terça-feira, 8 de setembro de 2026

A longa mão da IA

Ninguém discorda de que a IA abre um potencial imenso à nossa frente, mas isso reforça a necessidade premente de saber qualificar o seu uso: obter dela as vantagens latentes, sem que tenhamos que tratar de inesperados e delicados novos problemas.

Na semana que passou falou-se do terceiro teorema de Fermat. Fermat enunciou em 1637 algo sobre uma extensão ao teorema de Pitágoras - aquele dos triângulos retângulos onde "um quadrado pode ser a soma de dois quadrados": ele valeria apenas para o expoente 2; para maiores que 2 não há solução possível em números inteiros! E anexou uma misteriosa nota: "descobri uma demonstração maravilhosa, mas não cabe nesta margem". Passaram-se mais de 350 anos para que uma solução fosse encontrada. Andrew Wiles conseguiu isso em 1995, após trabalhar sete anos gerando uma prova em quase 130 páginas... E agora a Anthropic anuncia que sua IA conseguiu gerar a formulação computacional perfeita desta prova, em apenas 11 dias de trabalho e testada pelo sistema LEAN,

Mas há uma outra notícia, que pareceria ser o anti-climax da anterior. A prestigiosa revista CACM, Comunicações da Associação de Computação, denuncia um problema atual: enquanto a IA consegue gerar milhões de linhas de código rapidamente, o trabalho para verificar a correção e os riscos na implementação do "software" gerado por IA continua sendo cada vez mais exigente de trabalho humano...

Como equilibrar essa duas mensagens? São opostas, ou é um falso dilema? A IA é muito boa em lógica, como mostra a primeira mensagem. Por que não seria igualmente eficiente na geração de código complexo? Talvez a explicação resida no contexto humano. Sem dúvida a IA pode contribuir imensamente na solução de problemas lógicos, e para a descoberta novas drogas, proteinas, etc, mas pode falhar espetacularmente quando se trata de "situações humanas", cuja definição inclui subjetividadas não formalmente expressas. Entre os programadores é familiar o dito: "esse programa está certo, mas não atende ao que foi pedido pelo usuário". Ou seja, sem a formalização logica completa da demanda, há nuances humanas que a IA não perceberá. Voltando ao HAL9000 de 2001, Uma Odisséia no Espaço, a máquina estava cumprindo logicamente seu objetivo. Os terríveis meios de que se valeu não estavam formalmente expressos.

Sob esse prisma, são pontos complementares, e a IA segue o caminho tradicional da mecanização, poupando o trabalho físico e mental ao homem. Talvez "matemática", como puro campo da lógica, já seja absorvível pela IA que temos. Há amplo espectro em que equipamentos são mais eficientes que humanos, desde cálculos a cirurgias. Ao lidarmos, porém, com problemas em que seu contexto não é exprimível em pura lógca, é temerário aceitar sem análise humana o que a IA propos ou decidiu.

Quanto mais completamente uma questão puder ser estritamente formalizada, maior tende a ser a vantagem de usar IA para respondê-la. Quanto mais ela depender de conhecimento implícito, contexto e julgamento, mais arriscado será seu uso na resolução. O que Aristóteles chamou de "frônesis", prudência, segue apanágio exclusivamente humano... Sigamos Millôr: "Computa, computador, computa!

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O textos citados:

https://decrypt.co/377491/ai-solved-350-year-old-math-problem

https://cacm.acm.org/news/code-smells-and-verification-gaps/

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A "frônesis aristotélica:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fr%C3%B4nese

https://leticiadornelles.substack.com/p/phronesis-a-sabedoria-pratica-que

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Millor:

"Um idiota nunca aproveita a oportunidade. Na verdade muitas vezes o idiota é oportunidade que os outros aproveitam".
- Computa, computador, computa‎ - Página 51, Millôr Fernandes - Editorial Nórdica, 1972 - 95 páginas

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https://www.scribd.com/document/958291256/art-TEXTO-Millor-Fernandes-Computa-Computador-Computa

"EXEGESE FINAL" — por Telmo Martino (1974)

"Millôr Fernandes e Fernanda Montenegro enfrentando Godot e saindo por cima.

Pedido? Piada? Um show? Uma tragédia grega? Algo sem sexo ou sentido? Apenas uma piada? Escute: você já tentou fazer uma piada? Um drama grandiloquente e shakespeariano ao mesmo tempo, um tempo relaxado e heróico? Uma comédia de costumes? Maus costumes? Uma ópera? Commedia dell'arte? Uma ópera? Uma piada? Uma piada na crítica? Uma piada mas não paga, ou paga e não brinca? Uma Zarzuela? Uma chanchada? Revista? Vaudeville? Grotesco? Uma peça? Um ônibus? Uma digressão moral, mas sem fé ou misericórdia? Você entendeu tudo ou não entendeu nada?"

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Telmo Martino, que na época era o colunista cultural e social mais lido e temido da imprensa paulistana no Jornal da Tarde, escreveu uma exegese ácida e memorável sobre a produção.
Em seu texto, Telmo definiu a experiência de ver Millôr Fernandes e a atriz Fernanda Montenegro desafiando as convenções e "saindo por cima de Godot". O jornalista usou seu característico tom sarcástico e brilhante para questionar e brincar com a própria natureza do espetáculo, definindo-o em uma série de indagações satíricas: [1]


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