terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Seguindo o outro...

Na Internet torna-se cada vez mais difícil encontrar um tópico que possa ser discutido com um mínimo de objetividade. Parece que conscientemente escolhe-se o confronto e os ataques ad hominem, seja por ser mais efetivo, seja por não exigir trabalho mental adicional. O papel que a Internet pode ter no acirramento deste comportamento mereceria uma análise dos que entendem de comportamento humano. Por ser perene entusiasta da inclusão de todos via Internet proporciona, arrisco-me a uns pitacos de diletante.

Rene Girard, um pensador falecido há seis anos, trata de características humanas que podem ter sido exacerbadas pela ferramenta que a rede é. Sobre ações e desejos, Girard afirma que normalmente mimetizamos, buscamos copiar a postura de alguém. Se, com conforto e facilidade, imitarmos nosso “modelo”, podemos pensar menos. Nossos próprios desejos seriam os desejos do outro, do indivíduo a que consideramos digno de imitar, e acabaremos por internalizar o mesmo desejo. Valorizamos algo, ou nos opomos a algo, apenas para ecoar o que nosso “influenciador” faz. E “influenciador” aqui vem a propósito, porque a analogia com a Internet parece patente. O próprio epíteto de “influenciador” já desvela a intenção...

Se mimetizar é intrinseco ao ser humano, há um aspecto de escala. Antes da comunicação ampla que temos hoje, poucos seriam suficientemente visíveis para serem escolhidos como “balizadores” de nossos desejos e ações. Poucos a seguir, mimeticamente. A rede “profissionalizou” essa atividade: hoje times de seguidores dos auto-propostos “influenciadores” alinham-se em campo, para as batalhas do dia-a-dia com muitos adjetivos e parca substância. Outro ponto que pode ser gerador de tensão e violência é a eliminação de barreiras contextuais. Como – e isso é sempre muito bom! – todos podemos falar e participar de qualquer discussão na rede, não temos pejo em arremessar indiscriminadamente frases contra quem não siga pela cartilha do grupo a que pertencemos e ecoamos. Em fase de euforia e deslumbramento não há tempo para aprofundamentos, sob o risco de se perder o momento da discussão. Assim não importam as credenciais dos outros – responderemos a qualquer um deles, e, se possível, num tom acima. Esse comportamento já existia no velho tempo do correio eletrônico. Em listas de discussão dizia-se que “os que menos tem a dizer, muitas vezes são exatamente os que tem mais tempo para falar”.

Segundo Girard, o que ele chama de crise mimética “é uma situação de conflito tão intensa que, em ambos os lados, as pessoas agem e falam da mesma forma, tornando-se cada vez mais hostis ao replicar a hostilidade do outro grupo. Em conflitos realmente intensos, as diferenças entre os lados em conflito, ao invés de se tornarem mais agudas, igualam-se”. Parece confirmar o que Nietzsche havia postulado, em Além do Bem e do Mal: “a insanidade é algo raro de se encontrar em um indivíduo. Já em grupos, partidos e épocas, é a regra”…

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Citações de René Girard em https://www.brainyquote.com/authors/rene-girard-quotes

"We don't even know what our desire is. We ask other people to tell us our desires. We would like our desires to come from our deepest selves, our personal depths - but if it did, it would not be desire. Desire is always for something we feel we lack."

"What I call a mimetic crisis is a situation of conflict so intense that on both sides people act the same way and talk the same way even though, or because, they are more and more hostile to each other... 
I believe that in intense conflict, far from becoming sharper, differences melt away."

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sobre discussões lista, em https://www.icann.org/en/system/files/files/transcript-strategy-panels-11mar14-en.pdf 
"This is Mike Nelson. I'm really glad you're focusing on these issues because there's Nelson's law of listeners, .which, the people with the least to say have the most time to say it."

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A frase de Nietzsche citada:
"Insanity in individuals is somewhat rare. But in groups, parties, nations, and epochs, it is the rule."
— Friedrich Nietzsche, Beyond Good and Evil
https://kwize.com/quote/13005























terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Efemérides

Dezembro é a época do ano em que comemoramos, quiçá de forma algo masoquista, o tempo em sua irresistível passagem… As práticas dezembrinas incluem os almoços e jantares com os amigos, a troca dos calendários nas paredes e o envio de cartões de festas com os melhores votos e desejos a todos. E mesmo com toda a especificidade e fluidez dos tempos de hoje, ao menos essa saudável e amistosa tradição parece mantida.

Quanto, por exemplo, a uma outra data referente à Internet no Brasil, a Abranet - Associação Brasileira de de Internet - comemorou semana passada seus 25 anos de fundação, e o fez com grande estilo. Do lado das palestras, por exemplo, houve destaque a temas humanos e técnico importantes, como economia, efeitos da Internet na sociedade -tema que precisa ser melhor tratado e analisado - e uma particularmente deliciosa: a do Amyr Klink, sobre suas peripécias transoceânicas, sua forma de encarar as dificuldades, e seus conceitos de vida, sob todos os pontos de vista, admiráveis. Fica a recomendação a quem se interessar de tentar recuperá-la na rede.

Ainda na linha das efemérides, ontem, 6 de dezembro, foi dia de S. Nicolau, o taumaturgo, bispo de Myra do século IV e em cuja história de generosidade para com os pobres e as crianças inspirou-se a tradição de Santa Claus, ou nosso Papai Noel. Nesta data, familiarmente, além de reunirmo-nos todos para uma tradicional refeição sempre baseada em peixe, lembra-se que é o momento de se montar a árvore de Natal. Aliás, São Nicolau, como o patrono dos marinheiros e navegantes, poderia levar-nos a considerar seu nome como padroeiro das navegações modernas, hoje feitas pela Internet, mas igualmente arriscadas… Mas como patrono da Internet em si já há outro forte candidato: Santo Isidoro de Sevilha, lá do século VI, que foi considerado o “último polímata” do tempo antigo. Ou seja, alguém que, como a Internet hoje, abarcava o conjunto de conhecimentos de seu tempo. Isso me traz outra recordação pessoal curiosa: na USP, anos 70, tínhamos acesso ao fonte do MCP – Master Control Program – o sistema operacional da antiga Burroughs. Lá, dentro do código do MCP, a rotina que mantinha a complexa base de dados de todas as variáveis do computador chamava-se Leibniz, certamente em homenagem a outro polímata que, à moda da tal rotina, conseguia compreender a totalidade do mundo que o cercava.

Termino com mais uma analogia com S. Nicolau: foram exatamente os marinheiros italianos, devotos do santo, que muitos anos após sua morte, e tendo Myra sido conquistada pelos turcos no início do século XI, acabaram por pilhar seus restos mortais e suas relíquias. Assim parte dos ossos de S. Nicolau foram de Myra para Bari, na Itália, e hoje há fragmentos deles espalhados pela Europa toda. Ou seja, é um santo geograficamente distribuído, como a própria Internet.

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Abranet: 
www.abranet.org.br

MCP - Burroughs:
https://en.wikipedia.org/wiki/Burroughs_MCP

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São Nicolau:
https://en.wikipedia.org/wiki/Saint_Nicholas
https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/12/06/s--nicolau-de-bari--bispo-de-mira.html
https://orthochristiantools.com/the-serbian-miraculous-icon-of-saint-nicholas-in-bari-italy/








terça-feira, 23 de novembro de 2021

O Poder de um Nome

A discussão sobre inteligência artificial ganhou os holofotes da atenção geral, internacionalmente. O que contribui para essa ascenção irresistível é um conjunto de fatores, que vão, desde o poder da expressão “IA” em si, à sustentada e crescente expansão na capacidade de processamento e armazenamento que pode hoje ser aplicada sobre a imensa quantidade de informações à disposição dos algoritmos. E há que se considerar também a particular concentração dessas características nas mãos de um punhado de empresas, as chamadas “big-techs”. 

A oferta de capacidade de processamento e armazenamento distribuídos no que lembra a imaterialidade de nuvens, deslocou o poder de computação, que antes poderia estar situado nas instituições que dela necessitam, para estruturas que, apesar de parecerem descentralizadas e neutras, são controladas por poucos fornecedores, num ciclo bem definido de expansão. Afinal, ao concentrar-se o poder de computação exatamente onde ele já existe, realimenta-se seu crescimento de forma rápida e sem limites Para adicionar sinergia ao cenário, basta lembrar que também é lá que estão os enormes repositórios de dados, provenientes dos usuários de seus serviços de plataformas e redes sociais. A “faca e o queijo”.

Além dos dados e do processamento, some-se o uso da capacidade coletiva da comunidade em treinar, voluntaria ou involuntariamente, os produtos gerados. Nós mesmos treinamos as aplicações que serão usadas para nos proverem mais informações criteriosamente escolhidas, que aumentem nosso grau de aderência e de permanência no sistema. 

Finalmente, é importante que a escolha de um nome seja catalizadora. “Inteligência artificial” ressoa bem, é nome forte, tem mais de 70 anos de existência e um “apelo tecnológico” irresistível. IA passou por épocas em que era foco de muita pesquisa, e por períodos em que caiu em semi-esquecimento – os “invernos da IA”. Claro que, oportunisticamente, além da real e poderosa IA pode-se embrulhar no mesmo saco o que lá couber, especialmente se for algo que, por necessitar de muito processamento, pareça inatingível aos usuários comuns. Jorge Luiz Borges em “o Golem” já havia descrito o poder em um nome: “o nome é o arquétipo da coisa; nas letras de ‘rosa’ está a rosa; e todo o Nilo na palavra ‘Nilo’”. 

 IA é o tópico da vez e não podemos perdê-lo de vista, até para tentarmos minimizar os riscos que pode estar embutidos em IA. Discute-se hoje na Unesco um texto que recomendaria procedimentos éticos relacionados ao desenvolvimento e disseminação da IA. O documento está em fase final de discussão para ser aceito pelos países signatários. E por aqui também estamos debatendo estratégias. O importante é que essa discussão envolva os segmentos da sociedade, que certamente IA já afeta, e muito, indistintamente a todos. 

 === Sobre a citação de Jorge Luiz Borges, em "o Golem": 
https://www.poemas-del-alma.com/jorge-luis-borges-el-golem.htm

" Si (como afirma el griego en el Cratilo)
 el nombre es arquetipo de la cosa
 en las letras de 'rosa' está la rosa
 y todo el Nilo en la palabra 'Nilo'." ===

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Novos tempos

Analisar os impactos da Internet no que fazemos em nosso dia-a-dia já é um objetivo bastante ousado e quase inatingível, mas avaliar como ela tem afetado nosso comportamento social é ainda mais desafiador. Ressalvas importantes: há que se distinguir entre a Internet em si: uma infraestrutura aberta, sem limites físicos, que chama todos a uma conexão e provê um acesso absolutamente ilimitado a informações de todo o tipo, das muito úteis, às eventualmente nocivas e propositadamente enganosas, passando um vasto elenco de futilidades; das construções que crescem sobre ela. Essas construções que também respondem pelo nome de “plataformas”, valem-se do princípio de “livre inovação” - que deve ser preservado! – e podem evoluir para empresas com grande concentração de poder econômico e social, escorado especialmente na forte fidelização de seus usuários. Essa estratégia de intenso engajamento é operacionalizada pela aquisição de vasto conhecimento dos dados e características dos usuários. É a chamada “economia da atenção”, quando manter o usuário constantemente conectado, e sempre usando os serviços da plataforma, traz mais retorno econômico a ela.

A forma de atenuar esse controle poderia residir numa conscientização nossa, associada a leis de proteção de nossos dados, como a que temos no Brasil. Mas é fato que o “canto da sereia” do conforto, facilidade e prazer emocional que os usuários recebem, reduz qualquer postura mais crítica em relação ao “pacto” feito. A excitação de poder participar, com voz, em discussões de qualquer tema é tão contagiante que pensamento crítico ficará “pra depois”… Assim, das alternativas que restam para se atenuar essa dominância, ouve-se cada vez mais frequentemente as que provem de regimes fortes. Aliás, dos mesmos regimes que muitas vezes praticam controle estreito e uma coleta desmedida de dados de seus cidadãos, mas que não impede de coibir o mesmo quando se tratar de atores privados. Como achar soluções de equilíbrio, que possam ser implementadas com algum sucesso em prazos razoáveis? O risco de ir “da frigideira ao fogo” aqui é grande.

O caráter livre e aberto da rede pode ter afetado o comportamento em comunidade: a definição de “tolerância” tem sendo revisitada. Como exemplo refiz, via buscadores, vagas lembranças reencontrando algumas das músicas irreverentes que despreocupadamente se cantavam na universidade... Achá-las é ainda possível, mas seria admissível cantá-las?. O comportamento petulante, amistoso/jocoso dos anos 70 hoje poderia ser rotulado de “inaceitável”, e como algo a ser segregado. Folheie-se A Serpente Encantadora, livro do Telmo Martino: é uma “janela no tempo” com crônicas da época do Jornal da Tarde. Telmo, além de mente afiada e de um texto culto e ágil, era dotado de uma língua ferina, venenosíssima, e tratava todos e tudo, poupando pouquíssimos. Seria Telmo ainda possível hoje, em plena “cultura do cancelamento”, ou seguimos empobrecendo a olhos vistos?

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Sobre China e as Big Techs:
https://www.theguardian.com/technology/2021/nov/03/techscape-china-jack-ma-regulation?mc_cid=c7d999a2d3&mc_eid=c3ed2a6583
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Sobre "A Serpente Encantadora", Telmo Martino





terça-feira, 26 de outubro de 2021

Muito dado, pouca preservação

Graças à conectividade que temos hoje e à capacidade crescente de computaçãoe armazenamento de dados, estima-se que apenas nesses dois últimos anos o mundo criou 10 vezes mais informação do que a existente em toda a história. São números assombrosos, mas devem ser adequadamente “temperados”. Talvez a relevância, a precisão e a necessidade dessa pletora de dados não seja comparável com o que havia há umas décadas. Se a última edição da Enciclopédia Britânica em 2010, com 32 alentados volumes e instalada digitalmente hoje num computador, ocuparia cerca de 4,7 Gbytes, a quantidade de informação nova gerada em apenas 1 segundo é equivalente, em tamanho, a mais de 6000 Britânicas. Certamente a densidade e a relevância das novidades pode estar muito longe daquilo que consta da Enciclopédia, mas isso não pode nos levar a ignorar a necessidade de armazenar com confiabilidade a informação que seja significativa. Vint Cerf já nos alertava, há anos, sobre uma possível “era das trevas” digital. Todos já passamos por situações em que perdemos fotografias ou textos importantes porque um disco rígido deixou de funcionar, ou porque um “pendrive” desapareceu, ou, ainda pior, casos em que, mesmo tendo preservado o meio de armazenamento, ele não é mais legíveis nos equipamentos e sistemas atuais. Quem ainda conseguiria ler com segurança o que estivesse preservado em disquetes? Ou assistir a um filme gravado em super 8? Em contraste, um pergaminho ou um papiro de 2000 anos continua preservado e perfeitamente acessível aos que saibam decifrá-lo… Vint diz que nada é mais falso do que assumir que “bits são imortais”. Sua durabilidade física, apoiada em meios magnéticos ou ópticos, pode ser muito menor que a de nosso caderno do primário, escrito a lápis.Mesmo se ficarmos apenas em termos de Internet, quantos linques e quantos sítios tão úteis não desaparecem de um dia para outro? Por sorte há iniciativas com a Internet Archive que guarda algumas páginas da rede para a posteridade, via “wayback machine”. É importante que iniciativas assim sejam apoiadas e expandidas. Afinal, algo deve ser preservado para que os historiadores futuros possam trabalhar com alguma confiança em fatos de nossos dias…

Num lance jocoso, a mesma Intenet Archive lançou a “wayforward machine”, que pretende prever como um sítio atual evoluirá em 25 anos. Na verdade trata-se de uma campanha pela liberdade e abertura da rede. Consultando-se, por exemplo, www.estadao.com para 2046, a página exibida adverte: “erro 451 – página indisponível para o seu próprio bem. Este sítio contem informação considerada “crime de pensamento” em sua região.Se precisar de mais informações consulte o Ministério da Verdade de sua localidade”. Claro que, esperamos, isso será evitado, porque a sociedade se manterá vigilante! E parabéns ao novo formato do Estadão. Vida longa e próspera!


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No Estadão:
https://link.estadao.com.br/noticias/geral,a-internet-tem-muitos-dados-e-pouca-preservacao,70003879805


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Informações sobre a quantidade de dados gerada:


https://www.cloverdx.com/blog/how-much-data-will-the-world-produce-in-2021

https://www.internetlivestats.com/twitter-statistics/

https://www.domo.com/solution/data-never-sleeps-6https://iorgforum.org/case-study/some-amazing-statistics-about-online-data-creation-and-growth-rates/

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Sobre a "era das trevas" digital

https://economictimes.indiatimes.com/tech/internet/net-pioneer-vint-cerf-warns-of-digital-info-dark-age/articleshow/7https://www.youtube.com/watch?v=uvob8wCMhLo8152249.cms

https://www.youtube.com/watch?v=uvob8wCMhLo


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Platão (Sócrates) em Fedon:

http://www.sbpcnet.org.br/livro/57ra/programas/senior/RESUMOS/resumo_404.html

"Saber, com efeito, consiste nisto: depois de ter adquirido o conhecimento de alguma coisa, conservá-lo e não perdê-lo."

https://www.pensador.com/frase/Njk1NA/

"Tudo quanto vive provém daquilo que morreu"



terça-feira, 12 de outubro de 2021

Quem tem um...

Outubro começou com um inesperado evento: numa segunda-feira, logo após o horário do almoço no Brasil, perdeu-se o acesso a três das mais usadas redes sociais, Facebook, Instagram e Whatsapp. Sem mais essa nem aquela, ficaram inacessíveis ferramentas usadas em seu dia-a-dia por quase metade da humanidade. Qualquer que tenha sido o motivo que acarretou essa queda geral, seus efeitos foram muito sentidos e, especialmente aos que centram sua atividades nestas plataformas, devastadores.

A Internet foi concebida como uma interligação de milhares de redes, e altamente distribuida, evitando-se um ponto único de falha. Na rede, um sítio pode sair do ar, um servidor de correio eletrônico pode experimentar um apagão, um cabo óptico submarino pode se romper, e teremos em todas essas situações impactos que variarão de intensidade e afetarão diferentemente seus usuários. Uma plataforma gigantesca com as citadas, entretanto, concentra em si mesma diferentes serviços. Emitentes, destinatários e conteúdo estão no mesmo barco e dependendo da mesma infraestrutura centralizada. Uma falha importante, que desative momentaneamente a plataforma, atingirá de forma incontornável todos os seus participantes e suas múltiplas expectativas de comunicação.

Muitas vezes a participação em redes sociais é também o lenitivo para as agruras do dia-a-dia e formas de prover entretenimento distração. Claro que sem chegar ao extremo da adicção, de nos tornarmos compulsivamente dependentes da interação nas redes em busca de uma gratificação emocional (em Admirável Mundo Novo, Huxley descreve o uso do “soma”, droga que traz a felicidade, a diversão e a despreocupação: “’soma’ é tão bom como o álcool e a religião, e sem os seus problemas”). Mas as plataformas operam também como importantes canais de informação e, frequentemente, como ambientes em que se exerce atividade profissional. O Whatsapp por exemplo, que começou como um sucedâneo da telefonia comercial, em pouco tempo passou a ser uma forma importante de comunicação instantânea entre usuários e comunidadas. Em comparação com o correio eletrônico, que é um processo assíncrono onde o diálogo segue um ritmo mais ameno definido pelas disponibilidades dos interlocutores, os mensageiros digitais substitutos da telefonia tendem a assumir seu mesmo comportamento síncrono, onde a mensagem “pede” para ser lida e respondida em tempo curto. Uma falha neste tipo de mensageria pode causar, portanto, lapsos sérios em comunicações comerciais e profissionais, indo bem além da simples perda de informação e entretenimento.

O ditado português que o título sugere reza que “quem tem um, não tem nenhum”. Ou seja, se dependemos de um serviço específico, sem alternativas, mais hora menos hora teremos que nos haver com o problema de sua indisponibilidade. E essa indisponibilidade será mais crítica se o serviço em questão for usado em atividades profissionais diárias. Logo, é de bom alvitre ter cartas na manga para o caso de falhas em serviços importantes.

Finalmente, o ditado parece que também serviria à perfeição para o que aconteceu tecnicamente neste o caso. Pelo que se soube - e que parece bastante crível - houve uma concentração de servidores críticos como o DNS, que gera endereços de acesso às plataformas, em uma única estrutura de rede, num único “sistema autônomo”. Quando, por algum motivo durante uma reestruturação da rede local, o caminho para esse sistema autônomo deixou de ser encontrável na Internet, o mundo passou a não localizar mais esses servidores. E, para complicar, as tres plataformas estavam presentes conjuntamente nessa única rede… Sem redundância, “quem tem um, não tem nenhum”...

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O provérbio português:
https://quemdisse.com.br/frase/quem-tem-um-nao-tem-nenhum/65957/



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Informações sobre a provável causa técnica do problema:

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Referências ao "soma" em Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

"And there's always soma to calm your anger, to reconcile you to your enemies, to make you patient and long-suffering. In the past, you could only accomplish these things by making a great effort and after years of hard moral training. Now, you swallow two or three half-gramme tablets, and there you are. Anybody can be virtuous now. You can carry at least half your morality about in a bottle. Christianity without tears-that's what soma is."

“..there is always soma, delicious soma, half a gramme for a half-holiday, a gramme for a week-end, two grammes for a trip to the gorgeous East, three for a dark eternity on the moon…”

“Hug me till you drug me, honey; Kiss me till I'm in a coma: Hug me, honey, snuggly bunny; Love's as good as soma.”





terça-feira, 28 de setembro de 2021

Os riscos de regular antecipadamente

Qualquer especulação sobre que futuro nos aguarda, e quais as áreas esratégicas específicas em que investimentos tenderão a gerar efeitos econômicos e sociaispara os próximos anos, leva indefectivelmente à discussão da digitalização e dastecnologias de conhecimento. A mistura dos reais avanços no poder computacional e algorítmico que observamos (com suas correspondentes ameaças), e da atraçãoque chavões publicitários exercem sobre todos, explica a proliferação de iniciativase textos sobre temas como o da Inteligência Artificial. Diversos países empenham-se em desenvolver e implementar estratégias para tornarem-se atores importantesnessa área. A Inglaterra, por exemplo, acaba de lançar um plano decenal parafixar-se como superpotência em IA. E no Brasil também estamos começando umadiscussão ampla da formulação de uma EBIA – Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial.

Os impactos que a implantação maciça de IA traz serão sempre percebidos em todos os aspectos da vida humana, não apenas os tecnológicos e econômicos, mas os sociais e culturais. A limitada capacidade humana de absorção do que se passa pelo mundo está cada vez mais exigida, e isso é acentuado ao sermos expostos, via internet à quantidade imensa de informação e ruído que, certamente, não conseguiremos digerir, nem avaliar. Milan Kundera, em “Um Encontro”, coletânea de ensaios, ressalta que a aceleração da história transformou profundamente a existência individual. Se nos séculos passados “a existẽncia se desenrolava, do nascimento até a morte, em uma única época histórica”, maislentamente que a vida humana, hoje ocorre o inverso. A história escapa ao homemde tal forma que “a identidade e a continuidade da vida correm o risco de se romper”. É mais um argumento para que se acompanhem as formas e os processos com que essa tecnologia - que nem é tão nova - vai interagir conosco, especialmente com o imenso poder que trazem os progressos da área computacional e de algoritmos.

Parece esperado que em outras frentes se busquem atenuar riscos que venha a reboque, e isso é tanto verdade que já há projetos de lei para tratar do tema e, eventualmente, regular o seu uso. Usando o que se aprendeu com a internet nestes anos todos, parece prudente ir com mais vagar e mais cautela: foram quase 10 anos de debates amplos e abertos até a homologação do Marco Civil da Internet em 2014, e seis anos depois veio a lume a LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados. Com essa legislação, sempre muito bem avaliada internacionalmente, o Brasil seguiu sem atrasos e com firmeza na expansão e disseminação da rede. As inequívocas vantagens que o acesso à rede trouxe a todos não impediram que se apontassem riscos e abusos, parte dos quais encontram remédio na LGPD. Outras ameaças de segurança somente serão atenuadas com campanhas e esforços perenes na criação de mão de obra técnica, na disseminação das boas práticas, e numa cooperação multissetorial ampla.

Num ambiente em que já temos alguma proteção, seja por leis criadas para omundo digital, seja pelos princípios constitucionais garantidos, parece prematuro discutir-se já uma eventual regulação da IA. A regra que se mostra sensata é aguardar a melhor definição e desenvolvimento do tema, estimulando-se que o país não “perca o pé” nessa tecnologia, e simultaneamente iniciar debates multissetoriais, a exemplo do que acontece pelo mundo, cuidando da proteção aos potenciais perigos. Tentar antecipar riscos ainda não claramente definidos poderá resultar em perigoso atraso do país nessa arena hoje tão crítica.

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O documento da Inglaterra: U.K Government Publishes 10-Year Plan to Become 'A.I. Superpower'
 https://www.gov.uk/government/publications/national-ai-strategy

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O projeto de lei "PL21 / 2020 e seus apensados":
https://www.camara.leg.br/propostas-legislativas/2236340

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EBIA - Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial
https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/transformacaodigital/inteligencia-artificial