domingo, 4 de outubro de 2015

As costas largas da Internet

É moda culpar a Internet por muito do que acontece hoje. Informações são garimpadas em cabos ópticos submarinos? É a Internet! Alguém foi ofendido em redes sociais? É a Internet! Celulares foram monitorados e conversas gravadas? É a Internet! Fotos intimas vazaram e causaram constrangimento? É a Internet! Há pouco, uma senhora, exasperada pelo vazamento de umas fotos de seu próprio celular, declarou em jornal que gostaria de “acabar com a Internet”.

Ao mesmo tempo em que cada vez mais imergimos na rede, é cômodo citá-la como álibi, desculpa para comportamentos humanos, que causaram dano a pessoas e instituições. Não é por outro motivo que surgem projetos de lei pretendendo “corrigir o problema” da Internet, como se a corda fosse a culpada pelos enforcamentos, ou se os atropelamentos devessem ser debitados aos pneus dos automóveis.

Busca-se legislar sobre crimes “eletrônicos”, mesmo que semanticamente isso faça pouco sentido. Se envenenamentos não são crimes “químicos” e afogamentos não são homicídios “hidráulicos”, por quê crimes “eletrônicos”? Indo além, e sob a argumentação de que o alcance da rede é maior que o de outros meios, propõe-se penas mais duras a quem cometer ofensa usando a rede. Há, por exemplo, uma proposta de lei que visa a aumentar a pena de crimes contra a honra se praticados pelas “redes sociais”. Além de ser difícil definir “rede social”, parece haver uma pressuposição de dolo do praticante. Usuários de “rede social” muitas vezes comportam-se como se estivessem numa “mesa de bar” ou “salão de clube” com amigos, usando linguagem direta, sem rebuscamentos e não raro jargão próprio. Não pretendem proselitismo ou difusão de ideias, apenas discussão dentro de seu grupo, mas a conversa pode vasar... Claro que também há os fazem da rede um “amplificador” e discursam para a atrair e converter grandes platéias. São intenções distintas e, cá entre nós, também pode estar havendo alguma hipersensibilidade já que todos, afinal, temos direito a opiniões, gostos, religiões e avaliações estéticas próprias, sem que isso seja automaticamente entendido como ofensa aos que pensam de forma diferente. Parece que estamos uma época de melindres exagerados, de egos inflados e de delicadezas artificiais. Não se trata, naturalmente, de minimizar o sofrimento de vítimas inequívocas de difamações, de crimes contra a honra e de ameaças, mas, como diziam os simples e sábios, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”... E não esqueçamos que, mesmo neste caso, a rede continua tão inocente como o banquinho do orador de praça ou o microfone que ele usou.

A Internet, sim, é um ambiente em que pode haver (e há) formas de exortação à violência, linchamentos virtuais e, até, mera barbárie, mas os agentes disso somos nós, humanos, não a rede em si. Vint Cerf, em 2010 num fórum em Vilna, Lituânia, disse: “A Internet é como um espelho da sociedade. Se você não gosta do que nele vê, quebrá-lo não é a solução”. É mais sábio educar o objeto que lá está refletido...

domingo, 20 de setembro de 2015

Resiliência

“Quem controla o passado, controla o futuro. E quem controla o presente, controla o passado” (George Orwell, 1984). A Internet será uma ferramenta de controle ou um caminho de liberdade? É uma pergunta difícil, cuja resposta dependerá de opiniões e vieses. A própria percepção que temos da rede tem sido mutante no decorrer to tempo. A evolução visível da rede pode identificar paradigmas e dar pistas para a resposta. Sua expansão significou certamente uma ruptura importante, com as que ocorrem de tempos em tempo. A Internet tem cerca de 40 anos e a ruptura que provoca vai bem além da tecnológica. Uma invenção disruptiva segue, por sua vez, uma evolução gradual que busca aprimorar sua aplicação sem abandonar a essência. O automóvel à explosão, por exemplo, não é essencialmente distinto do que havia há 100 anos: trata-se da mesma ideia, para a mesma finalidade, com o mesmo suporte tecnológico básico, em constante evolução mas sem nova ruptura (mas, com certeza, mudanças radicais podem ocorrer a qualquer momento…)

É também comum que evolução sem ruptura ocorra em “espiral”: alguma característica secundária pode ser abandonada por algum tempo e voltar mais tarde, com força e em outra roupagem tecnológica, com outro nome. Isso acontece porque a tecnologia facilita o que antes era difícil, mesmo que já buscado. Na computação dos anos 70, por exemplo, o foco era o “mainframe”: aquela máquina central a que todos se dirigiam para obter capacidade de processamento. O “centro” foi sendo minado pelo processamento local, em nossa mesa, em computadores pessoais e estações de trabalho. Mas o conceito do “poder central” não morreu e, de alguma forma, é retomado agora, redivivo, com a “nuvem”, nossa nova “Meca” para a obtenção de serviços. Computação na “nuvem” é a volta ao “modelo centralizado”, mesmo que pareça imaterial?

A tendência de “volta às origens”, esse “eterno retorno”, tem um nome apropriado: resiliência, do latim “resilire”, volta ao estado anterior. Refere-se à autodefesa, uma resistência a mudanças que buscam desfigurar o que nos é caro. E há sim resiliência na Internet: começou distribuída e colaborativa, sem controle central, aberta à livre experimentação e… ela quer continuar a ser assim.

Com as sucessivas ondas de novos atores, vieram formas de comercialização, monetarização e comportamento que não existiam. Afinal, dados pessoais tem valor! Preferências, navegação e hábitos podem ser explorados comercialmente. E a rede pode também servir para que informações de “segurança” sejam coletadas, mesmo que à revelia. Não era o que se tinha em mente nos anos 80. Mas os conceitos resistem e, quando a tensão chegasse a certo ponto, haveria reação de defesa.

Pode-se identificar a resiliência da Internet com o crescimento da criptografia simples (PGP, 2007), nas propostas de moedas independentes (Bitcoin, 2009) e na criação de novas formas de navegar (TOR – The Onion Router, 20 de setembro de 2002 – há exatos treze anos). Sem discussão do mérito, de falhas inatas, ou daquelas que o uso inadequado das ferramentas permite, pode-se dizer que é uma resposta de defesa, esperada, contra o rastreamento da navegação, monitoramento de interações e ataques à privacidade.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Trocas de tráfego

Há dez dias o conjunto de PTTs operados pelo NIC.br atingiu um pico de 1 Terabit/s. Tera, da raíz grega de “monstruoso”, é um número bem grande: mil vezes Giga (“gigante”, bilhões) ou um milhão de vezes Mega (“grande”, milhões). É o último múltiplo cujo nome ainda mantem coerência semântica: após o Tera, na falta de mais superlativos, seguem-se coisas estranhas como Peta e Exa, deformações de nomes de números como Penta (5) e Hexa (6) talvez inspiradas por Tera ser parecido com Tetra (4).

O fato é que 1 Terabit por segundo é um tráfego mundialmente reconhecido como volumoso e que continua a crescer em bom ritmo. PTT é uma abreviatura que, por ter internacionalmente diversos usos, leva a confusões como asssociá-la a “Public Telephony and Telegraphy” ou “Push-To-Talk”. O NIC.br preferiu adicionar outro acrônimo, internacionalmente mais específico: “IX” “Internet eXchange”. Mas o que vem a ser um PTT e para que serve?

Quando trechos de rede acadêmica começaram a se estabelecer, a maneira de construí-los era alugar, às operadoras, canais de telecomunicação com capacidade suficiente e, ligando-os a equipamentos de roteamento, configurar uma espinha-dorsal (“backbone”) da rede. Nela, as sub-redes e os computadores participantes se conectariam. Note-se que protocolo usado para transporte de conteúdo nesses canais era o definido pela rede em questão: se fosse um pedaço da Internet, por exemplo, o conteúdo seria transportado por TCP/IP. As operadoras alugavam “canais limpos” com a capacidade de banda solicitada e ficava por conta da rede como eles seriam “preenchidos”. Quando o TCP/IP consolidou-se como protocolo padrão, as operadoras passaram a vender conexão já com TCP/IP incluído, ou seja, a oferecer acesso ao próprio “backbone”.

Pela interconexão com as demais operadoras, haveria acesso à Internet como um todo. O cliente agora não precisava mais “ver” a topologia da Internet: bastava contratar a banda necessária e deixar o resto por conta da operadora.

Em grandes cidades, entretanto, parte da banda contratada serve para “cruzar a rua” para ir até a empresas localizada “ao lado”. Ou seja, a mesma banda que podia levar até um serviço na Mongólia também seria usada para ligar a um vizinho. E como o vizinho podia estar se valendo de outro operador, esse “atravessar a rua” poderia significar uma ida a Miami, trocar de operadora por lá, e fazer o caminho de volta. A criação de pontos metropolitanos de interconexão racionaliza isso: as conexões locais podem ser resolvidas localmente, com os interessados trocando tráfego diretamente no PTT metropolitano. E tudo que não estiver ligado diretamente ao PTT continua acessível através da conexão genérica à Internet, ou seja, o PTT em si nem é crítico, nem introduz riscos de conectividade.

O PTT comporta-se, portanto, como uma “praça” em que se resolve a troca de pacotes locais da Internet, a custo muito baixo e com alta eficiência. Ele elimina o “turismo” desnecessário de pacotes pelo mundo, melhora o tempo de trânsito e permite contacto ágil e simples entre provedores e consumidores. Por não se localizar dentro de um ponto de presença local de uma operadora de telecomunicações, é neutro em relação à estrutura.

Numa linguagem mais técnica, o PTT interliga sub-redes (Sistemas Autônomos) que queiram trocar tráfego local de Internet e, com isso, aumenta a eficiência, a resiliência e a estabilidade da rede. O PTT atrai os provedores de comércio eletrônico, de conteúdos e de entretenimento nas mais variadas formas, desde texto até “streaming” de música ou vídeo. Com isso, o provedor pode estar muito mais perto do consumidor, melhorando a qualidade percebida do serviço. Não é à toa que o pico de uso do PTT hoje ocorra às 22 horas, quando a maioria de nós está em casa, usando serviços de entretenimento via Internet.

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https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,trocas-de-trafego,1757704
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Em favor do "não-esquecimento"

Quando no final dos anos 90 as redes de computadores se espalharam para além da comunidade acadêmica pensava-se amiúde que a união da informática (e seu jargão) com a globalização forçaria um idioma único para a comunicação: o inglês. Afinal, como conversaríamos na rede? Pela mesma forma de pensar, comunidades específicas e menos conectadas correriam o risco de ser culturalmente extintas sob o manto uniformizador da Internet.

À época e pelas 10 da noite, com a conexão Internet menos carregada, eu “sintonizava” algumas rádios gregas para desenferrujar meu conhecimento da língua. Noite dessas começou uma entrevista que inicialmente pareceu-me em italiano pela forma cantante de falar. As palavras, entretanto, não correspondiam. Acurei o ouvido e… era grego. Um grego falado com fraseado e entonação italianos, mas grego. A rádio estava cobrindo em Palermo, sul da Itália, uma pequena comunidade que falava “grecânico”, dialeto que sobrara da Magna Grécia, sobrevivendo milênios por transmissão oral. Aproveitei para comprar um CD do Canzionere Grecanico e pensei com meus botões que a Internet, em vez de aplainar culturalmente o mundo, talvez pudesse ser uma ferramenta de preservação de tradições que, mesmo frágeis lograram sobreviver em nichos por tanto tempo.

Na matéria sobre “medicina e cultura ianomâmi” de Herton Escobar publicada este mês no Estado há outro exemplo de conhecimento a ser salvo. Quantos ainda guardam os segredos de ervas mediciais e seu uso, e por quanto tempo essa informação sobreviverá? Enquanto alguns buscam o direito a apagar informações com prazo de “validade social” vencidas, outros se esforçam para preservar costumes, dialetos e informações, guardando-os na rede de modo que ganhem força, adeptos e disseminadores.

Sou das exatas e reconheço que, muitas vezes, a ciência pode assumir postura arrogante frente ao que parecem “lendas e costumes populares sem base científica comprovável”, mas pode haver mais mistérios entre o céu e a terra do que imagina nossa vã ciência. Cito exemplo: provei dia desses um doce parecido com chocolate, feito com alfarroba e bom para diabéticos. Alfarrobeira é uma árvore, dhttps://link.estadao.com.br/noticias/geral,em-favor-do-nao-esquecimento,10000051551e que tenho uma muda dada por um amigo português, que produz vagens cujas sementes moídas geram o tal “chocolate”. Eu sabia que essas sementes, por sua uniformidade, eram usadas no passado com padrão de peso. Mas descobri que a alfarrobeira é também conhecida como “pão de São João”. Estranhei o fato e pesquisei na rede. Alfarroba, passando pelo árabe, é de origem hebraica e, outra coincidência estranha, a grafia de “alfarroba” é muito parecida com a de outra palavra hebraica, “gafanhoto”. Na tradição cristã São João no deserto alimentou-se de “mel e gafanhotos”. Na literatura “oficial e científica” há “gafanhoto” porém, na tradição popular, alfarroba é o “pão de São João”! Teriam os tradutores lido erradamente e traduzido para “gafanhoto”? Seria de “mel e alfarroba” o alimento de São João? Quiçá a tradição popular tenha preservado melhor o que se passou, do que a erudição escrita. Há muito valor no que conhecimento acumulou antes da era digital. Que o preservemos.

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https://link.estadao.com.br/noticias/geral,em-favor-do-nao-esquecimento,10000051551
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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Quase tudo sobre muitos

Alguns se surpreenderam ao descobrir que um sítio na Internet vendia dados pessoais de brasileiros.

A partir do nome podia-se encontrar não apenas CPF e endereço, mas também data de nascimento, parentes, vizinhos, empresas, endereços alternativos e redes sociais de que participa. E o tal sítio alega que tudo o que mostra foi obtido na Internet aberta.

Claro que nossa privacidade está em constante risco na rede e que devemos ser cautelosos e cuidadosos no que informamos e para quem. Por outro, há alguns anos nossa informação de endereço esteve disponível via “listas brancas”, as conhecidas listas telefônicas. Listas telefônicas digitalizadas e reprocessadas podem indicar nossos vizinhos de endereço. Saber se estamos ou não em redes sociais também é quase imediato, especialmente com o enorme poder da computação de hoje associado a técnicas de garimpagem e associação de dados como o big data.

A conclusão a encarar é que muitas informações nossas já estão vastamente disponíveis na rede, mesmo as dos que não estão conectados. Isso não justifica, entretanto, que seja aceitável agrupá-las e vendê-las. Quem estaria interessado em comprar nossos dados? E com que finalidade? É bem fácil montar um cenário assustador: e se, também, nossos horários de saída e chegada, o trajeto que fazemos todos os dias, o colégio em que nossos filhos estudam e outras “miudezas” estiverem à disposição de todos?

Mais alguns detalhes interessantes sobre o tal sítio: ele não é obra de amadores. Tem o nome de domínio registrado sob o código da Suécia (.se), tem sede nas Seicheles e alega usar servidores franceses. Aceita apenas pagamentos em moedas virtuais (bitcoin) e usa CloudFlare (um CDN - Content Distribution Network) para proteger-se de ataques de negação de serviço e melhorar sua eficiência na entrega dos dados. Ah, também a identidade do registrante do domínio está oculta por um “procurador” de registro (“proxy”).

Quando se constatou o caso, uma liminar judicial solicitou que um “bloqueio técnico” fosse implementado. Lembra-nos algumas histórias passadas. Se o bloqueio filtra um determinado endereço IP, é bem provável que outros usuários inocentes do mesmo endereço possam acabar indevidamente bloqueados. Aconteceu no caso Ciccarelli, quando o IP bloqueado era o do youtube.com. Neste caso, por ser um IP ligado a um provedor de CDN, potencialmente centenas de sítios podem estar afetados. Se o bloqueio é do nome de domínio, via DNS, a missão de fazer com que todos os DNS acessíveis não traduzam aquele nome é hercúlea; na prática, impossível. Em ambos os casos há formas de contornar o bloqueio: em resumo, é difícil torná-lo uma medida efetiva.

E, mais complexo ainda, a que se visa com o bloqueio? Se a ideia é impedir o acesso a partir do Brasil, que alívio estamos dando aos donos dos dados? Estaremos dizendo que, graças às medidas tomadas, nós brasileiros agora não podemos mais aceder ao sítio problemático. O resto do mundo continua podendo! Perder “acesso ao problema”, não o resolve. É o que crianças fazem quando fecham os olhos para ignorar um monstro real ou imaginário.

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https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,quase-tudo-sobre-muitos,1740944
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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Homo Connectus

Pego carona em “atenção, a barbárie vem aí, disfarçada de conquista científica”, do texto do Luis Fernando Veríssimo (“Epa”, publicado no Estado no dia 16 de julho). Em mais de 35 anos de existência, a Internet “sobreviveu” a ondas de novos entrantes, indivíduos, instituições, mercados e fez com que estes se adaptassem às regras de convívio e à valorização dos conceitos de rede aberta e livre.

Lembro de discussões via correio eletrônico, e dos repetidos apelos ao uso da “netiquette” (a “etiqueta” da Internet) pelos bem-intencionados. A difícil identificação de emoções/ironias no texto curto do e-mail gerava inúmeros mal-entendidos, depois amenizados com a inclusão dos emoticons.

Hoje temos uma ferramenta que permite a liberdade de expressão mas, ao mesmo tempo, pode ser usada para açular “pulsões primitivas”, como vemos em linchamentos virtuais… e reais. É o risco que o Veríssimo aponta.

Há outros riscos tecnológicos, talvez menos óbvios. A tentação do conforto e da sensação de poder que “a tecnologia a nosso serviço” desperta pode fazer-nos relevar o preço que cobra. Mesmo sem Internet, parece muito confortável passar por um pedágio e pagar automaticamente com um chip RFID instalado no carro.

Porém, esse dispositivo responderá também, e à nossa revelia, sempre que provocado externamente por outros leitores que não os dos pedágios. De qualquer forma, com o uso do celular já estamos informando nossa localização o tempo todo, ao menos para o operador e, provavelmente, para outros interessados.

Queremos decidir sobre o que mostrar. A conexão, porém, funciona nos dois sentidos e, mesmo que não seja nossa intenção alimentar o mundo com dados pessoais, eles são alvo de cobiça. Privacidade é matéria frágil.

Dispositivos RFID subcutâneos facilitam a identificação segura e podem carregar outros dados. Num acidente, a consulta ao RFID pode mostrar tipo sanguíneo da vítima, se é doadora, onde achar sua ficha médica. Parece positivo. O RFID responderá a quem pedir seu conteúdo, sem que sejamos informados disso. Um risco que pode ser desproporcional à vantagem.

Em um artigo de 2007, o Pew Research tratou do “homo connectus”, o “ser humano conectado”, candidato a suceder outros, como o “sapiens”, o “faber”, e o “ludens”. O homem conectado participa da grande rede, mas se não tem controle de suas conexões é apenas um elo inconsciente dela.

Lembra-me os experimentos em que eletrodos ajudam a mapear a atividade cerebral de cobaias. Estaremos conectados à rede, sem dúvida, mas preservemos nosso discernimento e controle sobre o que colocar à disposição dos outros. Uma ferramenta de liberdade como a rede não pode servir para transformar elos em grilhões.

Ulisses, em sua jornada de volta ao lar, passou ao largo da ilha das sereias cujo canto era tentação irresistível. Por isso colocou cera nos ouvidos de toda a tripulação e, não querendo privar-se de ouvir, fez-se amarrar ao mastro para não perder-se. É belíssimo o canto da tecnologia e, claro, não queremos nem que nos coloquem cera nos ouvidos, nem que nos amarrem a um poste. Conseguiremos ouvi-lo sem rendermo-nos a ele?

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https://link.estadao.com.br/noticias/geral,homo-connectus,10000051553

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Viva a diferença!

Trabalho na área de Tecnologia da Informação (TI) há 44 anos e convivo com excelentes profissionais, mulheres e homens. Nos anos 70, a computação era uma área muito procurada e já havia grande contribuição feminina. Se essa participação aumentar, ainda melhor. Mas quando vejo campanhas como “mais mulheres em TI” ou “mais homens em enfermagem”, algo me incomoda. Lutar por homogenia não é o mesmo que lutar por direitos iguais.

Essa impressão foi reforçada ao ver na Internet um vídeo norueguês. É dado indisputável que a Noruega é um dos países mais avançados no que tange a oportunidade iguais. Mesmo assim o vídeo traz o que parece um paradoxo: após décadas de avanços, o cenário é muito diverso: 90% dos engenheiros civis são homens, 95% dos enfermeiros são mulheres e, estranhamente, essa polarização teria crescido nos últimos anos. Um contrassenso? Algo vai mal e precisa ser corrigido?

Há especialistas que defendem o fator cultural como único determinante pelo desequilíbrio nas opções de carreira entre os sexos. E há outros, que explicam isso majoritariamente pela diferença de vocação inata que os sexos apresentariam.

Sim, haveria tendências diferentes para uma ou outra ocupação. Claro que isso não é uma tábua rasa: há brilhantes engenheiras (e em minha família!) e enfermeiros dedicadíssimos, mas buscar uma distribuição igual nas ocupações entre sexos é, a meu ver, errado e perigoso.

O vídeo termina com uma conclusão interessante: num país igualitário como a Noruega, as vocações florescem livremente e cada indivíduo opta pelo que quer, pelo que lhe agrada.

Já num país menos igualitário, a discriminação pode desembocar numa pressão sobre os indivíduos, fazendo-os crer que “colaborariam mais com a causa” se escolhessem profissões associadas ao outro sexo.

Sobrevivemos e evoluímos darwinianamente para nos tornarmos o que somos. Fatores culturais são importantes e é vital sua revisão cuidadosa, mas isso não passa por ignorar a biologia.

Não creio sermos uma espécie estranha em que as opções independam de cromossomos e dos hormônios que agem sobre nós. Não vai aí nenhum juízo de valor, mas afirmação da diferença. A igualdade pressupõe tratamento equânime e que independe de nossas opções, não uma distribuição homogênea e igualitária delas.

Mulheres são mais da metade dos universitários. Seu nível médio de educação ultrapassou a dos homens há tempos. A luta deve ser pela abolição de quaisquer barreiras ou discriminação, mas a negação da biologia não faz parte desse cardápio.

Onde termina a biologia começa a cultura, que inclui história, ideologia, crença e dogma. Pode-se transformar radicalmente a cultura em poucas décadas. Não é caso da herança genética. Preocupa-me a crescente caudal dos que propõem ignorar a natureza e considerar apenas aspectos culturais.

Chesterton afirma ser fácil seguir a corrente: até um cachorro morto a segue. Ir contra ela, entretanto, requer vida. Só um ser vivo e com possibilidade de escolha consegue ir contra a corrente. A espécie humana está, felizmente, ainda viva.