terça-feira, 19 de setembro de 2017

Pecó-pedi-pego

Eu era muito ruim na “língua do pê”, artimanha usada no primário quando uma mensagem “secreta” deveria ser passada agilmente de um colega a outro. Eles eram bons nisso! Se um não iniciado ouvisse a torrencial sequência de sílabas com os “pê” intercalados, não entenderia: estava “criptografada”, acessível apenas ao destinatário. No delicioso conto de Lima Barreto, “O Homem que Sabia Javanês”, um malandro, para ganhar a vida, inventa tornar-se professor e único tradutor de uma língua fictícia. Na semana que passou, notícias na Internet informavam que dois famosos códigos teriam sido decifrados: o misterioso manuscrito Voynich, com mais de 600 anos, e uma “carta de Lúcifer” que teria sido enviada a uma monja na Itália há 360 anos. Mesmo que a notícia sobre o Voynich seja um trote (ou uma “pós-verdade”), revive-se a atração e a necessidade que temos do sigilo, do segredo, da manutenção de nossa privacidade.O uso da criptografia forte é agora acessível a todos, com diversas implementações abertas e à prova de testes. Uma das razões de sua popularidade reside no incômodo fato de que nossas comunicações privadas talvez estejam sendo monitoradas por alguém. Empresas, para preservar segredos industriais, e governos, por óbvios motivos, sempre esforçaram-se por usar criptografia em suas comunicações. Para nós, prosaicos usuários, em velhos e bons tempos uma carta era considerada suficientemente protegida pelo seu envelope. Hoje sabe-se que nossas cartas podem ser lidas ocultamente. Mas, já que temos formas novas, simples e gratuitas de usar criptografia... que tal aderir?

De forma geral, um efeito parece claro: sempre que se abusa do monitoramento de nossas ações na rede, surge uma reação em sentido contrário. Guardam informação sobre os sítios que acessamos? Que tal, então, usar o TOR, navegador que apaga traços? Querem saber o que buscamos na rede? Há o DuckDuckGo, buscador que não retem informações sobre quem e o quê busca. Quase tudo está na rede, mas há conteúdos que todos gostaríamos de ver protegidos, não localizáveis pelas ferramentas de busca usuais. É o caso das bases de dados de informações pessoais, como imposto de renda, exames de saúde, etc. Ao invés de visibilidade e popularidade, são conjuntos de informações, presentes sim, mas não abertas aos buscadores usuais. Esse conjunto dos “não encontráveis” faz parte da chamada “Web profunda”.

Há outros habitantes da “Web profunda”. A junção de criptografia, navegação anônima e conteúdos não facilmente encontráveis torna-se também um atrativo para os que pretendem montar negócios escusos. E as transações monetárias nesses negócios subterrâneos podem valer-se de pagamentos em moedas digitais. É a “Web escura”, mais um risco que surge. Sua existência deve ser vista como um efeito colateral, não um argumento contra o uso de criptografia, Thor e coisas do tipo. Valores importantes como nossa privacidade devem ser preservados, permitindo-nos o uso das medidas de que dispomos. Investigar ilícitos é fundamental e importante, porém sem invadir direitos. Afinal não se proíbem cadeados ou fechaduras pelo fato de que podem ser mal usados, protegendo produtos ilegais. E também nunca se proibiu a língua do “pê”.

Pea-peté pemais!

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Construindo Confiança

Na Internet é cada vez mais importante poder confiar em algo. Em sua origem, entre acadêmicos, acreditava-se sempre na declaração dos colegas. Muitos dos protocolos como o do “correio eletrônico” por exemplo, foram escritos em analogia a serviços tradicionais. “Cartas” são encaminhadas ao destinatário sem que se viole o conteúdo ou, sequer, se verifique se o remetente é quem diz ser. A rede trabalha sem questionamentos ao transportar e entregar “cartas”. O que era nobre e elegante, entretanto, passou a ser abusado e o “spam” tornou-se praga. Uma eficiente forma de combater pragas trazidas pela tecnologia é adotar anti-pragas também tecnológicas, e assim, por exemplo, conseguiu-se atenuar os efeitos do “spam” sobre todos nós.

O mesmo ocorre em endereçamento de máquinas e serviços. Para chegar a algum lugar na rede precisamos do “endereço IP” daquele lugar. Uma poderosa estrutura distribuida e hierárquica chamada DNS (Domain Name System) traduz o nome do destino para um endereço, e também aí confiança era pressuposto: “Ei, eu quero ligar para o João. Qual é mesmo o telefone dele? - 99991111 - Ah, obrigado”. Claro que pode aparecer algum “espírito deletério” que, ouvindo a pergunta sobre o João, forja uma resposta falsa: 99992222. Acabaríamos ligando para o João errado e, pior, se houvesse má intenção, é bem capaz que um pseudo-João atendesse e acabássemos passando a ele informações que só deveriam ser dadas ao verdadeiro João. É uma das formas de desviar incautos para páginas falsas, implementando o “phishing”, “pescaria em águas turvas”.

A saída é recorrer de novo à tecnologia: o DNS ganha uma extensão chamada DNSSEC (“SEC” de “seguro”). Agora a resposta à pergunta sobre o “telefone do João” virá com uma assinatura verificável, garantindo assim ser verdadeira. Com DNSSEC quem realmente conhece o telefone do João assina a resposta, dando ao usuário a certeza de estar ligando ao João real. Funciona em cadeia hierárquica: o domínio .br, assinado pela raíz da Internet, garante por sua vez a existência de seu segundo nível. No segundo nível há subdomínios obrigatoriamente assinados, como o b.br (bancos) e jus.br (judiciário), enquanto em outros a decisão de assinar ou não é de quem opera o domínio. E o .br acaba de atingir 1 milhão de domínios assinados com DNSSEC, ficando entre os cinco maiores usários de DNSSEC do mundo. Bom pra nós!

A tendência clara é, paulatinamente, embutir “confiança” na própria estrutura da rede. Se antes usava-se um terceiro para “reconhecer nossa firma”, cada vez mais a própria rede cria mecanismos automáticos que proveem formas seguras de autenticação. Estamos ainda longe de dispensar cartórios, certificados e carimbos, mas DNSSEC é um exemplo de círculo virtuoso na segurança. Outro caso atual que pode tornar-se comum em breve é a tecnologia “blockchain”, aquela por trás de moedas virtuais. O “blockchain” se propõe a manter na rede uma estrutura disseminada de confiança não fraudável. Mostra que eventualmente poderemos prescidir do aval de alguém confirmando o que possuimos, seja um valor ou outro bem qualquer. São tempos interessantes...

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Tempos de Pós-verdade

Está em voga hoje, especialmente em tempos de Internet e de redes sociais, falar em “pós-verdade” O dicionário Oxford recentemente introduziu o verbete “pós-verdade” como um adjetivo “relacionado ou denotando circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública que os apelos à emoção e às crenças pessoais”. Além de chocar os que ainda creem mais em fatos que em deformações úteis, a definição espelha uma realidade que se infiltra, nem tanto subrepticiamente, entre nós. Aquilo que era tido apenas como uma “boutade”, uma frase espirituosa do ex-vice-presidente, o mineiro José Maria Alkimin, “o que importa não é o fato em si, mas sim a versão do fato” ganha espaço, momento e uma triste confirmação.

Diógenes, o Cínico, aquele que há 2500 anos perambulava pelas ruas de Atenas, com uma lanterna acesa em plena luz do dia “procurando um homem honesto”, sentir-se-ia superado pelo que ocorre nos “pós-tempos” de hoje. Do pós-modernismo à “pós-verdade” poucos resistem à tentação de falar, contra ou a favor de algo ou alguém, adicionando ou não algo de concreto ao discurso. É de Diógenes também a avaliação de que “dentre os animais ferozes, o que tem a mordedura mais perigosa é o delator, e dentre os animais domésticos, o adulador”.

São tempos fluidos, em que as novas possibilidades e dimensões trazidas pela internet não puderam ser, ainda, minimamente absorvidas, entendidas em sua extensão, incorporadas no corpo social de cultura e costumes. Hoje todos podem valer-se instantaneamente de um “lugar de fala” na rede, no que parece ser um “empoderamento” inimaginável há quarenta anos. É algo certamente positivo e auspicioso mas, associado à euforia da descoberta, ao inebriamento de novos e ilimitados horizontes, gera uma cacofonia de posicionamentos rasos e muitas vezes emprestados, de notícias verídicas misturadas a boatos, da incontinente repercussão instantânea de versões se sobrepondo-se a fatos. No início do tempos de Mao, na China, houve a implantação de um programa de “estímulo ao desabrochar de mil flores”. A ideia então era incentivar o surgimento das mais diversas discussões sobre qualquer linha de pensamento, de todas as teses e antíteses, visando abrir a fechada e milenar cultura chinesa às diferentes matizes de escolas internacionais de pensamento. Durou pouco e, paradoxalmente, redundou na instauração de uma única linha admissível, a do maoismo.

Não se trata de defender, nem de longe, qualquer limitação na expressão de ideias e de posicionamentos. A liberdade de expressão é valor central e inegociável do que hoje conhecemos como civilização. Mas espera-se que a balbúrdia acabe por decantar, que haja um maior amadurecimento e entendimento daquilo que nos abriu portas a avanços importantes. É alvissareiro poder usar livremente as novas ferramentas, tanto no apoio à consolidação do que nos pareça correto, como apostrofando e combatendo falhas morais. A Afinal, segundo o saudoso Millôr Fernandes, autor de tantas frases inesquecíveis: “jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”. Viremos a página da “pos-verdade”.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O Bom Demônio

“Demônio” carrega usualmente um sentido de malefício, de destruição, de pecado. Nem sempre teve, porém, essa semântica: no grego antigo “demon” (daimon) era algum espírito poderoso, eventualmente divino, sem nenhuma conotação maligna. Em computação o termo “demon” pode se referir a um programa que executa tarefas auxiliares num sistema, nem sempre visíveis ao usuário comum. Outro exemplo: a tradução do título do livro de Nikos Kazantzákis, “Zorba, o Grego”, que se usa em Portugal é “O Bom Demónio”... Se olharmos para o que os gregos entendiam por demônio faz todo o sentido chamar seu protagonista, um espírito livre, criativo e puro, de “bom demônio”.

Mas o que vem a fazer esses “demônios” no texto? Por partes: nesta semana a discussão sobre Inteligência Artifical, seus eventuais amplos benefícios e seus potencialmente fatais riscos, ocupou a cena do debate tecnológico. Divergiram publicamente sobre IA, de um lado o sul-africano Elon Musk, criador da SpaceX e da Tesla, talentoso e audacioso empreendedor, e de outro Mark Zuckerberg, o quinto na atual lista de multibilionários do mundo, dono do Facebook e adjacências... Um debate interessante, especialmente porque Musk, com raízes profundas em projetos de Inteligência Artificial, foi quem surpreendentemente advertiu os governos sobre a necessidade de se buscar maior entendimento quanto aos riscos que essa tecnologia traz. Do outro lado da cerca, Zuckerberg defendeu ardorosamente pesquisas ilimitadas na área, apontando apenas benefícios que ela trará à humanidade.

Podemos ser pessimistas quanto à IA e avaliar que ela destruirá empregos e que ao atingirmos a “singularidade” de Ray Kurtzweil, ou seja, quando as máquinas superarem a capacidade intelectual humana, a própria espécie estará em risco. Que andróides, meio humanos meio máquinas, dominarão o mundo e todo um porvir terrificante da nem-tanto-ficção científica. Podemos ser otimistas como Vint Cerf, que imagina o poder ilimitado do “software” ajudando-nos nas tarefas mais difíceis e tediosas, examinando com eficiência bases gigantescas de dados (“big data”) para tirar conclusões mais corretas do que conseguiríamos sobre diagnósticos médicos, ou como aperfeiçoar processos e sistemas. Seja qual for nossa posição, entretanto, o inarredável é que IA deve ser levada em conta seriamente.

No final de 2016, o IEEE (Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos) publicou um documento de mais de 100 páginas chamado “Projetos Eticamente Alinhados” em que abre à discussão pública, exatamente, a necessidade de se incluir a ética entre os principais componentes de um projeto tecnológico, notadamente os de Inteligência Artificial. No sumário do documento aparece a busca da “eudemonia” - um termo cunhado por Aristóteles em Ética a Nicômaco - para definir o que seria o maior anelo do ser humano: viver uma vida plena, com bom espírito e felicidade. Em “eudemia” “eu” significa “bom” e “demon”, no contexto grego original, “espírito”. Aliás essa “busca pela felicidade” também aparece como um dos direitos inalienáveis do Homem na Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Estamos, portanto, numa encruzilhada ética, tecnológica, mas também semântica: o demônio que invocaremos será uma espécie de Zorba, … ou de Mefistófeles?

===
https://link.estadao.com.br/noticias/geral,o-bom-demonio,70001927534
===
https://www.custojusto.pt/lisboa/desporto-lazer/livros/-o-bom-demonio-de-nikos-kazantzaki-30637879





terça-feira, 25 de julho de 2017

Os novos intermediários

Poderíamos considerar Minority Report, um filme de Stanley Kubrick em 2002, como um precursor da discussão sobre algoritmos automáticos e seus riscos. No filme, mais ou menos como um Cesar Lombroso redivivo e usando Inteligência Artificial, tres mutantes humanos, flutuando num aquário, fazem-se de pitonisas para as ações futuras dos habitantes, pré-condenando alguns antes mesmo de que um crime tenha sido cometido. Um cenário aterrador, mas de “ficção”...

Leu-se recentemente que uma rede social está desenvolvendo algoritmos que implementam filtros de conteúdo com o propósito de prevenir, entre outras grosserias e comportamentos inadequados, “linguagem de ódio e atitudes discriminatórias”. Em um outro serviço na rede - um buscador indexador de conteúdos -, já há previsão de atendimento a solicitações de “remoção de resultados de busca” partindo de usuários que se sentem prejudicados pela possibilidade de acesso a algum conteúdo que, mesmo existindo na rede, seja polêmico ou incorreto em sua visão. Não é o funcionamento que se esperaria de uma máquina “automática e burra”, cuja função seria, apenas, de executar amplamente sua função mecânica sobre uma base enorme de informações, sem semântica ou exame de mérito que exija decisões próprias.

Pessoalmente tenho sérias reservas a esse tipo de “remédio”. É frequente e natural sentir-se a necessidade de suporte na decantação da pletora de informações que recebemos, ou em eventual bloqueio de conteúdos que nos sejam ofensivos, mas deveríamos evitar a tentação de erigir intermediários e seus mecanismos em censores ou ajudantes de nosso propósito pessoal.

Claro que há inúmeras situações em que, ao se jogar na rede afirmações pejorativas ou inverídicas, rompe-se não apenas a barreira da boa educação, mas até a de licitude. Mesmo assim, ao invés de redelegar aos intermediários a busca por algoritmos que eliminem esse comportamento, deveríamos procurar formas de onerar o real emissor, reponsável pelo conteúdo inadequado. Ou, de outra forma, tomar a nosso encargo a implementação das ferramentas de bloqueio e filtragem locais e pessoais que considerarmos adequadas, como muitos aplicativos já permitem. Repassar genericamente essa responsabilidade a terceiros pode representar abrir mão de nosso direito de acesso total e livre à informação. Certamente essa rede “depurada por outrem” não preservará a neutralidade a que se almeja. E a pressa impensada na busca de alívio pode gerar monstros ainda maiores, e de que não nos livraremos facilmente: um leviatã digital a controlar nosso dia a dia, soberana e perenemente.

Colabora para essa situação o aumento exponencial e contínuo da capacidade de processamento eletrônico e da transmissão e armazenagem de dados que, se por um lado criam um ferramental muito poderoso, por outro prenunciam um cenário obscuro de controle e de censura. Dar esse poder a um intermediário, excedendo sua missão específica de conectar interessados e informações geradas nas pontas, mesmo que revestido da melhor das intenções, pode acabar muito mal.

É mais uma caixa de Pandora que, uma vez aberta, liberará os miasmas que não conseguiremos recapturar. Caso típico em que a emenda pode sair muito pior que o soneto.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Sem Intermediários?

Antes da Internet, informação era algo a ser buscado naquelas poucas fontes, tradicionais e da escolha do usuário, como era o caso dos jornais. Essa missão é muito bem descrita nas palavras de Júlio de Mesquita Filho, sobre o “papel do jornal”: "Não procuro dirigir nem criar a opinião pública no meu Estado. Ao contrário, procuro apenas sondar com cautela as opiniões em que o Estado se divide e deixo-me ir, confiado e tranquilo, na corrente daquela que me parece seguir o rumo mais certo".

Muita água rolou debaixo da ponte desde que a Internet tornou-se personagem central em nosso dia a dia. E tentamos mapear suas características, às vezes com acerto, outras vezes errando o ponto. Certamente a rede representa uma ruptura, de amplitude, alcance e impacto ainda não dimensionáveis, e seu efeito no tecido social é igualmente assustador, podendo ser até mais profundo que seu impacto econômico. Mas há aspectos em que as coisas podem não ter mudado tanto, ou da forma como imaginávamos e apregoávamos. Um desses casos, penso, é a “desintermediação” que a rede teria trazido: hoje geradores e consumidores de qualquer coisa, desde informação até bicicletas usadas, passando por livros, mantimentos e serviços, poderiam se comunicar diretamente, sem um mediador. Um cenário que apontava para o eventual desaparecimento de muitos tipos de intermédiarios, o que de fato acontece, mas não de forma absoluta e com sutilizas não previstas nas análises em geral.

O fato é que não somos onipotentes ou oniscientes, e temos limites em absorver dados e em examinar sua coerência e precisão. Em muitos casos, não conseguimos prescindir de curadoria naquilo que consumimos, nem queremos perder o conforto que esse suporte nos trazia. Isso que pode ser óbvio no caso da saúde - ninguém em sã consciência abriria mão da consulta a um médico em troca dos palpites das redes sociais - pode ser menos óbvio no caso da obtenção de informação. Nesta fase de complexa transição em que vivemos, quando há abundância de microfones para todas as bocas, e os dedos são muito rápidos em replicar qualquer fato bombástico sem alguma ponderação anterior, não é de se estranhar que se surja a necessidade, às vezes inconsciente, de novos intermediários. Eles aliviariam nossa carga agindo como “filtros” e avalistas do que recebemos e restaurando algum conforto...

O “papel do jornal”, assim, não desapareceria com o “jornal de papel”, mas iria transmutar-se na Internet. Hoje recebemos “sugestões de leitura”, seguimos “youtubers” e canais virtuais, participamos de debates muitas vezes orientados para objetivos não muito claros. O risco é que esse novo e enorme conjunto de intermediários é muito mais fluido e, eventualmente, menos coerente ou fiel aos fatos. Claro que sempre haverá viés numa história que nos contam mas, no passado, esse viés era mais conhecido e mapeado do que é hoje. E o poder do intermediário pode ter se tornado subrepticiamente maior do que era. Longe de escaparmos da intermediação em nossas interações, corremos o risco de ser, não apenas mais tutelados, mas modulados pelos intermediários na rede, especialmente os que procuram dominar o cenário global atual, bem distantes da missão definida por Júlio de Mesquita Filho

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Rashomon e a franquia da internet fixa (2)


Na primeira parte da coluna sobre o modelo de contratação de Internet fixa, sem franquia adicional – publicada em 22 de janeiro –, usou-se uma analogia com o serviço de energia elétrica. O paralelo entre as três camadas seria: geração de conteúdo (energia), transporte (“linhões”) e distribuição domiciliar. Na Internet, o conteúdo é gerado pelos membros da rede, nas pontas, e ele é grátis ou pago diretamente por assinatura.

Aos provedores caberia cuidar das duas camadas remanescentes: transporte e distribuição. A distribuição, já discutida, depende de uma estrutura local que deve ser projetada para atender à demanda média prevista (CIR, na sigla em inglês) e tem um custo médio invariável com o uso instantâneo. Tratemos do transporte.

Nos primeiros anos de nosso acesso à Internet, era natural que o conteúdo procurado estivesse no exterior, longe do usuário. Desta forma, o provedor teria de contratar uma banda adequada para trazer informação aos seus usuários. E esse custo, certamente, cresceria com a demanda. A analogia com a rede elétrica continua valendo: é preciso trazer mais eletricidade lá da usina para atender à demanda crescente dos usuários.

O que aqui acontece, entretanto, é que conteúdos frequentemente buscados no exterior acabam por migrar para perto dos usuários. Se na eletricidade “baterias” são usadas para fornecer energia instantânea sem demandá-la das “usinas”, na Internet usam-se “caches”. Mas há uma diferença fundamental: enquanto as baterias elétricas esvaziam com o uso e precisam ser recarregas, as “baterias de informação” da Internet não descarregam. Quando assisto a um filme por streaming, ele não é “gasto” e continua totalmente disponível para novo uso de todos.

Talvez uma analogia mais simples seria com TV por assinatura: o custo mensal não depende do tempo e dos canais aos quais o usuário assistiu.

A engenharia da Internet, automaticamente, traz para perto dos usuários a informação que eles mais usam. Com isso, o custo dos “linhões” da Internet deixa de subir na mesma taxa do consumo. Aliás, ao contrário da eletricidade ou da água, informações não são consumíveis. Os “bits” não se gastam com o uso e continuam sempre lá, disponíveis, usados ou não.

Os “caches”, as redes de distribuição de conteúdo (CDN) e os pontos de Troca de Tráfego são as baterias da rede. Informação disponível, barata e próxima do usuário. E, quanto mais previsível for o tipo de informação desejada, mais barato e eficiente será seu provimento. Nos pontos de troca de tráfego, geradores e consumidores de informação se interligam: os bits saem por uma porta e entram por outra, a caminho dos usuários e a um custo muito baixo.

Em resumo, o modelo de fornecimento por banda é viável, pouco sensível à previsível demanda crescente dos usuários. É um serviço estatístico, com limites impostos pela velocidade contratada e estrutura que atenda à média prevista, longe de ser uma Internet ilimitada.

Adaptando o final ao Rashomon e às historinhas de antanho, “nos pontos de troca de tráfego, a vai-se de porta a porta e... quem quiser que conte outra”!