóruns. Assuntos técnicos ligados à evolução da rede discutem-se nas reuniões do IETF, força-tarefa de engenharia da rede, enquanto a administração de recursos que precisam de coordenação central como nomes de domínio, distribuição de números IP, pertence à constelação que orbita ao redor da ICANN, a entidade para alocações de nomes e números. Com a expansão rápida da rede ficou logo clara a necessidade de um local para o debate amplo dos outros temas importantes que extrapolam os aspectos técnicos ou administrativos. Surgiu a ideia de reuniões anuais, totalmente abertas, multissetoriais, e com espaço para discussão de qualquer tema que tangenciasse a Internet: o IGF - Fórum Global da Internet. O primeiro IGF foi em Atenas em 2006, seguindo-se o do Rio de Janeiro, em 2007 – aliás o Brasil é o único que já sediou dois IGF, pois houve também o de João Pessoa em 2015.


No IGF de 2010, em Vilna, Lituânia, discutiam-se riscos que a Internet podia trazer aos usuários, dada a quantidade de crescente de ataques e práticas maliciosas que se observava. No painel, entre outros, Vint Cerf, indiscutível pioneiro da rede e um dos criadores do TCP/IP, o protocolo que deu voo à Internet. Vale a pena rever a análise sucinta que ele fez, e continua válida: “tecnologias são ferramentas que refletem os que as usam. A Internet é um espelho da sociedade e, se você não gosta do que lá vê, não quebre o espelho, mas tente mudar o nele está refletido”. Muitas vezes a solução que nos parece mais à mão é “quebrar o espelho”, ou impedir o acesso a ele; buscar formas de obliterar o que não queremos ver. É crítico não ceder a essas tentações, sob pena de se perderem valores muito maiores.

Há, porém, outros impactos possíveis que um espelho pode causar no comportamento humano, e são tema de contos infantís, fábulas e mitos. Machado de Assis tem inclusive um conto curto, “O Espelho”, onde o protagonista vale-se do reflexo para preservar sua auto-estima. Talvez o contraponto mais interessante seja o do mito de Narciso. Ora, ao abaixar-se para beber água numa fonte, Narciso viu um belo rosto. Sem notar que era seu próprio reflexo, ele apaixonou-se perdidamente pela imagem refletida, e aquela inatingível beleza inatingível o consumiu.

A Internet, sem dúvida, reflete o mundo que temos mas, em particular, também reflete nossas próprias ações e palavras. O retorno emocional que recebemos ao participarmos ativamente na rede pode nos tornar embriagados pela imagem que queremos ou imaginamos projetar. O ego, reforçado e alimentado pela ressonância que obtem, torna-se cada vez mais exigente de ação, e cada vez menos tímido em falar sobre qualquer tema. Afinal, deve ser enfeitiçador ouvir a própria voz encobrindo outras vozes dissonantes. Caetano Veloso, em Sampa, deixa isso maravilhosamente registrado: “Narciso acha feio o que não é espelho”...

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IGF 5, em 2010, Vilna, Lituânia:

https://www.elon.edu/u/imagining/event-coverage/global-igf/igf-2010/youth-core-internet-values/


“The Internet is a mirror of society,” he said, “and if you don’t like what you see in the mirror, don’t break the mirror, you have to do something about what’s reflected in the mirror. Some of our fellow inhabitants on planet Earth don’t necessarily have our best interests at heart",

https://www.diplomacy.edu/diplonews/issue93/
The Internet is a mirror of society,” Google’s vice president Vinton Cerf explained during an hour-long private meeting with participants and tutors of DiploFoundation’s Internet Governance Capacity Building Programme. “If you look at the mirror and you don’t like what you see, you don’t fix the mirror; you try to fix yourself,”

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O mito de Narciso / espelhos

https://en.wikipedia.org/wiki/Narcissus_(mythology)

https://www.todamateria.com.br/o-mito-de-narciso/

https://pt.khanacademy.org/science/3-ano/materia-e-energia-luz/fenmenos-luminosos/a/historia-dos-espelhos

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O conto "O Espelho", de Machado de Assis

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000240.pdf



terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Nihil Obstat - Imprimatur

Cerca de 200 anos depois que Gutemberg inventou a imprensa, quando se notou que a população passaria a ter um acesso amplo a livros e textos que antes, em raros manuscritos e suas cópias, estavam ao alcance de muito poucos, a Igreja Católica, certamente munida das melhores intenções em proteger leigos despreparados da exposição a conteúdos polêmicos e complexos, decidiu criar um cânone de lei, que pré-examinasse os livros candidatos à impressão. Os julgados apropriados ao grande público ganhavam o carimbo “Nihil Obstat – Imprimatur”, ou seja, os censores que examinaram o livro permitiam que ele fosse impresso. Isso não significava uma aprovação tácita ao conteúdo mas, sim, que ele não representaria perigo aos incautos leitores.

Nem temos ainda 50 anos da disseminação da Internet, e já há um visível movimento para que o acesso dos internautas ao que está na rede seja, de alguma forma, intermediado ou tutelado. Sem dicutir casos especiais, como formas de inibir o acesso de menores de idade ou incapazes, vamos nos restringir estritamente a, como se dizia antanho, “maiores de idade e vacinados”… Há, neste caso, também necessidade de tutela? Se houver, qual o nível e quais os critérios que o executor deveria respeitar? Alguém decidirá a priori o que se pode ler, o que seria bom ou mau ao leitor, ou o que seria perigoso para seu equilíbrio mental?

Não se deve trivializar o problema, até porque, quem ainda escreve um livro de papel pertence a um universo muito mais restrito dos que emitem suas opiniões na Internet. Mas, afinal, não era esse o propósito inicial da rede? Que todos pudessem ler e opinar sobre tudo? Teria sido superestimada a capacidade humana de conviver e dialogar num ambiente tão amplo e com tanto alcance?

Outro complicador que faz parte importante da equação é o fator “intermediários e seus algoritmos”. A crescente concentração de poder econômico, associada aos efeitos pouco transparentes mas intensos de amplificação, levam a outro debate inevitável, sobre eventual regulação de intermediários. É uma embate de titãs, com governos versus empresas gigantes e, prá variar, o usuário acaba sendo o marisco “nessa luta do rochedo com o mar”…

Quando escreveu a “Declaração de Independência do Ciberespaço” John Perry Barlow usou “ciber” como algo que significasse o mundo das redes, da eletrônica, do virtual. E “ciber” ganhou aceitação e uso global mesmo que, semânticamente, seu sentido grego original seja ligado a “controle”, como bem definiu Norbert Wiener, que cunhou “cibernética” em seu livro de 1948. Aos poucos, mas cada vez mais rapidamente, “ciber” reclama de volta sua semântica original: a Internet parece tornar-se, mais e mais, uma “rede de controle”.

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Gutemberg e a impressora
https://en.wikipedia.org/wiki/Printing_press

Nihil Obstat e Imprimatur e Nihil Obstat

https://en.wikipedia.org/wiki/Imprimatur
https://www.merriam-webster.com/dictionary/imprimatur
https://en.wikipedia.org/wiki/Nihil_obstat

Declaração de Independência do Ciberespaço - J.P.Barlow
https://www.eff.org/cyberspace-independence

Norbert Wiener e "cibernética"
https://en.wikipedia.org/wiki/Cybernetics:_Or_Control_and_Communication_in_the_Animal_and_the_Machine

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Como está a censura em relação à Internet:

https://www.vpnmentor.com/blog/online-censorship-country-rank/https://www.comparitech.com/blog/vpn-privacy/internet-censorship-map/

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Index Librorum Prohibitorum

https://en.wikipedia.org/wiki/Index_Librorum_Prohibitorum









terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Otimismo Gregoriano

O começo de ano com suas tradições e costumes é um convite e um pretexto para que se instile o otimismo em todos. A despeito do que podem apontar os indícios que se acumulam há tempos, sempre recebemos e enviamos votos de “um ano excelente”… Um salutar otimismo pode ser importante. E temos, afinal, a Internet, que pode ser uma poderosa alavanca para mover o mundo em alguma direção melhor. A dificuldade aí é nos convencermos de que o rumo tomado é aquele pela qual ansiávamos, um mundo com mais informação, mais colaboração, mais entendimento.

Nessa linha otimista, é difícil não lembrar do Dr. Pangloss, filósofo que, na obra de Voltaire, era o mentor de Cândido e ensinava “metafísico-teólogo-cosmolonigologia”. Afinal, se o próprio Leibniz já defendera que “vivemos no melhor dos mundos possíveis”, Pangloss, como caricatura, explora e extrapola essa linha, a de que todos os efeitos pressupõem necessariamente uma causa, e que “tudo está necessariamente destinado ao melhor fim”. Ele exemplifica: “o nariz, por exemplo, existe para que possamos usar óculos”. Num arroubo panglossiano poderíamos estender a idéia à Internet, e dizer que ela existe para que, num movimento claro, possamos nos provocar mutuamente à exaustão, e esperar que disso brote um bem maior...

Se o fácil e ácido sarcasmo acima é atrativo, ele não deve, entretanto, ignorar o indiscutível valor que a Internet trouxe a todos. Como defensores intransigentes dos conceitos da rede, e mesmo sabendo dos mau-usos e das mazelas que com ela podem vir, devemos sopesar, muito positivamente, o espírito de distribuição de conhecimentos e informações, a colaboração despreendida dos que adicionam valor à rede e, é claro, a abertura de voz a todos, numa possibilidade de interação humana em níveis nunca vistos.

Para buscar um contraponto ainda ficando em Voltaire, há um opúsculo chamado “O Mundo como Está”, em que Babuc, o narrador, conta como se desincumbiu de uma missão que lhe foi passada por uma potestade celestial. Ituriel, anjo encolerizada por excessos que via na cidade de Persépolis, incumbiu Babuc de examiná-la minuciosamente e aos seus habitantes, e elaborar um relatório recomendando ou não sua destruição. Em sua visita, ele fica alternadamente horrorizado e emocionado com o que vê: atos de violência e atos de caridade, injustiças flagrantes e decisões sábias. Para gerar um relatório equilibrado, Babuc tem uma saída esperta e apela à analogia: manda fazer uma estatueta composta de todos os materiais, terras, metais, pedras, desde os mais preciosos aos mais vís. Entrega-a a Ituriel e pergunta: “destruirias essa linda estátua porque ela não é toda de ouro e diamantes?”. Certamente na Internet se encontra ainda mais variedade da que Babuc encontrou em Persépolis.

Entre otimismo e pessimismo, talvez o conselho mais sensato seja o do próprio Cândido, que termina valorizando a ação individual simples, onde cada um pode somar algo ao todo. Voltaire faz Cândido sentenciar: “tudo o que foi dito é correto, mas precisamos cuidar do nosso próprio jardim”...

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Há em domínio público os livros citados:

Cândido, ou o Otimismo, Voltaire:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000009.pdf

O Mundo como Está, Voltaire:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000045.pdf

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trecho da fala do Dr. Pangloss, em Cândido:
https://www.gleeditions.com/candide/students/pages.asp?lid=102&pg=160
“It is demonstrable," said he, "that things cannot be otherwise than as they are; for as all things have been created for some end, they must necessarily be created for the best end. Observe, for instance, the nose is formed for spectacles, therefore we wear spectacles. The legs are visibly designed for stockings, accordingly we wear stockings. Stones were made to be hewn and to construct castles, therefore My Lord has a magnificent castle; for the greatest baron in the province ought to be the best lodged. Swine were intended to be eaten, therefore we eat pork all the year round: and they, who assert that everything is right, do not express themselves correctly; they should say that everything is best.”


https://www.urbandictionary.com/define.php?term=metaphysico-theologo-cosmolonigology

https://quotesgram.com/candide-by-voltaire-quotes/




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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Seguindo o outro...

Na Internet torna-se cada vez mais difícil encontrar um tópico que possa ser discutido com um mínimo de objetividade. Parece que conscientemente escolhe-se o confronto e os ataques ad hominem, seja por ser mais efetivo, seja por não exigir trabalho mental adicional. O papel que a Internet pode ter no acirramento deste comportamento mereceria uma análise dos que entendem de comportamento humano. Por ser perene entusiasta da inclusão de todos via Internet proporciona, arrisco-me a uns pitacos de diletante.

Rene Girard, um pensador falecido há seis anos, trata de características humanas que podem ter sido exacerbadas pela ferramenta que a rede é. Sobre ações e desejos, Girard afirma que normalmente mimetizamos, buscamos copiar a postura de alguém. Se, com conforto e facilidade, imitarmos nosso “modelo”, podemos pensar menos. Nossos próprios desejos seriam os desejos do outro, do indivíduo a que consideramos digno de imitar, e acabaremos por internalizar o mesmo desejo. Valorizamos algo, ou nos opomos a algo, apenas para ecoar o que nosso “influenciador” faz. E “influenciador” aqui vem a propósito, porque a analogia com a Internet parece patente. O próprio epíteto de “influenciador” já desvela a intenção...

Se mimetizar é intrinseco ao ser humano, há um aspecto de escala. Antes da comunicação ampla que temos hoje, poucos seriam suficientemente visíveis para serem escolhidos como “balizadores” de nossos desejos e ações. Poucos a seguir, mimeticamente. A rede “profissionalizou” essa atividade: hoje times de seguidores dos auto-propostos “influenciadores” alinham-se em campo, para as batalhas do dia-a-dia com muitos adjetivos e parca substância. Outro ponto que pode ser gerador de tensão e violência é a eliminação de barreiras contextuais. Como – e isso é sempre muito bom! – todos podemos falar e participar de qualquer discussão na rede, não temos pejo em arremessar indiscriminadamente frases contra quem não siga pela cartilha do grupo a que pertencemos e ecoamos. Em fase de euforia e deslumbramento não há tempo para aprofundamentos, sob o risco de se perder o momento da discussão. Assim não importam as credenciais dos outros – responderemos a qualquer um deles, e, se possível, num tom acima. Esse comportamento já existia no velho tempo do correio eletrônico. Em listas de discussão dizia-se que “os que menos tem a dizer, muitas vezes são exatamente os que tem mais tempo para falar”.

Segundo Girard, o que ele chama de crise mimética “é uma situação de conflito tão intensa que, em ambos os lados, as pessoas agem e falam da mesma forma, tornando-se cada vez mais hostis ao replicar a hostilidade do outro grupo. Em conflitos realmente intensos, as diferenças entre os lados em conflito, ao invés de se tornarem mais agudas, igualam-se”. Parece confirmar o que Nietzsche havia postulado, em Além do Bem e do Mal: “a insanidade é algo raro de se encontrar em um indivíduo. Já em grupos, partidos e épocas, é a regra”…

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Citações de René Girard em https://www.brainyquote.com/authors/rene-girard-quotes

"We don't even know what our desire is. We ask other people to tell us our desires. We would like our desires to come from our deepest selves, our personal depths - but if it did, it would not be desire. Desire is always for something we feel we lack."

"What I call a mimetic crisis is a situation of conflict so intense that on both sides people act the same way and talk the same way even though, or because, they are more and more hostile to each other... 
I believe that in intense conflict, far from becoming sharper, differences melt away."

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sobre discussões lista, em https://www.icann.org/en/system/files/files/transcript-strategy-panels-11mar14-en.pdf 
"This is Mike Nelson. I'm really glad you're focusing on these issues because there's Nelson's law of listeners, .which, the people with the least to say have the most time to say it."

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A frase de Nietzsche citada:
"Insanity in individuals is somewhat rare. But in groups, parties, nations, and epochs, it is the rule."
— Friedrich Nietzsche, Beyond Good and Evil
https://kwize.com/quote/13005























terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Efemérides

Dezembro é a época do ano em que comemoramos, quiçá de forma algo masoquista, o tempo em sua irresistível passagem… As práticas dezembrinas incluem os almoços e jantares com os amigos, a troca dos calendários nas paredes e o envio de cartões de festas com os melhores votos e desejos a todos. E mesmo com toda a especificidade e fluidez dos tempos de hoje, ao menos essa saudável e amistosa tradição parece mantida.

Quanto, por exemplo, a uma outra data referente à Internet no Brasil, a Abranet - Associação Brasileira de de Internet - comemorou semana passada seus 25 anos de fundação, e o fez com grande estilo. Do lado das palestras, por exemplo, houve destaque a temas humanos e técnico importantes, como economia, efeitos da Internet na sociedade -tema que precisa ser melhor tratado e analisado - e uma particularmente deliciosa: a do Amyr Klink, sobre suas peripécias transoceânicas, sua forma de encarar as dificuldades, e seus conceitos de vida, sob todos os pontos de vista, admiráveis. Fica a recomendação a quem se interessar de tentar recuperá-la na rede.

Ainda na linha das efemérides, ontem, 6 de dezembro, foi dia de S. Nicolau, o taumaturgo, bispo de Myra do século IV e em cuja história de generosidade para com os pobres e as crianças inspirou-se a tradição de Santa Claus, ou nosso Papai Noel. Nesta data, familiarmente, além de reunirmo-nos todos para uma tradicional refeição sempre baseada em peixe, lembra-se que é o momento de se montar a árvore de Natal. Aliás, São Nicolau, como o patrono dos marinheiros e navegantes, poderia levar-nos a considerar seu nome como padroeiro das navegações modernas, hoje feitas pela Internet, mas igualmente arriscadas… Mas como patrono da Internet em si já há outro forte candidato: Santo Isidoro de Sevilha, lá do século VI, que foi considerado o “último polímata” do tempo antigo. Ou seja, alguém que, como a Internet hoje, abarcava o conjunto de conhecimentos de seu tempo. Isso me traz outra recordação pessoal curiosa: na USP, anos 70, tínhamos acesso ao fonte do MCP – Master Control Program – o sistema operacional da antiga Burroughs. Lá, dentro do código do MCP, a rotina que mantinha a complexa base de dados de todas as variáveis do computador chamava-se Leibniz, certamente em homenagem a outro polímata que, à moda da tal rotina, conseguia compreender a totalidade do mundo que o cercava.

Termino com mais uma analogia com S. Nicolau: foram exatamente os marinheiros italianos, devotos do santo, que muitos anos após sua morte, e tendo Myra sido conquistada pelos turcos no início do século XI, acabaram por pilhar seus restos mortais e suas relíquias. Assim parte dos ossos de S. Nicolau foram de Myra para Bari, na Itália, e hoje há fragmentos deles espalhados pela Europa toda. Ou seja, é um santo geograficamente distribuído, como a própria Internet.

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Abranet: 
www.abranet.org.br

MCP - Burroughs:
https://en.wikipedia.org/wiki/Burroughs_MCP

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São Nicolau:
https://en.wikipedia.org/wiki/Saint_Nicholas
https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/12/06/s--nicolau-de-bari--bispo-de-mira.html
https://orthochristiantools.com/the-serbian-miraculous-icon-of-saint-nicholas-in-bari-italy/








terça-feira, 23 de novembro de 2021

O Poder de um Nome

A discussão sobre inteligência artificial ganhou os holofotes da atenção geral, internacionalmente. O que contribui para essa ascenção irresistível é um conjunto de fatores, que vão, desde o poder da expressão “IA” em si, à sustentada e crescente expansão na capacidade de processamento e armazenamento que pode hoje ser aplicada sobre a imensa quantidade de informações à disposição dos algoritmos. E há que se considerar também a particular concentração dessas características nas mãos de um punhado de empresas, as chamadas “big-techs”. 

A oferta de capacidade de processamento e armazenamento distribuídos no que lembra a imaterialidade de nuvens, deslocou o poder de computação, que antes poderia estar situado nas instituições que dela necessitam, para estruturas que, apesar de parecerem descentralizadas e neutras, são controladas por poucos fornecedores, num ciclo bem definido de expansão. Afinal, ao concentrar-se o poder de computação exatamente onde ele já existe, realimenta-se seu crescimento de forma rápida e sem limites Para adicionar sinergia ao cenário, basta lembrar que também é lá que estão os enormes repositórios de dados, provenientes dos usuários de seus serviços de plataformas e redes sociais. A “faca e o queijo”.

Além dos dados e do processamento, some-se o uso da capacidade coletiva da comunidade em treinar, voluntaria ou involuntariamente, os produtos gerados. Nós mesmos treinamos as aplicações que serão usadas para nos proverem mais informações criteriosamente escolhidas, que aumentem nosso grau de aderência e de permanência no sistema. 

Finalmente, é importante que a escolha de um nome seja catalizadora. “Inteligência artificial” ressoa bem, é nome forte, tem mais de 70 anos de existência e um “apelo tecnológico” irresistível. IA passou por épocas em que era foco de muita pesquisa, e por períodos em que caiu em semi-esquecimento – os “invernos da IA”. Claro que, oportunisticamente, além da real e poderosa IA pode-se embrulhar no mesmo saco o que lá couber, especialmente se for algo que, por necessitar de muito processamento, pareça inatingível aos usuários comuns. Jorge Luiz Borges em “o Golem” já havia descrito o poder em um nome: “o nome é o arquétipo da coisa; nas letras de ‘rosa’ está a rosa; e todo o Nilo na palavra ‘Nilo’”. 

 IA é o tópico da vez e não podemos perdê-lo de vista, até para tentarmos minimizar os riscos que pode estar embutidos em IA. Discute-se hoje na Unesco um texto que recomendaria procedimentos éticos relacionados ao desenvolvimento e disseminação da IA. O documento está em fase final de discussão para ser aceito pelos países signatários. E por aqui também estamos debatendo estratégias. O importante é que essa discussão envolva os segmentos da sociedade, que certamente IA já afeta, e muito, indistintamente a todos. 

 === Sobre a citação de Jorge Luiz Borges, em "o Golem": 
https://www.poemas-del-alma.com/jorge-luis-borges-el-golem.htm

" Si (como afirma el griego en el Cratilo)
 el nombre es arquetipo de la cosa
 en las letras de 'rosa' está la rosa
 y todo el Nilo en la palabra 'Nilo'." ===

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Novos tempos

Analisar os impactos da Internet no que fazemos em nosso dia-a-dia já é um objetivo bastante ousado e quase inatingível, mas avaliar como ela tem afetado nosso comportamento social é ainda mais desafiador. Ressalvas importantes: há que se distinguir entre a Internet em si: uma infraestrutura aberta, sem limites físicos, que chama todos a uma conexão e provê um acesso absolutamente ilimitado a informações de todo o tipo, das muito úteis, às eventualmente nocivas e propositadamente enganosas, passando um vasto elenco de futilidades; das construções que crescem sobre ela. Essas construções que também respondem pelo nome de “plataformas”, valem-se do princípio de “livre inovação” - que deve ser preservado! – e podem evoluir para empresas com grande concentração de poder econômico e social, escorado especialmente na forte fidelização de seus usuários. Essa estratégia de intenso engajamento é operacionalizada pela aquisição de vasto conhecimento dos dados e características dos usuários. É a chamada “economia da atenção”, quando manter o usuário constantemente conectado, e sempre usando os serviços da plataforma, traz mais retorno econômico a ela.

A forma de atenuar esse controle poderia residir numa conscientização nossa, associada a leis de proteção de nossos dados, como a que temos no Brasil. Mas é fato que o “canto da sereia” do conforto, facilidade e prazer emocional que os usuários recebem, reduz qualquer postura mais crítica em relação ao “pacto” feito. A excitação de poder participar, com voz, em discussões de qualquer tema é tão contagiante que pensamento crítico ficará “pra depois”… Assim, das alternativas que restam para se atenuar essa dominância, ouve-se cada vez mais frequentemente as que provem de regimes fortes. Aliás, dos mesmos regimes que muitas vezes praticam controle estreito e uma coleta desmedida de dados de seus cidadãos, mas que não impede de coibir o mesmo quando se tratar de atores privados. Como achar soluções de equilíbrio, que possam ser implementadas com algum sucesso em prazos razoáveis? O risco de ir “da frigideira ao fogo” aqui é grande.

O caráter livre e aberto da rede pode ter afetado o comportamento em comunidade: a definição de “tolerância” tem sendo revisitada. Como exemplo refiz, via buscadores, vagas lembranças reencontrando algumas das músicas irreverentes que despreocupadamente se cantavam na universidade... Achá-las é ainda possível, mas seria admissível cantá-las?. O comportamento petulante, amistoso/jocoso dos anos 70 hoje poderia ser rotulado de “inaceitável”, e como algo a ser segregado. Folheie-se A Serpente Encantadora, livro do Telmo Martino: é uma “janela no tempo” com crônicas da época do Jornal da Tarde. Telmo, além de mente afiada e de um texto culto e ágil, era dotado de uma língua ferina, venenosíssima, e tratava todos e tudo, poupando pouquíssimos. Seria Telmo ainda possível hoje, em plena “cultura do cancelamento”, ou seguimos empobrecendo a olhos vistos?

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Sobre China e as Big Techs:
https://www.theguardian.com/technology/2021/nov/03/techscape-china-jack-ma-regulation?mc_cid=c7d999a2d3&mc_eid=c3ed2a6583
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Sobre "A Serpente Encantadora", Telmo Martino