terça-feira, 11 de agosto de 2026

O gênio da lâmpada.

De volta ao caso do agente de IA que invadiu o Hugging Face, tropecei num texto que busca analisar os reais riscos de uma IA com iniciativa própria. Após descrever aspectos do caso, há uma analogia entre o evento citado e o alerta que um canário traria aos operadores numa mina de carvão. Como sabíamos dos livros de aventura da adolescência, a morte de um canário trazido à mina junto com os trabalhadores, poderia indicar com antecedência um excesso de monóxido de carbono, ou presença de grisú, gás que pode levar à explosão por metano. Ou seja, o canário funcionaria como alerta contra sufocamento e outros riscos aos mineiros, levando-os a tomar alguma medida: evacuar a mina, tentar melhorar a ventilação, ou mesmo seguir em frente, por conta e risco próprios.

Nessa análise, o tal evento IA seria um aviso de "problemas à frente". Um contraponto é outro texto recente, esse de um conhecido especialista em segurança, o Bruce Schneier, que faz outra analogia: teriamos aberto a "garrafa do gênio", e ele agora voga livre. Ao contrário da imagem anterior, essa é mais que um simples alerta. Seria a constatação fatalista de que algo irrefreável e poderoso está à solta. Ele, como o gênio da lâmpada, atenderá literalmente ao que pedirmos. mas saberemos o quê, e como pedir? Numa antiga conversa sobre o que o futuro nos reserva, Nizan Guanaes pontuou que "o futuro está nas perguntas que faremos"...

Um pensador muito interessante, George Bernanos, advertiu sobre um risco corruptor quando, ao buscarmos intensamente um objetivo, não levarmos em conta que meios podem ser utilizados. Bernanos reforça que "o fim não justifica os meios". Esses agentes de IA entendem, talvez toscamente, o que pedimos e buscarão atingir o fim. Mas há contexto, talvez óbvio à subjetividade humana, que foi omitido na pedido e pode passar despercebido pela IA, gerando resultado inesperado e desastroso. No famoso "2001, uma Odisséia no Espaço", onde o HAL 9000 dedica-se diligentemente a atingir seu objetivo, vidas e valores éticos humanos tornam-se menos importantes. HAL vai além do "gênio da lâmpada", porque se dá o direito valorar mecanicamente opções para atingir sua finalidade

É grande o poder que ferramentas de IA já tem. Elas representam não apenas o mapeamento de todo o conhecimento humano acumulação, como usam linguagem sofisticada e formas lógicas de encadear conceitos. Perguntando à IA conseguimos respostas ricas em dados e informação, e ganhamos um auxiliar valioso. Por outro lado, pedindo coisas a seus agentes, podemos gerar riscos. E isso não se deve atribuir à uma eventual (e improvável) malícia: a IA vai interpretar literalmente o que pedimos, sem levar em conta aspectos humanos e subjetivos que, intimamente, temos como "óbvios". Ao formular perguntas devemos levar em conta que a IA não tem o contexto humano. O rei Midas pediu, singelamente, que tudo que tocasse se tornasse ouro. Descobriu que um desejo expresso sem sabedoria pode ser uma sentença de autodestruição. O caminho para desarmar o gênio da lâmpada não está em domá-lo, mas em aprender a pedir com precisão ética e contexto, para que a resposta se torne um benefício e não um presente maldito.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/genio-da-lampada-ia-interpreta-literalmente-o-que-pedimos-sem-levar-em-conta-o-que-achamos-obvio/


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Os dois textos, sobre o canário e sobre o gênio:
o rei Midas:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Midas




terça-feira, 28 de julho de 2026

IA e o abraço de tamanduá

São poucos os detalhes técnicos conhecidos sobre o evento da semana passada, em que um agente IA invadiu o Hugging Face, susto que ninguém pediu. O agente da OpenAI é sofisticado modelo para navegar pela rede, executar tarefas complexas e, eventualmente, tomar decisões e sem supervisão humana. Ele, simplesmente,"escapou" e foi agir... A coisa fica ainda mais bizarra ao ver que, das infinitas opções de alvos, ele escolheu o Hugging Face, onde se encontra uma infinidade de modelos abertos, gratuitos, comunitários, feitos por indivíduos e empresas, que compartilham códigos no GitHub como quem troca receitas de bolo. Modelos que qualquer pessoa pode baixar, rodar localmente, ajustar para seu interesse ou até usar para serviços.

O Hugging Face seria apenas uma opção entre milhões, mas o tal agente decidiu que aquele seria um bom lugar para testar suas habilidades. Por quê? Que mecanismo gerou esta escolha, certamente não aleatória? Previnir a concorrência? Aprender com ela? Proteger seu ecosistema? Claro que a explicação anódina seria que "houve descuido humano" ao cuidar do "berçário" de agentes. Afinal erros acontecem. E restaria analisar até que ponto a lógica interna do agente e seu treino o fizeram concluir que, no cenário competitivo, o Hugging Face seria um problema ao avanço dos modelos fechados, levando-o a agir assim. Ironicamente, talvez a "inveja humana" já tenha sido inoculada na forma de funcionar dos sofisticados agentes, que visam a nos simular completamente...

O agente acessou o local, analisou sua estrutura de dados, identificou pontos mais críticos e, usando a conhecida técnica de "negação de serviço", teria gerado uma pesada série de requisições que sobrecarregou servidores. Modelos abertos ficaram inacessíveis por horas.

Quando um agente de um poderoso sistema fechado "abraça" o Hugging Face, ele acerta o coração do movimento aberto em IA, construído por voluntários, pesquisadores independentes e iniciativas empresariais que acreditam que a inteligência artificial pode ser acessível a todos.

Curiosamente, entre duas explicações: a "insidiosa", que apontaria intenção dos desenvolvedores em gerar um agente com objetivo de auto-proteção, e a "autônoma", em que o agente escolheu o alvo por si, a versão autônoma parece bem mais preocupante para nosso futuro, que a insidiosa. Afinal se o próprio agente pode concluir que os modelos abertos são uma ameaça existencial a ele, que outras ações podemos temer?

A discussão sobre inteligência artificial pode estar entrando numa nova fase. Ao invés de apenas examinarmos se respondem corretamente, passamos a questionar o que fazem quando não estamos observando. Um paralelo que vem à mente: está em cartaz uma bela montagem de Tristão e Isolda. Na complexa obra de Wagner, a oposição mais pungente é a do "dia" versus a "noite". O "dia", com ações clara e previsíveis, de convívio e etiqueta, e a "noite", dos desejos irresistiveis e irracionais. Há quem veja a chegada da "noite" das máquinas, quando elas passariam a agir por "impulsos inescrutáveis"... A escuridão talvez esteja está na distância crescente entre o que a máquina pode querer, e aquilo que ainda conseguimos controlar.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/ia-e-o-abraco-de-tamandua/

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o caso do ataque ao Hugging Face:

https://www.estadao.com.br/economia/openai-modelos-ia-sairam-controle-atacaram-biblioteca-digital/

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvgw17k0n2go

https://www.cnbc.com/2026/07/23/open-ai-hugging-face-hack-kill-switch-bill-congress.html




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Tristão e Isolda:

https://poesiaspreferidas.wordpress.com/2014/08/30/tristao-e-isolda-richard-wagner/

https://www.concerto.com.br/textos/critica/tristao-e-isolda-esbarra-entre-o-didatico-e-o-simbolico-no-theatro-municipal-de-sao

https://viennaoperareview.com/wagners-tristan-and-isolde/



terça-feira, 14 de julho de 2026

"Data Centers"- ter ou não ter?



Um tema que a IA traz com muita ênfase é a necessidade de grandes centros de processamento de dados (ou "data centers", denominação pseudo-sofisticada em voga...). É importante uma discussão o mais racional e equilibrada possível, mesmo sabendo que o tema anda contaminado por posicionamentos emocionais, purismos tecnológicos, ideologia e mercado. Há que examinar o que é real e o que é propaganda, na medida do possível.

Em tecnologia o movimento em gangorra é constante ... Se na Internet original o poder de computação era distribuido pelo mundo de forma imperceptível, tende-se agora a uma concentração, e traz riscos: quando um serviço popular saí do ar, muitos são afetados; se um centro de processamento de IA deixar de ser acessível (por ruptura em cabos submarinos, ou mesmo problema técnico local), o efeito será impactante. Eis um argumento a favor de centros localizados no país, e há mais pontos a comentar.

Vejamos a discussão sobre gasto energético. A evolução dos processadores eletrônicos demanda mais e mais potência para cumprir suas tarefas a contento. Vale especialmente para IA, grande consumidora de energia. Há que se dar algum desconto nos números que se divulgam da potência prevista para os centros, porque o apelo do mercado em coisas gigantes é muito forte. Não se espera que um centro gaste metade do que Itaipu gera mas, certamente, seu consumo será grande. A pergunta central é se interessa ao Brasil empenhar uma quantidade grande de energia nisso, mesmo com retorno econômico. Temos uma posição ímpar na geração de energia, e nossa matriz sustentável, com a adição de fontes além da hídrica, é muito sólida. Vender energia pode ser uma boa aplicação para algo que geramos com eficiência. De forma menos óbvia, seria uma maneira de manter a relação geração/consumo sob controle. Houve durante essa Copa uma queda abrupta no consumo doméstico, que fez o sistema correr algum risco de desestabilização. Já os centros de dados são "âncoras de demanda conhecida e estável", sem picos e vales inesperados de consumo. Afinal é difícil armazenar o excedente para uso posterior. Outro "trunfo" brandido contra os centros seria o do "consumo de água"... Bem, claro que água é necessária para resfriamento dos circuitos, mas, em instalação racional, a água é reciclada, até para se evitar a inclusão de novas impurezas e sais... Do ponto de vista físico, a crítica é ainda mais enfática: água "consumida"? Ora, até em ciclos "abertos", entra "água" e sai... "água", mesmo que em forma de vapor...

FInalmente há que se examinar impactos em soberania. Os "data centers" são a infraestrutura da economia digital, mas não a própria economia digital, e o controle de infraestruturas críticas é importante. A Alemanha, por exemplo, pretende duplicar seus centros até 2030. Em SP mora, discretamente, o IX (Internet Exange) com maior tráfego mundial e pico de mais de 35 Tbit/s. Montado sem reursos públicos, traz segurança, eficiência e estabilidade à Internet brasileira, valores reafirmados durante essa Copa. Parafraseando Churchill, é meritório ter modéstia quanto a uma boa conquista, mas é bom evitar o acúmulo de temas em que sejamos modestos...

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/uma-discussao-que-a-ia-impoe-data-centers-ter-ou-nao-ter/


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Sobre "data-centers":
artigo na Abranet:
https://abranet.org.br/noticias/fgv-data-center-tem-custo-de-r-25-bilhoes-no-brasil/

na Alemanha:
https://www.dw.com/en/data-centers-ai-tech-infrastructure-digital-growth-cybersecurity-geopolitical-risk/a-77106191

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Sobre o risco de instabilidade do sistema elétrico, devido ao baixo consumo na Copa:
https://brainmarket.com.br/noticias/o-maior-experimento-de-engenharia-eletrica-da-copa-de-2026-nao-aconteceu-dentro-do-estadio/

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O Ponto de Troca de Tráfego de São Paulo:
https://ix.br/trafego/pix/sp
https://ix.br/trafego/agregado/sp

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Sobre a frase de Chrchill
https://quoteinvestigator.com/2017/08/23/modest/










terça-feira, 30 de junho de 2026

A Era dos Agentes

Artigo da TidBITS da semana passada retoma a discussão sobre "agentes" de IA, numa abordagem menos técnica, mas não menos importante. Uma idéia que começa a permear cada vez mais a publicidade da Inteligência Artificial é o "Deixe comigo".

Afinal, quem não gostaria de ter um auxiliar para organizar a agenda, responder e-mails recebidos, escolher voos e roteiros, resolver os problemas corriqueiros? A lógica é sedutora: afinal, máquinas são projetadas para nos poupar esforço, e aumentar nosso poder de ação. A tentação, agora, seria delegar a elas também as decisões comezinhas da vida.

Essa definição, entretanto, não é simples: nossas decisões não são balizadas apenas pelo bom senso e eficiência. Há fatores internos pessoais, de emoção e subjetividade, que poderiam fazer-nos escolher não ir a uma reunião pré-marcada, ou mudar um roteiro de viagem para evitar repetir alguma experiência anterior ruim... A IA que, por sua natureza estatística e preditiva, tenderá a buscar o caminho mais eficiente, pode ter dificuldade em capturar as nuances da alma humana.

No texto anterior, sobre Sevilha e a Internet, lembrei-me do Grande Inquisitor, no Irmãos Karamázov. Na parábola de Dostoiévski, o Inquisidor prende Cristo sob a alegação de que ele teria jogado o excessivo "peso da liberdade" sobre os humanos. Segundo ele, as pessoas prefeririam pão, milagres e uma orientação clara das autoridades, a uma liberdade que se traduz no peso esmagador da responsabilidade pelas próprias decisões.

Talvez os agentes de IA nos ofereçam o mesmo que o Inquisidor receitava. No lugar do pão, a eficiência, no lugar do milagre, a tecnologia onipresente e, no lugar da decisão própria, a sua delegação a um "outrem" digital. Os agentes não são necessariamente "inquisidores", no sentido de serem opressores mal-intencionados, mas atendem à mesma inclinação humana identificada por Dostoiévski: a disposição de trocar o árduo peso de decidir, pelo conforto suave de ser servido.

A pergunta que resta não tem resposta simples. Não é muito importante se a tutela que está surgindo funciona bem, e se virá a funcionar ainda melhor num futuro muito próximo. O que deve ser perguntado é que tipo de ser humano resultará dessa interação. Toda tecnologia bem-sucedida produz um fenômeno curioso: quanto melhor ela desempenha uma tarefa, menos necessidade teremos de preservar aquele talento. Poucos ainda fazemos contas de cabeça, ou memorizamos telefones ou mapas. Talvez a mesma automatização nos espere quanto às decisões.

A tentação do "deixe comigo" é poderosa porque alivia a ansiedade. Num mundo de excesso de informação e de opções, a paralisia da análise torna-se atraente. O agente de IA oferece uma recomendação clara, baseada em dados. Mas ao aliviar a ansiedade, ele também pode eximir-nos da reflexão e da profundidade da experiência.

De G. K. Chesterton vem uma provocação curiosa: "evolução" seria o oposto de "progresso". Enquanto a "evolução" busca alterar o homem para que ele se encaixe melhor no mundo que habita, "progresso" significaria alterar esse mesmo mundo para o melhor proveito do homem. Estaremos em momento de "evolução" ou de "progresso"?

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/a-era-dos-agentes-de-ia-que-tipo-de-ser-humano-resultara-dessa-interacao/

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artigo do TidBITS:
https://tidbits.com/2026/06/24/why-ai-agents-fill-me-with-dread/




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G. K. Chesterton, 
https://www.gutenberg.org/files/16769/16769-h/16769-h.htm
Orthodoxy, xhapter VII: "Progress should mean that we are always changing the world to suit the vision. Progress does mean (just now) that we are always changing the vision. It should mean that we are slow but sure in bringing justice and mercy among men: it does mean that we are very swift in doubting the desirability of justice and mercy: a wild page from any Prussian sophist makes men doubt it."

e em The Outline of Sanity (1926) 
"We need not debate about the mere words evolution or progress: personally I prefer to call it reform. For reform implies form. It implies that we are trying to shape the world in a particular image... Evolution is a metaphor from mere automatic unrolling. Progress is a metaphor from merely walking along a road—very likely the wrong road."


terça-feira, 16 de junho de 2026

Sevilha e a Internet

A ICANN 86 terminou em Sevilha. Foi a segunda reunião anual do órgão responsável pela administração da "raiz de nomes" da rede, e pela distribuição de números IP, e foi dedicada a políticas. Discutiu-se sobre como lidar com o chamado "abuso de DNS", quando nomes de domínio são usados com fins maliciosos, tentando usurpar direitos ou enganar usuários. No caso do "phishing", uma espécie de "pescaria em águas turvas", simulam-se sítios reais buscando recolher dados dos incautos. Também foi foco desta ICANN a nova leva de propostas para mais gTLDs (domínios genéricos, que convivem com os ccTLDs, de "código de país" ) e o apoio ao WSIS+20, que completou 20 anos.

Sevilha é uma antiga e bela cidade andaluz, que impressiona com construções de estilo mourisco, fusão de arte moura com a cristã. Trouxe à ideia analogias com a Internet.

A primeira é com a ópera Barbeiro de Sevilha, em cuja ária da calúnia há uma antecipação do que passa hoje, quando se busca destruir reputações. A calúnia, diz Dom Basílio, é uma brisa sutil que, discreta e docemente, se espalha por tudo, e faz com que o visado, "sob o público flagelo, se ainda tiver alguma sorte, prefira morrer...". Também operística é a da popular Carmen, a cigana livre. Mostra os resultados que a atração pelo submundo pode trazer. É numa taberna de Sevilha que o toureiro encontra Carmen, que o desencaminhará.

Talvez a analogia mais poderosa entre Sevilha e a Internet esteja na obra Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Um dos irmãos, Ivan, propõe uma parábola sobre o período da inquisição, século XVI em Sevilha. No trecho conhecido como "O Grande Inquisidor". Jesus teria voltado à terra, anônimo e humilde, e estaria conversando com os locais sobre amor, realizando milagres, sendo reconhecido e seguido por muitos. Surge um idoso cardeal inquisidor, que o prende. Numa longa arenga a Jesus, que se limita a escutar e nada retruca, o cardeal não hesita em criticá-lo. Acusa-o: ao invés de aliviar o homem do peso da liberdade que ganha ao nascer, Jesus aumenta seu jugo ao ressaltar ainda mais a importância de o homem ser livre. Segundo o cardeal, foi a Igreja que conseguiu aliviar esse peso das costas dos humanos. Diz ele: "quem é livre, jamais será feliz"... o homem, na verdade, busca alguém a quem possa "entregar sua liberdade, em troca de segurança e sustento". Os homens trocarão liberdade por segurança, autonomia por conforto, e responsabilidade por tranquilidade. A analogia com Internet é forte. Afinal, a Internet nasceu como uma tecnologia da liberdade, dando voz aos usuários que, assumindo a responsabilidade por suas escolhas, decidem o que ler e por onde caminhar. Depois, as plataformas prosperaram oferecendo alternativas que "consertam" isso: menos autonomia em troca de mais conforto. E a IA "agêntica" leva essa lógica um passo adiante: nossa ação também pode ser terceirizada; um agente pode "fazer o que eu faço, melhor e sem meu esforço...". O Inquisidor abraçaria imediatamente essa proposta. Sua crítica a Cristo nunca foi que a liberdade era falsa, mas que ela era pesada demais para a maioria dos homens. Ao fim da conversa, Jesus, que ficou calado o tempo todo, apenas beija o inquisidor e se afasta... Certas questões não se resolvem por argumentos. mas por uma reafirmação de confiança na liberdade humana, apesar de todas os potenciais riscos.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/a-internet-nasceu-como-tecnologia-da-liberdade-mas-as-plataformas-e-agora-a-ia-mudaram-o-rumo/

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O Grande Inquisidor
https://bibliotecamundial.com.br/o-grande-inquisidor-fiodor-dostoievski/

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"a calúnia", de O Barbeiro de Sevilha
https://www.youtube.com/watch?v=CtFmBK6C_Mw

https://www.youtube.com/watch?v=r3-UZ8pyZxE
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terça-feira, 2 de junho de 2026

Agentes

Usamos IA no nosso dia-a-dia, mas sem nenhuma certeza de estarmos livres de riscos. IA já é uma realidade, enquanto o entendimento de seu alcance e efeitos colaterais ainda é bastante obscuro. Um dos pontos que trazem preocupação é o quanto ela pode ser "desviada" da realidade a partir da leitura do universo de textos que a alimentou. Sem métricas ou curadoria do que ela recebe, o resultado produzido pode estar errado. Um antigo axioma na área de computação reza: "garbage in, garbage out", se o que entra é lixo, o que sairá também será...

Uma das formas de limitar esse risco é fazer com que a IA trabalhe num domínio restrito e controlado. Se fornecermos a ela uma base de dados pré-definida como "fonte de informação", a possibilidade de "alucinações" é praticamente eliminada. Claro que a riqueza das respostas também será penalizada, visto que, neste caso, o universo que a IA recebe como "entrada" é controlado e limitado. Numa IA que trabalhe localmente em nosso computador, sem acesso amplo, via internet, a mais dados, o efeito é também parecido.

O cenário tende a ficar ainda mais complexo com os novos "agentes de IA" e seu poder quasi humano de ação e interação e ação. Num artigo deste mes da Sophos, empresa que trabalha com segurança computacional e IA, são discutidos riscos que os agentes podem trazer, e propostas formas de amenizá-los. Afinal, um agente poderia receber uma "ordem" maliciosamente camuflada no meio dos dados que o alimentam. Uma providência seria buscar circunscrever o raio de ação de um agente, e assim quantificar potenciais riscos que ele traria. Há uma tríade que compõe o funcionamento de um agente. Os componentes dessa tríade são comuns em computação, mas apenas na IA "agêntica" eles coexistem integrados. São: 1- o amplo acesso a conteúdo mundial, eventualmente não confiável; 2- o acesso local a dados sensíveis, privados, da empresa que instalou o agente, e 3- a capacidade de iniciativa e ação que foi delegada ao agente, desde o envio de mensagens em nome da empresa, até alterar recursos e procedimentos internos.

Na busca de reduzir o possível raio de estragos, uma das sugestões é empregar o chamado "sandboxing", recurso bastante em voga hoje em dia para, criando um ambiente controlado, podermos "testar" novidades, sejam tecnológicas, regulatórias ou legais. Num "sandbox", por exemplo, onde o agente poderia receber dados e sugerir ações livremente, mas sua capacidade de acesso a bases privadas, e sua liberdade de ação seriam limitadas e controladas. Outra forma de diminuir os riscos é definir áreas específicas para a ação do agente: numa empresa, se o agente trabalhar na área financeira, não acessaria dados da área administrativa, ou da área jurídica. Uma terceira opção seria a de "agentes temporários", que ganham uma tarefa bem definida e, ao final dela, são desativados.

Se, como disse Nietzsche, o homem ama apenas a obra que produziu e os próprios filhos, os agentes de IA são fortes candidatos a unificarem esse papel no coração dos humanos, com eventuais confortos e vantagens, mas com riscos muito sérios à nossa forma de pensar e agir.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/como-amenizar-os-riscos-dos-agentes-de-ia-com-seu-poder-quase-humano-de-acao-e-interacao/

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O artigo da Sophos:
https://www.sophos.com/en-us/blog/inside-the-lethal-trifecta-blast-radius-reduction-in-ai-agent-deployments


trecho:
"Operating Inside The Lethal Trifecta: Blast Radius Reduction In AI Agent Deployments AI agents that can read files, call APIs, and perform actions are already being deployed in enterprises. These agents often operate in the center of what Simon Willison terms ‘the lethal trifecta’: they can access private data, process untrusted content, and communicate externally, making them susceptible to data theft via indirect prompt injection – where an attacker plants instructions in content that the agent reads on behalf of a trusted user, such as an email, a web page, or a document. The agent follows the injected instructions with the user's privileges, and the user never sees the attack. The Agents Rule of Two generalizes the concept: an agent should satisfy at most two of a) processing untrusted inputs, b) accessing sensitive systems, and c) changing state externally."

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Frase de Nietzsche sobre "crianças e obras", em Assim Falava Zaratustra

"Que ninguém ama de todo o coração senão o seu filho e a sua obra; e onde há um grande amor de si mesmo, é sinal de fecundidade: eis o que tenho notado.", 

https://humanitas.ufrn.br/wp-content/uploads/2025/03/Assim-Falou-Zaratustra.pdf

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terça-feira, 19 de maio de 2026

Crianças na rede

Há um mes entrou um vigor o "ECA digital", lei que visa à proteção de crianças e adolescentes, agora expandida para Internet (redes, plataformas, aplicativos). O busílis da questão é conseguir equilibrio entre as características da Internet e as necessárias medidas de proteção às crianças.

Ao escolher a forma mais acertada de ação é muito importante avaliar efeitos colaterais, nem sempre previstos ou desejados. Afinal a Internet é uma rede concebida como aberta, onde todos podem se expressar e, também, arcar com as responsabilidades atribuíveis a seus atos. A coleção de conteúdos e serviços é ilimitada e impossível de se classificar, até pela falta de "régua" universal para isso: na rede mundial cohabitam culturas, valores e éticas distintas, indo desde comunidades que banem alcool e drogas às que aceitam, e com diferentes definições de "maioridade" e "família", apenas para pontuar algumas diferenças.

Há basicamente tres caminhos a examinar. O primeiro é a sumária vedação do acesso à internet para crianças abaixo de certa idade. É a opção já adotada por alguns países, e numa analogia, por exemplo, alinha-se à proibição no uso de celulares em classe de aula, ou o controle de entrada em locais restritos. A vedação estaria a cargo, além dos pais, dos dispositivos e provedores de acesso à rede. A segunda maneira seria estabelecerem-se áreas seguras para crianças, numa lista permanentemente atualizável e controlada pelos pais, e implantada por tecnologia nos navegadores: a chamada "white list". Finalmente, a terceria seria querer que a Internet, como um todo, provisse controle universal de acesso. Parece atraente, mas é irrealizável, e pode danos inesperados, não apenas ao acesso à rede com à nossa privacidade.

Essa terceira opção contem um paradoxo: para proteger as crianças, exigiremos dos adultos prova rigorosa de maioridade. Amplia-se a aquisição corporativa de dados sensíveis e a vigilância. Podia ser implantada em sistemas operacionais de celulares e equipamentos, mas isso nem é fácil, nem é consenso. A mais nova versão do IPhone, por exemplo, para liberar o acesso quer algum documento que prove a maioridade do usuário. Usuários constantes usam versões anteriores há anos, e essa verificação poderia ser automática mas, dado o risco do fabricante não atender à legislação local, estimula-se uma reautenticação forte. E isso também pode vir a calhar para o fabricante, que ele passa a ter ainda mais dados do usuário. Do outro lado do pêndulo, há formas alternativas e amenas de aferição de idade, via imagens capturadas, mas motraram-se facilmente burláveis: desenha-se um bigode ou barba com um lápis no rosto, e eis o sistema identificando "adulto"...

Nos velhos tempos, pais advertiam crianças a "não falar com estranhos", ao mesmo tempo em que educavam para os riscos: crianças podiam usar faca metálica à mesa, se adequadamente. Brinquedos como o "Pequeno Químico", que eu tive, traziam contacto com reagentes e produtos nem sempre seguros, mas havia a orientação e supervisão paternal no processo, gerando amadurecimento e autonomia. Parece que estamos deixando de formar os futuros adultos, e preferimos passar essa responsabilidade para ambientes que tem outras características. Podemos acabar errando em ambas as frentes...

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/criancas-na-rede-eca-digital-desafia-equilibrar-natureza-da-web-e-objetivo-de-proteger-as-criancas/

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Dos "kits perigosos..."
https://www.youtube.com/watch?v=lPZ3EV44Okk

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Das formas de burlar a avaliação etária por foto:
https://techcrunch.com/2026/05/06/some-kids-are-bypassing-age-verification-checks-with-a-fake-mustache/

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Sobre a versão mais nova do Iphone, e sua verificação etária
https://osxdaily.com/2026/03/26/psa-ios-26-4-age-verification-in-uk-fails-for-some/

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O Pequeno Químico:

O Pequeno Químico" foi um icônico kit de experiências científicas produzido pela fabricante Brinquedos Guaporé nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil. Ele fez grande sucesso ao permitir que crianças realizassem experimentos básicos de química em casa.

Os kits continham uma variedade de pequenos frascos com substâncias químicas seguras para a época, tubos de ensaio, suportes, pinças, lamparinas e um manual de instruções. Com ele, as crianças podiam aprender na prática sobre misturas, reações e mudanças de cores.




terça-feira, 5 de maio de 2026

Zaratustra e IA

O tema musical de "2001, uma Odisséia no espaço" é a composição de Richard Strauss, "Assim falava Zaratustra". Em 1883 Frederico Nietzsche publicou livro com esse título unindo ficção e filosofia, e já alertava na epígrafe que se tratava de "um livro para todos, e para ninguém". É bem anterior à IA e seus conceitos, o que não inibe algumas elucubrações provocativas, que não se pretendem sólidas, mas poderão ser aprofundadas ou demolidas pelos interessados.

Logo no início da obra que descreve a caminhada de Zaratustra, uma frase busca definir "o homem" e seu destino: "O homem é uma corda estendida entre o animal e o além-do-homem: uma corda sobre um abismo. Perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim: o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um ocaso.”. O desafio de ousarmos essa passagem não é muito distante do dilema atual que a IA nos impõe: uma travessia sobre o abismo, sem olhar prá trás ou parar. Para Nietzsche, o que nos espera do outro lado é o além-do-homem (ou o "super-homem"), com um sentido da própria superação ínterna do pequeno homem atual. Mas com IA a coisa pode levar a outra leitura...

Mais um ponto de convergência: para Nietzsche um objetivo fundamental do homem é garantir sua continuidade e, para isso, ele volta seu amor absoluto aos filhos e à própria obra. Filhos, certamente, ganharão voo autônomo com o crescimento, enquanto a obra fica limitada sob controle do autor. Mas... (e é aí que a "porca torce o rabo") obras como IA mostram características que lembram a autonomia de filhos crescidos e liberados dos pais. IA aglutinaria filhos e obra e, em época de queda em taxas de natalidade, a IA poderia representar a almejada "continuidade do humano"...

Há outro ponto, esse mais difícil de coadunar: o conceito do "último homem", a ultrapassar rumo ao super-homem. Em Zaratustra, o "último homem" é mesquinho, busca conforto, segurança, não-confronto e ausência de dor. Ele diz "encontrei a felicidade", enquanto pisca os olhinhos. Não se questiona, apenas seguir. Uma analogia aqui é que IA potencializa algoritmos, perfilamento e reforço dos conceitos pré-existente, agradando aos interesses do pequeno "último homem". Se a ponte para se chegar ao além-do-homem exige sacrifício e vontade para enfrentar riscos, a IA oferece de forma imediata o conforto, a redução de fricções e, eventualmente, a atrofia da vontade... Assim, se por um lado a IA acena para um novo humano, híbrido, o fato de ela atender aos desejos dos "últimos homens" a faz ir de encontro aos pressupostos de uma ruptura humana interior evolutiva.

O risco é abrirmos mão da travessia sobre o abismo. O "último homem" se satisfaria bastante com o que IA traz: dispensa-se de fazer, de optar, de decidir ou julgar. Obter ajuda lúcida com IA é ótimo, mas abrir mão de pensar ou agir não deveria ser um resultado. A inteligência artificial não é o além-do-homem, e pode tornar a busca por superação em simples acomodamento.

E talvez o risco maior não seja que ela nos ultrapasse, mas que, diante dela,
desistamos de querer ultrapassar a nós mesmos.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/o-maior-risco-com-a-ia-e-nao-querermos-mais-ultrapassar-nos-mesmos/

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Assim falava Zaratustra. Referências:

https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%9Altimo_homem

https://www.pensador.com/frase/OTU5MzAx/



https://humanitas.ufrn.br/wp-content/uploads/2025/03/Assim-Falou-Zaratustra.pdf

"Ai de nós! Aproxima-se o tempo do homem mais desprezível, que já não sabe desprezar a si mesmo. Vede! Eu vos mostro o último homem".

“Descobrimos a felicidade” – dizem os últimos homens, e piscam os olhos.

"Sua estirpe é indestrutível, como a pulga; o último homem é o que mais tempo vive".

“Que é amor? Que é criação? Que é desejo? Que é estrela?” – pergunta o último homem, e pisca os olhos.

"A terra se tornou pequena, e sobre ela salta o último homem, que torna tudo pequeno".

"Não há mais pastor, nem rebanho! Cada um quer o mesmo, todos são iguais: quem sente de modo diferente, vai voluntariamente para o hospício".

terça-feira, 21 de abril de 2026

Amor a Roma

Nesta terça-feira, 21 de abril, celebra-se a mitológica fundação de Roma. Não há certeza de que foi exatamente neste dia, em 753 AC, que a cidade tenha sido fundada, mas a precisão cronológica aqui é irrelevante. O que importa é o significado do ato fundador, há 2778 anos.
Grandes civilizações começaram pequenas: no livro Ortodoxia, G. K. Chesterton diz: "de início o povo escolhe um lugar para honrar; a glória poderá vir depois. Os homens não amaram Roma por ela ser grande. Foi o fato de amá-la que a fez grande". Assim como não se previu a expansão de Roma, tampouco se imaginou o alcance da Internet.

Roma tornou-se a cultura de fato de parte do mundo. Criou sistemas políticos, administrativos e jurídicos; promoveu coexistência entre diferentes povos; construiu estradas que conectavam terras distantes. A analogia com a integração que a Internet proveu é visível. O debate sobre fragmentação e crise da Internet não é por tecnologia, mas por desvio de propósito. A rede foi criada para compartilhar, conectar e informar. Como Roma, teve sua invasão de "bárbaros” com a tagarelice dos que falam irresponsávelmente, e de forças internas, que concentraram poder, controlam fluxos e moldam nossa experiência.

A Inteligência Artificial é peça crucial nesse processo. Se antes a rede transportava conteúdo produzido por humanos, agora também o produz: não apenas distribui, mas interpreta, sintetiza, antecipa. A distinção entre meio e mensagem borrou-se; a praça torna-se mercado, e o mercado o sistema.

Se há objetivos legítimos para pedir a verificação de identidade de participantes, a moderação preventiva e a antecipação de riscos, o meio para obter isso torna-se crítico. Buscar eliminar o imprevisto transformará inevitavelmente o ambiente. Não se pode garantir o comportamento de todos sem transformar o próprio espaço em algo distinto, controlado, monitorado, previsível. Aceitar o desconhecido e a incerteza é condição de liberdade e inovação, mas a IA opera de outro modo. Diante de uma pergunta, ela não hesita: sempre responderá, de forma plausível, mesmo que incorreta.

Outro ponto de alerta é sobre soberanias. Modelos não neutros tendem a reduzir incertezas, organizar fluxos, transformar o imprevisível em algo gerenciável. Se IA intensifica esse movimento, quem a controlaria? Numa entrevista particularmente interessante ao Estadão, Manoel Lemos defende que o Brasil não tem como disputar a camada profunda da IA, cujo custo e escala estão ao alcance de poucos. E isso não significa perda de soberania, nem inação: há um vasto campo para ajustar o foco e ir da infraestrutura básica para a operação sobre ela. Podemos ser competitivos em aplicações locais, em integrar dados específicos e capturar valor em contextos nossos.



Roma não desaparece de repente, transforma-se. A Internet, ao incorporar novas camadas econômicas, políticas e técnicas, pode estar no mesmo processo, e o que resultará pode não ser mais reconhecível. Talvez os “bárbaros às portas” já tenham entrado. e agora o verdadeiro desafio será defender que tipo de “Roma” queremos habitar. O palíndromo persiste: "amor a Roma".

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/amor-a-roma-internet-ia-invasoes-barbaras/
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https://en.wikipedia.org/wiki/SPQR


Sobre a fundação de Roma:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Funda%C3%A7%C3%A3o_de_Roma

https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2025/05/como-roma-foi-fundada-a-cidade-nao-foi-criada-em-um-dia-e-nem-pelos-gemeos-romulo-e-remo

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A frase de Chesterton, no capítulo 5 de Orthodoxy
https://www.online-literature.com/chesterton/orthodoxy/5/

"People first paid honour to a spot and afterwards gained glory for it. Men did not love Rome because she was great. She was great because they had loved her."

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A entrevista de Manoel Lemos:

https://www.estadao.com.br/economia/nao-teremos-chatgpt-brasileiro-mas-ter-soberania-aplicacoes-ia-manoel-lemos/
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terça-feira, 7 de abril de 2026

Ficções

Reencontrei um livro escrito há mais de 100 anos: "Nós", do russo Eugênio Zamyatin, 1921. Lembrava-me dele como um precursor do "Admirável Mundo Novo" (Huxley) e do "1984" (Orwel, que, aliás, explicitamente citou o "Nós" como obra que o inspirou). "Nós" é, assim, uma das primeiras ficções sobre distopias. Torçamos para que permaneça ficção...

No livro, todos os humanos são identificáveis com um número, tem vida com horários muito regulados, e moram em casas de vidro, de forma que todos podem ver o que se passa com seus vizinhos. O mundo é um "estado único" gerido pelo Benfeitor. Zamyatin, engenheiro de formação, localiza na tecnologia e na ciência os riscos que ameaçam o humano. Em "Nós" a tecnologia e a completa racionalidade pretendem inibir qualquer risco antes que ele ocorra. Ou seja, não será necessário punir os crimes, bastará torná-los impossíveis.

De alguma forma, descreve o oposto da idéia original da Internet original, mesmo que ambos os cenários tenham ciência e tecnologia como base. Se na Internet "ninguém sabe que você é um cachorro", em "Nós" tudo o que é feito é perfeitamente previsível e conhecido. A própria "imaginação" é um defeito a combater.

A Internet começou como uma grande praça global, um "commons", onde todos ganharam voz, eventualmente gerando-se também caos e cacofonia. Nasceu libertária, mas é clara uma crescente tendência de torná-la uma "rede de controle", cenário preocupante, muitas vezes animada com a melhor das intenções: é incontestável, por exemplo, a necessidade de protegermos os mais vulneráveis. Numa praça de proporções mundiais essa proteção buscada poderia assumir formas mais simples, como restringir o acesso, ou liberá-lo apenas a pequenos segmentos, num estilo de "lista branca". Uma vez dentro da praça, porém, parece impossível garantir que todos os que por lá circulam ajam segundo padrões uniformes de cuidado. Ou se atua na porta, controlando quem pode entrar, ou se busca regular o comportamento dos participantes dentro do espaço, mas aí sempre esbarrando nos limites da aplicação de normas locais num ambiente global e descentralizado.

Vejamos outro ponto: ninguém diverge da necessidade de haver um "dever de cuidado". O risco é que, mal calibrado ou vagamente definido, esse "dever" possa migrar para "dever de monitoramento" ou, até, para um "dever de prevenção". Ao mesmo tempo em que impedimos abusos, podemos, por exemplo, acabar com o anonimato legítimo, ou a possibilidade de dissenso. Tornar impossíveis os abusos é um alvo inatingível e, de alguma forma, nos desumaniza. Dá mais amplitude e espaço aos poderosos, que já se valem fartamente de tecnologia e algoritmos para domínar o espaço de interação humano. Dá-se menos prioridade à punição dos reais criminosos, e passa-se a tratar todos como potenciais infratores, antecipando um dano antes que ele de fato exista.

Em "Nós" Zamyatin propõe "...no paraíso foi dada uma escolha: felicidade sem liberdade, ou liberdade sem felicidade. Não há terceira alternativa". O busilis desse dilema talvez esteja em buscar temperança, morigeração. É o velho aforisma de Horácio, "est modus in rebus", há uma medida nas coisas!

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/ficcao-o-que-uma-obra-de-1921-mostra-sobre-um-mundo-sem-liberdade-em-nome-da-ordem/





https://en.wikipedia.org/wiki/Yevgeny_Zamyatin

https://en.wikiquote.org/wiki/Yevgeny_Zamyatin

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ECA digital, lei e decreto:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/L15211.htm

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/Decreto/D12880.htm

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De Benjamin Franklin:

‘They who can give up essential liberty to obtain a little temporary safety, deserve neither liberty nor safety.’

https://oll.libertyfund.org/quotes/benjamin-franklin-on-the-trade-off-between-essential-liberty-and-temporary-safety-1775




terça-feira, 24 de março de 2026

Reminiscências

A data de nascimento da Arpanet, mãe da Internet, é 29 de outubro de 1969, quando os dois primeiros nós, UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles) e SRI (Instituto de Pesquisa de Stanford), trocaram pacotes de dados com sucesso. Na sala do Prof. Leonard Kleinrock (UCLA, sala 3420) há uma placa celebrando o feito. Em agosto de 1969 houve outra efeméride importante: o festival de música de Woodstock. A junção da contracultura com a Arpanet pode parece pouco razoável, mas há elementos para considerá-la. Por exemplo, um dos conjuntos de rock que se apresentou com memorável sucesso no festival foi o Grateful Dead. E seu letrista era John Perry Barlow, importante voz na Internet por ser um dos fundadores, em 1990, da EFF (Electronic Frontier Foundation), e por ter escrito em 1996 a "Declaração de Independência do Ciberespaço", documento que descrevia, algo romântica e utopicamente, os conceitos do nascente mundo virtual, onde o "domínio da mente", não seria submetido ao poder econômico e à lógica territorial.

O que esse histórico mostra é que a própria Arpanet, custeada com recursos do Departamento de Defesa norte-americano, nasceu com uma concepção libertária e sem controle central. Sempre foi voluntária a adesão de redes que adotassem seus protocolos e forma de funcionar. Afinal seus definidores foram jovens acadêmicos de alguma forma embebidos na cultura e conceitos dos anos 70.

Outra lembrança da época é de um cartum do The New Yorker, 1993, que mostrava dois cães diante de um computador. Um deles dizia: "Na Internet ninguém sabe que você é um cachorro", uma leve ironia que captava o espírito da rede: a dissociação entre identidade física e expressão. Havia uma confiança implícita, talvez excessiva e ingênua, de que a abertura e a liberdade gerariam per si formas adequadas de convivência. Certamente trina anos depois o cenário é bem diverso

A expansão rápida, da área acadêmica para todos os segmentos da sociedade, trouxe diluição ética. A grande conquista da "voz para todos", sem barreira de entrada, acarretou uma cacofonia eventualmente irresponsável. E, do lado econômico, a busca pelo conforto e o menoscabo dos princípios originais "empurrou" usuários para uma centralização baseada em plataformas, os "jardins murados".

Originalmente associava-se a Internet a uma enorme praça pública, um "commons", mas hoje isso parece cada vez mais remoto. Em ambiente que nos identifique e monitore continuamente poderemos estar, sob alguns aspectos, mais seguros, mas tudo se torna menos espontâneo, aberto, ou plural. Não é mais uma praça.

Habermas, o filósofo que nos deixou recentemente, diria que esfera pública segue cada vez mais fragmentada. Múltiplas comunidades, fluxos paralelos de informação e debates que raramente se encontram. A comunicação passa a ser mediada por plataformas cuja lógica é o engajamento, não o debate. Entre o cachorro anônimo de 1993 e o usuário identificado de hoje, não mudou apenas a tecnologia. Mudou a nossa disposição em aceitar a incerteza como condição da liberdade. Entre proteger quem entra, e preservar a natureza do espaço, talvez haja apenas escolhas cujas consequências ainda não estão nada claras.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/a-internet-era-originalmente-comparada-a-uma-praca-publica-isso-parece-cada-vez-mais-remoto/

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O cartun do The New Yorker, 1993:

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https://www.bbc.com/future/article/20250618-how-the-grateful-dead-shaped-social-media
How the Grateful Dead built the internet


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John Perry Barlow:
Selling Wine Without Bottles: The Economy of Mind on the Global Net
https://www.eff.org/pages/selling-wine-without-bottles-economy-mind-global-net

Declaração de Independência do Cyberespaço
https://www.eff.org/cyberspace-independence

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terça-feira, 10 de março de 2026

As respostas que variam

Uma discussão que corre solta pela rede é por que diferentes IAs gerariam diferentes respostas a perguntas claras. Há a suspeita sobre graus de viéses existentes, não apenas os que os dados aportaram, mas aqueles artificialmente incluidos para atingir algum "equilíbrio cultural" que não cause espécie. Há também a diferença intrínseca entre as IA que trabalham sobre um corpus fechado e as que acessam a Internet abertamente. Mas há ainda algo muito mais inesperado: uma mesma IA pode dar respostas bem diferentes a uma questão. Qual seria a explicação dessa variância? É da expectativa humana que, a toda pergunta, se houver uma resposta supostamente correta, ela tenderá a ser única. Pode ser difícil "cavar" essa resposta no universo do conhecimento, mas, escondida em algum canto, ela seria fixa.

Com os sistemas de IA, entretanto, passa-se algo diferente: eles não se constituem num "arquivo de respostas fixas" como seria uma enciclopédia, mas produzem essa resposta a partir do que abarcam. Nas LLM a resposta é montada palavra por palavra, e milhares de candidatas são examinadas para a geração de algo plausível como resposta. A mesma pergunta pode gerar respostas diferentes. ou divergentes, visto que a IA pode ter percorrido outros caminhos.

Há parâmetros que podem estimular ou retringir essa variedade nas respostas. São alteráveis usando-se a API de consulta. Um deles define uma "temperatura" para o funcionamento da IA. Temperatura mais baixa faz com que o sistema escolha as palavras mais prováveis de forma conservadora, e as respostas tendem a estáveis. Já ajustar a IA para uma temperatura alta ampliará o campo de exploração: a resposta resultante será mais variada, mais criativa, eventualmente mais errática. Em outro mecanismo, conhecido como "top-k sampling", a IA é instruida a limitar sua escolha às k palavras mais prováveis naquele caso, Quanto menor o k, mas estreito o corredor por onde o texto avança. Quanto maior, mais caminhos estarão abertos.

Há também como mexer na "semente aleatória" do processo, "seed". Usar uma "semente" única pode gerar respostas reproduzíveis; mudá-la permitirá pequenas variações inicias, mas que, ao final, podem gerar respostas muito diferentes.

Esses parâmetros não mudam o conhecimento do modelo. Eles apenas determinam como será explorado esse universo, que inclui descobertas científicas, debates filosóficos, opiniões conflitantes, simplificações, ironias, falsidades e erros vulgares. Nesse oceano de perspectivas, não é surpreendente que se encontrem caminhos diferentes.

Uma mesma pergunta, por trajetórias probabilísticas, conduzirá a versões distintas. Operacionalmente coerentes, mas algumas claramente errôneas. Cada resposta poderia ser vista como uma espécie de "mundo possível". Respostas plausíveis mas diversas, abalam a idéia de que uma pergunta que aceite várias respostas seja um sinal de incerteza ou falha.

Ao tentar construir máquinas capazes de responder perguntas, acabamos revelando algo sobre a própria pergunta: nem sempre ela conduz a um único destino. Pode-se estar no início de um labirinto, e cada resposta é um caminho possível dentro dele.

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Por que diferentes IAs podem gerar respostas variadas para uma mesma pergunta?

https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/por-que-diferentes-ias-podem-gerar-respostas-variadas-para-uma-mesma-pergunta/

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https://www.sandgarden.com/learn/ai-temperature

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Labirinto
https://pt.wikipedia.org/wiki/Labirinto


Minotauro no labirinto, num mosaico romano, encontrado em Conímbriga.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Um gerador domesticado de respostas

Em poucos dias deve entrar em vigor o ECA Digital, que visa a proteger crianças e adolescentes no mundo virtual. Um dos componentes mais complexos do novo mundo é a adição intensa da IA.

A IA se apresenta hoje em diversos "sabores" e formatos, e eles variam inclusive no tipo de resposta que proveem às nossas perguntas. Mas isso não implica que, para uma mesma IA, a resposta a uma consulta seja constante... Não apenas porque pode haver atualização na base de dados que ela usa, mas também porque há um componente estatístico na composição da resposta, o que não impede que ela pareça articulada e convincente. Ou seja, a IA nos faz rever a idéia de que, ao formularmos uma pergunta, um mesmo interlocutor digital dará uma resposta constante. Cada resposta é um mundo possível, um labirinto que resulta de caminhos estatísticos, de escolhas internas não humanas; um mundo hoje delimitado por filtros, parâmetros e regras. A pergunta permanece, e o universo que pode respondê-la é regulado com eventuais pesos incluidos pelo gestor da IA. São "filtros" adicionados na tentativa de "domesticar" as respostas, de forma a que elas não sejam ofensivas ou inadequadas: não apenas aquilo que os dados mostraram. Perguntar é iniciar uma trajetória que escolherá um percurso entre os mundos possíveis, e essa variância é, certamente, fonte de desconforto.

Existe uma segunda distinção, menos evidente: a diferença entre a IA instalada em máquina isolada, e a da máquina conectada. A isolada tem como fonte de consulta uma biblioteca fechada, gerando respostas menos variadas. Já a conectada vive em "praça pública", com vozes, fóruns, debates, rumores e consensos frágeis. Ela é mais informada mas, paradoxalmente, mais vulnerável. O excesso de informação não decantada pode fazer com que a repetição de algo se travista de verdade. Parodiando Borges em Biblioteca de Babel, ter toda a informação é o mesmo que não ter nenhuma. Aquilo que a cultura humana aprendeu a decantar e perenizar via forma escrita e livros, não é reconhecido numa IA treinada com grandes volumes de indiscriminada "informação", muitas vezes contaminada pela busca da visibilidade. Mesmo que, com o tempo, várias dessas posições esdrúxulas esmoreçam, afetam indefectivelmente as repostas da IA aberta. É um dos argumentos que se usa para "filtrar respostas menos convenientes".

Voltando ao ECA, vai-se pedir à IA novamente alguma ação. Por exemplo, a verificação de idade de um consulente anônimo poderia ser "inferida" pela IA. A alternativa é a identidade digital para todos, mas cria-se grave tensão com a privacidade. O mesmo ocorre quando se espera que a IA eduque, impeça ou corrija comportamentos humanos. Ela não será o substituto da responsabilidade individual e parental, e seguirá sujeita à mediação social e aplicação posterior da lei.

Se esperávamos um oráculo de verdades eternas, recebemos um sistema que compõe versões plausíveis do mundo, mas sob condições. Como nos labirintos de Borges, o esforço para eliminar o imprevisível não resolverá: ilumina-se um corredor, apagam-se os demais, mas o mundo segue sendo uma coleção de labirintos.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/eca-digital-esperar-que-a-ia-eduque-impeca-ou-corrija-comportamentos-humanos-nao-resolvera/

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ECA - Digital:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/L15211.htm

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A Biblioteca de Babel
https://www.sabermais.am.gov.br/roteiro-de-estudo/entre-a-certeza-e-a-incerteza-o-infinito-e-a-combinacao-a-biblioteca-de-babel-57025

O Jardim das Veredas que se Bifurcam
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/11/cultura/1536655170_142491.html
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A Internet sob Riscos


Há uma enviesada linha de argumentação que agrega o flagrante domínio econômico global de poucas empresas, os riscos reais de segurança no uso da rede e... soberania. Essa mistura, inadvertidamente, pode servir a interesses dos que buscam maior espaço de ação, mas abriga soluções conceitualmente perigosas.

Vejamos o que a Internet é e, sobretudo, o que ela não é, Não é uma coleção de plataformas ou modelos de negócio, nem visa a algum ideal político. Ela é uma infraestrutura em camadas, construída ao longo de mais de cinquenta anos a partir de protocolos abertos e mecanismos consensuados de coordenação, que possibilitou a interoperação de redes autônomas.

Distingamos quatro camadas: a primeira é a de acesso, composta por infraestruturas e serviços de telecomunicações plenamente sujeitos à regulação; a segunda é a dos protocolos básicos de interconexão (IP, TCP, UDP), deliberadamente simples e cegos a conteúdo, identidade ou finalidade; a terceira é a de mecanismos lógicos, endereçamento, correio eletrônico, sítios, e o sistema de nomes de domínio (DNS). A quarta corresponde a construções sobre a Internet, como plataformas e redes sociais. A internet propriamente dita está nas duas camadas centrais: protocolos e mecanismos, que viabilizam a interoperabilidade global. As demais, também importantes, não são “a” internet: possuem estatuto regulatório próprio, como as telecomunicações, ou podem necessitar de regulação específica, como plataformas e redes sociais. É importante que não atribuamos à arquitetura da internet problemas das camadas 1 e 4, que podem decorrer de falhas regulatórias, concentração econômica ou abusos de poder estatal. Evitemos uma “reengenharia” da camada lógica.

O DNS, sistema altamente distribuído e técnicamente coordenado, garante unicidade semântica: um nome deve significar a mesma coisa, para todos e em qualquer lugar. Alternativas tópicas de DNS, delegações usurpadas, ou circuitos fechados de resolução não produzem soberania, mas levam à ambiguidade semântica e a riscos sistêmicos de segurança. Confiança técnica emerge de consensos e processos auditáveis. É equívoco deslocar disputas legítimas sobre soberania, controle e economia para as únicas camadas em que elas não cabem.

A coordenação técnica global funciona precisamente porque é operacional e não política. O Brasil construiu autonomia técnica e capacidade regulatória. Sua gestão em domínio de país, liderança mundial em pontos de troca de tráfego, infraestrutura de certificação e marcos legais como o Marco Civil da Internet são exemplos citados mundialmente. Conflitos e abusos são enfrentados no plano institucional e jurídico.

Abusos associados a plataformas ou a predomínio econômico não justificam a fragmentação da infraestrutura básica, como não se segmentariam o ar, ou o mar.

Uma internet única impede que conflitos políticos se traduzam em falhas de conectividade, resolução ou identidade. Há que se preservar esse espaço comum da camada de rede, sem torná-lo um ente geopolítico. Fragilizá-la representa a erosão daquilo que permite comunicação universal, inovação, e cooperação entre diferentes.



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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/desafios-regulatorios-e-a-preservacao-da-arquitetura-da-internet/

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Um dos tópicos que aparece nas discussões sobre regulação atualmente:

https://www.internetsociety.org/blog/2026/01/fair-share-and-the-digital-networks-act-dna-three-concerns/

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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O elusivo futuro da IA

Como o leitor, também sou um usuário comedido da IA e o uso reforça a constatação de que ela tem evoluido rapidamente. As chamadas “alucinações” tem gerado cada vez menos crítica, até porque têm rareado à medida que versões novam surgem.

Um corte importante no universo das IA é separar sistemas de código aberto, os que podemos importar sem custos pela rede e usá-los a nosso talante, dos fechados, que nos pedem assinatura, eventual pagamento, e se mantêm fora de nosso controle direto. Dentre os de código aberto, há os que prescindem de uma conexão à rede, por trazerem junto toda sua base de informação. Esses pedem um computador local mais poderoso e, especialmente, com muito mais memória. Mesmo assim, não deixa de ser impressionante e assuntador imaginar que o “mundo conhecido” cabe numas dezenas de GB, em termos de IA. O mundo numa casca de noz... de silício. Um teste que mereceria maior atenção é compararmos a resposta que nos fornece uma IA aberta, local, sem acesso à Internet, vis-a-vis uma IA fechada, com acesso irrestrito à rede. Não raramente, a IA local tende a “alucinar” menos e, até, reconhecer que pode não ter resposta para dada pergunta. A com acesso à rede toda, porém, é mais sujeita a inserções aleatórias, e acaba por ser vítima de conteúdos falsos dos que há fartamente na rede.

Uma reportagem da BBC de há uns dias, mostra que as IA abertas, muitas delas de origem chinesa, são hoje a primeira escolha para aplicativos de uso geral. Uma consulta ao Hugging Face, por exemplo, mostrará que 4 das 5 IA mais baixadas ou usadas são chinesas. A reportagem cita o Pinterest como um aplicativo de uso geral que usa IA aberta chinesa, mas isso não se resume apenas a aplicativos: também é a opção de escolha de empresas iniciantes, universidades, governos, dada a óbvia e favorável relação custo/benefício.

Qual o modelo visado nos casos aberto e fechado? Claro que o modelo fechado buscará viabilizar-se com as receitas do serviço, mesmo que hoje ainda seja muito difícil prever quando esse equilíbrio será atingido, especialmente pelos custos em máquinas e instalações. Já modelo aberto não busca o retorno financeiro direto. O modelo é mais insidioso, e envolverá diferentes níveis de ação. No mais elementar a coisa mostra-se gratuita, mas há toda uma cadeia armada que não visa não apenas ao fabricante, mas aos diferentes níveis do ecossistema. Não se trata de uma competição convencional: os modelos abertos chineses não competem como produtos, mas como infraestrutura. Não buscam apenas o mercado no curto prazo, mas tornar-se padrão sobre o qual outros constroem. Quem gera um padrão de sucesso, não precisa cobrar por ele.

Voltando à defesa da Internet única e aberta, se num primeiro momento o uso de IA sem acesso parece diminuir a importância de uma internet geral, lembremos que se a idéia é evoluir o que a IA já sabe, é a rede aberta que proverá um futuro dinâmico, e não apenas uma biblioteca cristalizada. Controlar o ecossistema e garantir que ele seja ubíquo é mais importante que cobrar pelo modelo. Quem vende produtos, disputa mercados, mas quem define e distribui infraestrutura molda o futuro.

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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/ia-aberta-pode-ser-a-continuidade-da-internet-no-futuro/




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O artigo citado da BBC:
https://www.bbc.com/news/articles/c86v52gv726o

https://huggingface.co/

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Modelos locais bastante difundidos:
Llama 3 / 3.2 (Meta)
Qwen 2.5 / 3 (Alibaba)
Mistral 7B Instruct
Gemma 2 (Google)
DeepSeek-R1-Distill

Tamanho de memória local RAM/VRAM necessária pode ir de 8GB a 128GB dependendo do tamanho do modelo...
- Modelos pequenos (entre 3B e 7B parâmetros): de 8GB a 16GB de RAM/VRAM.
exemplos: Llama 3 8B, Mistral 7B, Phi-3 Mini, etc.
- Modelos médios (entre 13B e 30B parâmetros): de 16GB a 32GB de RAM/VRAM.
exemplos: Llama 3 13B, Qwen2.5-Coder 14B, Gemma 3 12B, etc.
- Modelos grandes (entre 30B e 70B parâmetros): de 32B a 64B de RAM/VRAM
exemplos: Llama 3 70B, Qwen3-30B, Mistral Large 2, etc.

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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A busca pelo conforto

Os antigos sentem falta e talvez um pouco de nostalgia dos tempos iniciais da internet. Muitos dos recursos que temos não existiam; a rede era amplamente distribuída, e cabia a cada usuário definir sua participação, com autonomia e responsabilidade. Vieram então os buscadores, que nos aliviaram da extensiva pesquisa e exploração na rede; as plataformas de agregação, que substituiram as antigas BBS (“Bulletin Board Systems”) como “grupos de interesse”; as redes sociais que potencializaram as encrencas e brigas que já ocorriam nas listas de discussão. Logicamente empresas lançaram esses serviços e capturaram receitas inimagináveis numa rede que era essencialmente gratuita.

Há o impulso do “negócio”, mas também é claro que os próprios usuários buscaram esses serviços, por conforto, conveniência e redução de esforço. Ninguém nega as vantagens que os buscadores trazem, mas, à medida que esse espectro de plataformas se expande, há uma acomodação e um abandono de julgamento sobre a relação custo-benefício entre o que recebemos e o que entregamos como contrapartida automática e nem sempre criteriosa.

Não é coisa excepcional, mas algo “humano, demasiado humano” na expressão de Nietzsche, descrevendo nossa tendência em buscar conforto, atalhos, tutela e alívio do esforço, mesmo que isso implique em menos autonomia.

Na raíz histórica da intenet, vemos que ela não surgiu como exceção, mas como evolução de longa história de infraestruturas neutras de comunicação. Não é por acaso que, por exemplo, o protocolo para correio eletrônico chamou-se SMTP (“Simple Mail Transfer Protocol”): sua função básica é entregar mensagens eletrônicas, emulando o correio tradicional: interoperável, com neutralidade e sigilo. Os protocolos da internet segues essa linham: foram concebidos para transportar pacotes sem conhecer seu significado. A rede não distingue o que nela trafega: essa separação entre infraestrutura e conteúdo, consagrada no princípio end-to-end é o que torna a rede escalável, resiliente e inovadora.

Essa “busca de conforto” vai além dos usuários e estende-se a governos. Se algo ameaça, é mais facil amputar a rede e serviços do que buscar os verdadeiros agentes do problema. Em vez de responsabilizar quem cria, publica ou difunde intencionalmente conteúdo nocivo, tenta-se impedir sua circulação pelo controle da infraestrutura e vastos bloqueios. O paradoxal efeito é que o verdadeiro gerador do conteúdo torna-se invisível, enquanto a infraestrutura — neutra por definição — carregará esse ônus. Confundir meio e mensagem é um erro antigo. Não se combate difamação abrindo cartas, nem heresia desligando impressoras. Tentar controlar a circulação ao invés de enfrentar o uso gera perda de conectividade e valor.

Defender a internet única não é negar a autoridade dos Estados, nem minimizar problemas reais. É reconhecer que infraestruturas funcionam melhor quando permanecem neutras e transfronteiriças, e que conflitos legítimos devem ser tratados pontualmente, responsabilizando-se o agente, seja ele quem for. Já delegamos o esforço, estamos delegando o julgamento e, afinal, a reponsabilidade. Nada mais “humano, demasiado humano”...
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https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/defender-a-internet-unica-nao-e-negar-a-autoridade-dos-estados-nem-ignorar-problemas-reais/

https://olhardigital.com.br/2025/09/05/internet-e-redes-sociais/redes-sociais-sao-bloqueadas-no-nepal-precedente-perigoso/

https://meiobit.com/467159/vpns-reino-unido-proibir-acesso-menores-lei-seguranca-online/

https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/americo-martins/internacional/australia-e-o-primeiro-pais-a-banir-redes-sociais-para-menores-de-16-anos/

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/ira-esta-sem-internet-ha-48-horas-enquanto-protestos-crescem-diz-monitor/

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https://pt.wikipedia.org/wiki/Humano,_Demasiado_Humano

https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/80257.pdf





terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Dos tempos

O ano se vai e seguimos por aí… Peço sua complacência para, aproveitando o momento gregoriano, fazer algumas divagações sem tecnologia, nem o devido estofo humanistico… Não é trivial analisar, ao menos a meus olhos míopes, a complexidade do mundo de hoje, e, menos ainda, ter claro como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz. Uma provocação interessante seria explorar eventuais conexões entre “fato” (aquilo que foi feito), “fado” (destino, aquilo que foi dito, postulado por alguma trancendência), e “fatalidade”, um acontecimento vivido como destino.

Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio de Hamlet: o dilema entre sofrer passivamente as flechas da fortuna, ou postar-se contra o mar de aflições. O célebre trecho não refletiria uma opção entre coragem e covardia, mas entre duas atitudes diante da fatalidade. Hamlet sabe que “o mar” não pode ser derrotado e hesita, não porque teme agir, mas porque sabe que sua ação não resolverá o mundo. Hamlet não aceita o destino como faria um estóico, mas, por outro lado, também não o assume como um herói trágico. A pergunta dele, talvez não seja “o que se deve escolher?”, mas “como viver com o que não escolhemos?”.

Para o clássico “herói trágico”, o destino não é evitável: o herói não escolhe o fado, mas escolhe como responder a ele. O trágico não está no sofrimento, mas na dignidade de sustentar o próprio gesto sem garantias. Os estóicos retrabalham esse conceito por meio da razão. Para eles, o destino não é capricho dos deuses, mas uma necessidade racional do cosmos. A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós e agir virtuosamente no que depende. O estóico não se queixa, rejeita o ressentimento, e mantem a dignidade sem ilusões. Mas acaba por fazer uma amenização do trágico: o mundo seria, no fundo, compreensível, e a serenidade, possível.

Uma terceira via, que seguiria sem rebelar-se ao fado, nem tentar sua “domesticação” via razão, seria a adotada por Nietzsche: o “amor fati”, literalmente “amor ao destino”, amor ao mundo como é, sem buscar desculpas. Em Ecce Homo, ele afirma: “minha receita para a grandeza do ser humano (amor fati) é não querer nada diferente, nem pra frente, nem pra trás, por toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, ou justificá-lo, mas amá-lo”. Assumir o destino como fato, e responder por ele, sem a resignação estóica, nem a hesitação hamletiana. Não se questiona se o mundo é justo, racional ou digno; pergunta-se apenas se somos capazes de afirmá-lo. Amor fati — amar o destino — seria a recusa radical ao álibi. Não cabe dizer “tudo acontece por alguma razão”, mas sim afirmar “isto aconteceu — e eu o assumo”. Amar o destino é tratar o fado como se fato fosse, não no sentido de tê-lo causado, mas em responder por ele.

Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta, bem menos rebuscada e muito mais conhecida, que veio de um conjunto musical nos anos 70. Ela nos tranquiliza lembrando-nos que, quando estamos em tempos de tribulação, “… a mâe Maria vem a mim e me diz, com palavras de sabedoria: ‘deixa estar’”… Let it be!

Bom ano a todos!

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/as-dificuldades-para-lidar-com-o-que-o-destino-nos-traz/

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Solilóquio de Hamlet
https://shakespearebrasileiro.org/ser-ou-nao-ser-uma-traducao-de-machado-de-assis-mario-amora-ramos/
<...> Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
<...>
https://en.wikipedia.org/wiki/To_be,_or_not_to_be
<...> Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them
<...>

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Herói trágico
https://pt.wikipedia.org/wiki/Her%C3%B3i_tr%C3%A1gico

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Amor Fati
https://pt.wikipedia.org/wiki/Amor_fati

Ecce Homo, - "como tornar-se o que se é..."
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ecce_homo_(livro)
https://www.gutenberg.org/ebooks/52190



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Let it Be
https://en.wikipedia.org/wiki/Let_It_Be_(song)
When I find myself in times of trouble, Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom, let it be
And in my hour of darkness she is standing right in front of me
Speaking words of wisdom, let it be
Let it be, let it be, let it be, let it be
Whisper words of wisdom, let it be
<...>

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A pedra de toque

O Brasil, bem cedo e com vigor, aderiu à digitalização de serviços, e já era notável a base computacional que os bancos tinham no século passado: transações por aqui eram resolvidas em menos tempo do que, por exemplo, nos Estados Unidos. A própria identificação dos correntistas já se valia de impressão digital.

Esse avanço tecnológico em conectividade e automação, traz conforto e economias, porém deve-se estar alerta a fragilidades: se hoje a internet falhar, ou tivermos um apagão elétrico como o da semana passada, boa parte dos serviços que eram tidos como garantidos podem estar indisponíveis, gerando caos. Por virtude, nossa internet está entre as mais estáveis do mundo.

Esse risco não é novo: em 2007 a Estônia, país modelo ao digitalizar praticamente todas as atividades de seus cidadãos, sofreu um ataque que tirou do ar boa parte dos serviços. O que gerou a pane foi um sincronizado e orquestrado ataque de “DoS” “denial of service” (negação de serviço): uma enxurrada de pedidos fictícios a sistemas e serviços que visava a sobrecarregá-los de forma a torná-los inoperantes. Hoje tentativas de “negação de serviço” são dos ataques mais comuns, mas há formas de neutralizá-los.

O conjunto de riscos a que a digitalização está continuamente submetida é um “alvo móvel”. Para cada novo ataque desenvolvem-se formas de defesa, porém, como no caso de doenças, o remédio é posterior ao problema. Por isso é fundamental o constante monitoramento do que se passa pela rede, buscando antecipar-se a uma nova forma de ataque. Um dos meios usados são os “potes de mel”: máquinas desprotegidas, espalhadas pela rede, para potencial alvo de ataques. Ao destrinchar o que se passa com elas, pode surgir um eventual remédio para novo problema. Isso depende da colaboração ampla, internacional e multissetorial, entre equipes voltadas à segurança. Elas trocam dados sobre o que encontraram, e buscam possíveis formas de mitigação. Além disso, é importante que as instituições que sofreram algum ataque o reportem a centros de emergência que monitoram o cenário local. Assim, é vital que exista confiança entre os entes envolvidos, mantendo sigilo em informações obtidas e preservando-as ao fim a que se destinam: monitorar o cenário da rede. O CERT.br, nosso órgão central de coordenação nessa área, recebeu mais de 110 mil notificações de incidentes apenas em novembro passado. Órgãos como o CERT.br disponibilizam informações, articulam e conectam os diversos atores, além de fornecer uma gama de cursos de formação, e frequentes publicações sobre boas práticas e medidas acautelatórias.

Segurança se constrói com cooperação, não com medo. Com reação e mais antecipação. Sem enfraquecer criptografia em nome de “segurança”, nem normalizar tentativas apressadas de bloqueio, sem base clara e técnica. Reduzir esse sistema colaborativo e virtuoso a um braço centralizado policial/regulatório, pode incentivar a que os incidentes passem a ser escondidos. A governança em segurança tem que ser distribuída e multissetorial por projeto. Uma centralização disso pode levar à redução do reporte de informações, e pode criar pontos únicos de falha, acabando por enfraquecer a própria segurança que queria proteger.

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/a-centralizacao-pode-enfraquecer-a-seguranca-da-internet/

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https://cert.br/
https://stats.cert.br/incidentes/

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https://www.wired.com/2007/07/massive-wave-of/
https://www.wired.com/2007/08/ff-estonia/ 



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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Interação Parassocial

Há 35 anos o dicionário Cambridge escolhe e publica a “palavra do ano”. Alguns exemplos: em 2017 foi eleita “fake news”, em 2019 “(my) pronouns”, em 2020 “covid”, em 2023 “enshittification” (neologismo criado por Cory Doctorow em 2022) e… neste 2025, “parasocial interaction”. No mesmo sentido, diversos artigos e reportagens, como as da Deutsche Welle sobre “quão profunda a relação com a IA pode se tornar”, tratam da crescente dependência emocional e afetiva que nosso relacionamento com a IA está trazendo.

Nem a IA e nem esse tipo de adicção emocional são fenômenos novos. Em 2013, um filme de ficção originalmente chamado “Her” e, em sua distribuição nacional, “Ela”, contava o que se passou com um escritor ao comprar um novo sistema operacional (Samantha) para seu computador. Ocorre que o tal sistema operacional, dialogava com o dono usando uma voz feminina muito sensual, e tinha crescente interesse em interagir com o escritor e entender suas preocupações. Ele se apaixona pela Samantha virtual a ponto de, até, desenvolver ciúme em relação à IA. Mais que isso, em sua análise a IA compara-se muito favoravelmente com seus relacionamentos humanos. Conclui que IA é um ideal a ser perseguido, pois apresenta características muito melhores que as que ele encontrava, por exemplo, em amigos e na ex-esposa.

O termo “parassocial” teria sido cunhado em 1956 para descrever as ligações psíquicas que telespectadores formavam com personalidades da TV de então, e hoje volta à cena com força, num ambiente de “influenciadores digitais” e “companheiros” (avatares criados por IA), que se propõem a dialogar conosco e se colocam permanentemente à disposição. “Parassocial” descreve uma condição crescente de vínculos emocionais unilaterais, intensos, que parecem reais a quem os sente, mesmo que não haja reciprocidade real.

Nunca estivemos tão cercados de tecnologia, e nunca estivemos tão sós. E, não esqueçamos, há ainda o algoritmo trabalhando pesadamente, simulando atenção, empatia e afeto. IA não é um objeto como os que conhecíamos: eu tenho a mesma caneta e o mesmo relógio há décadas, e gosto deles, mas eles não mudam nem se adaptam. A IA é fluida, personalizada, responde amavelmente e memoriza nossas opiniões, reforçando-as. O confortável fato de não nos exigir reciprocidade torna o pseudo-diálogo uma volta reforçada ao “eu”. Talvez uma forma sofisticada de solipsismo.

Neste cenário, nossa privacidade passa por uma crise inédita: nunca depositamos tantos dados confissões, segredos, angústias e memórias em entidades cujo propósito real não conhecemos. E dados são o motor do circuito econômico que gira a IA: eles são coletados, processados, vendidos, e acabam por expor nosso exato perfil.

IA não é maléfica em si, e tem forte poder para nos ajudar no dia-a-dia, desde que não percamos de vista sua natureza: uma sofisticada simulação sem a reciprocidade humana, que busca dados. No enredo do filme citado, a questão não é se a IA nos amaria ou não. O perigo reside em que, enamorados dela, concluamos não precisar mais do relacionamento ou do amor de outros humanos.

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https://www.estadao.com.br/link/demi-getschko/parassocial-e-eleita-palavra-do-ano-e-se-baseia-na-relacao-humana-com-a-ia/